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CAPÍTULO III - CESSÃO FIDUCIÁRIA

3.2 Disposições Gerais sobre a Cessão

3.2.1 Conceito, Natureza Jurídica, Tipos e Sujeitos

Como bem observa Orlando Gomes, a cessão de crédito é um negócio translativo,

pelo qual o credor originário transfere seu direito, praticando assim ato de disposição.163

161Cessão de Créditos, p. 47.

162 Luís Manuel Teles de Menezes Leitão, Cessão de Créditos, p. 129.

163Introdução ao Direito Civil, p. 330. No mesmo sentido, Pontes de Mirando, Tratado de Direito Privado – Parte Especial – Tomo XXIII, 3ª ed., p. 267.

Atualmente, a cessão está regulada nos artigos 286 a 298 do Código Civil no Título que trata da Transmissão das Obrigações.

Para Serpa Lopes a cessão de crédito possui natureza contratual não em sentido estrito, por representar um ato de disposição por força do qual o crédito sai do patrimônio do cedente para se incorporar no do cessionário. Por ser contrato, a cessão estaria subordinada a todos os princípios reguladores do contrato, precipuamente na parte relativa

à sua formação, aos vícios de vontade, consentimento e capacidade.164

No mesmo sentido, Silvio de Salvo Venosa entende que a natureza contratual do negócio é patente. É um contrato simplesmente consensual, mas por vezes a necessidade

obrigará o escrito particular ou a forma pública.165 Da mesma forma, Orlando Gomes

entende que o contrato de cessão é simplesmente consensual, não havendo necessidade de tradição do documento para sua perfeição, bastando o acordo de vontades entre cedente e cessionário. Em alguns casos, porém, a natureza do título exige a entrega, assimilando-se

aos contratos reais.166 Por outro lado, Pontes de Miranda defende que a declaração de

vontade da cessão não supõe contrato167.

Alguns doutrinadores classificam a cessão como negócio jurídico abstrato, pois independe do negócio jurídico subjacente ou sobrejacente (cessão de crédito para servir de garantia a negócio jurídico de outrem, ou do próprio cedente). Para esses doutrinadores no fenômeno da cessão seria possível identificar dois atos distintos, quais sejam: a

transferência do crédito (cessão propriamente dita) e o contrato que lhe dá causa. 168

No direito brasileiro, Pontes de Miranda, influenciado pelo direito alemão, entendeu que a cessão de crédito é negócio jurídico bilateral, porém a cessão de crédito independe dele, ou da sua existência. A manifestação da vontade é elemento de acordo de

164Curso de Direito Civil, v. II, p. 412.

165Direito Civil: teoria geral das obrigações e teoria geral dos contratos, v. II, 8ª ed. p. 144.

166Obrigações, 11ª ed., p. 205.

167Tratado de Direito Privado – Parte Especial – Tomo XXIII, 3ª ed., p. 270.

168 Nesse sentido, Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado – Parte Especial – Tomo XXIII, 3ª ed., p. 269; Ennecerus, Tratado de Derecho Civil – Tomo II – Derecho das Obligaciones, 2ª ed., trad. por Blás Pérez González e José Alguer, p. 382; Andreas Von Tuhr, Tratado de las Obligaciones,Tomo II, trad. por W. Rocesp, p. 289, Luís Manuel Teles de Menezes Leitão, Cessão de Créditos, p. 446.

transmissão, e esse acordo, semelhante ao acordo de transmissão da propriedade imobiliária ou mobiliária, opera a transmissão sem precisar de qualquer outro elemento (e.g., na transferência da propriedade imobiliária, o registro; na transferência da

propriedade mobiliária, a tradição, ou outro ato, inclusive o registro).169

Para outros autores, a cessão é negócio jurídico causal dada a íntima relação que se observa entre o ato que transmite o crédito e o negócio jurídico subjacente que lhe deu

causa.170 Esta posição nos parece a mais adequada em face do ordenamento jurídico

brasileiro.

