2 ASPECTOS CONCEITUAIS DOS MODELOS DE APOIO À TOMADA DE
2.2 Conceitos sobre Modelos
Modelos, ferramentas, instrumentos e planos são diferentes termos encontrados na literatura sobre os conceitos de modelagem, algumas vezes, utilizados uns para os outros. Segundo Pidd (1996): “Um modelo é uma
representação externa e explícita de uma parte da realidade, como ela é vista pelos indivíduos que desejam usar este modelo para entender, mudar, gerenciar e controlar aquela parte da realidade”.
Todavia, convém lembrar que as noções de modelo e modelagem implicam no uso de uma linguagem a qual, por sua vez, implica na definição de unidades elementares que explicam as relações entre as unidades. De acordo com David (2001), a modelagem requer a elaboração de conceitos, junto com um conjunto de axiomas para ligar tais conceitos. Portanto, acrescenta David, um modelo tem duas funções complementares indissociáveis:
• de figuração (abstração baseada na realidade, movendo da realidade para o modelo);
• de plano de desenvolvimento (meios de ação, movendo do modelo para a realidade).
Numa maneira semelhante, Mitchell (1993), tomando por base as noções de figuração (representação das coisas) e plano de desenvolvimento (modo de fazer as coisas), propõe que os modelos possam ser projetados como a formulação de crenças, incluindo, a priori, as hipóteses concernentes ao problema em questão. Eles podem ser também projetados como ferramentas, normalmente usados para predição. Porém, a predição é um termo um tanto normativo e neste caso o termo se aplica para os resultados de saída do modelo. Todavia, é melhor falar sobre as hipóteses de trabalho e recomendações na visão moderna de ferramenta de implementação, que não é o caso do que é “predito” por um modelo, mas o que ganhamos dele em termos de conhecimento para a ação, que vai além daquilo que possa significar um mero resultado de saída do modelo.
Numa perspectiva de uma distinção analítica tradicional entre conhecimento e ação, Walliser (1997) faz a distinção entre modelos cognitivos e normativos. As duas
funções, normativa e cognitiva, são de fato os pontos mais afastados em uma cadeia de funções (vide figura 2.1): cognitiva, preditiva, tomada de decisão e normativa.
Figura 2.1 –A função dos modelos, Walliser (1997).
David (1996) avalia que essa distinção, no entanto, não implica necessariamente que tais modelos são diferentes na forma, ou seja: relatórios de dados de gerenciamento, número de pontos obtidos e modelagem multi-critério podem ser usados tão facilmente nas fases de planejamento como na ação concreta. Nesse sentido eles podem ser usados tanto para analisar quanto para produzir conhecimento. Segundo Hatchuel (1998), um modelo é também “um meio de produção de conhecimento, adaptado à ação”, conseqüentemente:
• O observador constrói um modelo com a finalidade de agir, ou seja, ele tem um projeto e o modelo orientado para este projeto. A noção de modelo está, portanto, intrinsecamente ligada àquela racionalidade. Desse modo, segundo Hatchuel e Molet (1996), um modelo é um mito racional ou um plano de ação ideal com certas propriedades formais;
Função cognitiva
(O modelo é usado para representar as relações entre as variáveis de entrada e saída do sistema modelado).
Função preditiva
(O modelo é usado para predizer a evolução nas variáveis de saída, de acordo com determinadas hipóteses).
Função normativa
(O modelo é usado para representar as relações ótimas entre as variáveis de entrada e saída do sistema).
Função da tomada de decisão
(O modelo é usado para determinar como comandar as variáveis que seriam fixadas para alcançar os objetivos sobre as variáveis de saída).
• O uso operacional de um modelo significa a incorporação direta ou indireta de elementos do conhecimento produzido pelo modelo no processo de tomada de decisão, portanto implica numa forma de contextualização. Uma definição estrita, enunciada por Moisdson (1997), pode ser adotada para ferramentas de gerenciamento: “quaisquer conjuntos de raciocínio ou conhecimento formalmente ligando certo número de variáveis originadas de uma organização e projetadas para cumprir as diferentes tarefas de gerenciamento tradicionais”. As variáveis originadas de uma organização são preços, quantidades, níveis de qualidade ou quaisquer outros parâmetros. Várias tarefas de gerenciamento são definidas por esse autor, tais como: previsão, coordenação e avaliação.
De acordo com David (1996), as ferramentas de gerenciamento podem ser consideradas num sentido amplo como “todos os meios formais de organização”. Nesse sentido não apenas os relatórios de dados, sistemas especialistas e programas lineares podem ser considerados ferramentas de gerenciamento, mas também, estruturas, gerenciamento por contratos objetivos e entrevistas de avaliação.
Na seguinte análise de modelos, qualquer modelo usado para a ação será considerado como uma ferramenta. Hatchuel & Weil (1992) adotam a linha de que, analiticamente e empiricamente, uma ferramenta sempre se origina de três modelos: um modelo formal, um modelo de gerenciamento e um modelo de organização.
• O modelo formal é o substrato técnico sobre o qual as ferramentas se apóiam para funcionar. Por exemplo, sistemas especialistas requerem bases de regra, bases de conhecimento e artifícios de inferência; o gerenciamento por contratos objetivos usualmente se apóia em acordos assinados e objetivos qualitativos ou quantitativos;
• O modelo de gerenciamento é a filosofia de gerenciamento da ferramenta, “a intenção atrás da ferramenta”, cobrindo, por exemplo, assuntos tais como descentralização, automação, participação ou controle. O modelo de gerenciamento pode ser visto como a teoria de eficiência fornecida pela ferramenta, sendo esta teoria parcialmente ligada à própria ferramenta e parcialmente ao projeto planejado pelos atores que desejam implementar a ferramenta na organização;
• O modelo de organização é uma visão simplificada das relações e/ou conhecimentos organizacionais conhecidos pela ferramenta e implicado no seu uso. O modelo representa a organização ideal no qual a ferramenta funcionaria perfeitamente.