2.1 CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DO DI A PARTIR
2.1.1 Conceitos fundamentais da teoria piagetiana
A epistemologia é o ramo da filosofia que estuda o conhecimento e sua gênese com a finalidade de compreender como se desenvolve a inteligência, como se constrói conhecimentos e como se aprende. De modo geral, os preceitos da epistemologia genética são de que o desenvolvimento psíquico começa no nascimento e termina após a vida adulta, sendo estas estruturas variáveis em um movimento contínuo de reajustamento. “O desenvolvimento, portanto, é uma equilibração progressiva, uma passagem contínua de um estado de menor equilíbrio, para um estado de equilíbrio superior.” (PIAGET, 1972, p.11).
Sendo uma teoria centrada no desenvolvimento natural, o conhecimento ocorre por meio de construções contínuas, renovadas pela interação com a realidade, não são, portanto, a priori constituídas, existe uma atuação permanente do sujeito em uma auto-organização comportando construção e reconstrução contínua, por conseguinte: “A habilidade de adaptar-se a novas situações através da auto-regulação é o elo comum entre todos os seres vivos e a base da teoria biológica do conhecimento de Piaget.” (PULASKI, 1986, p. 22).
A equilibração é o alicerce da teoria piagetiana, é a autoregulação interna do organismo a rupturas constantes de harmonia entre o organismo e o meio. Neste processo de organização mental a novas situações, a equilibração comporta dois sistemas: a assimilação e a acomodação, que são os elementos que nos permitem conhecer o mundo.
A assimilação faz com que se reconheça o que é familiar e a partir disso compreender algo novo, ou seja, a incorporação interna de elementos externos que o sujeito já possui. “Este mecanismo permite uma primeira compreensão da realidade, que pode, contudo, ser deformada, dependendo dos esquemas práticos e conceituais que o sujeito possui.” (STOLTZ, 2011, p. 18-19).
Porém, a assimilação é insuficiente para que o conhecimento se consolide, assim a acomodação entra em cena modificando conhecimentos prévios com base em estruturas anteriores.
A acomodação modifica ou recria novos esquemas para adequar o conteúdo novo, ocorrendo uma transformação do sujeito pelo mundo externo e uma reorganização do conhecimento, sobrevindo assim a equilibração majorante termo cunhado por Piaget (1936/1978, p. 278), fruto do “ajustamento às novas circunstâncias de esquemas anteriores já constituídos”.
Dessa maneira, em conjunto assimilação e acomodação, fazem com que se modifique constantemente o conhecimento permitindo que ocorra a adaptação que seria o restabelecimento do equilíbrio, desse modo:
Em seu desenvolvimento, a criança constrói vários e diferenciados esquemas que tendem a formar combinações, dando origem às estruturas cognitivas, que traduzem uma forma particular de equilíbrio na interação do indivíduo com o ambiente (Idem, p.72).
Assim, o desenvolvimento ocorre em estágios sucessivos, sendo cada um definido por estruturas com formas particulares de equilíbrio. Há uma lógica progressiva nos períodos desenvolvimentais infantis que é diferente da lógica do adulto, pois a forma como ocorre a interação da criança com o meio depende da maturação das estruturas cognitivas. Desse modo, o percurso da inteligência evolui da ação prática do período sensório motor, para o pensamento intuitivo pré-operatório, chegando finalmente à inteligência lógica das operações concretas, mais próximas ao adulto.
Piaget (1972) define psicologicamente uma operação como sendo uma ação, por exemplo, de reunir unidades numéricas ou deslocar elementos. As ações se tornam operatórias, “logo que duas ações do mesmo gênero possam compor uma terceira, que pertence ainda a este gênero, e desde que estas diversas ações possam ser invertidas” (p. 51), permitindo classificar, seriar, organizar elementos, comprovar, reconstruir, estabelecer relações e realizar generalizações.
Portanto, no âmbito da inteligência a adaptação seria intelectual, levando-se em conta que novas aquisições são adquiridas na experiência em uma interação entre meio interno (endógeno) e externo (exógeno). Em cada etapa do desenvolvimento ocorrerão maneiras distintas de interiorização da ação física ou intelectual. Desse
modo, o processo de equilibração torna-se inteligente quando ocorre uma abstração reflexiva, considerando que:
Abstração é o acrescentar relações ao dado perceptível, não apenas em extrair dele alguma coisa; é construir esquemas relativos às ações do sujeito tanto como às propriedades do objeto. Quando uma abstração procede da reconstrução de estruturas anteriores, superando-as, temos então a abstração reflexionante, ela é de fundamental importância para a construção das estruturas e desenvolvimento mental. (ROSSO e TAGLEBIER, 1992, p.
39).
Em outras palavras, a equilibração é diferente em cada período do desenvolvimento. Inicialmente ocorre a abstração empírica que é a forma mais primitiva que envolve ações motoras e materiais. A abstração reflexionante abrange conceitos e explica as reorganizações endógenas que envolvem representações imagéticas (RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1994). Há um processo intermediário entre as duas denominada abstração pseudo-empírica onde a criança oscila seu mecanismo mental entre abstração reflexionante e abstração empírica.
Sejam quais forem as formas de construção do conhecimento, Piaget (1972, p. 14) salienta que “todo movimento, pensamento ou sentimento corresponde a uma necessidade”. Portanto, a necessidade é um mecanismo funcional de cada estágio, consideradas impulsionadoras da ação. Portanto, motivada pelas necessidades e interesses:
A ação é desequilibrada pelas transformações que aparecem no mundo, exterior ou interior, a cada nova conduta vai funcionar não só para estabelecer o equilíbrio, como também para tender a um equilíbrio mais estável que do estágio anterior a esta perturbação (IBID, p. 14).
Neste movimento constante de adaptação há outro catalisador da ação humana que seria a vontade, que segundo Piaget (1972) é uma operação que se assenta no plano afetivo que aparece quando a criança já é capaz de cooperar e encontra-se em um desenvolvimento moral autônomo. Esta consideração traz à tona a indissociabilidade entre o desenvolvimento operatório e o desenvolvimento afetivo/moral na teoria Piagetiana.