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3.2 DO ESTADO ESTÉTICO DA DETERMINABILIDADE

3.2.3 Da vontade determinante

Nele, o homem, os impulsos do tempo e o espaço aspiram a desenvolver-se de acordo com a sua disposição e natureza, e também com uma satisfação de plenitude. Contudo, ambos os impulsos são necessários e tendem para objetivos opostos: “tal coação dupla suprime-se a si própria e a vontade impõe uma liberdade total entre ambos” (CEEH: 73). E no homem a vontade encontra posição “contra ambos os impulsos como um poder (como fundamento da realidade), mas nenhum deles pode manifestar-se por si próprio como um poder contra o outro” (CEEH: 73).

Vida e forma implicam-se: o que a vida funda, a forma limita no exterior. “Não existe no ser humano outro poder que não a sua vontade, e é o que suprime o homem, a morte ou tudo o que o prive da sua consciência, pode suprimir a liberdade interior” (CEEH: 73).

A liberdade interior não suprime “uma necessidade exterior a nós o nosso estado, a nossa existência no tempo, por meio da sensação. Esta é totalmente involuntária, e temos de submeter-nos ao modo como se atua em nós” (CEEH: 73). Já a direção nos é dada pelo

daimon interior, que nos leva à consciência de nossa racionalidade e de nossa humanidade, a

fonte permanece velada aos conceitos, mas abre-se à idéia pela experiência e em seu conteúdo,

uma necessidade dá-nos a conhecer em nós a nossa personalidade, por iniciativa dessa sensação e através de uma posição à mesma; porque a consciência de si não pode depender da vontade que a pressupõe. Esta revelação originária da personalidade não constitui mérito nosso, nem a sua falta é erro nosso. Só de quem possui consciência de si pode ser exigida razão, ou seja, conseqüência absoluta e universalidade de consciência; antes disso não se é um ser humano, não se podendo esperar qualquer ato de humanidade. [...] Nem a abstração nem a experiência nos conduzem de volta à fonte da qual jorram os nossos conceitos de universalidade e necessidade; ela oculta as suas primeiras manifestações no tempo ao observador e a sua origem supra-sensível ao investigador metafísico (CEEH: 73-74).

A sábia previdência da natureza imprimiu ao homem o sopro articulável da viva linguagem, que o precede, na sua viva e manifestante racionalidade sensível. No homem o ânimo sensível é irresistivelmente conduzido para fora do mundo dos fenômenos, pela dadivosa beleza, em direção ao mundo da forma, da permanência, da idéia. Na apreensão da forma e da consciência, o homem ordena a medida de si e das coisas na sucessão.

A consciência de si, e em simultâneo, com a unidade imutável da mesma encontra-se estabelecida na lei da unidade para tudo o que existe em função do ser humano, bem como para tudo o que deve ser criado por ele, para seu conhecimento e a sua atuação. Inevitáveis, incorruptíveis, os conceitos de verdade e direito já se dão a conhecer na idade dominada pela sensualidade e, sem que saibamos dizer donde provem e como surgiu, notamos o elemento eterno no tempo e a necessária seqüência do acaso. Assim nascem a sensação e a consciência de si, completamente alheias à intervenção do sujeito, residindo a origem de ambas para além da nossa vontade, assim como esta reside para além do nosso raio de conhecimento (CEEH: 74).

Da determinação sensível a determinabilidade estética e moral o homem conjuga a liberdade ao longo da evolução de sua memória e feitos.

No império da determinação da consciência de si e da sensação, viabiliza-se a possibilidade de realizar a experiência da própria existência e pela consciência de si a determinabilidade de fazer a experiência de sua existência absoluta e livre. “A liberdade reside apenas na conjugação de ambas as suas naturezas” (CEEH: 68). Igualmente sucede ao homem que seus dois impulsos básicos venham a aparecer-lhe como objetos seus na confecção da própria autonomia no seu estado estético, facultado pela oposição dos impulsos em que o ânimo transita livre na concepção antropocêntrica: o homem se faz racional contínua e permanentemente. Essa é sua condição qualitativa. Já a condição quantitativa está determinada pela mão da natureza.

O impulso sensível desperta com a experiência da vida (com início do individuo), o racional com a experiência da lei (com o início da personalidade); e só agora, a partir do momento em que ambos tenham atingido a existência, é que a sua humanidade se encontra edificada. Até que isso suceda, tudo se processa nele de acordo com a lei da necessidade, porém, agora que a mão da natureza o abandona, constitui tarefa sua afirmar a humanidade que aquela nele depositou e revelou. Na realidade, logo que nele atuam dois impulsos básicos opostos, ambos perdem a sua ação coercitiva e a oposição de duas necessidades dá origem à liberdade (CEEH: 74).

Ainda quanto ao estado estético, postulado nas Cartas XIX a XXIII e em nota na Carta XIX, Schiller alerta para a existência dos conceitos de liberdade; um pertencente à razão prática, e o outro, o da liberdade estética, possui caráter da natureza mista no homem e baseia-se no dobro legal da natureza humana na sua ativa determinabilidade, por um lado, e na sua passiva determinação, por outro lado. O estado moral se caracteriza como o primeiro estado de liberdade, quando age exclusivamente pela razão, ainda que pese a heteronímia do imperativo da coerção interna e externa da lei. Nesse âmbito, o homem é determinado. No entanto, o estado moral caracteriza-se pela legalidade, a par da liberdade primeira, das ações

humanas, fora do poder coercitivo das leis, do gozo do estado legal enunciado no juízo do gosto; o senso comum da apreciação dos objetos e, apesar de determinado, também pela autonomia da razão humana, não age somente nos limites da matéria, como o é para a moralidade stricto sensu.

Por outro lado, a liberdade estética é inferior à liberdade moral, é liberdade de segunda ordem. Nela, contudo, pesam-lhe a autonomia, a ativa determinabilidade, a fruição desinteressada, sem paramentos de moralidade, mas de legalidade no limite da matéria, da materialidade ao referir-se à realidade da pura aparência – estética- sob a égide da razão. O trabalho, a técnica e o método, ao darem forma à matéria, moldam-na à forma, já na arte faz desaparecer a matéria, sem suprimi-la, mas se lhe adiciona à forma. A matéria ganha nova conformação e aparência para além da realidade contida. A mesma matéria recebe conteúdo na forma impressa. No que segue o raciocínio, é o que também ocorre com a liberdade estética, em outro sentido, superior, porque não só nos coloca em conexão direta com a liberdade, de modo que a liberdade estética, liberdade de segunda ordem, só pode ser explicada por uma possibilidade da razão prática e moral. Nela a moralidade é a liberdade de primeira ordem que goza a espécie e igualmente o indivíduo. Além disso, realiza o indivíduo e a humanidade pela ativa intervenção prática no fazer.