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2.1 DESIGN PARA SUSTENTABILIDADE

2.1.1 Conceituação de Design para Sustentabilidade

Os preceitos que antecederam o denominado “Design para Sustentabilidade” emergiram com maior ênfase nas décadas de 1960 e 1970, com as críticas e sugestões em relação ao processo de desenvolvimento feitas por autores como Vance Packard (1963); Victor Papaneck (1971); Gui Bonsiepe (1973) e Fritz Schumacher (1973), conforme afirmam Bhamra e Lofthouse (2007). A estes autores, Vicente et al. (2012) associa também Buckminster Fuller, designer e arquiteto que desde a década de 1930 já descrevia suas preocupações com o uso mais eficiente de recursos em seus projetos.

Estas abordagens vinham ancoradas nos debates sobre problemas mundiais como as mudanças climáticas, a fome, a desigualdade social e enfermidades.

Em 1994 obteve destaque o estabelecimento do denominado, por John Elkington,"tripé da sustentabilidade", visando incitar as empresas a associarem às questões econômicas, as sociais e ambientais (ELKINGTON, 2007a).

Neste sentido, Vezzoli (2010) explora a dimensão ambiental e associa à dimensão social, a ética e à dimensão econômica, a política. Para a dimensão ambiental (química e física) esclarece que significa não ultrapassar à 'resiliência' da biosfera e da geosfera, isto é, a capacidade de absorver os impactos das ações humanas sem provocar um fenômeno

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Design para Sustentabilidade em Cenários Futuros no Setor de Embalagens de Alimentos em Autosserviço

irreversível de degradação; a dimensão sócio-ética se refere a atender ao mesmo grau de 'satisfação' para as gerações futuras, e de equidade, na distribuição de recursos; e na dimensão econômica e política devem-se possibilitar soluções economicamente viáveis, em um mercado de normas mais ou menos orientado.

Recentemente a ONU incluiu outra dimensão, denominada de "Visão de Mundo", fazendo referência à relação do homem consigo mesmo, a espiritualidade que mantém as relações que estabelece com outros seres vivos, demonstrando a ética e a responsabilidade que deve existir nas ações.

Já para Sachs (2002, p. 85), a sustentabilidade compreende oito dimensões, nas quais, além das três descritas acima, inclui-se a dimensão cultural, a ecológica, a territorial, a política nacional, e a política internacional.

Elkington (2007b) também sugere que a sustentabilidade pode ser observada por meio de uma série de ondas que sucessivamente impactam sobre os políticos, as empresas, os órgãos reguladores e os mercados financeiros.

A primeira onda compreende as décadas de 1960 e 1970, com o lançamento do livro “Silent Spring” de Rachel Carson e o surgimento de ONGs como o WWF – World Wide Fund for Nature, Friends of the Earth e Greenpeace, trabalhando por mudanças de políticas e regulamentos governamentais.

A segunda onda ocorreu nas décadas de 1980 e 1990. Foi no ano de 1987, especificamente, que o termo "Desenvolvimento Sustentável" surgiu pela primeira vez, por meio do Relatório "Our Common Future”, também conhecido por Relatório Brundtland, elaborado pela World Commission on Environmentand Development. O Relatório não fixava objetivos específicos a serem atingidos, mas determinava fatores de equilíbrio a serem alcançados.

A série de crises econômicas (ex.: queda do muro de Berlim) e catástrofes ambientais (de Bhopal2 a Chernobyl3) levaram à elaboração de legislações e normas de segurança para o meio ambiente, bem como os conceitos de auditoria e relatórios de comprometimento das empresas.

Em 1988 foi lançado o Green Consumer Guide, que vendeu mais de um milhão de cópias. As empresas começaram, por um período, a mudar a formulação de seus produtos, situação que foi revertida na década de 1990 com a globalização.

A terceira onda tem início nos anos 2000 com a realização do primeiro Fórum Social Mundial, em oposição ao Fórum Econômico Mundial, reunindo ativistas de Organizações Não-Governamentais de todo o mundo, fazendo campanhas em questões como a justiça do comércio e da dívida e a escassez e exploração da água. Governança corporativa e responsabilidade tornaram-se assuntos centrais para o mercado financeiro.

2 O vazamento em uma fábrica de pesticidas em Bhopal, na Índia, matou mais de 2 mil pessoas e deixou outras 200 mil cegas e feridas.

