4 DA VISÃO JURISPRUDENCIAL
4.3 DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
Os Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, são organizados de acordo com os princípios e normas da constituição de cada estado. Esses tribunais são responsáveis por reexaminar as decisões de primeira instância ou assuntos que devam ser julgados diretamente pelos tribunais.
Ao todo são 27 Tribunais de Justiça no Brasil, um em cada unidade da Federação, cuja competência, como mencionado, é julgar recursos das decisões dos juízes de primeiro grau.
O Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul é órgão do Poder Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul, com sede na cidade gaúcha de Porto Alegre, sua capital, e jurisdição em todo o território estadual.
4.3.1 AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 50550467820208217000
O caso abaixo exposto, trata-se de um agravo de instrumento interposto na Comarca de Porto Alegre/RS, em uma ação de regulamentação de visitas avoengas, ou seja, visitação dos avós ao infante.
No caso em tela, indicou-se que, conforme laudos periciais juntados aos autos, não haveria anormalidade na conduta do genitor, nem na conduta dos avós paternos, o que sugeriria, em tese, possível alienação parental praticada pela genitora.
Contudo, conforme se extraiu dos autos, a genitora havia juntado relatórios psicológicos da profissional que acompanhava o infante, indicando comportamento alterado condizente com traumas de abuso sexual e maus tratos. Baseando-se nisso, a genitora requereu a suspensão das visitas tanto com o genitor quanto com os avós paternos.
Segue colacionada a jurisprudência:
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE REGULARIZAÇÃO DE VISITAS AVOENGAS. PEDIDO LIMINAR. INDEFERIMENTO. A CONTROVÉRSIA ENVOLVENDO AS VISITAS AO NETO, DE APENAS 3 ANOS DE IDADE, É DEVERAS DELICADA. DE UM LADO, TEM-SE LAUDOS PERICIAIS QUE NADA APONTAM DE ANORMAL TANTO NA CONDUTA DO PAI, QUANTO NA CONDUTA DOS AVÓS PATERNOS, ORA RECORRENTES, COM OS QUAIS O MENINO PARECE TER FORTE VÍNCULO AFETIVO, SUGERINDO ALIENAÇÃO PARENTAL POR PARTE DA MÃE. DE OUTRO LADO, A GENITORA, ORA AGRAVADA, TRAZ AOS AUTOS RELATÓRIO PSICOLÓGICO DA PROFISSIONAL QUE ACOMPANHA O MENINO, BEM COMO PARECER DO CRAI, OS QUAIS INDICAM QUE A CRIANÇA APRESENTA COMPORTAMENTO ALTERADO, CONDIZENTE COM TRAUMA DE ABUSO SEXUAL E MAUS TRATOS, E SUGEREM A SUSPENSÃO DAS VISITAS TANTO DO GENITOR QUANTO DOS AVÓS. QUER DIZER, A PROVA ESPECIALIZADA É TOTALMENTE DIVERGENTE. NESSE CONTEXTO E CONSIDERANDO O "PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO", APLICÁVEL AO DIREITO DE FAMÍLIA ESPECIALMENTE NA PROTEÇÃO DOS MENORES, E DIANTE DOS NOVOS E RECENTES LAUDOS ACOSTADOS, PRUDENTE MANTER O INDEFERIMENTO LIMINAR DAS VISITAS AVOENGAS, COMO DECIDIU O JUÍZO A QUO, A FIM DE PRESERVAR A SEGURANÇA E O BEM-ESTAR DO MENOR. ASSIM, POR ORA, FICA SUSPENSA A CONVIVÊNCIA AVOENGA PRESENCIAL E VIRTUAL. NEGARAM PROVIMENTO. UNÂNIME. (Agravo de Instrumento, Nº 50550467820208217000, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Luiz Felipe Brasil Santos, Julgado em: 15-04-2021).
Por fim, o Desembargador Relator Dr. Luiz Felipe Brasil Santos, entendeu por manter a decisão proferida em 1º grau, suspendendo a visitação, a fim de preservar
a segurança e o bem-estar do menor. Julgou considerando o princípio da precaução.
