Superada a breve noção acerca do que seria o Direito Ambiental do Trabalho, será observado, agora, de que forma são concretizados os mecanismos de prevenção e controle de acidentes dentro da lógica do Estado Democrático de Direito, uma vez que, conforme falado anteriormente, o direito ao meio ambiente equilibrado é direito difuso e deve ser protegido, inclusive, pelo Poder Judiciário em caso de violações perpetradas em contrariedade do comando constitucional. Mas, antes disso, importante notar a distinção, ao menos, entre as quatro espécies de meio ambiente consideradas pela doutrina14,
14 MELO, Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saúde do trabalhador. 4. ed. São Paulo: LTr, 2010. p. 30.
buscando direcionar o presente estudo para entender de que forma o meio ambiente do trabalho, especificamente, se distingue das demais formas de interação.
O primeiro deles seria o meio ambiente natural ou físico, o qual é composto pelo solo, água, flora e fauna, representando o equilíbrio entre os seres vivos na terra e os elementos que os cercam, sendo este o conceito primordialmente defendido pelo Direito Ambiente e pelas convenções de Estocolmo e do Rio de Janeiro. Assim é que a CRFB/88 em seu art. 225, §1º, incisos de I a VII tutelou o meio ambiente natural, bem jurídico de valor inestimável para a sociedade, obtendo, ao mesmo tempo, a condição de direito a ser usufruído por todos bem como o status dever constitucional de proteção.
Já o meio ambiente artificial se refere ao espaço humano habitável15, constituído pelas construções decorrentes do avanço da urbanização. Tanto os espaços urbanos como também os rurais podem se encaixar no conceito de meio ambiente artificial, bastando haver a ação antrópica. A previsão constitucional pode ser vislumbrada nos arts. 5º, XXIII, 21, XX, 182 e 225, sendo valores fundamentais à sadia qualidade de vida e a dignidade da pessoa humana, estando tais preceitos constitucionais de igual forma alinhas à construção internacional acerca da proteção ao meio ambiente que melhore a qualidade de vida de todos os cidadãos.
Por outro lado, o meio ambiente cultural é aquele relacionado à história, formação e cultura de um povo, abrangendo também o patrimônio artístico, arqueológico, paisagístico e turístico16, expressando o valor atribuído de forma imaterial (somente) ou combinado com a estrutura de que faz parte. Tal espécie difere da anterior pelo seu valor sentimental, não aferível objetivamente em alguns casos. A própria CRFB/88 prevê alguns exemplos do que pertenceria ao patrimônio cultural brasileiro no art. 216, podendo este absorver proteção jurídica distinta, como nos casos de tombamento.
E, por fim, o meio ambiente do trabalho, que é o foco principal deste estudo, pode ser entendido como o local onde se desenrolam as atividades laborais, sejam elas remuneradas ou não, devendo prezar pelo equilíbrio quanto à salubridade do meio e pela ausência de agentes que comprometam a incolumidade físico-psíquica dos trabalhadores. independentemente da condição que ostentem17.
Dessa forma, entendida tais distinções entre as espécies de meio ambiente, pode-se avançar sobre os mecanismos disponíveis previstos em lei no intuito de melhor
15 Id., 2010, p. 30.
16 Id., 2010, p. 30.
proteger o trabalhador quanto aos infortúnios ocorridos especificamente no meio ambiente do trabalho, em especial no caso de infecção pela COVID-19, buscando relacionar de que forma a pandemia atual afeta as relações estabelecidas no meio ambiente de trabalho, seja na responsabilização do empregador ou mesmo na possibilidade de indenização a ser paga com recursos públicos a partir dos mecanismos da seguridade social.
