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Conceituação sobre poder

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II. INFORMAÇÃO E PODER

1. Conceituação sobre poder

―Não se preocupem. Não queremos controlar o mundo. Só queremos um pedaço dele‖, a frase do magnata das comunicações Rupert Murdoch (in MORAES, 2004, p.16) exprime como os detentores do poder almejam aumentar sua área de influência na modernidade. Neste quesito, Estado e mídia atuam como aparatos para construírem formas de controle social. O pesquisador e jornalista Dênis de Moraes (2004, p.16-17) atribui as causas para este contexto moderno ao julgar que a globalização coloca o consumo como valor universal, com a capacidade de transformar as necessidades e anseios humanos a esfera de produção. A construção deste pensamento passa, então, pela mídia, onde o autor destaca esta relação entre os aparelhos de comunicação e as formas de poder:

O avanço do neoliberalismo no terreno político-cultural repousa, em larga medida, na capacidade demonstrada pelas indústrias de informação e entretenimento de operar como máquinas produtivas que estruturam,

simbolicamente, o discurso da vida e da produção. A mídia ocupa posição destacada no âmbito das relações sociais, visto que é no domínio da comunicação que se fixam os contornos ideológicos da ordem hegemônica e se procura reduzir ao mínimo indispensável o espaço de circulação de ideias alternativas e contestadoras. A meta precípua é neutralizar o pensamento crítico e as expressões de dissenso (2004, p.16-17).

Assim, Estado e mídia estão relacionados na manutenção do poder liberal, e este é uma consequência da evolução dos aparatos políticos, que constituem a lógica do poder. Para entender melhor a construção político-social moderna e a relação entre poder e mídia é necessário analisar esta evolução dos aparatos do poder e a construção de um Estado democrático. O filósofo Gramsci (2011, p.232) explica como a ciência política funciona, e como é metodologicamente estruturada, ao dizer que:

A inovação fundamental introduzida pela filosofia da práxis na ciência da política e da história é a demonstração de que não existe uma ―natureza humana‖ abstrata, fixa e imutável (conceito que certamente deriva do pensamento religioso e da transcendência), mas que a natureza humana é o conjunto das relações sociais historicamente determinadas, ou seja, um fato histórico verificável, dentro de certos limites, com os métodos da filologia e da crítica. Portanto, a ciência política deve ser concebida em seu conteúdo (e também em sua formulação lógica) como um organismo em desenvolvimento.

Assim deve-se analisar a organização do poder como resultado de uma longa evolução de uma forma específica de sociedade política que gera o Estado. O pesquisador José Vicente Tavares dos Santos (1997, p.156) atribui a formação da sociedade organizada moderna pela produção das tecnologias de poder. O autor explica o termo ao citar, o filósofo Michel Foucault (1997, p.156), que são ―técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas em si‖. As técnicas, então, criam a estrutura da governabilidade, onde Tavares dos Santos incrementa a reflexão ao afirmar que:

A governabilidade consiste, portanto, em uma série de tecnologias do poder que determinam a conduta dos indivíduos, ou de um conjunto de indivíduos, submetendo-os ao exercício das diferentes racionalidades política específicas que perpassam a vida em sociedade, relativas a produção, aos signos, à dominação e ao indivíduo (1997, p.156).

Os princípios de governabilidade e formação dos Estados modernos, com base em uma lógica racional de poder, encontram-se em destaque no texto da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que foi elaborada pela Assembléia Nacional Constituinte da França de 1789. Outro texto de destaque como instrumento normativo universal, influenciado pela declaração francesa de 1789, é a Declaração Universal dos Direitos do Homem aclamada em 10 de dezembro de 1948 (Resolução 217 A, III) pela Assembléia Geral das Nações Unidas,

que cabe destacar algumas de suas considerações iniciais que fornecem a base dos seus artigos:

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,

Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum, Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão,

[...] Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades (site www.brasil.gov.br).

Nos artigos 4º a 21 o texto se refere aos direitos civis e políticos entre eles: todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança, a processo judicial idôneo, a não ser arbitrariamente detido, preso ou desterrado, e a gozar de presunção de inocência até que se prove culpado, à liberdade de pensamento, convicção política, opinião e expressão. Alerta-se para o fato que na Assembléia Geral, na deliberação da Declaração houve quarenta e cinco votos favoráveis, nenhum voto contrário, e oito abstenções (África do Sul, Arábia Saudita, Bielorússia, Iugoslávia, Polônia, Tchecoslováquia, Ucrânia e União Soviética).

