• Nenhum resultado encontrado

Conceito de Responsabilidade Social Corporativa

No documento http://www.livrosgratis.com.br (páginas 88-94)

3. PROCESSOS DE SISTEMATIZAÇÃO DE COMUNICAÇÃO DE CRISE

3.1. CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

3.1.4. Conceito de Responsabilidade Social Corporativa

bem-87

comum, pois o desenvolvimento comunitário passa pelo processo de significação e de transformação da comunidade. Pois, segundo Silva & Arns (2002, p.10), através do processo de desenvolvimento comunitário é que se consegue construir cenários de vida futura, dentro também de um processo de desenvolvimento de si mesmo, ainda que haja todo um forte engajamento comunitário.

Reiterando a concepção de relações sociais, mas dentro da concepção e visão da psicologia social, Lane (1995, p.68) diz que o ideal para fins de desenvolvimento das relações sociais seria:

Desenvolver as relações sociais que se efetivem através da comunicação e cooperação entre as pessoas, relações onde não haja dominação de uns sobre os outros, por meio de procedimentos educativos e, basicamente, preventivos, se tornou o objetivo central de atividades comunitárias, as quais podem ocorrer em uma casa, com pessoas criando novas relações ‘familares’, em escolas, hospitais e mesmo entre um grupo de vizinhança ou de bairro, desde que se identifiquem por necessidades comuns a serem satisfeitas, através de atividades planejadas em conjunto e que impliquem em ações de vários indivíduos, encadeadas para atingir o propósito.

Segundo Neto & Fróes (2002), o modelo atual de desenvolvimento deve ser calcado dentro de premissas de desenvolvimento humano, social e sustentável.

Dentro destas premissas, um conceito de novo desenvolvimento se faz necessário, onde as forças estejam em equilíbrio e as dimensões sociais, ambientais e econômicas estejam em harmonia e desenvolvidas de modo mais equânime, onde o equilíbrio destas dimensões venha permitir que o desenvolvimento seja alcançado para todos, sem relações de desigualdade, menos ainda de cunho não-hegemônico.

Existe uma necessidade premente, segundo ainda Neto & Fróes (2002), de que o desenvolvimento sustentável seja implementado de forma que as organizações considerem como sendo os principais ativos o capital humano e social local. E, ainda dentro da linha de pensamento destes autores, a construção deste tipo de desenvolvimento mais equânime certamente passa por estágios de desenvolvimento, aonde inicialmente o valor social vem em um primeiro momento.

E, a partir daí, as demais variáveis de desenvolvimento: político, cultural e econômico.

O objetivo da prática de responsabilidade social e ambiental, no ambiente

empresarial, antes de mais nada, é ter a consciência de que seu papel é também contribuir a longo prazo para a manutenção das relações, minimizando os impactos adversos decorrentes do seu segmento de negócio sobre a sociedade e a própria natureza. E, com relação a esse conceito, Almeida (2002) defende que não se trata de filantropia, menos ainda de ação de propaganda institucionalizada, pois estes dois exemplos não são de longe princípios de sustentabilidade. Isto se deve pelo fato de que não se pode desenvolver de forma isolada, mas sim envolvendo as partes interessadas. Afinal de contas, as empresas não existem isoladas da sociedade, e a forma de lidar com as partes interessadas determina que a conduta praticada passe pela compreensão de valores e princípios, os quais se beneficiam, conseqüentemente, dos negócios da organização.

