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2.4 CONHECIMENTO E ENERGIA

2.4.1 Da alegoria da Caverna e conhecer

Narra no mito da Caverna12 de Platão, que nós selecionamos o olhar do prisioneiro, ele é capaz de criar a sublimidade da natureza que sofre na indeterminação e determinar-se. Apresenta um prisioneiro, no argumento de Sócrates a Glauco, seu interlocutor, que o prisioneiro da aludida caverna não é cego “para ver algo que não esteja diante dele”. Agora “imagina a nossa natureza, segundo o grau de educação (itálicos nossos) que ele recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer”, imagina, que ele “tenha visto algo mais que as sombras de si mesmo e dos vizinhos, que o fogo projeta na parede da frente da caverna?”

Sócrates imputa-lhe uma segunda natureza, a de nomear as coisas, qual seja, autonomia e direção no fazer na educação recebida. E, se ousarem nomear “as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?” Se não se perguntar, o essencial vai escapar, e não saberia considerar as sombras, se verdadeiros ou fabricados por objetos outros, o sentido ficaria nas sombras. “Vê agora o que aconteceria” se um deles fosse libertado e curado da desrazão e pudesse virar a cabeça, caminhar e iniciar “a olhar para o lado da luz [...] ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras”. Preso e imóvel, nessa condição “ele só via coisas sem consciência, que agora ele está perto da realidade, voltado para os objetos mais reais, e o que ele está vendo melhor?” Se obrigado a responder o que os objetos são, “ele ficaria embaraçado e as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras dos que os objetos que lhe mostram agora” na sua nomeação?

E, se, no segundo momento, em outro momento, fosse “tirado de lá à força” e obrigado a subir o íngreme caminho até chegar à plenitude da luz do sol; “os olhos ofuscados pelo brilho, não seriam capazes de ver nenhum desses objetos”; mas habituado, serenado seu ânimo, de repente passaria a “ver as coisas do alto”; no início “distinguirá facilmente as sombras, depois os próprios objetos”; no segundo momento, na sua segunda natureza,

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PLATÃO. República. A alegoria da caverna (514a-521a,b). Tradução de Lucy Magalhães (Apud PAVIANI, Jaime. Platão & República. Rio de Janeiro: Zahar, [s.d.]. p. 60-65.

Nota 1: Selecionamos da alegoria os argumentos referentes ao ver e olhar para ideiar o nosso progresso argumentativo e de modo objetivo. De modo que a alegoria da caverna faz-se vigorosa na imaginação e no entendimento, não conflitam as duas faculdades humanas, e a sensibilidade é o vórtice que se abre para um antes e um depois, cuja forma permanece constante na tradição. O texto faz a matéria se perder na pura forma, instiga o olhar, excita a imaginação para além do entendimento para então poder ver; os sentidos subjazem à razão inequivocamente na qualidade estética, no estado de fruição e contemplação. Contudo, a experiência do prisioneiro é familiar, renova a imaginação, liberta o entendimento no vôo da finalidade do homem a um tempo bela e em outro tempo sublime, no saber renovado daquele que a concebeu e objetivou na República. O verbo ver e olhar conjugam a luz, a observação e contemplação do olhar inquiridor do prisioneiro da caverna.

“durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu; e voltar a olhar para a luz dos astros e da lua, mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol”. E, se seguro de si, livre, “poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como ele é”. Na livre contemplação desinteressada, conjeturará das aparências rememorativamente, quando apoderado dessa conexão, na qualidade da sua humanidade, o homem inteligível se saberá mais forte que o homem sensível.

E cessado o sentimento de mudança e o conflito, habituado à contemplação e à admiração, afastado do conflito, permanentemente no grau de educação que recebeu na sua cultura humana, “ele poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que ele, o sol, é o que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo sensível, e que ele é, de algum modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna”. Não os esquecerá nem “da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros,” e será tomado do sentimento de nostalgia (ou melancolia, saudade, pesar, voluntarismo) “feliz com a mudança e terá pena dos seus antigos companheiros”. Desejara retornar e contemplar-lhes com a sua própria natureza conquista. Aí, então, revelaria que há uma luz, um fenômeno, que revela a beleza e a liberdade.

