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CONCEITOS CONSTITUCIONAIS AUTÔNOMOS E RECEPCIONADOS

5 CONCEITOS CONSTITUCIONAIS

5.4 CONCEITOS CONSTITUCIONAIS AUTÔNOMOS E RECEPCIONADOS

Partindo da premissa de que os conceitos constitucionais verdadeiramente existem e, influenciado pelas ideias de RUY BARBOSA NOGUEIRA361, ANDREI PITTEN VELLOSO estabelece

um diferenciação entre conceitos constitucionais “recepcionados” e “autônomos”. De acordo com o referido autor, os conceitos autônomos são aqueles definidos pela própria Constituição e, embora possam ser objeto de regulamentação, recebem uma primeira e decisiva caracterização no texto constitucional. Os conceitos recepcionados, por sua vez, são aqueles já existentes antes da promulgação do texto constitucional, tanto em outros diplomas jurídicos (conceitos recepcionados jurídicos), como no uso comum do povo ou em sentido técnico (conceitos recepcionados extrajurídicos).362

Assevera ainda que existe uma presunção de incorporação, pela Constituição, dos conceitos preexistentes de uso linguístico geral, impondo ao intérprete a tarefa de confirmação dessa recepção a partir de uma análise sistemática. Quando não houver a confirmação da referida presunção, estaremos diante de um conceito autônomo.363

Cabe ao intérprete, com base na proposta metodológica elaborada por LARENZ, identificar inicialmente se o signo a ser interpretado já foi definido na própria Constituição.

Em caso de confirmação, torna-se desnecessária a análise acerca do uso do referido signo na linguagem geral (de uso comum do povo) ou específica (jurídica) para fins de obtenção do “sentido literal” e consequente construção do “sentido literal possível” em face do “contexto significativo da lei”. Neste caso, a obtenção do “sentido literal” (ponto de partida do processo interpretativo) será obtido a partir da própria denotação constitucional. A título de exemplo, tomemos o art. 12 da CF/88, onde há uma definição pela própria constituição do signo “brasileiro nato”. Neste caso, a própria denotação constitucional restringe o trabalho do intérprete na obtenção do “sentido literal”.

Uma vez constatada a inexistência, no texto constitucional, de um “conceito autônomo”, deve o intérprete examinar se o signo preexistente na linguagem de uso comum

361 NOGUEIRA, Ruy Barbosa. Da interpretação e aplicação das leis tributárias. 2. ed. São Paulo: José

Bushatsky, 1974, p. 48-50.

362 VELLOSO, Andrei Pitten. Conceitos e competências tributárias. São Paulo: Dialética, 2005, p. 262. 363 VELLOSO, Andrei Pitten. Conceitos e competências tributárias. São Paulo: Dialética, 2005, p. 331.

foi recepcionado pela Constituição ou se ocorreu alguma alteração, com a consequente positivação de um conceito autônomo. O certo é que o legislador infraconstitucional não é livre para atribuir significados aos signos utilizados pela Constituição.

Não havendo tal denotação pelo texto constitucional, estaremos diante de um “conceito recepcionado”, devendo o intérprete buscar o “sentido literal” do signo nos usos linguísticos (geral e especial) e, a partir daí iniciar o processo hermenêutico de obtenção do significado. Isso não significa, entretanto, que o legislador infraconstitucional, seja livre para atribuir significados aos signos utilizados pela constituição, devendo valer-se de uma metodologia adequada para a correta identificação do conceito recepcionado pela constituição – preexistente à época de sua promulgação.

Neste caso, o intérprete poderá se deparar com as seguintes hipóteses: a) identificação de mais de um sentido no uso linguístico geral (não jurídico); b) identificação de um sentido no uso linguístico geral (não jurídico) e outro no uso linguístico especial (jurídico); c) identificação de mais de um sentido no uso linguístico especial (jurídico).

Na primeira situação (existência de mais de um sentido no uso linguístico geral), devem ser examinadas as variadas possibilidades em face do contexto de significado, com a consequente obtenção de mais de um “sentido literal possível”, sendo que a obtenção do conceito constitucional do signo deverá levar em consideração a finalidade da norma a ser construída, os princípios constitucionais tributários, valendo-se dos critérios teleológico e sistemático de interpretação.

Na segunda situação (existência de um sentido no uso linguístico geral e outro no uso linguístico especial), na obtenção do sentido “literal”, o intérprete deverá optar pelo sentido existente no uso especial (jurídico), em razão da unidade do sistema jurídico, abordado em capítulo anterior. De acordo com os ensinamentos de LARENZ, “os termos que

obtiveram na linguagem jurídica um significado específico, como, por exemplo, contrato, crédito, impugnação, nulidade de um negócio jurídico, herança, legado, são usados nas leis, na maioria das vezes, com este significado especial”.364

Na terceira e última situação (existência de mais de um sentido no uso linguístico especial), o intérprete deverá, inicialmente – também em respeito à unidade e à ordenação do

364 LARENZ, Karl. Metodologia da ciência do direito. Trad. José Lamego. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste

sistema jurídico365 - levar em consideração o critério hierárquico, tomando como “sentido literal”, aquele que seja extraído do diploma hierarquicamente superior. Tomemos como exemplo uma lei que atribua um significado “x” para o signo “renda” e uma instrução normativa da Receita Federal do Brasil que atribua, para o mesmo signo, um significado “y”. Neste caso, o intérprete deverá eleger como ponto de partida do processo interpretativo (“sentido literal”), o significado “x”, por estar albergado em um diploma normativo hierarquicamente superior. Se, entretanto, os usos linguísticos especiais (com sentidos diversos) forem decorrentes de diplomas normativos de igual hierarquia, deve o intérprete percorrer os demais caminhos propostos por LARENZ, com a construção dos sentidos literais possíveis em face do “contexto significativo da lei” e, em seguida, examinar as possibilidades identificadas levando-se em consideração a finalidade da norma a ser construída, os princípios constitucionais tributários, valendo-se, para tanto, dos critérios teleológico e sistemático de interpretação.

Cabe ao intérprete, em face de cada signo constitucional, examinar se houve a recepção, pela constituição, do significado preexistente na ordem jurídica ou a alteração do referido significado (positivação de um conceito autônomo), a partir da interpretação sistemática da nova ordem jurídica. Neste último caso, entretanto, o legislador infraconstitucional não é livre para atribuir aos signos utilizados pela constituição qualquer significado, devendo obediência ao sistema.

Assim, a incorporação, pela Constituição, de conceitos preexistentes na ordem jurídica não significa um engessamento normativo, pois resta assegurado ao legislador constituinte a possibilidade de renúncia a significados preexistentes no ordenamento jurídico e positivação de conceitos autônomos. O que não se admite é a presunção de que a Constituição tenha positivado os conceitos autônomos. A presunção é sempre a de incorporação de conceitos preexistentes no ordenamento jurídico. Sempre que houver renúncia a estes, a Constituição deve prever um enunciado expresso nesse sentido, prescrevendo uma nova significação para o signo utilizado.

No caso específico do ISS, deve-se perquirir se o signo “serviço”, utilizado pelo constituinte, configura um conceito autônomo ou preexistente na ordem jurídica e

365 BRITO, Edvaldo. Limites da revisão constitucional. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1993, p.

incorporado pela Constituição Federal de 1988. O que não se pode admitir, em hipótese alguma, é a definição do referido conceito pelo legislador infraconstitucional..