Os demais Desembargadores integrantes da Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul acompanharam o voto em unanimidade e negaram provimento ao recurso.
4.3.2 AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 50549843820208217000
O caso narrado trata-se de um agravo de instrumento interposto em ação de dissolução de união estável na Comarca de Porto Alegre/RS, agravando a decisão do juízo de 1º grau em relação a fixação de guarda unilateral materna.
O Desembargador Relator Rui Portanova entendeu que não há de que se dar provimento ao recurso, visto que o tema não fora decidido no juízo a quo. Entendeu, ainda, que não deveria ocorreu suspensão das visitas paternas conforme tutelado pela genitora, visto que não há provas nos autos que indicassem a necessidade de suspendê-las. Ainda, fora realizada avaliação psicossocial, pela via judicial, que alegava não haver indício de alienação parental ou perigo concreto à filha do casal, quando estivesse sob o cuidado paterno.
Analisamos a ementa:
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. GUARDA UNILATERAL. NÃO CONHECIMENTO. SUSPENSÃO DAS VISITAS PATERNAS-FILIAL.
DESCABIMENTO. GUARDA: NÃO SE PODE CONHECER O RECURSO QUANTO AO PEDIDO DE CONCESSÃO DE GUARDA UNILATERAL MATERNA, POIS TEMA NÃO DECIDIDO JUNTO AO GRAU DE ORIGEM PELA DECISÃO AGRAVADA. SUSPENSÃO DAS VISITAS PATERNAS:
CASO QUE NÃO MERECE REFORMA A DECISÃO AGRAVADA, POIS, POR ORA, NÃO HÁ PROVAS AOS AUTOS QUE INDIQUEM A SUSPENSÃO DAS VISITAS PATERNAS. PELO CONTRÁRIO, REALIZADA AVALIAÇÃO PSICOSOCIAL, POR VIA JUDICIAL, NÃO HOUVE QUALQUER INDÍCIO DE ALIENAÇÃO PARENTAL OU PERIGO/RISCO CONCRETO À MENOR QUANDO SOB OS CUIDADOS DO GENITOR.
CONHECERAM PARCIALMENTE DO RECURSO E, NA PARTE CONHECIDA, NEGARAM PROVIMENTO. (Agravo de Instrumento, Nº 50549843820208217000, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Rui Portanova, Julgado em: 08-04-2021).
Os demais Desembargadores integrantes da Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul conheceram, parcialmente, o recurso e, na parte conhecida, negaram provimento.
4.3.3 APELAÇÃO CRIMINAL Nº 70084664275
O caso criminal demonstrado trata-se de uma apelação criminal interposta na Comarca de Taquara/RS, onde o acusado teria sido denunciado pela prática de atos libidinosos contra sua enteada, que na época dos fatos possuía 04 anos de idade.
A tese arguida sustentou que a palavra da vítima não teria sido confirmada pelas testemunhas de defesa, sendo que afirmaram que a criança não teria sinais de abuso sexual. Ainda, as testemunhas inquiridas comprovaram que a genitora da menor possuía transtornos psiquiátricos, a qual teria induzido a vítima a acreditar no abuso, demonstrando prática clara de alienação parental.
A implantação de falsas memórias é característica da alienação parental, sendo um ato realizado pelo exercício abusivo da guarda.
As testemunhas no caso telado, afirmaram, ainda, que a denúncia do abuso surgiu quando o acusado passou a disputar a guarda da filha comum do casal, meia irmã da vítima.
Importante ressaltar que os casos de alienação parental não correm somente na esfera civil, como demonstra a jurisprudência abaixo colacionada:
Ementa: APELAÇÃO CRIMINAL. CRIME CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL.
ESTUPRO DE VULNERÁVEL. PADRASTO. CRIANÇA COM 04 ANOS NA DATA DOS FATOS. AUSÊNCIA DE PROVA SEGURA ACERCA DA OCORRÊNCIA DOS FATOS. ABSOLVIÇÃO MANTIDA. 1. O réu foi denunciado nos lindes do art. 217-A, por supostamente ter praticado atos libidinosos diversos da conjunção carnal contra sua enteada, criança que na época possuía apenas 04 anos de idade. 2. Os fatos que originaram a denúncia e que foram apurados no inquérito policial, não foram confirmados de forma satisfatória na fase judicial, ônus que incumbia à acusação. 3.
