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A tentativa de controle da web

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II. INFORMAÇÃO E PODER

2. O monopólio da mídia

2.2 A tentativa de controle da web

O advento da web, no início, prenunciava uma revolução no campo da comunicação, principalmente na produção e disseminação de informação e o trato que o receptor daria a ela. Para Henry Jenkins, a audiência moderna transforma a relação entre sociedade e informação. O autor reflete que:

A velha retórica de oposição e cooptação pressupunha um mundo onde os consumidores tinham pouco poder direto para moldar o conteúdo da mídia e enfrentavam obstáculos enormes para entrar no mercado, enquanto que o novo ambiente digital expande o alcance e a esfera de ação das atividades do consumidor (2009, p. 295).

Para Roger Parry agora é consumidor quem decide qual informação dar importância, e não o emissor, o autor afirma que:

Formatos tradicionais como livros, jornais, rádio ou televisão eram canais distintos e estanques; cada qual fazia uso próprio da tecnologia. Na era digital, essas distinções vão se dissolvendo, e os mesmos dispositivos baseados em tela e interligados através da internet serão usados para oferecer um volume quase ilimitado de conteúdo, com o usuário, e não o distribuidor, decidindo exatamente o que, onde e quando ler, ouvir ou assistir (2012, p.354).

Além das implicações nas mudanças das relações entre emissores e receptores, outra revolução indicada com o surgimento da web seria na democracia ou na derrubada de regimes autoritários. O pesquisador Evgeny Morozov (2011, p.12) entende que o sentimento libertador das tecnologias digitais aconteceu depois que a União Soviética sucumbiu. Explica que após a queda do Muro de Berlin, as previsões do futuro da democracia com as tecnologias digitais eram tremendas e que a larga quantidade de informações disponíveis e de tecnologias da comunicação seriam letais para os regimes antidemocráticos.

Morozov, porém, critica esta linha de pensamento. Tece uma crítica ao dizer que: Paradoxalmente, em sua recusa a ver a desvantagem do novo ambiente digital, os ciberutópicos acabaram menosprezando o papel da Internet, recusando-se a ver que ele penetra e remodela todas as esferas da vida

política, não apenas os favoráveis a democratização (2011, p.xiv, tradução nossa)6.

O autor ainda completa seu raciocínio, ao afirmar:

Em vez disso, a lição a ser tirada é que a Internet veio para ficar, ele vai continuar a crescer em importância, e os preocupados com a promoção da democracia precisam não só lidar com ela, mas também vêm com mecanismos e procedimentos para assegurar que outro erro trágico na escala de Abu Ghraib (quando fotos vazadas da prisão iraquiana de mesmo nome onde apresentava imagens de tortura dos prisioneiros) nunca vai acontecer no ciberespaço (2011, p.xv, tradução nossa)7.

Sérgio Amadeu da Silveira (2011, p.155-156) critica Morozov ao dizer que na reflexão feita pelo autor, ele considerou ―que as pessoas em países ditatoriais são politicamente ingênuas‖ e que a rede pouco poderia fazer para a democracia, já que estaria totalmente controlada pelo governo. Silveira afirma que este argumento caiu quando os movimentos da Primavera Árabe aconteceram, já que a web foi utilizada para organizar as manifestações. Porém, o pesquisador reconhece que existe uma tentativa de controle da internet. Ele inicia a sua investigação ao citar Alexander Galloway, que ―detalha o controle em uma rede distribuída como a internet. Mais do que isso, afirma ser o controle aquilo que assegura a possibilidade de maior interatividade entre os nós da rede que conectam o cidadão‖ (2011, p.154). Silveira acredita que esta rede tecnicamente protocolada e com definições precisas de como uma tecnologia digital deve se comunicar com outra, é o que permite o surgimento de grupos de resistência e de ativismo, como o Wikileaks. E completa ao dizer que ―todavia, estes controles inicialmente tecnológicos se prestam também a se tornar controles políticos e culturais‖ (2011, p.155).

Ainda para Silveira, ao estudar o caso Wikileaks, o pesquisador chega a uma conclusão do que demonstrou o fenômeno da organização de Julian Assange:

Os embates em torno do Wikileaks permitiram alertar a opinião pública internacional para o fato de que as grandes corporações podem tentar anular a liberdade de expressão pelo controle que possuem da infraestrutura de comunicação. Podem, também, tentar desarticular as redes de apoio pelo sufocamento dos seus grupos opositores (2011, p.159).