Isso porque, a configuração de quadro pandêmico traz, naturalmente, novas preocupações para o empregador e para o empregado bem como para os agentes da SST, além de mobilizar os poderes estatais para tutelar de forma específica o meio ambiente de trabalho frente aos novos desafios provocados pela COVID-19. Conforme se verá ao longo deste trabalho, não obstante o novo regramento surgido para tentar proteger a saúde do trabalhador frente aos diversos riscos exógenos causados pela pandemia, inexiste qualquer inovação legislativa capaz de assegurar, efetivamente, proteção ao trabalhador vítima do novo coronavírus, haja vista o cenário ainda de incertezas quanto a tratamentos indicados e quanto ao papel a ser desempenhado pelo Estado perante novas demandas de acidentes do trabalho decorrentes de infecção pelo vírus Sars-CoV-2.
Isso porque não bastam apenas concessão de auxílios emergenciais ou mesmo assunção pelo governo de parte dos salários dos trabalhadores se inexiste a preocupação em se criar verdadeira cultura de combate aos acidentes do trabalho, dentre eles a infecção da COVID-19, desprestigiando a informação e a capacitação do corpo operário. Não se pretende menosprezar ou retirar a importância de medidas paliativas para sustento da economia e dos próprios postos de trabalho, entretanto, não há como se negar que a cultura de prevenção e a própria educação dos trabalhadores para lidar com situações sensíveis como a COVID-19Para se exemplificar a gravidade do quadro, existe pesquisa recente encabeçada pela UFBA na qual se verifica relação entre o nível de trabalho informal e o nível de contaminação pela COVID-1918.
Em locais com maiores índices de informalidade, maior também o número de infectados e, por conseguinte, de mortos. Tal fato só revela que o meio ambiente laboral contribui diretamente na ocorrência de acidentes de trabalho, uma vez que, no caso dos trabalhadores informais, as condições precárias para desenvolvimento do labor fomentam a proliferação de riscos à saúde do obreiro. Pode-se inferir também que o menor grau de
18 Disponível em: <https://coronavirus.ufba.br/covid-19-evidencia-maior-vulnerabilidade-para-trabalhadores-informais-alerta-pesquisador-do-isc>. Acesso em: 06 jun. 2020.
escolaridade, próprio dos trabalhadores informais de modo geral, reflete diretamente no maior nível de contágio.
Isso porque a educação da população com requisitos mínimos de higiene pessoal auxilia diretamente no combate ao novo coronavírus, sendo práticas recomendadas: lavar as mãos regularmente, usar máscaras de proteção e evitar aglomerações. Sendo assim, tanto em virtude do ambiente como também da falta de educação básica, os trabalhadores informais sofrem ainda mais com o surto de COVID-19. Interessante perceber também que dentro das unidades de saúde, os trabalhadores que possuem menor grau de instrução sobre a COVID-19 também estão diretamente sujeitos a maiores índices de contágio pelo Sars-CoV-219.
Sendo assim, odontólogos e profissionais administrativos tendem a ser mais vulneráveis ao contágio pelo novo coronavírus, seja porque desconhecem métodos de proteção de sua equipe e de seus pacientes, seja porque necessitam de intervenções educacionais e treinamentos aptos a propor práticas de controle de infecção para a COVID-19.
Diante desse quadro, passemos agora a entender como funciona, dentro do ordenamento jurídico brasileiro, o sistema de prevenção de acidentes do trabalho bem como os princípios que regem esse instituto próprio do Direito do Trabalho, sempre buscando apontar eventuais inovações legislativas que possam interferir diretamente no entendimento acerca das repercussões da pandemia na lógica prevencionista.
19 Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0303-76572020000101600&script=sci_arttext>. Acesso em: 15 set. 2020.
3 CONVENÇÕES E BASE PRINCIPIOLÓGICA AMBIENTAL NO ENFRENTAMENTO DO NOVO CORONAVÍRUS
Neste capítulo será apresentado elementos do direito internacional que fundamentam a gênese principiológica na defesa do meio ambiente do trabalho. Dessa forma, buscar-se-á apresentar convenções internacionais que serviram de marco legal para criar as bases normativas brasileiras, seja por meio da defesa constitucional do meio ambiente equilibrado seja por meio da própria legislação infraconstitucional que melhor detalha a proteção técnica dos mais diversos ambientes laborais.
3.1 CONVENÇÕES INTERNACIONAIS DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL