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2 ALIENAÇÃO PARENTAL E SUA PRECISÃO CONCEITUAL

2.1 CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DA ALIENAÇÃO PARENTAL

A Alienação Parental é um evento, infelizmente, frequente na atual sociedade, onde o número de divórcios e dissoluções de uniões estáveis é consideravelmente

elevado. Podemos considerá-lo um problema social que traz consequências para as gerações que se desenvolvem.

Conforme a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a taxa geral de divórcio (número de divórcios em relação à população de 20 anos ou mais de idade) aumentou de 2,38 divórcios para cada mil pessoas, em 2016, para 2,48% em 2017.

Fazendo uma breve análise no ano de 2020, segundo levantamento do Colégio Notarial do Brasil, as separações saltaram de 4.641 para 7.213 entre os meses de maio e julho. Temos que levar em conta o momento atual de pandemia, onde consideravelmente pode ter contribuído para o fim dos relacionamentos.

Nesse contexto surge a alienação parental, que como reconhece Maria Berenice Dias, é uma prática que vem sendo denunciada de forma recorrente e irresponsável:

Muitas vezes, quando da ruptura da vida conjugal, um dos cônjuges não consegue elaborar adequadamente o luto da separação e o sentimento de rejeição, de traição, faz surgir um desejo de vingança. Desencadeia um processo de destruição, de desmoralização, de descrédito do ex-parceiro. O filho é utilizado como instrumento de agressividade. É levado a rejeitar o outro genitor, a odiá-lo. Trata-se de verdadeira campanha de desmoralização.

Dessa análise, possível compreender que no momento da dissolução da união, um dos genitores poderá depositar no filho o seu sentimento de desgosto pelo ex-companheiro. E, neste contexto surge a Alienação Parental (AP).

Segundo Schaefer (2014), antigamente os papéis parentais eram bem divididos quando da separação dos genitores. Em regra, os filhos ficavam sob os cuidados da guarda materna e ao pai cabia a obrigação de pagar alimentos e exercer o direito de visitação, a qual era estipulada judicialmente.

Atualmente o cenário muda. A guarda não fica mais somente a mãe, passa a ser compartilhada. De acordo com Lima (2019):

A guarda compartilhada é aquela exercida por ambos os pais, que conjuntamente se responsabilizam por todas as decisões relevantes relacionadas ao bem-estar dos filhos. São todas as decisões, por exemplo, relativas a escolha de escola, médico, religião, atividades extracurriculares.

Maria Berenice Dias (2019) entende que “a finalidade é consagrar o direito da criança e de seus dois genitores, colocando um freio na irresponsabilidade

provocada pela guarda individual. Isso porque, na guarda compartilhada, o filho não é de um nem de outro, é de ambos”. E é nessa situação que as disputas judiciais pela guarda dos filhos se tornaram mais frequentes.

A Alienação Parental em regra está ligada ao rompimento dos relacionamentos conjugais, às separações dos pais, aos divórcios e ao fim das uniões estáveis. Porém, pode ocorrer alienação em lares nos quais as convivências e o relacionamento entre os genitores flui com tranquilidade também, não sendo incentivada apenas no fim das relações.

Assim, a Alienação Parental consiste justamente no processo de programar a criança para que odeie o outro genitor e, normalmente, é deflagrada sem nenhuma justificativa plausível. As manifestações ocorrem com um dos genitores fazendo campanha para difamar o outro, verifica-se uma verdadeira combinação de ensinamentos sistemáticos com intervenções prejudiciais e lesivas na vida das crianças, em seu modo de agir e de pensar (SCHAEFER, 2014).

Resta claro e inequívoco que a Alienação Parental é uma maneira do genitor alienante demonstrar seu desgosto e sua raiva pelo genitor alvo. O mesmo, utiliza-se dos mais variados artifícios para fragilizar a relação que une o genitor alvo dos filhos.

O objetivo da Alienação Parental muitas vezes é impedir a criança de conviver com o outro genitor o que fere o texto constitucional e impossibilita a criança de desenvolver laços de afetividade com aquele a família natural (SANTOS, 2013).

O termo foi inicialmente proposto por Alan Richard Gardner, chefe do Departamento de Psiquiatria Infantil da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade de Columbia, em Nova York, Estados Unidos da América, no ano de 1985, e assim conceituou a Síndrome de Alienação Parental como:

Um distúrbio da infância que aparece quase exclusivamente no contexto de disputas de custódia de crianças. Sua manifestação preliminar é a campanha denegritória contra um dos genitores, uma campanha feita pela própria criança e que não tenha nenhuma justificação. Resulta da combinação das instruções de um genitor (o que faz a “lavagem cerebral, programação, doutrinação”) e contribuições da própria criança para caluniar o genitor-alvo. Quando o abuso e/ou a negligência parentais verdadeiros estão presentes, a animosidade da criança pode ser justificada, e assim a explicação de Síndrome de Alienação Parental para a hostilidade da criança não é aplicável (GARDNER, 1985).

Gardner notou que um dos pais, notadamente o genitor que possuía a guarda do filho, agia de maneira consciente e inconsciente, programando a criança para que passasse a rejeitar o outro genitor – não guardião, e quando nascia a colaboração por parte do filho, a síndrome se instalava.

A partir disso, a criança alienada hostilizava e difamava o genitor alvo, podendo até apresentar um conjunto de sintomas característicos, tais como:

campanha de difamação, racionalizações pouco conscientes, pensamentos independentes, suporte ao genitor alienante, falta de coerência e ainda rejeição em relação aos amigos e familiares do genitor alvo (SCHAEFER, 2014, p. 18).

Após os estudos de Gardner, a alienação foi difundida na Europa, no início do século XXI por François Podevyn, despertando ainda grande interesse nas áreas de psicologia e do direito, justamente por se tratar de uma condição, ou seja, uma situação que se constrói na relação entre essas duas ciências.

O vínculo entre a criança e o genitor alienado será irremediavelmente destruído. Com efeito, não se pode reconstruir o vínculo entre a criança e o genitor alienado, se houver um hiato de alguns anos. A criança é levada a odiar e a rejeitar um genitor que a ama e do qual necessita (PODEVYN, 2001).

Assim, para Schaefer (2014, p.20), a partir das ideias de Podevyn, entende-se a Alienação Parental como um processo que consiste em programar uma criança para que odeie o outro genitor, sem nenhuma justificativa, fazendo uma espécie de campanha para desmoralização dele.

A teoria levada em consideração por muitos anos é de que a mulher sempre foi mais apta do que o homem para o cuidado com os filhos, atribuindo ao genitor a tarefa de subsistência econômica da família.

Contudo, a partir da década de 80, com o início da modernidade, ocorreu gradativamente uma transformação desses papéis, visto que as mulheres começaram a se preocupar com questões ligadas ao trabalho, ao seu crescimento profissional, passando a “competir” com os homens que, por sua vez, envolveram-se mais nas atividades familiares.

François Podevyn manifesta que a Alienação Parental se manifestará no ambiente da mãe, pois reconhece historicamente que a mulher é a mais indicada para exercer a guarda dos infantes:

A síndrome se manifesta, em regra, no ambiente da mãe das crianças, notadamente porque sua instalação necessita muito mais tempo e porque é ela que tem a guarda na maior parte das vezes. Todavia pode se apresentar em ambiente de pais instáveis, ou em culturas onde tradicionalmente a mulher não tem nenhum direito concreto (PODEVYN, 2001).

O psiquiatra e estudioso Gardner, como já demonstrado, foi o primeiro a nomear a “Síndrome de Alienação Parental” para se referir ao que descreve como distúrbio no qual a criança, em base contínua, deprecia e insulta um dos pais, sem nenhuma justificativa, apenas influenciada pelo outro cônjuge.

Maria Berenice Dias (2019) conceitua a Síndrome de Alienação Parental como:

[...] um transtorno psicológico que se caracteriza por um conjunto de sintomas pelos quais um genitor, denominado cônjuge alienador, transforma a consciência de seus filhos, mediante diferentes formas e estratégias de atuação, com o objeto de impedir, obstaculizar ou destruir seus vínculos com o outro genitor, denominado cônjuge alienado, sem que existam motivos reais que justifiquem essa condição. Em outras palavras, consistem num processo de programar uma criança para que odeie um de seus genitores sem justificativa, de modo que a própria criança ingressa na trajetória de desmoralização desse mesmo genitor.

Podemos concluir que a Síndrome de Alienação Parental pode ser definida como a formação psicológica negativa da criança ou do adolescente, praticada de forma agressiva por que tenha sua guarda, sejam genitores, avós ou qualquer outra pessoa, que cria obstáculos significativos à manutenção dos vínculos afetivos em relação aos seus genitores.

A síndrome da alienação parental e a alienação parental são conceitos interligados, entretanto, não se confundem. Para Gardner, como já demonstrado anteriormente, a Síndrome da Alienação Parental (SAP) seria referente à conduta do filho (e o quanto ele já foi afetado pela manipulação do alienador), enquanto a Alienação Parental, tão somente, diria respeito à conduta do genitor que desencadeia o processo de afastamento.

A Síndrome de Alienação Parental (SAP) é decorrente dos atos praticados pelo genitor provedor da guarda do filho, no sentido de influenciar a criança para que odeie e repudie, sem motivo algum, o outro genitor, mudando a seu entendimento por meio de diferentes estratagemas, com o intuito de bloquear, impossibilitar ou até mesmo acabar com os vínculos entre o menor e o pai não guardião (TORRES, 2018).