Ainda na visão de Neto & Fróes (2002) dizem que: “A responsabilidade social é um estágio mais avançado no exercício da cidadania corporativa.” Sabe-se, no entanto, que tudo começou com a prática de ações filantrópicas. E tal comportamento se refletia muito mais pelo caráter individualista e pela benevolência dos empresários que tentavam de alguma forma devolver à sociedade uma pequena parte do que ganharam ao longo da trajetória empresarial. Porém, a responsabilidade social é diferente. Tem muito mais a ver com a consciência social coletiva e o próprio dever cívico (NETO & FRÓES, 2002). Passa pela questão do alinhamento das metas e dos objetivos das empresas com a sociedade no processo de desenvolvimento, assim como no que diz respeito à forma como se elas se relacionam com as partes interessadas. Deste modo, segundo Almeida (2002), reduzindo conflitos, mediante a surpresa decorrente de alguma situação adversa, adquirindo confiança nas relações, mantendo-as fortalecidas, e funcionando como um seguro contra restrições a operações. Principalmente porque isso facilita a obtenção e a manutenção de licenças de funcionamento de suas atividades dadas pelas partes interessadas. É o que diz Vinha (in MAY, 2003, p.175): “Na linguagem corrente, esse custo é um investimento porque abre caminho para a obtenção da

‘licença social para operar’”.

Por outro lado, ainda conforme Vinha (in MAY, 2003), é um passo importante neste sentido, pois infere diretamente em valores até então praticados pelas empresas, ou seja, de que as decisões acerca de determinadas ações conjunturais eram inerentes apenas à empresa como fonte decisória, envolvendo no máximo o

89

poder público, mas não as partes interessadas. Porém, diante desta mudança de paradigma, há por parte das empresas um reconhecimento de que não estão sozinhas e que também não têm autonomia, embora tenham poder de capital, para decidir como e quando explorar os recursos de uma determinada região. Há de se ter um consenso entre as empresas e as partes interessadas visando um acerto diante de determinadas ações, instalações ou qualquer tipo de decisão que venha a impactar as partes interessadas.

Uma corrente do processo de responsabilidade social corporativa é a questão do empoderamento, que trata de um processo evolutivo das relações, com premissas de respeitabilidade dos direitos sociais, segundo Pereira (2006) pode ser definido como sendo:

Empoderamento significa em geral a ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais. Essa consciência ultrapassa a tomada de iniciativa individual de conhecimento e superação de uma situação particular (realidade) em que se encontra, até atingir a compreensão de teias complexas de relações sociais que informam contextos econômicos e políticos mais abrangentes.

Ainda na visão de Pereira (2006), o empoderamento8 não deveria significar um conceito puramente instrumental, orientado somente para a obtenção de resultados eficientes. Mas, diante da possibilidade de constituir uma afirmação de plena realização dos direitos das pessoas, a questão do empoderamento tem um papel social importante, a partir do momento que permite que haja um processo de mobilização social, dentro de contextos específicos e definidos relacionados ao desenvolvimento sustentável local. Com isso, ouvindo-se as partes interessadas, fortalecendo-se as relações dos grupos sociais do entorno ou que estejam diretamente relacionados, dando condições de articulação entre as partes. A Figura 2, segundo Alledi (2002), apresenta claramente as interfaces das dimensões de

8 Segundo Pereira, em seu artigo na revista Sapiência, (2006, no. 3), diz que: “o empoderamento devolve poder e dignidade a quem desejar o estatuto da cidadania, e principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio destino com responsabilidade e respeito ao outro. O débito social das instituições públicas e estatais diminui à medida que seus agentes desenvolvam ações e condutas de efetiva participação e mudanças sociais. Portanto, a descrença nestas instituições tem aumentado a impossibilidade de haver democracia real fora destes termos. Hoje o discurso democratizante se apropria desse termo para legitimar uma aproximação dos agentes institucionais àqueles tradicionalmente excluídos, sem mudar muito a natureza (autoritária) das relações de poder e a realidade concreta destes.”

sustentabilidade empresarial9.

Figura 2 − As Interfaces das Dimensões de Sustentabilidade Empresarial Fonte: Cid Aledi (jun. 2006)

De fato, algumas empresas, dentro de seu processo de gestão, exercem um papel de substituição do papel do Estado, principalmente por empresas públicas alinhadas em políticas públicas, pois isto direta ou indiretamente afeta consideravelmente o desenvolvimento social das comunidades. Porém, o fato de que grande parte das grandes empresas hoje possuem uma participação significativa no mercado de capitais, isto faz com que esta ação seja mais direta e não seja tão forte, pois a prestação de contas, o processo de transparência e as demais condições e premissas de governança estão muito mais presentes.