Então, rememorará suas crenças e suas descobertas comuns daquele conflito, mundo e tempo em que “uma visão mais aguda para discernir a passagens das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão [...] era o mais hábil para conjeturar a que veria depois, [...], a confiança assim adquirida entre os companheiros lhe dariam inveja?” Pensaria como Aquiles de Homero que “mais vale viver como escravo de um lavrador” e suportar “qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?” É disposição de agir autonomamente, de modo dinâmico de levar a percepção do conceito ao conteúdo, em que pese o amor ao próximo, naquilo que o conserve: a compaixão.

Se buscar retornar à caverna, imbuído da idéia de respeito, participação, entusiasmo e determinação, certamente enfrentará novo conflito sensível. Ele terá seus olhos ofuscados pelas trevas. Emitiria um novo juízo, um juízo desinteressado, factual, determinado pela experiência sentida. Relembraria dos juízos de causações sobre as sombras projetadas, com os quais competia com seus companheiros de infortúnio na caverna, que, agora, lhe afiançariam que “voltou com a vista perdida, que não vale a pena subir lá?” Sócrates, nesse diálogo, diz: “devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. [...], já que desejamos conhecê-la”. É desejo de conexão,

ligação e relação. Se não conectar, nada pode dizer e fazer, a subida se dá pela indicação da luz, não é relação de causação; a conexão dá-se na experiência e indica o efeito da causa. O desejo de conhecer conduz o ânimo à luz da forma afora.

Tal como é o que parece. “Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo caso, eis o que me aparece, tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível, aparece a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo” como objeto de livre contemplação. Na faculdade da imaginação, não encontro a alegoria, o belo, o sublime e outros conceitos e, mesmo em lugar algum, mas a idéia da mesma chega-se.

Em nossa narrativa acima, tentamos exemplificar que há um fator comum e objetivo na sensação que suscita em nós. “Em todas as sensações recebemos uma representação de algo que ultrapassa ou ameaça ultrapassar a nossa faculdade sensível de apreensão ou de resistência” (TSBT: 200). Há o desejo de conhecimento, o impulso da determinação, ou determinabilidade de conhecer o objeto. “Ali é-nos dada uma pluralidade que leva ao limite a nossa capacidade intuitiva ao pretender resumi-la a uma unidade” (TSBT: 200). No entanto, o objeto furta-se a nossa faculdade conceitual e de entendimento ele tende a desaparecer, ao mesmo tempo somos compelidos a compará-la com a nossa experiência sensificada.

Trata-se ou de um objeto que se oferece e se furta em simultâneo a nossa capacidade intuitiva, despertando um desejo de representação sem permitir uma esperança de satisfação, ou de um objeto que parece erguer-se de modo hostil contra a nossa existência, desafiando-nos de certo modo para um combate de cujo desfecho se ocupa, é feito sobre a capacidade de sentir. Todos põem o ânimo em movimento, provocando inquietação e tensão. Uma certa seriedade, que pode elevar-se da nossa alma e, enquanto os órgãos sensíveis evidenciam nítidos sinais de receio, o espírito reflexivo recolhe-se em si próprio e parece apoiar-se numa consciência superior da mente preponderante, se pretendermos que o que é grande ou terrível tenha sobre nós valor estético. Ora uma vez que em tais representações o ânimo se sente entusiasmado e elevado acima de si mesmo, elas são designadas com o nome de

sublime, embora os próprios objetos não se vejam acrescidos de qualquer coisa

sublime e fosse, portanto, mais adequado denominá-los de sublimativos (TSBT: 200).

