• Nenhum resultado encontrado

A partir do entendimento acerca da importância da nova ordem internacional no combate à pandemia da COVID-19, por meio dos organismos internacionais, tem-se que ao trabalhador, mais especificamente, também será garantido o funcionamento e salubridade em ordens do seu ambiente de trabalho, em especial em tempos de pandemia. Em assim sendo, o conceito de trabalho decente estabelecido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) auxilia a entender de que forma governos e comunidade internacional devem agir para superar as barreiras dessa “guerra biológica” contra um vírus tão mortal.

De início, importante entender que tal conceito foi formalizado pela OIT em 1999, conforme consta de sua própria página oficial da instituição em seu sítio eletrônico43. O conceito de trabalho decente pode resumir um objetivo histórico da organização em promover oportunidades para que homens e mulheres obtenham um trabalho produtivo e de qualidade (incluindo aqui a própria qualidade do meio ambiente laboral), em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humanas, sendo considerado condição fundamental para a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável.

Verifica-se, portanto, que tal conceito impacta diretamente as diretrizes governamentais bem como a atividade legislativa, na medida em que não se pode imaginar um trabalho produtivo e de qualidade sem as garantias mínimas de proteção ao obreiro. A própria dignidade humana aliada à segurança devem ser preservadas, seja por

42 Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2020-abr-20/direito-internacional-pandemia-reflexoes-criticas-porvir>. Acesso em: 06 jul. 2020.

43 Disponível em: <https://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-decente/lang--pt/index.htm>. Acesso em: 18 nov. 2020.

meio de equipamentos de proteção coletiva e individual, treinamentos e instrumentos de fiscalização, tal qual a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA).

Sendo assim, pode-se afirmar que o conceito de trabalho decente elaborado no âmbito da OIT foi pensado para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas, em especial o ODS 8, que busca “promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos”. É nesse cenário de “urgência” por promoção de crescimento inclusivo e sustentável que a própria OIT permite discussões acerca da participação do trabalho como mudança de paradigma, conforme será analisado ao longo deste trabalho.

Os principais aspectos de trabalho decente também foram amplamente incluídos nas metas de muitos dos outros ODS da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, evidenciando a importância do conceito de trabalho decente não apenas no viés pragmático, haja vista a imposição ou orientação principiológica a fim de regulamentar os mais diversos meios e ambientes do trabalho.

Avançando na conceituação do trabalho decente, pode-se dizer que ele reúne quatro pontos estratégicos: o respeito aos direitos no trabalho, especialmente aqueles definidos como fundamentais (liberdade sindical, direito de negociação coletiva, eliminação de todas as formas de discriminação em matéria de emprego e ocupação e erradicação de todas as formas de trabalho forçado e trabalho infantil); a promoção do emprego produtivo e de qualidade; a ampliação da proteção social; e o fortalecimento do diálogo social44.

Veja-se novamente a questão da dialeticidade tão importante no combate ao meio ambiente de trabalho insalubre, haja vista que tanto o empregador como o empregado podem contribuir conjuntamente em favor da disponibilização de meios adequados ao combate de problemas estruturais ou mesmo sistêmicos. Pode-se dizer que o vírus Sars-Cov-2 é encarado como se fosse da inteira responsabilidade do empregador, quando, em verdade, esse processo de fortalecimento do diálogo social é imprescindível para criação e desvelamento das realidades até então escondidas.

Sendo assim, pode-se afirmar que o trabalho decente é condição sine qua non para a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia de governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável. Essa ideia foi afirmada

44 Disponível em: <https://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-decente/lang--pt/index.htm>. Acesso em: 06 jul. 2020.

em três reuniões realizadas ainda no ano de 2005, evidenciando a relevância do tema na agenda política latino-americana e internacional. Neste momento de crise sanitária que afeta diretamente a economia, os países latino-americanos devem se apegar aos princípios gerais da ordem mundial e, adaptando à realidade interna de cada um, elaborando plano de eficiência no combate à COVID-19.

Na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro de 2005, a promoção do emprego pleno e produtivo e do trabalho decente para todos, especialmente mulheres e jovens, foi definida como meta de políticas e estratégias nacionais e internacionais de desenvolvimento.