Para citar como exemplo de lei maior de Estado, com influência da Declaração dos revolucionários franceses e da Declaração de 1948 da ONU pode-se encontrar a Constituição Federal do Brasil, de 1988, onde o preâmbulo descreve:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem- estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. (site www.planalto.gov.br)

Estes documentos exemplificam como acontece a construção do Estado, como explica o jurista, José Afonso da Silva (2002, p.98) ―o Estado, como se nota, constitui-se de quatro elementos essenciais: um poder soberano de um povo situado num território com certas finalidades‖ (grifos do autor). Neste contexto, a análise do poder deve ser feita através de sua

configuração de efeito, concentração, controle e garantias dos que governam e dos indivíduos. É interessante, então, compreender as diversas definições que o conceito de poder possui.

O historiador Jean-Baptiste Duroselle (2000, p.89-90) define o poder ao analisar o conceito através do uso da força, seja através da força física e opressora, ou da força política, para a criação de um consenso. O autor argumenta:

Retornamos aos políticos para um estudo aprofundado do poder. Qualquer que seja a maneira de ser adquirido, o poder encontra-se, por um determinado tempo, nas mãos de um homem ou de um pequeno grupo. Esse poder é mais ou menos total, mais ou menos durável e mais ou menos limitado por resistências. O sociólogo belga Stéphane Bernard (Stéphane Bernard, Le conflit franco-marocain, Bruxelas (Institut de Sociologie), 1964, 3 vols.) demonstrou que o poder é assegurado pelo ―consenso‖ – ampla aceitação da população – ou pela ―força‖ da qual dispõe a autoridade. Os dois termos podem variar em sentido inverso. Notaremos, todavia, que a ―força‖ é o consenso dos encarregados da ordem, da política e do exército. O fenômeno importante a considerar é, então, o da variação de consenso, seja pelo povo, seja pelos agentes de manutenção da ordem.

Já José Afonso da Silva (2002, p.106-107) analisa o poder ao utilizar o verbo na terceira pessoa do indicativo singular (pode) como uma forma de imposição às práticas sociais de um determinado grupo, ou seja, para a composição das normas que aqueles indivíduos precisam ter perante a sociedade a qual pertence. O autor constata que:

O poder é um fenômeno sócio-cultural. Quer isso dizer que é fato da vida social. Pertencer a um grupo social é reconhecer que ele pode exigir certos atos, uma conduta conforme com os fins perseguidos; é admitir que pode nos impor certos esforços custosos, certos sacrifícios; que pode fixar, aos nossos desejos, certos limites e prescrever, às nossas atividades, certas formas (Cf. Jean-William Lapierre, Le pouvoir politique, p. 5). Tal é o poder inerente ao grupo, que se pode definir como uma energia capaz de coordenar e impor

decisões visando à realização de determinados fins (grifos do autor).

Ainda, Silva (2002, p.107) completa sua análise do poder sob a lógica do Estado, onde o autor explica:

O Estado, como grupo social máximo e total, tem também o seu poder, que é o poder político ou poder estatal. A sociedade estatal, chamada também sociedade civil, compreende uma multiplicidade de grupos sociais diferenciados e indivíduos, aos quais o poder político tem que coordenar e impor regras e limites em função dos fins globais que ao Estado cumpre realizar. Daí se vê que o poder político é superior a todos os outros poderes sociais, aos quais reconhece, rege e domina, visando a ordenar as relações entre esses grupos e os indivíduos entre si reciprocamente, de maneira a manter um mínimo de ordem e estimular um máximo de progresso à vista do bem comum.

O jurista e filósofo Hans Kelsen (2000, p.274-275), evidencia o poder do Estado ao analisar o conceito através de sua influência nos indivíduos que pertencem a uma determinada

sociedade, onde o poder constrói comandos para o uso dos aparelhos do Estado, e determina que o Direito, o poder jurídico, é o que predomina na lógica do poder. Kelsen diz que:

Quando se fala de poder do Estado, em geral se pensa em prisões e cadeiras elétricas, metralhadoras e canhões. Não se deve esquecer, entretanto, que tudo isso são coisas mortas, que se tornam instrumentos de poder apenas quando usados por seres humanos, e que os seres humanos são movidos a usá-los com dado propósito apenas por meio de comando que eles consideram como normas. O fenômeno do poder político manifesta-se no fato de as normas que regulam o uso desses instrumentos se tornarem eficazes. O ―poder‖ não é prisões e cadeiras elétricas, metralhadoras e canhões; o ―poder‖ não é algum tipo de substância ou entidade por trás da ordem social. O poder político é a eficácia da ordem coercitiva reconhecida como Direito. Descrever o Estado como ―o poder por trás do Direito‖ é incorreto, já que sugere a existência de duas entidades distintas onde existe apenas uma: a ordem jurídica.