De fato, a alegoria platônica da caverna, o ânimo do prisioneiro sentiu-se entusiasmado para além de si mesmo e interveio na determinação passiva do destino e passou a ver a determinabilidade ativa do cosmos circundante nele, ou seja, fez a transição de um saber para um conhecer. Não desconhece o homem em sua essência, mas guiado pela luz, captada pelo olhar, ele direciona-se só a conhecer algo fora do seu âmago, para tanto sublima

o imediato e transfere-se da condição quantitativa para a condição qualitativa no ânimo das suas memórias. Defendemos na alegoria do mito da caverna de Platão a edificação de uma estética própria, a partir da natureza recebida e ampliada na direção e sentidos ativados pela razão para conhecer.

Se pretendêssemos designar um objeto como sendo sublime, então ele tem de opor-

se a nossa capacidade sensível. Podemos, contudo imaginar duas espécies distintas

de relacionamentos entre as coisas e a nossa sensibilidade, e de acordo com aquelas tem também de haver duas espécies distintas de resistência. Ou as coisas são consideradas como objetos, a partir dos quais pretendemos adquirir conhecimento, ou são encaradas como um poder, como qual comparamos o nosso. De acordo com tal divisão, existem também dois gêneros de sublime, o sublime do conhecimento e o sublime da energia (TSBT: 200).

Na condição sensível, sem o entendimento, a matéria ordena-se na pluralidade de modo quantitativo, não é exclusão, nada separa, mas inclusão e identificação. Enquanto o entendimento se constitui na exclusão da pluralidade pela divisão e supera-a na diferença do conceito, ou seja, na possibilidade de separar, intervir para poder prever algo que poderá aparecer de modo qualitativo e permanente na roupagem exuberante da atemporalidade do entendimento conceitual. Na possibilidade de superar a imediatez da sensibilidade, o ânimo acresce algo ao objeto em nova possibilidade de previsão, ordenação e visibilidade ao estado estético humano no agir e no fazer. No estado sublimativo do fazer, o homem tende a realizar- se como a medida das coisas pela intervenção do entendimento no qual a razão volta a ligar.

Ora, o sublime do conhecimento inscreve-se no movimento da alegoria, acima descrita. Assim como também o sublime da energia diz respeito ao homem na sua condição de humanidade, não se trata de conhecimento teórico, mas trata-se do sentimento e do afeto frente à imediaticidade, em que, por vezes, faz-se valer o destino ou o acaso. Algo que trataremos a seguir em Um homem em viagem caiu entre ladrões. O homem é dotado de sensibilidade e de razão, de conhecimento e de saber. No primeiro, tratamos da tomada da razão no homem e, no segundo, trataremos do que a razão manda o homem fazer. Proteger as capacidades sensíveis?

Ora as capacidades sensíveis em nada contribuem para o conhecimento, para além de apreender a matéria dada e de ordenar a pluralidade da mesma em categorias espaciais e temporais. Compete ao entendimento e não a faculdade da imaginação distinguir e selecionar tal pluralidade. Só para o entendimento é que existe algo

distinto, para a faculdade da imaginação (enquanto sentido) existe apenas algo idêntico, sendo apenas a porção de coisas idênticas (a quantidade, não a qualidade)

pretendêssemos, portanto, que a capacidade sensível sucumba perante a um objeto, então esse objeto tem de ser quantitativamente excessivo para a faculdade da imaginação. O sublime do conhecimento assenta, por conseguinte no número ou no tamanho, podendo por isso ser designado como matemático (TSBT: 200-201).

Na possibilidade de distinção qualitativa interior, o ânimo faculta a organização do mundo inteligível nos predicados da beleza e do sublime. No fazer da obra poética, “o poeta impõe realmente a disposição que quer dar [...], poderia conduzir de modo tão vivo e sensível àquele tempo como estas peças” (TSBT: 250) narradas. De fato, “o poeta principia por tornar- se estranho a si próprio, por destacar o objeto do seu entusiasmo da sua individualidade, por olhar a sua paixão a partir de uma distância suavizante” (TSBT: 247). O aedo presenteia-se na forma e doa-a à fruição coletiva como obra pronta na idéia de um devir, acima da temporalidade, retrata a alegoria da caverna, alimenta a imaginação e prende-a no entendimento.