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2.1 DESIGN PARA SUSTENTABILIDADE

2.1.6 Mudança de paradigma

Partindo-se do princípio de que a sociedade atual é medida em termos de crescimento de população e do consumo de matéria-prima, Manzini e Vezzoli (2005) afirmam que diante da perspectiva de se obter um cenário sustentável, deverá se verificar uma descontinuidade deste modelo.

Descontinuidade esta que atinja todas as dimensões do sistema: a dimensão física, ou seja, os fluxos de matéria e energia; a econômica; a institucional (as relações entre os atores sociais); a ética; a estética e a cultural (os critérios de valor e os juízos de qualidade que socialmente legitimam o sistema).

Esta questão também é analisada por Santos (2013, p. 19) quando afirma que a

“sustentabilidade requer um processo de reposicionamento dos modos de vida da sociedade e isso implica em um processo de aprendizado coletivo que é, por natureza, lento e complexo”.

Apesar da dificuldade de se poder prever com exatidão como esta descontinuidade poderá ocorrer, Manzini e Vezzoli (2005) ainda observam que já estamos inseridos em uma fase de transição, que além de longa, deverá promover uma gestão procurando minimizar os riscos e aumentar oportunidades.

Para tal, e embasados também em outros autores10, destacam que deveremos ser capazes de passar para uma sociedade em que seja possível viver melhor consumindo (muito) menos e com uma economia que reduza a produção de bens materiais.

Quanto à evolução do papel do usuário, os mesmos autores fazem uma proposição, que é a seguinte: do usuário passivo (consumidor tradicional), ao usuário parcialmente participativo (self-service), ao usuário que traz recursos e capacidade (novos serviços).

Estas premissas anteriores se relacionam com os princípios "Fator 4" e "Fator 10", elaborados por Friedrich Schmidt-Bleek do Wuppertal Institute for Climate, Environment and Energy, no início da década de 1990. Tem por base a constatação de que 80% dos recursos naturais mundiais são distribuídos entre as primeiras nações e que estas compreendem apenas 20% do total da população.

Com base em estratégias de desmaterialização, os princípios preconizam uma redução dos fluxos de matéria na economia, visando o acesso dos países em desenvolvimento ao crescimento, preservando ao mesmo tempo os recursos e evitando maior poluição. Assim, Fator 4 se refere a uma divisão por quatro daqui a vinte ou trinta anos e por dez daqui a cinquenta anos (Fator 10). Ou seja, conceber e produzir objetos cotidianos com quatro vezes menos (75%) matérias-primas, e depois com dez vezes menos (90%). Isto considerando os anos de 2030 e 2050, respectivamente (KAZAZIAN, 2005, p. 63).

10 Ehrlich e Ehrlic (1991); Meadows et al.(1992); Jansen (1993); Schmidt-Bleek (1993); WBCSD (1993 e 1995).

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Entretanto, Manzini e Vezzoli (2005, p. 30) ainda destacam que:

É evidente que o sistema produtivo e de consumo desta sociedade sustentável será profundamente diferente do que até hoje conhecemos.

E de tal forma diferente, que nenhuma modificação de cunho parcial, nenhuma inovação de incremento das tecnologias aplicadas, nenhuma operação de redesign de tudo que hoje existe poderia resolvê-lo.

Nesta perspectiva radical, os autores complementam com a hipótese de que poderão surgir múltiplas sociedades sustentáveis completamente diversas entre si. Este fato será influenciado pelas formas que a transição assumir, ou seja, a forma do comportamento dos atores sociais, das novas culturas que vão emergir, das relações de força que vão ser estabelecidas e das novas instituições que vão ser criadas. Em outras palavras, a transição para a sustentabilidade será, além de diversificada, um grande processo de inovação social, cultural e tecnológica.

Um dos caminhos será pelo reconhecimento de um grande número de pessoas de que a transição é uma oportunidade para melhorar o seu grau de bem-estar. Isto ocorrerá com a transformação dos juízos de valores e os critérios que interpretam a ideia de bem-estar, ou seja, uma profunda mudança na cultura até aqui dominante.

Neste sentido Manzini (2008, p. 39) enfatiza que aspiração comum para o design é, ou deveria ser, a criação de condições para que isso possa acontecer não como uma necessidade, mas como uma escolha. “Que aconteça pela força de atração exercida pelas novas oportunidades e ideias de bem-estar, e não sob a press~o de eventos catastróficos”.

Preceitos semelhantes são apresentados pelo WBCSD - World Business Council for Sustainable Development, no documento "Visão 2050: A nova agenda para as empresas"

(WBCSD, 2010). Neste, destaca-se também a mudança radical, tanto de políticas quanto de estilo de vida, como caminho para se alcançar a sustentabilidade, concordando que as tendências seguidas habitualmente (business-as-usual) não conduzem à sustentabilidade ou à prosperidade econômica e social estável.