Principalmente porque as partes interessadas estão atentas a este tipo de questão.

E, afinal de contas, estas empresas possuem um público específico de investidores e acionistas que contrabalançam de forma significativa a esta contextualização. Por outro lado, o emprego de práticas e decisões que devem ser tomadas sempre atrai um engajamento maior junto às partes interessadas, o que colabora

9 Material desenvolvido pelo prof. Cid Alledi – Conferência Internacional 2006 – Empresas e Responsabilidade Social (jun. 2006).

91

significativamente para que esta ação direta sobre as empresas não ocorra, ou então, seja reduzida ou minimizada (MAY, 2003).

Não que a empresa não possa praticar ou venha praticar uma política própria de desenvolvimento social ou fomento a este, pelo contrário; esta deve ser a prática visando à sustentabilidade de seus negócios. Mas, embora tenha esta premissa perante o desenvolvimento e dentro de uma prática de metodologias e técnicas de sustentabilidade, de educação coordenada, não pode colaborar com a substituição do papel do Estado. Isto não permite que a sociedade se desenvolva em torno da sustentabilidade, pois cria um vínculo de dependência organizacional. Na verdade, segundo Neto & Fróes (2002), a responsabilidade social visa estimular o desenvolvimento da pessoa, na figura do cidadão, e, conseqüentemente, fomentar e criar um processo de articulação quanto ao desenvolvimento da cidadania individual e coletiva.

A empresa possui seu papel social, que contribui para o fortalecimento de sua imagem, da credibilidade, do fortalecimento de suas relações. O ideal é que esteja presente, atuando fortemente como um dos agentes de transformação. Na visão de Vinha (in MAY, 2003, p.178), um dos grandes desafios nas grandes corporações, principalmente aquelas que possuem atuação em países em fase de desenvolvimento, é lidar com as expectativas das comunidades e demais partes interessadas, como a pressão do movimento de ambientalistas, a relação junto ao poder público e governamental, ou seja, efetivamente aprender a lidar com as partes interessadas. As organizações podem ter uma participação como fomentadoras ou incentivadoras de projetos ou programas sustentáveis. Inclusive podendo ser uma prática mais disseminada entre as empresas, pois é plausível. Deveria ser uma prática mais comum entre as organizações.

Definitivamente, um processo que implica profundas mudanças culturais. E, como tal, é possível que gere resistências e que, ao afetar os interesses estabelecidos, estes desenvolvam estratégias para criar obstáculos. E, dentre os possíveis itens que poderiam dar uma tangibilidade frente a estas dificuldades estariam: o resultado a curto prazo; a redução de custo; o predomínio da cultura organizacional formal, sem a participação das partes interessadas; a negação e a subestima ante as relações de pobreza e a tendência à manipulação das comunidades, acentuando as relações de poder de forma não participativa. Porém, o

processo de transformação neste sentido é inevitável. Finalizando, na visão de Neto

& Fróes (2002), a responsabilidade social é de âmbito coletivo, mobilizadora, principalmente porque resgata um importante valor social do indivíduo, que é a cidadania, promovendo a inclusão social e a civilidade.

Deste modo, é inevitável uma mudança necessária na relação de sustentabilidade e sobrevivência das empresas, não existe mais espaço para a sobrevivência de uma organização que ainda esteja em consonância com este tipo de pensamento, comportamento ou postura empresarial. Os preceitos de governança têm a ética e a transparência, assim como a questão da reputação e a construção da credibilidade, atuando fortemente neste processo de relação entre as organizações e as partes interessadas. Estes elementos juntos, interagindo com as partes interessadas, fortalecem também as percepções de risco inerentes às instalações dos negócios, seus impactos, suas possíveis adversidades. Enfim, são elementos que ganharam um novo status e atributos essenciais ao desenvolvimento dos negócios, nas relações institucionais e empresariais junto a todas as partes interessadas, com destaque para os investidores, acionistas e a comunidade.

No documento http://www.livrosgratis.com.br (páginas 88-94)