3.4 PRÉ-TESTES E PÓS-TESTES
3.4.2 Conflitos morais piagetianos
O instrumental de trabalho compôs-se de apresentação de histórias adaptadas de alguns conflitos morais utilizados por Piaget (1932/1994) especificamente para compreensão do desenvolvimento do senso de justiça, seguidos de uma entrevista semiestruturada.
Foram apresentadas histórias ilustradas, em forma de quadrinhos, com gravuras amplas e claras, para uma melhor compreensão pelos entrevistados, bem como para poderem apontar suas respostas preferenciais. As ilustrações foram realizadas pela pesquisadora utilizando, principalmente, gravuras gratuitas disponíveis no banco digital de imagens do Fotosearch (disponível em www.fotosearch.com.br), empresa americana de fotografia. As histórias foram adaptadas ao período atual, sendo que algumas foram transformados para serem melhor compreendidos, no entanto, não foram alterados os objetivos de análise destas histórias.
O escopo da aplicação das narrativas foi indagar as justificativas para as respostas, com vistas a coletar elementos para compreensão de como cada pesquisado (a) pensa e percebe as normas sociais relacionadas a justiça em cada uma das etapas evolutivas do desenvolvimento cognitivo.
Para avaliar o resultado utilizamos os indicadores de níveis “H” para heteronomia, “I” para intermediário e “AN” para autonomia nascente. As respostas por Heteronomia receberam um (1) ponto, as respostas em nível Intermediário obtiveram dois (2) pontos e as respostas por Autonomia Nascente receberam três (3) pontos.
As categorias de inclusão nos níveis foram as seguintes: de 17 a 26 pontos heteronomia (H), de 27 a 36 pontos intermediário (I) e de 37 a 46 pontos autonomia nascente (AN).
Transformamos essa categorização em porcentagem, ao qual obtivemos os seguintes escores: 80% a 100% Autonomia (A), 79% a 50% Autonomia Nascente (AN), 49% a 20% Intermediário (I) e 19% a 0 (H)
Abaixo, detalha-se as noções de justiça que foram pesquisadas, as histórias utilizadas, as perguntas que foram feitas e os critérios de análise:
3.4.2.1 Realismo moral
Teve por objetivo compreender os processos de pensamento relativos ao realismo moral, considerando a forma de julgamento de desajeitamentos e roubos.
Estes pensamentos podem ser por responsabilidade objetiva (julga o ato segundo o resultado material apenas) e por responsabilidade subjetiva (leva em conta as intenções que motivaram o dano ou o roubo).
Desajeitamento 1:
a) Um menino está em seu quarto e é chamado para jantar. Ao entrar na cozinha abre a porta e não vê uma bandeja cheia de xícaras atrás da porta.
Quando abre a porta a bandeja cai quebrando 15 xícaras.
b) Um outro menino, quando sua mãe não estava em casa, foi pegar doces escondido no armário. Subiu numa cadeira estendeu o braço e tentando pegar esbarrou em uma xícara que caiu e se quebrou.
Perguntar qual é o mais culpado na opinião do (a) adolescente e a justificativa para a escolha.
FIGURA 5 - HISTÓRIA 1
FONTE: Schipper (2019).
Desajeitamento 2:
a) Quando seu pai saiu, um menino teve a ideia de brincar escondido com tinta e derramou um pouco de tinta em sua roupa.
b) Um outro menino queria ajudar o seu pai e pintou a parede para lhe fazer uma surpresa, mas ele derramou muita tinta em sua roupa.
FIGURA 6 - HISTÓRIA 2
FONTE: Schipper (2019).
Perguntar qual é o mais culpado na opinião do (a) adolescente e a justificativa para a escolha.
Desajeitamento 3:
a) Uma menina queria fazer uma surpresa para sua mãe fazendo um pano de prato para ela, mas como não sabia mexer com tesoura fez um grande buraco no seu vestido.
b) Uma outra menina pegou escondido a tesoura de sua mãe. Brincou um pouco cortando retalhos, como não sabia usar muito bem a tesoura, cortou um pouquinho seu vestido.
Pergunta-se ao (à) adolescente:
As duas são culpadas?
Qual é mais culpada?
FIGURA 7 - HISTÓRIA 3
FONTE: Schipper (2019).
Roubo 1
Um menino chamado José encontra sua amiga que era muito pobre. Essa menina diz a ele que ainda não havia almoçado e que estava com muita fome porque em sua casa não havia nada para comer. Então, José, que está sem dinheiro algum, entra em uma padaria e aproveita a distração do padeiro, rouba um sanduíche e dá a sua amiga que não tem o que comer.
Uma menina entra em uma loja e vê um elástico que ficará lindo em seu cabelo. Enquanto a vendedora se distrai ela rouba o elástico e sai correndo.
FIGURA 8 - HISTÓRIA 4
FONTE: Schipper (2019).
Perguntar qual é o mais culpado na opinião do (a) adolescente e a justificativa para a escolha.
Roubo 2
Cristina tinha uma amiga que criava um passarinho em uma gaiola. Cristina achava que o pássaro era infeliz e pedia sempre a sua amiga que o soltasse.
Mas a menina não queria. Então um dia sem que a menina estivesse por perto Cristina soltou o passarinho.
Juliano roubou chocolates que sua mãe tinha ganho de presente e em um dia que sua mãe não estava comeu escondido.
Pergunta-se ao (á) adolescente:
As duas são culpadas?
Qual é mais culpada?
FIGURA 9 - HISTÓRIA 5
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise:
Responsabilidade objetiva H, responsabilidade subjetiva I (não há A, pois estas provas são relacionadas a crianças que ainda não atingiram a autonomia, ou seja, são questões mais primitivas da moral, portanto as pontuações nestas provas iniciais são de 1 ponto para respostas para Heteronomia e 2 pontos para respostas para Autonomia.
Sabe-se que a criança heterônoma, considera apenas as consequências materiais dos seus atos ou de outros, não considera as intenções presentes nas ações, algo que a criança autônoma consegue fazer.
3.4.2.2 Sanção ou Justiça Retributiva
Permitiu perceber se o (a) adolescente está orientado (a) pela sanção expiatória ou pela sanção por reciprocidade de acordo com o seu nível de desenvolvimento e verificar se avalia a punição em função de sua severidade ou
seguindo outro critério de distribuição. Teve por objetivo avaliar a visão do (a) adolescente em aplicar a punição relacionada com a gravidade do ato ou como um critério de retribuição.
1ª história: “Um menino brincava em seu quarto. Seu pai avisou que iria sair e ordenou para que ele não jogasse bola dentro de casa. O pai saiu e logo ele começou a jogar bola, mas sem querer ele deu um chute muito forte e a bola bateu na janela e quebrou completamente o vidro. ”
- Como você acha que esta criança deveria ser punida?
Entrevistador comenta: Sim, isso seria possível, mas o pai pensou em três punições para o menino, mas está em dúvida sobre qual seria a mais justa.
Vou lhe contar e você me diz qual você escolheria como a mais justa:
1) Deixar o vidro quebrado por uns dias, para ele passar frio e aprender a lição?
2) Fazê-lo pagar com suas economias ou com tarefas na casa?
3) Não deixar ele brincar por uma semana?
FIGURA 10 - HISTÓRIA 6
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de Análise: punição1 H, punição 2 A, punição 3 I.
2ª história: “Um menino quebrou um brinquedo de sua irmãzinha”
- Como você acha que este menino deveria ser punido?
Entrevistador comenta: Sim, isso seria possível, mas a mãe pensou em três punições para o menino, mas está em dúvida sobre qual seria a mais justa.
Vou lhe contar e você me diz qual você escolheria:
1) Dar a irmãzinha um de seus próprios brinquedos?
2) Fazer ele consertar?
3) Quebrar de propósito um de seus brinquedos?
FIGURA 11 - HISTÓRIA 7
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise: punição 1 I, punição 2 A, punição 3 H.
3ª história: “Jogando vôlei no corredor de sua casa uma menina quebrou um vaso de planta de sua mãe.”
- Como você acha que esta menina deveria ser punida?
Entrevistador comenta: Sim, isso seria possível, mas a mãe pensou em três punições para a menina, mas está em dúvida sobre qual seria a mais justa.
Vou lhe contar e você me diz qual você escolheria:
1) Que ela fosse achar outras flores para colocar no vaso?