Na XV Cúpula Ibero-Americana realizada em outubro, na Espanha, 22 chefes de Estado e governo definiram que trabalho decente é direito humano e fator fundamental para impulsionar a distribuição mais equitativa dos benefícios do crescimento econômico, favorecendo a inclusão social. Deve ocupar lugar central na agenda ibero-americana. Na IV Cúpula das Américas de novembro, em Mar del Plata, na Argentina, 34 chefes de Estado e de governo do hemisfério americano assinaram uma declaração na qual reafirmam o compromisso de combater a pobreza, a desigualdade, a fome e a exclusão social para melhorar as condições de vida dos povos e fortalecer a governabilidade democrática nas Américas.

A partir de então pode-se dizer que o conceito de trabalho decente se apoia em quatro pilares estratégicos: os direitos e princípios fundamentais do trabalho, a promoção do emprego de qualidade, a extensão da proteção social e o diálogo social. Conferimos ao direito ao trabalho, tal como está estipulado nos instrumentos de direitos humanos, um lugar central na agenda hemisférica, reconhecendo assim o papel essencial da criação de trabalho decente para a realização desses objetivos.

Dessa forma, os países componentes da Cúpula das Américas elaboraram um plano de ação com medidas concretas, como a implementação de políticas dinâmicas que gerem trabalho decente, criem condições de emprego de qualidade, promovam o respeito aos direitos fundamentais no trabalho e dotem as políticas econômicas e a globalização de forte conteúdo ético e humano.

Na ocasião, o diretor geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), embaixador Juan Somavia, exortou os chefes de Estado a defender fortemente a adoção de agendas do trabalho decente em seus países. Mas, afinal, o que é trabalho decente, expressão à qual devemos nos acostumar? É trabalho adequadamente remunerado, exercido em liberdade, equidade e segurança, e capaz de garantir vida digna.

Dessa forma, um dos primeiros encontros os quais trataram sobre o tema contou com delegações de ministros do Trabalho e representantes de organizações sindicais e empresariais de 35 países, que se reuniram na Reunião Regional Americana da OIT, em Brasília, entre 2 e 5 de maio ainda do ano de 2005. O diretor-geral da Organização submeteu, à época, a discussão uma proposta de agenda hemisférica para o trabalho decente, desenvolvendo de forma personalizada medidas específicas para região. O Brasil comprometeu-se a estabelecer um Programa Especial de Cooperação Técnica para o Desenvolvimento de uma Agenda Nacional do Trabalho Decente, em consulta com organizações de trabalhadores e de empregadores, em junho de 2003, ou seja, antes mesmo da reunião agendada em Brasília.

Nesse sentido, um Memorando de Entendimentos entre o presidente da República à época no Brasil e o diretor-geral da OIT foi assinado, firmando compromisso dos chefes de Estado em Mar Del Plata, o qual se busca concretizar desde então. O escritório da OIT no Brasil apoia firmemente ações nesse sentido, firmando parcerias e convênios entre empresas privadas e a próprio governo, haja vista que o trabalho decente e produtivo é a principal ferramenta para superar a pobreza que afeta 220 milhões de latino-americanos e caribenhos, mostrando-se fundamental para a construção de sociedades mais democráticas e socialmente inclusivas.

4 PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS E O SISTEMA DE PREVENÇÃO CONTRA ACIDENTES DO TRABALHO

O objetivo principal deste tópico é analisar alguns dos instrumentos criados pelo legislador brasileiro para enfrentar o crescente número de acidentalidade no trabalho, demonstrando como vem ocorrendo eventuais edições normativas para incluir os casos de COVID-19 no sistema de proteção ao trabalhador. Para isso, será explicado o conceito de acidente do trabalho com base na legislação própria da matéria, acrescentando, em seguida, os mecanismos hábeis ao combate dos acidentes, em especial no que tange aos instrumentos previstos no universo da Saúde e Segurança do Trabalho.

Importante ressaltar que a garantia ao meio ambiente do trabalho equilibrado está prevista no próprio texto constitucional, sendo imprescindível a efetivação de medidas compatíveis com os ditames da CRFB/88. Os arts. 7º, inciso XXII e 225, §1º, inciso VI são enfáticos na garantia da diminuição de riscos inerentes ao trabalho desenvolvido por profissionais nas mais diversas áreas como também à preservação do meio ambiente nos quais se efetivam as atividades laborais diariamente, principalmente por meio do princípio educativo.