3 A explosão de um reator nuclear em Chernobil, na Ucrânica, espalhou radiação por toda a Europa, aumentando o risco de incidência de câncer humano. Trinta e uma pessoas morreram e cerca de 220 mil foram evacuadas das áreas contaminadas.

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Uma quarta onda está emergindo para os negócios e, segundo Elkington (2007b), está menos voltada para conformidade e cidadania e se direcionando para a criatividade, inovação, soluções empresariais e incentivos de mercado.

Nesta contextualização, Bhamra e Lofthouse (2007) destacam que na esfera do Design surgiram várias abordagens como: Green Design e consumismo; Design responsável e consumo ético; Ecodesign e Sustentabilidade; e o Design Feminista. Os projetos passaram a enfatizar a responsabilidade social, os direitos humanos, as questões ambientais e éticas em detrimento de projetos apenas para o lucro.

Fundamentalmente, o Design vai percorrer diferentes formas de abordagem e terminologias, acompanhando os movimentos da sociedade, podendo ser sintetizadas como Green Design; Ecodesign; e Design para Sustentabilidade (BHAMRA e LOFTHOUSE, 2007; VICENTE et al., 2012). A Figura 2 apresenta uma identificação da relação entre estas, localizando-as em diferentes décadas.

Figura 2 - Green Design, Ecodesign e Design para Sustentabilidade

Fonte: A autora com base nas teorias de Bhamra e Lofthouse (2007) e Vicente et al. (2012).

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Green Design basicamente foca em um ou dois aspectos de impacto ambiental de um produto, tais como utilização de materiais reciclados ou recicláveis e a redução do consumo de energia. Implica no uso de menos material para executar a mesma função e de recuperar algum valor dos materiais por meio da reutilização ou da reciclagem.

No Green Design as abordagens são geralmente relacionadas ao redesign de um mesmo conceito de produto e sem uma perspectiva de ciclo de vida.

Estas abordagens foram mais amplamente desenvolvidas ao longo da década de 1980, simultâneas ao movimento Green Consumerism (consumo verde). Este modelo levou a equívocos como o de considerar que produtos ecológicos não poderiam ter impacto sobre o meio ambiente (o que é contraproducente), ou uma referência à baixa tecnologia, com materiais de qualidade inferior percebida.

Ecodesign também chamado de Design do Ciclo de Vida do Produto (do termo em inglês Lyfe Cycle Design), este modelo considera cada estágio do ciclo de vida do produto, com o intuito de reduzir impactos ambientais adversos, associados a todos os outros critérios projetuais tradicionais como ergonômicos, funcionais e estéticos.

Para tal, e considerando a estreita relação do design com a produção e consumo, há necessidade de se conhecer de forma sistemática os impactos potenciais para a tomada de decisões projetuais bem

Para alguns estudiosos, esta abordagem pode ainda se apresentar, um tanto teórica e filosófica, diferente do Ecodesign, no qual o desenvolvimento de ferramentas tem permitido uma aplicação mais prática dentro da profissão.

4 IDEMAT - banco de dados de materiais que apresenta indicadores ecológicos para avaliar o impacto do produto (FUAD-LUKE, 2002).

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Entretanto, as crescentes publicações, a pró-atividade de algumas empresas e o surgimento de exemplos, vêm permitindo que atualmente se possa considerar que a pesquisa no campo do Design para Sustentabilidade está estabelecida, definindo estratégias, metodologias e ferramentas no intuito de incorporar todos os elementos da sustentabilidade na atividade projetual.

Destacam-se abordagens como: usabilidade, responsabilidade social, implementação de legislação, eco-inovação, sistema produto-serviço, bem-estar humano, co-criação e mudança radical.

O Design para Sustentabilidade pode também ser reconhecido como uma espécie de design estratégico, ou seja, o projeto de estratégias aplicadas pelas empresas que se impuseram seriamente a prospectiva da sustentabilidade ambiental. Desta forma, há que se gerirem de maneira coordenada todos os instrumentos de que se possa dispor (produtos, serviços e comunicação) e dar unidade e clareza às próprias propostas (MANZINI e VEZZOLI, 2005, p. 23).

Para os mesmos autores, o Design do Ciclo de Vida é uma metodologia indissociável do Design para Sustentabilidade, por serem atividades que se complementam para o desenvolvimento de produtos e serviços sustentáveis. O caráter estratégico do Design para Sustentabilidade permite que o Design do Ciclo de Vida saia dos limites do redesign de produtos existentes. Por outro lado, o Design do Ciclo de Vida proporciona uma fundamentação concreta de embasamento.