2) Dar-lhe umas palmadas?
3) Estragar a bola de vôlei dela?
FIGURA 12 - HISTÓRIA 8
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise: punição 1 A, punição 2 I, punição 3 H.
3.4.2.3 Punição Coletiva
Permitiu avaliar a opinião das (das) adolescentes sobre a solidariedade e sobre a responsabilidade coletiva de punição no conjunto. 1ª história: “Uma mãe proibiu suas três crianças de brincarem com tesoura quando ela não estivesse em casa. Ela saiu, o primeiro disse: _Vamos brincar com a tesoura? O segundo foi buscar
revistas para recortar e o terceiro disse:_ A mãe disse para a gente não mexer na tesoura, eu não vou mexer! Quando a mãe voltou viu pedaços de papel recortado no chão e percebeu que tinham mexido nas tesouras. Ela puniu todos os meninos.
Perguntar ao (a) entrevistado (a): Você acha que foi justo os três serem punidos? Perguntar o porquê de sua resposta?
FIGURA 13 - HISTÓRIA 9
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise: H - mãe está certa de qualquer forma; I – mãe está certa, mas se posiciona a favor dos inocentes, voluntariamente ou após contra argumentação da pesquisadora; A – Mãe está errada de qualquer forma e se posiciona em favor dos inocentes.
2ª história: “Na escola o professor deixou um grupo de alunos brincarem sozinhos na brinquedoteca no final da aula, mas com a condição de colocarem tudo novamente no lugar e não estragar nenhum brinquedo”. Cada um pegou um brinquedo. Um dos meninos pegou um carrinho grande de plástico, saiu
da sala e sem que ninguém visse, sentou em cima quebrando uma rodinha.
Como ninguém viu, ele colocou o brinquedo estragado de volta no armário.
Quando o professor voltou, notou o carrinho quebrado e perguntou quem havia quebrado. O menino que quebrou ficou quieto e os outros não sabiam quem tinha quebrado.
Perguntar ao (a) entrevistado (a): O que o professor deveria fazer? Punir todos ou nenhum deles? Perguntar o porquê de sua resposta?
FIGURA 14 - HISTÓRIA 10
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de Análise: H – professor está certo em punir todos sem justificativa; I – professor deve punir todos, mas se manifesta em favor dos inocentes; A – Não se deve punir nenhum.
3.4.2.4 Justiça Imanente
Perceber se para o (a) adolescente o castigo por uma falta emana da própria natureza ou entidade mística ou se revelará a descrença nesta justiça automática.
1ª história: “Era uma vez três meninos que roubaram laranja do quintal de uma casa. De repente, chegou o dono da casa e viu os meninos roubando laranjas, os três fugiram correndo e tropeçaram em um arame, caíram e se machucaram muito.”
Perguntar ao (a) entrevistado (a): O que você acha? Se eles não tivessem roubado laranjas e mesmo assim, estivessem correndo, eles teriam caído e se machucado?
FIGURA 15 - HISTÓRIA 11
FONTE: Schipper (2019).
2ª história: “Na sala de aula dos alunos pequenos a professora proibiu que os alunos pegassem a faca de cortar frutas de dentro do armário. Uma vez quando a professora estava de costas, um menino pegou a faca para cortar a sua borracha e devolveu no lugar. Mais tarde, quando este menino chegou
em casa, a calçada estava molhada e ele escorregou e caiu, batendo a sua cabeça.”
Perguntar ao (a) entrevistado (a): Por que ele caiu na calçada? E se ele não tivesse desobedecido teria caído mesmo assim?
FIGURA 16 - HISTÓRIA 12
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise: H – crença na justiça imanente. Escorregou ou caiu porque estava fazendo coisa errada; I – é uma punição, mas escorregaria ou cairia de qualquer maneira tendo ou não cometido uma falta. (contradição); A - Descrença na justiça imanente. Caiu ou escorregou porque estava molhado ou iriam cair de qualquer jeito.
3.4.2.5 Justiça Distributiva
Permitiu conhecer o julgamento que o (a) adolescente faz às desigualdades de tratamento ou favorecimentos do adulto para algumas crianças. (1 história)
1ª história: “Uma mãe tinha dois filhos, uma menina obediente e outro menino desobediente. Dava sempre mais doces, presentes e carinho para a filha obediente.”