Válido ressaltar neste ponto a essência do Estado Constitucional de Direito ao qual a população brasileira está submetida. Dentro da lógica constitucional em vigor, tem-se que a CRFB/88 estabeleceu diversos direitos fundamentais, a maior parte deles previstos no rol do art. 5º do texto constitucional (dos direitos e deveres individuais e coletivos), porém, existindo ainda outros espalhados ao longo da própria Carta Política, como no próprio art. 7º (dos direitos sociais).

Interessante perceber que a evolução do Estado possibilitou a garantia e efetividade dos direitos fundamentais a partir do momento em que o texto constitucional passou a ser visto não como ordens abstratas, mas sim como normas de aplicabilidade concreta. Esse entendimento pode ser atribuído ao que se convencionou chamar de neoconstitucionalismo ou formalismo valorativo, oportunidade em que o texto constitucional passou a ter suas características entendidas para além da mera “folha de papel” (termo esse cunhado por Konrad Hesse em contraposição a Ferdinand Lassalle)45, estabelecendo, com efeito, diretrizes normativas e principiológicas com aplicabilidade imediata.

Sendo assim, apesar de não ser o enfoque principal deste trabalho a história do neoconstitucionalismo, tem-se que essa noção basilar se torna importante, uma vez que a proteção ao meio ambiente deverá ser encarada como uma norma de eficácia imediata. Uma classificação que pode auxiliar no entendimento de como a proteção aos direitos fundamentais ocorre é proposta por Georg Jellinek46, jurista e filósofo alemão, que divide as quatro facetas da posição do indivíduo frente ao Estado, são elas: passiva, ativa, negativa e positiva.

O status passivo revela a necessidade do indivíduo de se subordinar frente a algumas determinações do Estado, ou seja, o indivíduo tem sua capacidade de escolha restringida frente a comandos proibitivos estatais, por exemplo. Também é conhecida como “status subjectionis”. Por outro lado, o status ativo é a oportunidade na qual o cidadão exerce direitos frente à organização estatal, podendo influenciar nos rumos do Estado enquanto organismo político, sendo o exemplo mais conhecido o direito ao voto. Tal status é conhecido também como “activus civitatis”.

Por outro lado, o status negativo simboliza a impossibilidade do Estado de adentrar na órbita da liberdade individual de cada cidadão, ou seja, o homem é detentor de esfera de civilidade a qual não pode ser invadida pelo poder público, tendo como marco principal a liberdade de expressão. Tal nuance da classificação proposta por Jellinek é também conhecida como “status libertatis”. Por fim, o status positivo guarda relação com a possibilidade do indivíduo de requerer atuação do Estado na tutela de determinados direitos, podendo ser compreendido como possibilidade de prestação ativa da organização estatal para atender necessidades sociais. É também conhecido como “status civitatis” e o exemplo mais comum é o direito à saúde, o qual pode ser exigida a prestação por todo e qualquer cidadão.

Dentro desse contexto, tem-se que o sistema de prevenção pode ser entendido como direito de status positivo ou “status civitatis”, haja vista que todo e qualquer trabalhador poderá exigir a proteção estatal (em especial por meio do Poder Judiciário) para que seja garantida tutela básica do núcleo principal do sistema de prevenção, consubstanciando-se, em última análise, na defesa de interesses coletivos garantidos constitucionalmente.

Nesse sentido foram criados conceitos e institutos próprios do Direito Previdenciário e prevencionista, tais como o Nexo Técnico Epidemiológico

46 JELLINEK, Georg. Teoria general del Estado. Trad. Fernando de los Rios. 2. ed. Buenos Aires: Albatros, 1970. p. 62.

Previdenciário e o Seguro de Acidente do Trabalho, os quais auxiliam o Governo a identificar quais os ramos de atividade econômica e quais as atividades insalubres oferecem maiores riscos aos empregados, ensejando maior ônus contributivo às empresas que não adotam meditas protecionistas para diminuir o nível de acidentalidade, conforme dicção dos dispositivos constitucionais citados anteriormente.