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CAPÍTULO III - CESSÃO FIDUCIÁRIA

3.9 Situação Patrimonial da Cessão Fiduciária de Créditos e de Títulos de Crédito

3.9.2 Patrimônio Geral e Especial (ou Separado)

Como já mencionado no item 3.9.1 acima, o patrimônio geral é o complexo de relações jurídicas de uma pessoa, compreendendo-se tanto os elementos ativos como os passivos. O patrimônio geral do devedor responde pelo cumprimento de suas obrigações, salvo as restrições estabelecidas na lei, nos termos do artigo 591 do CPC. Significa, dizer, portanto, que a separação patrimonial deverá ser prevista em lei, por ser uma exceção ao princípio geral de que a totalidade do patrimônio responde pelas dívidas do devedor. Este patrimônio especial é também denominado pela doutrina como patrimônio separado ou

autônomo.286

284 Fernando Noronha, Patrimônios especiais: sem titular, autônomos e coletivos. In: Revista dos Tribunais, v. 747, ano 87, jan 1998, p. 17.

285 Ibid., pp. 18 e 19.

286 Conforme ensina Orlando Gomes (Introdução ao Direito Civil, 11ª ed., p. 203 e nota 6) a idéia de afetação explica a possibilidade da existência de patrimônios especiais, consistente numa restrição pela qual

Pontes de Miranda observa que todo patrimônio especial tem um fim que lhe traça esfera própria e esse fim pode ser fixado ou por manifestação de vontade ou por lei, é e

dessa especialização que nascem direitos e obrigações inerentes a esse patrimônio.287

Ao discorrer sobre o patrimônio separado, Caio Mario sustenta que ele tem sua fonte essencial na lei, pois não é ele possível senão quando imposto ou autorizado pelo direito positivo, aparecendo toda vez que certa massa de bens é sujeita a uma restrição em

benefício de um fim específico.288

No mesmo sentido, Melhim Chalhub defende que a constituição de massas patrimoniais separadas só é admitida nas hipóteses explicitamente autorizadas por lei e com as limitações que a lei prescrever, pois a separação de certos bens do patrimônio de uma pessoa pode, evidentemente, implicar redução da garantia geral dos credores

representada pelo patrimônio geral.289

Christoph Fabian também defende que embora as partes possam dar a um bem uma determinada finalidade, esta estipulação individual não poderá ter efeitos contra terceiros, mas somente entre os dois contratantes. A liberdade de se constituir arbitrariamente um patrimônio separado prejudicaria essencialmente os credores (como terceiros) no seu interesse legítimo em obter uma garantia pelos bens do devedor. Finalmente, um devedor

poderia eximir parte de seu patrimônio da execução por credores.290

Por outro lado, há quem defenda que o patrimônio separado poderia ser constituído por vontade das partes. Esta é a opinião defendida por Orlando Gomes, que sustenta nada justificar a proibição de se constituir um patrimônio separado. Dizer-se que ninguém pode, por ato de sua vontade, limitar a responsabilidade com eficácia absoluta, é desconhecer que essa possibilidade está admitida em nosso Direito pelo reconhecimento de outros processos técnicos.291

determinados bens se dispõem para servir a fim desejado, limitando-se, por este modo, a ação dos credores. Orlando Gomes esclarece que a idéia de afetação foi enunciada pela primeira vez por Brinz para explicar a natureza da pessoa jurídica (Zweckvermogenstheorie).

287Tratado de Direito Privado, Tomo V, p. 379.

288Instituições de Direito Civil, v. I, 21ª ed., p. 399.

289Negócio Fiduciário, 4ª ed., p. 72.

290Fidúcia: negócios fiduciários e relações externas, p. 226.

No mesmo sentido, Francisco Eduardo Loureiro diz que a propriedade fiduciária constitui patrimônio de afetação, porque despida de dois dos poderes federados do domínio – jus utendi e fruendi; que se encontram nas mãos do devedor fiduciante. O credor

fiduciário tem apenas o jus abutendi e, mesmo assim, sujeito à condição resolutiva,

destinado, afetado a somente servir de garantia ao cumprimento de uma obrigação.292

Como bem observa Larenz, a função do patrimônio separado é a de satisfazer primordialmente ou de modo exclusivo os credores ou um determinado grupo de credores. O referido autor observa que a administração de herança e o concurso sucessório têm por objeto especificamente a satisfação dos credores hereditários. Há casos em que pretende-se separação do patrimônio para a formação de um patrimônio especial ou sua conservação em favor de um sucessor. Por fim, a separação patrimonial ocorreria nos regimes matrimoniais em que os frutos de certos bens particulares passam a ser comuns enquanto os de outros bens, também não comunicáveis, permanecem sob a titularidade de apenas um dos cônjuges.293

Fernando Noronha divide os patrimônios especiais em absoluta e relativamente independentes. Os patrimônios especiais absolutamente independentes são aqueles rigorosamente separados do geral, por isso com duas características: a) irresponsabilidade deles por qualquer dívida que não se relacione com a finalidade a que cada um está afetado; b) irresponsabilidade de qualquer outro patrimônio pelas dívidas incluídas no passivo de cada um daqueles. Já os patrimônios especiais relativamente independentes do geral podem ser divididos em dois grupos: os que só respondem por dívidas relacionadas com a sua função específica, ou seja, com a finalidade com vista à qual se fez a sua afetação, mas onde também já há outros patrimônios (o geral, ou até outros especiais) respondendo por essas mesmas dívidas; e os que só respondem em princípio pelas próprias

dívidas, mas, podendo, subsidiariamente, responder por encargos de outros patrimônios.294

292 In: PELUSO, Cezar. (Coord.). Código Civil Comentado: doutrina e jurisprudência, 3ª ed., p. 1.372.

293Derecho Civil: parte II, traduzido do alemão para o espanhol por Miguel Izquierdo y Macías-Picavea, pp. 414 e 415.

294Patrimônios especiais: sem titular, autônomos e coletivos. In: Revista dos Tribunais, v. 747, ano 87, jan 1998,, pp. 23 e 24.

Von Tuhr atribui uma série de características ao patrimônio especial. Observa o referido autor que a situação peculiar do patrimônio especial decorre dos fins especiais que a determina. Já o patrimônio geral serve a fins gerais. Os patrimônios especiais estão afetados ao fim de sua liquidação: o titular ou um representante especial devem empregá-lo à satisfação de uma determinada classe de credores. O patrimônio separado pode ser administrado por outra pessoa que não o seu titular. Os elementos que compõem o patrimônio especial são fixados por lei ou por negócio jurídico, todos os demais integram o patrimônio geral. A lei não estabelece de maneira fixa os limites entre patrimônio especial e geral. Em certos casos permite-se aos interessados transferir os bens que integram o patrimônio especial para o geral. O patrimônio especial também pode ter um passivo ao lado do ativo, não sendo certo falar-se em “obrigações do patrimônio especial”, pois o obrigado seria o titular do patrimônio, ou aquele que exerce a sua administração, sendo certo que o patrimônio especial responderá pelas suas obrigações em caso de inadimplemento. Por fim, adverte o referido autor a possibilidade de haver relações

jurídicas entre o patrimônio geral e o especial.295

3.9.3 Regime Patrimonial dos Créditos Cedidos Fiduciariamente: patrimônio geral ou

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