6 [...] Paradoxically, in their refusal to see the downside of the new digital environment, cyber-utopians ended up

belittling the role of the Internet , refusing to see that it penetrates and reshapes all walks of political life, not jus the ones conducive to democratization (Morozov, 2011, p. xiv).

7 [...] Rather, the lesson to be drawn is that the Internet is here to stay, it will continue growing in importance,

and those concerned with democracy promotion need not only grapple with it but also come up with mechanisms and procedures to ensure that another tragic blunder on the scale of Abu Ghraib will never happen in cyberspace (Morozov, 2011, p. xv)

As análises de Yochai Benkler (2006, p.236) combinam com o pensamento de Silveira, onde o autor americano tece um estudo sobre como as corporações midiáticas continuam a deter o poder dentro da rede, mesmo com o fluxo de informações de forma descentralizada. O pensador afirma:

Grande, sofisticado, bem financiado governo e agentes do mercado corporativos têm enormes recursos à sua disposição para agir como quiserem e de evitar o escrutínio e o controle democrático. Apenas igualmente grandes, poderosos, organizações financiadas de forma independente de mídia, pode combinar esses estabelecidos atores da elite organizacionais. Os indivíduos e as coleções de voluntários que falam entre si pode ser bom, mas não podem substituir a sério as mídias bem financiadas, e economicamente e politicamente poderosas (2006, p.236, tradução nossa)8.

O poderio destas empresas é representado a partir das tecnologias criadas para filtrar a internet. O ativista político Eli Pariser (2011, p.87) apresenta uma série de ferramentas que analisam o tráfego de dados na rede, com intenções comerciais. Ele cita a empresa PeekYou, que está patenteando softwares para rastear pseudônimos na web, para encontrar o nome verdadeiro do interagente. Outra companhia é a Phorm, que oferece seus serviços a provedores de internet com a utilização do método ―inspeção profunda de pacotes‖, para analisar o tráfico de dados que passam pelos servidores da provedora e utiliza estes dados para criar perfis de cada consumidor para o uso de propagandas personalizadas. Pariser ainda cita a BlueCava, que oferece um serviço onde faz uma compilação da base de dados de qualquer dispositivo conectado no mundo, com a mesma intenção de uso da Phorm.

Estas ferramentas de análise de dados são chamadas de data mining, ou mineração de dados, em português. Pariser ainda diz que ter as informações rastreadas através de filtros que personalizam os navegadores de acordo com o perfil do interagente ―afeta a sua habilidade para escolher o seu próprio destino‖ (2011, p.89) dentro da rede. O autor refere que a liberdade na rede ainda é possível, mas, ao citar Benkler, diz que ―para ser livre, tem que estar disposto a não fazer apenas aquilo que quiser, mas saber o que é possível fazer‖ (2011, p.89).

Além dos controles da rede com a intenção comercial, há indícios de que as corporações e governos querem regulamentar o tráfico de dados na rede, especialmente no que se refere a download de arquivos. A discussão está em volta da quebra da propriedade

8 [...] Big, sophisticated, well-funded government and corporate market actors have enormous resources at their

disposal to act as they please and to avoid scrutiny and democratic control. Only similarly big, powerful, independently funded media organizations, whose basic market roles are to observe and criticize other large organizations, can match these established elite organizational actors. Individuals and collections of volunteers talking to each other may be nice, but they cannot seriously replace well-funded, economically and politically powerful media (Benkler, 2006, p.236).

intelectual, e algumas leis já estão sendo formuladas quanto a este quesito, e também sobre a proteção de informação, principalmente depois do caso Wikileaks.

A intenção, segundo as autoridades, é a de defender a propriedade intelectual e garantir a não degradação do comércio, ao repreender a pirataria no ambiente físico e virtual. O debate agora centra na aprovação do acordo internacional ACTA (Anti-Conterfeiting Trade Agreement - Acordo Comercial Anticontrafação), que está em discussão na comunidade internacional desde 2007.

De acordo com o texto final do ACTA, a criação do acordo veio da observação da proliferação da pirataria de bens e os distribuidores de materiais ilícitos minam o comércio e o desenvolvimento sustentável da economia global e provoca perdas financeiras significativas para quem possui os direitos autorais e das empresas, além de fomentar receita para o crime organizado (Anti-Conterfeiting Trade Agreement, 2011, p. 2). Dentro deste contexto, o documento ainda descreve como a proteção de informações secretas tem de ser feitas. Importante lembrar que, na data da publicação das informações secretas do Wikileaks, não havia leis que sustentassem uma acusação formal a Assange, o que muda caso o ACTA seja aprovado.