Também é importante demonstrar a visão de poder de Estado de Karl Marx, bem esclarecida por Daniel Bell (1977, p.101-102), onde vê o poder como um favorecedor da manutenção do acúmulo de riquezas pela classe dominante:

De modo que, para Marx, o que era decisivo não era apenas a política, era também a estrutura social. A política é uma arena onde entram em choque as divisões sociais de uma sociedade. A política não tem autonomia; é um reflexo das forças da organização social. O que é o Estado? Um instrumento da força – militar, policial, burocrática – utilizada pelas classes dominantes. Para Marx, não havia um Estado capitalista - : havia um Estado de que se valiam os capitalistas. Na verdade, não há em Marx nenhuma teoria ou história dos tipos de ordem política, como em Weber, que estabelece distinções entre ordens políticas patriarcais, patrimoniais e de burocracia legal, ou entre os tipos considerados politicamente legítimos. Para Marx, o ponto central está na estrutura social subjacente, cujas verdadeiras relações ficam obscurecidas pelas relações formais (portanto, ao analisar o fetichismo das mercadorias, em O Capital, vol. I, Marx faz notar que as relações abstratas de intercâmbio entre as mercadorias mascaram as relações sociais concretas entre os homens).

Daniel Bell (1977, p.102-103) ainda evidencia que para Karl Marx ―o caráter político de um regime é transitório‖ sendo que ―o Estado pode estar politicamente contra a classe ―dominante‖‖, prevalecendo ―o sistema econômico subjacente, sobre o qual repousa o poder material‖. O teórico revolucionário alemão Friedrich Engels (1960, p.160) analisa a formação do Estado e o poder que este exerce sobre os indivíduos como uma consequência do desenvolvimento técnico e social de um grupo:

O Estado não é pois, de modo algum, um poder que se impõe à sociedade de fora para dentro; tampouco é ―a realidade da idéia moral‖, nem ―a imagem e realidade da razão‖, como afirma Hegel. É antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue

conjurar. Mas, para que esses antagonismos, essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da sociedade, chamado a amortizar o choque e a mantê-lo dentro dos limites da ―ordem‖. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela se distanciando cada vez mais, é o Estado.

Então, a formação do Estado cria uma relação de força entre as instituições dominantes, tanto na política quanto na economia. O pesquisador Marcos Braga Júnior (2007, p.21) apresenta a definição de poder do filósofo Michel Foucault, que utiliza a relação de forças para fundamentar sua análise:

(...) o poder é uma relação de forças, ou melhor, toda relação de forças é uma ‗relação de poder‘. Compreendamos primeiramente que o poder não é uma forma, por exemplo, a forma-Estado; e que a relação de poder não se estabelece entre duas formas como o saber. Em segundo lugar, a força não está nunca no singular, ela tem como característica essencial estar em relação com outras forças, de forma que toda a força já é relação, isto é, poder: a força não tem objeto nem sujeito a não ser a força.

Michel Foucault (2012, p.284) acredita que o poder não é exercido por um grupo sobre o outro ou um indivíduo sobre o outro. Para ele, o poder tem de ser analisado como algo que circula pelos membros de uma sociedade e funciona em cadeia. O filósofo afirma que:

Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles.

As definições sobre poder demonstram como um Estado é constituído através da composição de aparatos de poder, para o exercício deste sobre os indivíduos de um grupo. Porém, também é importante para a análise aprofundar a reflexão sobre as formas de Estado, pois cada formato possui uma maneira diferente de exercer o poder. Existem duas definições recorrentes sobre as formas de governabilidade, a primeira é a de Estado Unitário, onde há uma unidade de poder. Já quando o poder está repartido em organizações governamentais tem-se o Estado Federal ou Federação de Estado. José Afonso da Silva (2002, p.102) cita Aristóteles (Cf. Política, III, 5, 1279b) que ―concebeu três formas básicas de governo: a monarquia, governo de um só; a aristocracia, governo de mais de um, mas de poucos, e a república, governo em que o povo governa no interesse do povo‖. O pensamento de Maquiavel (s.d. p.37) completa a análise de José Afonsa da Silva, ao indicar que ―todos os Estados, todos os domínios que tiveram e têm império sobre os homens, foram e são ou repúblicas ou principados. Os principados são ou hereditários, dos quais os ascendentes do

seu senhor foram por longo tempo príncipes, ou novos‖.José Afonso da Silva (2002, p.103) então conclui que ―tem prevalecido a classificação dualista de formas de governo em república e monarquia, ou governo republicano e governo monárquico. Aquele caracterizado pela eletividade periódica do chefe de Estado, e este por sua hereditariedade e vitaliciedade‖.

