• Nenhum resultado encontrado

O CONCEITO PRELIMINAR DE CURSOS E O ÍNDICE GERAL DE

No documento Revista Estudos nº 38 | ABMES (páginas 47-50)

CURSOS DA IES NO CONTEXTO

DO SISTEMA NACIONAL DE

AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO

SUPERIOR (*)

INTRODUÇÃO

Em abril de 2004, após intenso debate no Congresso Nacional, foi sancionada pelo Presi- dente da República, Luis Inácio Lula da Silva, a Lei n.º 10.861, que instituiu o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes).

Trata-se de um marco histórico, pois a avaliação da educação brasileira adquiriu, pela primeira vez, amparada por Lei específica, um caráter sistêmico, integrando os momentos e os diferentes instru- mentos de avaliação em torno de uma concepção global única e criando condições mais adequadas para o uso dos resultados nos processos regulatórios.

Acreditava-se que a instituição da Lei do Sinaes traria uma importante e necessária mudança, qual seja, a superação de uma lógica de avaliação fragmentada, classificatória e de verificação, realizada verticalmente pelo Ministério da Educação (MEC), e a promoção de uma análise sistemática e

(*) O presente trabalho contou com a colaboração dos professores Celso da Costa Frauches, Cleide Nébias, Daniel Cavalcante Silva, Flávio Colaço, Letícia

Suñé, Marcelo Rosa, Sérgio Henrique Cabral Santana.

1 Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Reitora da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp). Membro da Comissão Especial da ABMES para projetos sobre avaliação. [email protected]

2 Consultor Jurídico do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, da ABMES e do Semesp. Presidente da Associação Brasileira de Direito Educacional. Sócio da Covac Advogados e da Covac Educação e Soluções (Abrade). [email protected]

3 Economista pela Universidade de São Paulo (USP). Diretor Executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp). [email protected]

integrada dos processos avaliativos de instituições, de cursos e do desempenho dos estudantes, possibilitando, dessa forma, a consolidação da qualidade da educação superior.

Mas a realidade é outra. O Sistema preconizado na Lei está se desintegrando, pois a regulação está se sobrepondo à avaliação. A Lei do Sinaes estabelece no parágrafo único do art. 2.º que o referencial básico dos processos de regulação e supervisão é o resultado da avaliação de institui- ções, de cursos e de desempenho dos estudantes, considerando, inclusive, as propostas da avaliação interna e o uso de seus resultados tanto para indicar formas de qualificar o trabalho na instituição quanto para ser um dos indicadores no processo de avaliação externa.

No início do mês de agosto do presente ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacio- nais Anísio Teixeira (Inep), autarquia federal vinculada ao Ministério da Educação, que tem a fun- ção de promover estudos, pesquisas e avaliação sobre o Sistema Educacional Brasileiro, publicou os resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2007.

O Enade, parte integrante do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), é regulamentado pela Portaria MEC n.º 107, de 22 de julho de 2004, e tem o objetivo de aferir o rendimento dos alunos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências, conforme explica o MEC4.

Ao publicar os resultados do Enade, o Inep passou a divulgar, também, o Conceito Preliminar de Cursos (CPC), criado por meio da Portaria Normativa MEC n.º 4, de 05 de agosto de 2008. De acordo com o Ministério da Educação, as variáveis adotadas na composição do CPC foram extraídas do Enade de 2007, incluindo o Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD), de dados retirados do questionário socioeconômico respondido pelos alunos e do Cadastro Docente.

Em seguida, o MEC instituiu o Índice Geral de Cursos da Instituição de Educação Superior (IGC), criado por meio da Portaria Normativa MEC n.º 12, de 05 de setembro de 2008. O IGC é a média ponderada dos conceitos dos cursos de graduação e pós-graduação da instituição de ensino superior (IES). Para ponderar os conceitos, o IGC considera a distribuição dos alunos da IES entre os dife- rentes níveis de ensino (graduação, mestrado e doutorado) e seu resultado, segundo o MEC, será adotado, entre outros elementos e instrumentos, como referencial orientador para as Comissões de Avaliação Institucional.

49 O CONCEITO PRELIMINAR DE CURSOS E O ÍNDICE GERAL DE CURSOS

DA IES NO CONTEXTO DO SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR

ANA MARIA COSTA DE SOUSA JOSÉ ROBERTO COVAC RODRIGO CAPELATO

Compõem o IGC os resultados dos cursos de graduação, expressos pelo CPC, e dos cursos de pós- graduação stricto sensu, expressos pelos conceitos atribuídos pela Coordenação de Aperfeiçoa- mento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O resultado final está em valores contínuos (de 0 a 500) e em faixas (de 1 a 5). Cabe dizer que nas instituições sem cursos ou programas de pós- graduação stricto sensu avaliados pela Capes, o IGC é simplesmente a média ponderada dos cursos de graduação, apurada por meio dos CPC. A explicação dos cálculos do IGC é demonstrada por meio de Nota Técnica emitida pelo Inep e os resultados destes índices foram amplamente divulga- dos pela mídia nacional, com o ranking explícito das instituições. (ver página...)

O objetivo do presente trabalho é demonstrar a inconsistência e a ilegalidade das atuais regras definidas pelo MEC. As instituições de ensino superior particulares sempre estiveram dispostas a cumprir o que dispõe o inciso II, do art. 209 da Constituição Federal, que define como condição para o funcionamento do ensino superior a autorização e a avaliação de qualidade pelo Poder Público. Além do cumprimento do aspecto legal, as IES acreditam na importância da avaliação, evidenciada com as inúmeras mobilizações, estudos e providências realizadas por suas representações com o objetivo de assegurar o cumprimento do papel institucional às exigências da avaliação.

Um exemplo é dado pelas associações que representam as IES particulares, como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp).

A ABMES foi pioneira em trazer a avaliação para o foco das discussões, antecipando-se, inclusive, ao próprio Programa de Avaliação das Universidades Brasileiras (Pauib), quando criou o Instituto Brasileiro de Qualidade do Ensino Superior (Ibqes), “visando a avaliar e a promover a melhoria da qualidade do ensino superior”. Posteriormente o tema manteve-se na ordem do dia, culminando com as contribuições que a ABMES ensejou por ocasião das polêmicas propostas que precederam a criação do Sinaes.

De 1983 a 2008, a ABMES realizou inúmeros seminários e conferências sobre o assunto, totalizando setenta e sete eventos. O Semesp, da mesma forma, discutiu o tema em trinta e seis eventos reali- zados no período 2000/2008, além de publicar nas últimas cem edições da Revista Ensino Superior, quarenta e nove reportagens sobre o tema.

Os argumentos de análise que compõem o presente texto evidenciam que as atuais medidas tomadas pelo Ministério da Educação distanciam-se do conceito de avaliação e dos princípios preco- nizados pelo Sinaes, apresentam fragilidades técnicas e descumprem a legislação no que se refere ao tema.

No documento Revista Estudos nº 38 | ABMES (páginas 47-50)