No Artigo 11 do acordo, aparece a resolução de que o governo tem autoridade para, no mínimo, coletar informações relevantes sobre o infrator ou do alegado infrator de direitos de propriedade intelectual e de seus bens. Tal como informações sobre outros envolvidos, os meios de produção e distribuição das informações e a liberdade para tomar ações legais conta os infratores (2011, p.8). E é complementado pelo Artigo 12, parágrafo 3, que permite depois de adotado o acordo, a custódia dos envolvidos e os materiais usados para a circulação da informação.

O Artigo 27 do documento especifica as ações de proteção da propriedade intelectual dentro da rede. O parágrafo 1 determina que identificada à infração, seja dada a permissão, para tomar as medidas necessárias contra os infratores, inclusive com ações para prevenir e impedir o crime dentro da web (2011, p.16). As penas determinadas vão de multas até a prisão. E as ações necessárias para o controle de dados, permitem a utilização de filtros nos provedores de internet, a fim de encontrar qualquer quebra da propriedade intelectual.

A pressão para se criar uma proteção específica dos dados constantes de um banco de dados surgiu, no âmbito global, a partir de interesses defendidos pelas empresas e pelos grupos internacionais da área de mídia. Tais interesses relacionam-se com a manutenção das respectivas posições econômicas por parte desses grupos em face do desenvolvimento tecnológico, substancialmente, o desenvolvimento da tecnologia digital e da internet (LEMOS, s.d. p.139).

Documentos revelados pelos Wikileaks, desde 2007, sobre as negociações do ACTA, revelam que entre os integrantes da comissão, estavam funcionários do alto escalão da iniciativa privada, entre elas gravadoras e corporações farmacêuticas. Caso o acordo seja aprovado em âmbito global, os remédios genéricos teriam de sair de circulação, pois utilizam em suas fórmulas as patentes originais das drogas, o que seria um crime no ACTA.

Diante do todo exposto, cabe a análise do ex-Ministro das Relações Exteriores do Brasil e professor titular de direito da USP (Universidade de São Paulo), Celso Lafer (2011, p.11-12), que em seu artigo ―Vazamentos, sigilo, diplomacia: a propósito do significado do Wikileaks‖, explica que ―os meios pelos quais a informação é comunicada, seja qual for a sua natureza, estão ligados à tecnologia e às suas mudanças‖ e cita Robert Darnton que ―aponta quatro mudanças básicas relevantes na configuração do horizonte da informação, no correr da história humana‖:

A primeira é a descoberta da escrita, que permitiu a acumulação de informações sobre o passado, superando, por meio do aparecimento do livro, a precariedade da memória da transmissão oral. A segunda é a passagem do livro, do rolo para o codex, que ajudou a experiência da leitura ao facilitá-la. A terceira é a descoberta da tipografia que, graças à invenção de Guttenberg, foi tornando o livro e os panfletos acessíveis a um número crescente de leitores. No âmbito desta descoberta o papel proveniente da celulose da madeira e o seu barateamento, a linotipia e a impressão em larga escala levaram, nos séculos XIX e XX, à grande imprensa e a um novo horizonte para a informação com a criação de um público de massa.

Lafer (2011, p.12) continua sua reflexão:

Os modos de atingir este público adquiriram novas características e impacto com o rádio, que ampliou enormemente o alcance da voz humana, e com a televisão que permitiu gravar e transmitir, também com enorme alcance, a imagem das pessoas. O rádio e a televisão tornaram viáveis, como aponta John B. Thompson, uma simultaneidade no espaço do processo de transmissão de informações, alargando ainda mais o horizonte da informação.

Para Celso Lafer (in 2011, p.12) ―a mais recente e vertiginosa transformação no horizonte da informação foi trazida pela Revolução Digital. Esta ampliou de maneira inédita a escala do armazenamento de documentos e a ubiquidade do potencial de sua divulgação pela internet‖. Ainda diz que ―a tecnologia faz com que o controle das informações escape dos múltiplos ‗aparatos do poder‘ chegando com crescente facilidade a uma ‗sociedade civil internauta‘‖.

