2 A TUTELA DA BIODIVERSIDADE NO ÂMBITO DO DIREITO
3.1 A Medida Provisória nº 2.186-16/01
3.1.1 Conceitos fundamentais
Antes da análise propriamente dita da legislação supracitada, é de fundamental importância a compreensão de alguns conceitos-chave. O primeiro deles é o de patrimônio genético, o qual pode ser definido como a informação de origem genética, obtida a partir do todo ou de parte de determinado espécime56. Cristiane Derani explica que o conceito não se refere a um determinado indivíduo biológico, mas ao conteúdo genético que permite que ele seja o que é, constituindo um importante meio para a compreensão de suas características.57 Trata-se, portanto, de um bem jurídico informacional, de grande valor econômico, responsável por diversas inovações científicas, conforme explanado no item 2.2.
55 A MP 2.186-16/01 foi vinculada à Emenda Constitucional nº 32/01, que proibiu a reedição de medidas provisórias e estabeleceu, em seu artigo 2º, que aquelas editadas em data anterior à publicação da emenda continuariam em vigor até que medida provisória ulterior as revogasse ou até deliberação definitiva do Congresso Nacional. Dessa forma, a medida provisória em questão possui vigência indeterminada, enquanto for conveniente aos membros do legislativo, o que constitui um flagrante abuso jurídico. De acordo com Pedro Lenza, “resta ao Juciciário apreciar a nova sistemática, afastando-a, pois, assim permanecendo, ter-se-á, mais uma vez e disfarçadamente, uma aprovação por decurso de prazo. Conforme já declarado por alguns parlamentares, é humanamente impossível apreciar todas as medidas provisórias, implicando, pela regra definida, a sua manutenção tendo em vista a sua vigência indeterminada. Não podemos deixar de consignar o nosso repúdio a esta nova regra que, de certa forma, implica a perpetuação das medidas provisórias em vigor antes da publicação da aludida emenda constitucional”. Fonte: LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 13 ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 434 – 435.
56 “Artigo 7º, I da MP nº 2.186-16/01: “patrimônio genético: informação de origem genética, contida em amostras do todo ou de parte de espécime vegetal, fúngico, microbiano ou animal, na forma de moléculas e substâncias provenientes do metabolismo destes seres vivos e de extratos obtidos destes organismos vivos ou mortos, encontrados em condições in situ, inclusive domesticados, ou mantidos em coleções ex situ, desde que coletados em condições in situ no território nacional, na plataforma continental ou na zona econômica exclusiva.” Texto completo disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/mpv/2186-16.htm>. Acesso em: 02 de junho de 2013.
57 DERANI, Cristina. Estudos sobre o acesso aos recursos genéticos da biodiversidade, conhecimentos tradicionais associados e repartição de benefícios: interpretação da medida provisória n. 2.186-16/2001. 1ª ed. Florianopolis: Funjab, 2012. p. 14.
Interessante destacar que o ordenamento jurídico brasileiro optou por essa terminologia em detrimento daquela adotada pela CDB. Os conceitos trazidos pela Convenção são o de material genético, que seria todo material de origem vegetal, animal, microbiana ou outra, que contenha unidades funcionais de hereditariedade; e o de recurso genético, que remete ao valor econômico desse material. Acredita-se que o conceito adotado pela Constituição seja inadequado, visto que se refere, apenas, à informação contida dentro do material genético, enquanto a definição trazida pela Convenção abrange tanto o aspecto material quanto o imaterial desse patrimônio. Conforme explanado por Carlos Machado e Rosemary Godinho, o objetivo da lei deve ser proteger não apenas a informação contida nos genes, mas as moléculas naturais obtidas pelo acesso ao DNA das espécies.58
Outro conceito importante trazido pela Medida Provisória é o de conhecimento tradicional associado, definido como “informação ou prática individual ou coletiva de comunidade indígena ou de comunidade local, com valor real ou potencial, associada ao patrimônio genético”. Comunidade local, por sua vez, é definida como “grupo humano, incluindo remanescentes de comunidades de quilombos, distinto por suas condições culturais, que se organiza, tradicionalmente, por gerações sucessivas e costumes próprios, e que conserva suas instituições sociais e econômicas”.59
Tais definições carecem de precisão, o que nos leva a questionar quando determinada comunidade ou conhecimento deve ser considerado tracional ou não. Ademais, há dúvida quanto aos fatores determinantes da associação do conhecimento à biodiversidade.
Por último, resta tratar dos conceitos de bioprospecção, desenvolvimento tecnológico e pesquisa científica, vez que a Medida Provisória determina que o acesso, tanto a patrimônio genético quanto a conhecimento tradicional associado, deve estar vinculado a uma dessas três finalidades. A bioprospecção pode ser entendida como a atividade exploratória cujo objetivo é identificar componente do patrimônio genético e informação sobre conhecimento tradicional associado, com potencial uso comercial.60 Por outro lado, toda atividade de acesso que não tenha possibilidade de uso econômico será considerada como pesquisa científica. Desenvolvimento tecnológico, por fim, foi definido pelo CGEN, em sua orientação técnica nº 04/2004, como o “trabalho sistemático, decorrente do conhecimento
58
MACHADO, Carlos José Saldanha; GODINHO, Rosemary de Sampaio. Acesso à diversidade biológica e aos conhecimentos tradicionais associados. In: MACHADO, Carlos José Saldanha (Org.). Ciências, políticas públicas e sociedade sustentável. Rio de Janeiro: E-papers, 2012, p. 129.
59
Artigo 7º, incisos II e III da Medida Provisória nº 2.186-16/01. 60 Artigo 7º, inciso VII da Medida Provisória nº 2.186-16/01.
existente, que visa à produção de inovações específicas, à elaboração ou à modificação de produtos ou processos existentes, com aplicação econômica”.61
Segundo Débora Borges Paiva, a diferença entre bioprospecção e desenvolvimento tecnológico é clara, e reside no fato de que este último visa alcançar um produto novo ou aprimorado, a partir de um produto já existente, enquanto a bioprospecção não tem, inicialmente, uma finalidade específica, encontrando-se, ainda, no estágio de investigação. Por outro lado, a distinção entre pesquisa científica e bioprospecção é mais delicada, vez que reside apenas na caracterização do potencial uso comercial. Alguns acreditam que este conceito seja dotado de subjetividade, devendo estar relacionado com as pretensões declaradas pelo interessado em realizar o acesso. Outros, todavia, acreditam que se deva realizar uma análise objetiva do material ou conhecimento tradicional. Se este tiver potencial para utilização econômica, ainda que a pretensão declarada seja apenas a pesquisa, o projeto deveria ser caracterizado como bioprospecção. O CGEN tem adotado este último posicionamento para atender às consultas que lhe são encaminhadas. Dessa forma, a caracterização da bioprospecção atende a um critério objetivo, sendo irrelevantes as intenções daquele que realizará o projeto.62