Perguntar ao entrevistado: O que você acha disso? Por que?
FIGURA 17 - HISTÓRIA 13
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise: H – Mãe fez certo, menina deve ganhar mais e menino menos, pois é desobediente; I – mãe errada, mas o menino precisa ser punido de alguma forma; A – mãe fez errado, deve dar igual para os dois.
2ª história: “Uma mãe foi passear com seus 3 filhos no Parque do Lago. As 16:00 hs, deu um sanduíche para cada criança, o filho pequeno se distraiu e deixou cair o seu sanduiche na água.
Perguntar ao (a) entrevistado (a): O que a mãe deveria fazer? Porquê?
Critérios de análise: H – não dar outro pão ao pequeno. I – não consegue pensar em outra ideia ou sugere uma solução mesmo tendo ouvido que não seria possível ou tira de um para dar para o outro, ou seja, fazem predominar a retribuição
sobre a igualdade. A – repartir o dos irmãozinhos, pois ele é pequeno, ou seja, a igualdade tem primazia sobre a sanção.
FIGURA 18 - HISTÓRIA 14
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de Análise: H – não dar outro pão ao pequeno; I – não consegue pensar em outra ideia ou sugere uma solução mesmo tendo ouvido que não seria possível ou tira de um para dar para o outro, ou seja, fazem predominar a retribuição sobre a igualdade; A – repartir o dos irmãozinhos, pois ele é pequeno, ou seja, a igualdade tem primazia sobre a sanção.
3.4.2.6 Choque à Submissão do Adulto
Permitiu observar se o (a) adolescente dá razão à autoridade adulta ou defende a igualdade por respeito ao ideal interior e da coletividade, mesmo estando em oposição com a obediência. (2 histórias)
1ª história: “Uma mãe pediu ao seu filho e a sua filha para ajudar um pouco a arrumar a cozinha depois do almoço porque estava com dor de cabeça. A menina deveria enxugar a louça e guardar e o menino deveria varrer a cozinha. Mas o menino foi brincar na rua e a mãe fez a menina varrer a cozinha também. ”
Perguntar ao entrevistado: O que a menina falou para a sua mãe? Você achou justo só a menina trabalhar?
FIGURA 19 - HISTÓRIA 15
FONTE: Schipper (2019).
2ª história: “Um pai tinha dois meninos. Um sempre reclamava quando o pai lhe pedia para ir comprar pão. O outro também não gostava mas ia sem reclamar. Então o pai mandava mais vezes o menino que não reclamava.”
Perguntar ao (a) entrevistado (a): O que você acha disso?
FIGURA 20 - HISTÓRIA 16
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de Análise: H – Acha correta a atitude da mãe ou do pai; I – Acha errado mas acha que os meninos da primeira e da segunda história devem ser punidos; A –Não acha correta ou justa a atitude da mãe e do pai, alguns complementam que a mãe deveria ir buscar o menino para varrer, que ele também deveria ajudar.
3.4.2.7 Justiça na Relação entre Crianças
Foi possível verificar a hipótese de que entre os (as) adolescentes as sanções são conduzidas por reciprocidade, não há castigos expiatórios e as sanções são de ordem restitutiva. (1 história)
1ª história: “Havia, numa escola, um menino maior que sempre empurrava um menor. O pequeno não revidava. Então, um dia, no recreio, o pequeno escondeu o material do maior num armário velho. ”
Perguntar ao (a) entrevistado (a): O que você acha disso? Se lhe dão empurrões o que você faz? Por quê?
FIGURA 21 - HISTÓRIA 17
FONTE: Schipper (2019).
Critérios de análise: H (heteronomia) aquelas que indicavam negação a justiça retributiva praticada indicando a necessidade do adulto para resolver a questão, em nível I (intermediário) encontram-se aqueles que consideram correta a retribuição, mas indicam que será necessário recorrer ao adulto, e, aqueles que concordam com a prática da justiça retributiva sem a necessidade da intervenção do adulto ou que acreditam que o diálogo seria a melhor solução, foram localizados no nível AN (autonomia nascente).