Celso Lafer (in 2011, p.13) afirma que ―a democracia pressupõe a existência de cidadãos e não de súditos subordinados a um soberano‖ e que ―o exercício da cidadania

requer informação exata e honesta‖. Para o ex-ministro ―a temática do acesso aos documentos contidos nos arquivos públicos é uma temática inerente aos regimes democráticos, pois informações indisponíveis indefinidamente‖ e guardadas ―apenas para um número limitado de governantes não cabem numa democracia‖. Acredita que na democracia ―a publicidade e o acesso são a regra que comporta certas derrogações que tornam só possível o acesso pleno depois do transcurso de um certo período de tempo‖. Cita como ―documentos originariamente sigilosos‖ aqueles ―imprescindíveis à segurança da sociedade e do Estado‖. Porém, reconhece que para classificar ou desclassificar um documento como sigiloso requer ―critérios de razoabilidade e prudência ligados ao interesse comum‖. Completa que ―estes critérios sempre comportam uma margem de apreciação discricionária do Poder Público, que podem ser discutíveis na perspectiva da cidadania e do jornalismo investigativo de qualidade‖.

Assim, Celso Lafer (in 2011, p.13) conclui que ―os documentos sigilosos, guardados em arquivos de computadores, são muito mais vulneráveis‖ ao ―devassamento por obra da Revolução Digital e a ação dos internautas‖ ocorrendo a ―instantaneidade da transparência democrática‖ e provocando a análise do ―alcance do fenômeno Wikileaks‖.

A pesquisadora Patricia Bandeira de Melo (2011, p.261) conceitua o Wikileaks como ―uma plataforma de vazamento de informação‖ que ―investiga, divulga e põe em questão problemas que estão latentes no mundo, atuando como um corpo de jornalistas investigativos‖. Esclarece que no jornalismo clássico ―o que importava era o acúmulo de saber somado ao estranhamento diante dos fatos geradores de problemas sociais‖ e ―o fazer jornalístico se constituía numa luta social para reverter quadros considerados adversos, normalmente para grupos excluídos‖. Para a autora (2011, p.263) Julian Assange retoma os ―sentidos da prática do jornalismo clássico‖ em que o ―ativismo decorria da atividade dos jornais em causas a defender e a condenar‖.

Patricia Bandeira de Melo (2011, p.262) explica que ―o que era apenas jornal foi engolido por conglomerados empresariais‖ que ―consolidaram-se como empresas transnacionais‖ focadas no mercado ―para vender o seu produto‖ que pode também ser a informação. Já a Internet de origem militar, expandiu-se para o meio acadêmico até chegar às casas, ―tornando-se um instrumento de democratização da informação‖.

Diante de tais observações Patricia Bandeira de Melo (2011, p.270) analisa a liberdade de imprensa e a atuação do site de Julian Assange. Para a autora ―os vazamentos do Wikileaks servem para identificar um jornalismo de resistência que ressurge no Século XXI‖. Neste ponto, a autora cita Foucault (2006) que ―considerou a resistência como fundamental‖.

Já a imprensa tradicional ―não está preparada para atuar de forma efetivamente livre, porque está presa à lógica de mercado, pois, numa atuação convencional, os documentos expostos pelo site não estariam acessíveis à audiência sem que fossem antes negociados entre a grande imprensa e os governos‖.

O pesquisador Juremir Machado da Silva (2011, p.201) analisando ―a transparência total de Julian Assange‖ coloca que a ―função máxima do jornalismo investigativo‖ era, utilizando uma expressão francesa, ―tout débaler‖: ―revelar, descobrir, desocultar, dar a ver, tirar o véu ou, simplesmente, cobrir‖, ―para descobrir‖ e a dos donos dos meios de comunicação ―de classificar e revelar‖, como também ―de esconder‖. Para o autor ―a internet foi um golpe letal para o controle da informação pelos meios que deveriam divulgá-la‖, pois, ―cada um pode ser emissor‖ e todos podem ter ―o seu meio de comunicação‖, sendo que ―não é o jornalismo que desaparece‖, mas ―é o jornalista que já não está mais sozinho‖. Nesse aspecto, o autor (2011, p.205) verifica que ―Assange provou que se pode ser ‗dono de jornal‘ sem mídia convencional‖ que ―colocou a reboque a grande mídia mundial‖ e ―retornou o princípio clássico do ‗tout débaler‘‖ e conclui:

Assange não cometeu crime. Exerceu o direito garantido na Constituição dos Estados Unidos à liberdade de expressão. Atuou como jornalista. Qual a sua diferença em relação aos jornalistas que trabalham para a grande mídia internacional? Ética? Responsabilidade? Falta de comprometimento com os interesses nacionais? Nenhuma. Assange agiu como qualquer meio de comunicação poderia ter agido. De resto, sete veículos de comunicação mundiais, entre os quais o brasileiro Folha de S. Paulo, aceitaram divulgar informações sigilosas ―vazadas‖ por ele. [...] Pela primeira vez, em escala universal, um cavaleiro solitário divulgou documentos secretos numa escala jamais vista antes. Assange tomou o lugar tradicional dos jornalistas. Wikileaks tomou o lugar tradicional dos jornais.

A pesquisadora Elizabeth Saad Corrêa (2011, p.213) em seu artigo ―Apontamentos sobre o jornalismo extra-muros do Wikileaks‖, analisa que a ―verdade, liberdade de expressão e transparência emergem como os propósitos que fazem a ponte entre a ação do Wikileaks e as práticas jornalísticas‖ e acrescenta ao dizer que ―ainda que incompleta ou indefinida em termos de gênero, valores, narrativa e ética jornalísticas ou de modelo empresarial no segmento, podemos dizer que o Wikileaks ‗está se tornando‘ um ator diferencial no arranjo social temporário que vivemos‖ (2011, p.226).

Elizabeth Saad Corrêa (2011, p.226) ainda entende que a base da filosofia do Wikileaks:

[...] está na visibilização transparente da verdade como forma de alcance da justiça social – uma das máximas do jornalismo a qualquer tempo e plataforma. Seu modo de agir em rede depende do elemento humano, como

colaborador, como minerador de dados, como editor/compilador e, especialmente, como imagem na figura de Julian Assange – também uma das exigências do jornalismo contemporâneo.

Assim, Elizabeth Saad Corrêa (2011, p.226) completa sua análise:

[...] numa sociedade líquida o Wikileaks está se tornando um influenciador das redes neurais da mente humana, fazendo uso da rede, tanto daquela dominada pela comunicação massiva quanto da gerada pela comunicação inter usuários nas plataformas sociais. Muito contemporâneo.

O jornalista José María León, na matéria GkillCity, ao questionar o caso Wikileaks, entrevista o linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, que responde ao jornalista por e-mail em 19 de agosto de 2012 e publicado em 25 de agosto de 2012, apresentando a opinião:

Qualquer um que estude documentos antes secretos logo adverte que o sigilo governamental é um esforço para proteger os formuladores de políticas públicas do escrutínio popular, não para proteger o país dos inimigos. Não há dúvida de que o sigilo às vezes é justificado, mas é raro, e, no caso dos vazamentos feitos pelo Wikileaks, eu não vi um único exemplo que o tivesse merecido.

No entanto, esta não é – de nenhuma maneira – a primeira vez que documentos vazados expuseram ―a verdadeira face da diplomacia‖.

Chomsky (2012, s.p.) completa:

Os Papéis do Pentágono são um caso famoso, mas a verdade é que este é um problema constante. Os registros expostos, inclusive documentos que oficialmente deixaram de ser secretos, são geralmente bastante impressionantes, embora seja muito raro que esta informação se torne conhecida do público em geral e, até mesmo, pela maioria da academia. A pesquisadora Elizabeth Saad Corrêa (2011, p.222), afirma que a legitimação ―do jornalismo investigativo, em rede, participatório e multimídia‖ está ―no enfraquecimento da independência das organizações jornalísticas clássicas por conta de seus modelos de negócio multi-estruturais e respectivas consequências institucionais‖. Reforça tal entendimento demonstrando que Noam Chomsky e Ignácio Ramonet, desde 1990, discutem o tema, afirmando o enfraquecimento da imprensa que denominam de quarto poder:

Poderiam (os cidadãos) contar com a imprensa, com esse recurso por vezes chamado de quarto poder e que tradicionalmente nas democracias tem por principal função revelar a verdade e proteger os cidadãos contra os abusos dos outros poderes? De fato, para dizemos literalmente, não.

Então, para Elizabeth Saad Corrêa (2011, p.213), ―o próprio cenário jornalístico nessa primeira década do século XXI abriu espaço para o surgimento de operações como o

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