Observa-se que a palavra da vítima não foi confirmada pelas testemunhas arroladas pela defesa, que afirmaram que a criança não tinha sinais de ter sido abusada sexualmente, bem como comprovaram os transtornos psiquiátricos da genitora e a possibilidade de indução da vítima e de alienação parental. Ainda, afirmaram de forma categórica, que a denúncia de abuso somente ocorreu quando o réu passou a disputar a guarda da filha comum do casal, meia irmã da vítima. 4. Assim, inexistindo prova robusta para se ter certeza quanto à materialidade e autoria do delito, a dúvida insuperável leva à presunção de inocência do acusado, de acordo com o princípio do in dubio pro reo, impondo-se a absolvição do acusado, nos termos do art. 386, VII, do CPP. APELO MINISTERIAL DESPROVIDO.
UNÂNIME. (Apelação Criminal, Nº 70084664275, Sétima Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Glaucia Dipp Dreher, Julgado em: 14-12-2020).
Baseando-se no relatado, a Desembargadora Relatora Dra. Glaucia Dipp Dreher, alegou não existir prova robusta quanto a materialidade e autoria do delito
previsto no artigo 217-A do Código Penal e utilizou-se do princípio in dubio pro reo para absolver o acusado.
Os demais Desembargadores integrantes da Sétima Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul acompanharam o voto da Relatora, de forma unânime, em desprover a apelação ministerial.
4.3.4 APELAÇÃO CÍVEL Nº 70083723965
O caso trata de uma apelação interposta na Comarca de Osório/RS, da sentença que indeferiu o pedido de guarda formulado pelo genitor, fixando a guarda com a genitora. Ainda, a sentença reconheceu a prática de atos de alienação parental por ambos os genitores, aplicando-lhes medida de advertência e acompanhamento psicológico, nos termos do artigo 6º da Lei 12.318/2010.
No recurso, o genitor alegou que tudo se tratava de artifícios usados pela genitora da menor para prejudicar sua relação com a filha, argumentando que tal prática evidenciava a prática de alienação parental.
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INVERSÃO DE GUARDA CUMULADA COM DECLARATÓRIA DE ALIENAÇÃO PARENTAL.
CONSTATAÇÃO. ALTERAÇÃO DA GUARDA. PREVALÊNCIA DOS PRECÍPUOS INTERESSES DO MENOR. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA CONFIRMADA. 1. A alienação parental consiste na interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um ou ambos os genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. Caso concreto em que o conjunto probatório trazido aos autos, especialmente os estudos sociais e avaliações psicológicas e psiquiátrica, identificaram a ocorrência de alienação parental. 2. As alterações de guarda, em regra, devem ser evitadas, na medida em que acarretam modificações na rotina de vida e nos referenciais dos menores, e, por conseguinte, geram transtornos de toda ordem. As crianças necessitam de segurança para viver e se desenvolver, e seu bem-estar deve se sobrepor, como um valor maior, a qualquer interesse outro. A julgar pelos elementos constantes nos autos, a genitora apresenta plenas condições de continuar exercendo a guarda da filha menor, garantido o direito de visitas ao genitor. Não se verificam, assim, razões plausíveis para que seja operada reforma na sentença, cuja solução é a que melhor atende aos interesses da infante. APELAÇÃO DESPROVIDA.
(Apelação Cível, Nº 70083723965, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sandra Brisolara Medeiros, Julgado em: 10-12-2020).
Entretanto, a Desembargadora Relatora Sandra Brisolara Medeiros entendeu por manter a guarda como fixada pelo juízo de 1º grau, restando fixada com a
genitora, pois plenamente capaz de continuar exercendo a guarda da filha menor.
Assim, votou por desprover a apelação interposta e teve seu voto acompanhado dos demais magistrados integrantes da Sétima Câmara Cível do TJRS.