Para Ana Carolina Carpes Madaleno (2017), a Síndrome de Alienação Parental começa quando das disputas judiciais pela guarda do menor, visto que geralmente nos processos de dissolução da sociedade conjugal, podem ocorrer sentimento de rejeição, de abandono e desespero, momento em que aparece o medo de não ser mais importante para o outro. Nesse contexto, os pais usam os filhos como meio para atingir vingança contra o outro.

Em vista disso, para esclarecimento, Alienação Parental é o ato que diretamente interfere na formação psicológica da criança. É o afastamento do filho de um dos genitores, provocado pelo outro, em tese, titular da custódia.

Assim, em síntese, a diferença de Alienação Parental e Síndrome de Alienação Parental (SAP), é que a primeira se identifica como ato que interfere na formação psicológica da criança ou adolescente que é realizado por um dos genitores, com o objetivo de impedir o contato do filho com o pai não detentor da guarda. Enquanto, a síndrome caracteriza nos problemas psicológicos, emocionais e comportamentais do menor que, influenciado pelo pai alienador, se afasta de modo injustificado do genitor alienado.

Ainda, dando mais visão ao termo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a existência da Alienação Parental e registrou na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11).

Segundo consta em notícia publicada pelo IBDFAM (2018), o CID-11 entrará em vigor em 1º de janeiro de 2022.

A psicóloga forense Tamara Brockhausen (IDBFAM, 2019), membra do Task Force de especialistas mundiais (PASG) criada com o objetivo de incluir o termo Alienação Parental no CID-11 e no DSM-5 – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, esclarece que: “Não é verdade que o termo Alienação Parental estaria associado a um diagnóstico, nem a um índice numérico, mas ele é um sinônimo ou um descritivo de QE52.0 – problemas relacionais da criança com o cuidador”.

Para Ana Márcia Guimarães (IDBFAM, 2019), médica do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, o fato de categorizar no CID-11 oficializa o trabalho do profissional na ajuda às famílias, às crianças e aos adolescentes oferecendo uma rede de suporte maior para eles, de acompanhamento médico, acompanhamento psicológico, direito à reembolso de consulta e tratamentos diversos.

Esse termo não é uma palavra como outra qualquer, então o fato de que o manual registrou significa que a Organização Mundial de Saúde reconhece a existência desse fenômeno ou desse problema. Existe um reconhecimento internacional da OMS e do CID de que a alienação parental existe e ela é real. O CID está reconhecendo que a alienação parental causa um problema no desenvolvimento humano para as pessoas envolvidas e precisa de políticas públicas. A alienação parental é considerada (pelo CID) um problema relacional do cuidador com a criança e que leva a problemas do funcionamento, do desenvolvimento e que necessita de atenção, pesquisa e de políticas públicas (IDBFAM, 2019).

A Alienação Parental pode causar inúmeros efeitos negativos no desenvolvimento neurológico da criança. Segundo a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo (2019), neurocientista com PHD, com doutorado sanduíche na Universidade Harvard e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), qualquer tipo de dissolução conjugal, seja ela litigiosa ou consensual, gera estresse para a criança, isto porque modifica a relação familiar e a convivência que a criança tem com o pai e com a mãe.

Esse estresse pode ser controlado quando a criança tem uma estrutura familiar que lhe dê suporte afetivo, mostrando possíveis estratégias para superar a situação com equilíbrio, assim, o sintoma não leva nenhum prejuízo no desenvolvimento cerebral da criança (IDBFAM, 2019).

Ao contrário da situação acima:

Quando ocorre uma dissolução conturbada, ocorrendo a alienação parental, o nível de estresse é muito elevado e se torna intolerável, causando efeitos negativos e prejuízos na arquitetura cerebral, chamado de estresse tóxico na infância (IDBFAM, 2019).

As crianças e os adolescentes submetidos à Alienação Parental, no meio dessa psicodinâmica patológica, estão em estresse tóxico constante. O estresse tóxico que é o ambiente disfuncional, a médio e longo prazo pode trazer problemas de saúde mental para a criança como depressão infantil, transtorno de ansiedade.

As crianças podem ser vítimas de transtornos psicológicos e mentais devido ao estresse tóxico causado pela psicodinâmica patológica familiar da alienação parental (ARAÚJO, 2019).

Melissa Telles Barufi (2019), advogada e presidente da Comissão da Infância e Juventude do IBDFAM, afirma que a Lei 12.318/2010 foi originada por demanda social, que buscou equilibrar a participação de pais e mães na vida de seus filhos,

repudiando qualquer ato que pudesse ser considerado abuso contra o bem-estar psíquico de crianças e adolescentes.

Por fim, fica evidente que os conceitos de Alienação Parental e a Síndrome de Alienação Parental não se confundem, mas estão entrelaçados. Ainda que a Lei nº 12.318 de agosto de 2010 tenha optado por usar o termo Alienação Parental, devem os magistrados e demais operadores do direito conhecer a Síndrome e suas consequências nas crianças e adolescentes que sofrem estes abusos, o que será abordado nas próximas seções.