Interessante é a posição adotada por Pestana de Vasconcelos que não considera a cessão como um negócio jurídico em si, com uma causa própria. Para ele, o fato jurídico que desencadeia a transmissão do crédito é o próprio contrato onde a transferência desse direito está incluída, e não em qualquer contrato de cessão posterior. A cessão do crédito resulta diretamente do seu contrato-base, que poderá ser uma compra e venda, uma doação, um mútuo, etc. Assim, o referido autor não concebe a cessão como um negócio abstrato, pois a cessão seria um mero efeito de um negócio causal e nem sequer seria um negócio em si.171

Na cessão há uma alteração subjetiva da obrigação, indiretamente realizada, porque se completa por via de uma transladação de força obrigatória, de um sujeito ativo para

outro sujeito ativo, mantendo-se em vigor o vinculum iuris originário. Difere-se da

novação e do pagamento com sub-rogação, em que não opera a extinção da obrigação, mas, ao revés, permanece esta viva e eficaz. Apenas a soma dos poderes e das faculdades

inerentes à razão creditória, sem modificação no conteúdo ou natureza da obligatio,

169 Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado – Parte Especial – Tomo XXIII, 3ª ed., p. 268.

170 Nesse sentido, Orlando Gomes, Obrigações, 11ª ed., p. 206; Clóvis do Couto e Silva, Cessão de Crédito.

In: Revista dos Tribunais, ano 77, Dezembro de 1988, v. 638, p. 10-14, p. 11; Maria Izolina Schaurich Alster,

A cessão de crédito: natureza jurídica. In: Revista dos Tribunais, ano 81, Agosto de 1992, v. 682 p. 39-49, p. 47; Rodrigo Xavier Leonardo, A cessão de créditos: reflexões sobre a causalidade na transmissão de bens no direito brasileiro, p. 359. In: JABUR, Gilberto Haddad; PEREIRA JR., Antonio Jorge (Coords.). Direito dos Contratos II. São Paulo: Quartier Latin, 2008; Vincenzo Panuccio, La cessione volontaria dei crediti: nella teoria del trasferimento, p. 65.

171A cessão de créditos em garantia e a insolvência: em particular da posição do cessionário na insolvência do cedente, pp. 375 e 377, nota 736.

desloca-se da pessoa do cedente para a daquele que lhe ocupa o lugar na relação obrigacional.172

Os sujeitos da cessão são o cedente, quem cede o crédito, e o cessionário, quem

aceita o crédito. A cessão de crédito pode ser convencional, quando decorre de acordo de

vontades entre o cedente e cessionário; legal, quando surge em virtude de lei; e judicial,

quando se apresenta como conseqüência necessária de uma sentença judicial, que pode ter sido homologatória de uma partilha ou adjudicatória ao autor de um crédito existentes em favor do réu.173

Para efetivar-se a cessão, o cedente deverá ter capacidade para a prática dos atos da vida civil e deverá ter o poder de disposição do objeto a ser cedido. Exceto quando a cessão é legal ou judicial, que independe da assinatura de instrumento público ou particular, a cessão convencional poderá ser feita por instrumento público ou instrumento particular revestido das solenidades previstas no parágrafo 1º do artigo 654 do CC, isto é, deverá conter a indicação do lugar onde foi celebrado, a qualificação das partes, a data e o objetivo da cessão.

Quanto à necessidade de registro do instrumento de cessão no Registro de Títulos e

Documentos, Caio Mario da Silva Pereira174 afirma que o registro da cessão feita por

instrumento particular é requisito essencial à sua eficácia, pois que é ineficaz em relação a terceiros, a não ser que revista de forma pública. Importante mencionar que o artigo 129, item 9º da Lei nº 6.015, de 31.12.1973 (“Lei de Registros Públicos”) dispõe que estão sujeitos a registro, no Registro de Títulos e Documentos, para surtir efeitos em relação a terceiros os instrumentos de cessão de direitos e de créditos, de sub-rogação e de dação em pagamento.

172 Caio Mario da Silva Pereira, Instituições de Direito Civil, v. 2 – Teoria Geral das Obrigações, 20ª ed., p. 361. No mesmo sentido, Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado – Parte Especial – Tomo XXIII, p. 835.

173 Arnold Wald, Curso de Direito Civil Brasileiro – Obrigações e Contratos, 2ª ed., p. 144.

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