A intenção do WBCSD é a de disponibilizar uma plataforma de entendimento para que os líderes (empresariais e governamentais) tomem as decisões com melhores resultados possíveis para o desenvolvimento humano, nas próximas décadas. Um dos desafios é o balizamento entre o aumento da população (o que implica para as empresas em um fator positivo se considerar-se a questão do aumento de consumidores potenciais) com a diminuição dos recursos e as mudanças climáticas que limita as pessoas a obterem ou manterem o estilo de vida consumista compatível com a prosperidade dos atuais mercados ricos.

Dentre as previsões estão a mudança da forma dos grupos políticos e empresariais encararem as alterações climáticas e a restrição de recursos como problemas ambientais, para considerá-los econômicos, relacionados com a distribuição de oportunidades e custos.

Assim, o novo modelo de crescimento e progresso será baseado na utilização equilibrada de recursos renováveis e na reciclagem dos que não o são promovendo uma 'corrida ambiental', com cooperação, mas também concorrência entre países e empresas.

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Os conceitos de descontinuidade e transição apresentados por Manzini e Vezzoli também podem ser relacionados aos estudos do WBCSD, quando apontam o que denominam de dois horizontes temporais, sendo: "Anos Turbulentos", de 2010 a 2020, e "Tempo de Transformação", de 2020 a 2050.

Anos Turbulentos é descrito como um período de desenvolvimento para uma visão global da sustentabilidade. É uma década de formação de ideias e das relações que vão ocorrer nos trinta anos seguintes. Reconsidera-se a forma de avaliar o sucesso, o progresso, o bem estar e vislumbram-se formas inovadoras de educação e conectividade. "A crescente consciência das diferenças entre povos, culturas e grupo etários estimula uma maior coesão social e um entendimento do que significa ser interdependente e responsável pelas próprias ações, pelos outros, pelo planeta e pelas gerações futuras" (WBSCD, 2010, p. 14).

E, quanto a Tempo de Transformação, prevê-se que os países ricos em recursos, mas pobres em rendimentos serão cada vez mais reconhecidos como fundamentais para a estabilização do ambiente. A sua biocapacidade atrairá financiamentos de fontes mundiais para o desenvolvimento de competências, infraestruturas e eficiência. O conceito de progresso já não será considerado e avaliado apenas por meio de dados econômicos, mas também em termos de impactos ambientais e sociais. Soluções tecnológicas, financeiras e de informação inovadoras favorecerão o aumento da bioprodutividade global e as diferenças de capacidade entre países em desenvolvimento e desenvolvidos.

Nos temas apresentados pelo referido relatório, rumo à sustentabilidade, estão: o favorecimento à emancipação educativa e econômica, em especial da mulher; o custo de externalidades como carbono, serviços dos ecossistemas e água; a duplicação agrícola sem aumentar a quantidade de solo ou água utilizados; interromper a desflorestação e aumentar a produção de florestas plantadas; melhoria da eficiência energética; entre outros.

O WBSCD reconhece que suas sugestões exigem uma transformação de proporções gigantescas em todas as áreas e, portanto, os riscos também são imensos. Os principais podem se centrar na incapacidade de se concordar quanto ao funcionamento do sistema e o mundo ficar cada vez mais fragmentado, incapaz de chegar a um acordo quanto às mudanças a realizar e à forma de geri-las.

No entanto, também enfatiza que os líderes empresariais irão se beneficiar deste processo de mudanças se encararem os desafios locais e globais não só como custos e preocupações, mas como um impulso para investimentos que aumentam a procura de soluções e a concretização de oportunidades.

Em termos práticos, Vezzoli (2010, p. 26) também apresenta que as ações para a sustentabilidade precisam levar em consideração alguns cenários como: o de biocompatibilidade; o de não-interferência; e o da desmaterialização da demanda de bem estar para a satisfação (VEZZOLI, 2010, p. 26).

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Entende-se por cenário de biocompatibilidade aquele no qual o fluxo de recursos para a produção de bens e serviços é compatível com o sistema natural. Baseia-se inteiramente nos recursos renováveis e os resíduos e as emissões são biodegradáveis e biocompatíveis.

O mesmo autor destaca que se considerando a sociedade atual, este cenário enfrenta diversas limitações.

O cenário de não-interferência se refere ao aumento da 'autoeficiência' do sistema artificial, de forma que não sejam mais extraídos recursos da natureza, nem emitidos resíduos nos processos de produção, e que tudo seja reciclado e reaproveitado como matéria-prima para novos produtos ou geração de energia. Este cenário também apresenta limitações, pois se verifica ser inviável isolar um sistema de seu contexto.

E, quanto ao cenário de desmaterialização, envolve a demanda por bem-estar que utilize o mínimo de recursos, ou seja, para satisfazer à demanda social, os fluxos de entrada e saída seriam quantitativamente reduzidos.

Para Vezzoli (2010, p. 26), a transição para o desenvolvimento sustentável consistirá em um 'mix' desses cenários, levando em consideração as variáveis em diferentes contextos.

A Figura 4 ilustra um comparativo entre as teorias de Manzini e Vezzoli (2008 e 2010) e do WBCSD (2010) com relação à descontinuidade da atual forma de produção e consumo.

Figura 4 - Teorias de ruptura do modelo vigente

Fonte: A autora com base em Manzini e Vezzoli (2008 e 2010) e WBCSD (2010).

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