O jurista Celso Ribeiro Bastos (1996, p.144), por outro lado, explica que ―os conceitos de monarquia e república estão bastante esvaziados‖, sendo hoje utilizado o princípio do Estado Democrático de Direito. Ainda para conversar com José Afonso da Silva (2002, p.120), o autor define este conceito como:

É um tipo de Estado que tende a realizar a síntese do processo contraditório do mundo contemporâneo, superando o Estado capitalista para configurar um Estado promotor de justiça social que o personalismo e o monismo político das democracias populares sob o influxo do socialismo real não foram capazes de construir.

As técnicas que regem o exercício das funções de governo são chamadas sistemas de governo. Prevalecem o parlamentarismo (típico das monarquias constitucionais) e o presidencialismo (típico das Repúblicas). Conforme a organização partidária o sistema pode ser unipartidário (partido único), bipartidário (dois partidos) e pluripartidário (vários partidos). Estas características formam o regime político.

José Afonso da Silva (2002, p.122-123) explica que a conceituação de regime político não é uniforme. Apresenta a definição de Guelli, que o autor considera estática, onde Guelli diz que ―o regime político é a realização de uma concepção política fundamental nas instituições jurídicas constitucionais de um Estado‖ (Cf. O regime político, p.29). Prefere, então, adotar o conceito de Santi Romano:

Segundo o qual por regime se entende o governo enquanto se quer pôr um relevo, com uma fórmula sintética, o princípio ou diretriz política fundamental (p. ex., o princípio liberal, o princípio democrático, o princípio socialista etc.) que informa todas as instituições do Estado e constitui também a suprema diretiva de sua atividade (Cf. Principii di diritto

costituzionale generale, p.143).

Ainda Silva (2002, p.125), diante da definição sobre regime político, conclui sua reflexão e afirma que ―se percebe a relação entre regime político e direitos humanos fundamentais. Regimes há que lhes são garantias – os democráticos – instrumento de sua realização no plano prático; outros – os autocráticos – ao contrário, lhes recusam guarida, tolhem-lhes a realização‖.

Dentro do regime político, uma das características mais relevantes para a realização do processo de governabilidade está na manutenção da Democracia. Manuel Castells (2010, p.25) demonstra a democracia para Gramsci e Foucault:

Na concepção de Gramsci, a sociedade civil é constituída de uma série de ―aparatos‖, tais como: a(s) Igreja(s), sindicatos, partidos, cooperativas, entidades cívicas etc. que, se por um lado prolongam a dinâmica do Estado, por outro estão profundamente arraigados entre as pessoas. É precisamente esse duplo caráter da sociedade civil que a torna um terreno privilegiado de transformações políticas, possibilitando o arrebatamento do Estado sem lançar mão de um ataque direto e violento. A conquista do Estado pelas forças da mudança [...] presentes na sociedade civil é possibilitada justamente pela continuidade da relação entre as instituições da sociedade civil e os aparatos de poder do Estado, organizados em torno de uma identidade semelhante (cidadania, democracia, politização da transformação social, confinamento do poder ao Estado e às suas ramificações, e outras similares). Onde Gramsci e Tocqueville vêem democracia e civilidade, Foucault ou Sennett e, antes deles, Horkheimer ou Marcuse, veem dominação internalizada e legitimação de uma identidade imposta, padronizadora e não diferenciada.

As formas de governo em uma democracia também se dividem. Duas das vertentes de governabilidade democrática são o pensamento liberal e o republicano. Jurgen Habermas (1995, p.39-40) analisa a concepção liberal, ao investigar o sistema político dos Estados unidos diante do papel do processo democrático:

Segundo a concepção liberal o processo democrático cumpre a tarefa de programar o Estado no interesse da sociedade, entendendo-se o Estado como o aparato de administração pública e a sociedade como o sistema, estruturado em termos de economia de mercado, de relações entre pessoas privadas e do seu trabalho social. A política (no sentido da formação política da vontade dos cidadãos) tem a função de agregar e impor os interesses sociais privados perante um aparato estatal especializado no emprego administrativo do poder político para garantir fins coletivos.

O filósofo alemão caracteriza a concepção liberal ao demonstrar que nesta forma de governo a hierarquização do Estado e um mercado econômico desregulamentado faz surgir a solidariedade e orientação dos indivíduos da sociedade para um bem comum, em uma busca conjunta para a integração social (HABERMAS, 1995, p.39-40). E ainda completa que para a prática da autodeterminação cidadã supõe-se uma base de sociedade civil autônoma, independente tanto da administração pública como do intercâmbio privado, que protegeria a

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