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(2) BRUNO CONRADO DEMARTINI ANTUNES. O USO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO NA LIBERAÇÃO DE DADOS NA REDE: O CASO WIKILEAKS Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de PósGraduação. em. Universidade. Comunicação. Metodista. de. Social, São. da. Paulo. (UMESP), para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Sebastião Carlos de Morais Squirra.. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo, 2013.
(3) FOLHA DE APROVAÇÃO A dissertação de mestrado sob o título ―O USO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO NA LIBERAÇÃO DE DADOS NA REDE: O CASO WIKILEAKS‖, elaborada por BRUNO CONRADO DEMARTINI ANTUNES, foi apresentada e aprovada em 22 de abril de 2013, perante banca examinadora composta por PROF. DR. SEBASTIÃO CARLOS DE MORAIS SQUIRRA (Presidente/UMESP), PROF. DR. WILSON DA COSTA BUENO. (Titular/UMESP). e. PROF.. DR.. SÉRGIO. AMADEU. DA. (Titular/UFABC).. ______________________________________________ Prof. Dr. SEBASTIÃO CARLOS DE MORAIS SQUIRRA Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ______________________________________________ Prof. Dr. LAAN MENDES DE BARROS Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Inovações tecnológicas na comunicação contemporânea. SILVEIRA.
(4) Dedico este trabalho aos meus pais, que sempre me deram forças para seguir em frente..
(5) Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.. Mahatma Gandhi. O homem é tão bom quanto seu desenvolvimento tecnológico o permite ser.. George Orwell.
(6) AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente aos meus pais, que sempre estiveram do meu lado quando precisei durante esta jornada de pouco mais de dois anos na produção deste trabalho. Não apenas no lado do carinho, mas também ao debater ideias para que este trabalho tomasse a melhor forma possível. Sem deixar de lado os outros membros da minha família, que sempre apoiaram os meus estudos e me presenteiam com um sorriso a cada conquista acadêmica que consigo. Agradeço também a todos os professores do curso de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, por sempre disponibilizarem seus conhecimentos quando os solicitei. Os resultados de cada pedacinho de conhecimento que me ensinaram durante este curso estão presentes neste trabalho. Agradeço também a meu orientador, Prof. Dr. Sebastião Carlos de Morais Squirra, que, além de me indicar o caminho certo para construir este trabalho, me ensinou como usar o conhecimento adquirido de forma útil, ao ensinar como trilhar o caminho na produção acadêmica, demonstrando uma paciência incrível e grande habilidade para me ajudar a corrigir erros e a aprimorar não apenas este trabalho, mas os ensinamentos que angariei durante estes dois anos..
(7) Lista de Figuras Figura 1...................................................................................................................................135 Figura 2...................................................................................................................................136 Figura 3...................................................................................................................................136.
(8) RESUMO O trabalho apresenta um estudo de caso do site Wikileaks, fundado pelo ex-hacker australiano Julian Assange, que ganhou fama mundial em 2010 por vazar documentos secretos dos Estados Unidos relacionados às guerras do Afeganistão e Iraque, e das embaixadas americanas de todo o mundo. A publicação de todo este conteúdo gerou uma grande controvérsia no alto escalão da política internacional e trouxe a tona como os donos do poder e da mídia monopolizada agem para calar os discursos de narradores que podem colocar a sobrevivência política destes atores do poder em risco. Este trabalho, portanto, apresenta um caso onde as novas mídias digitais promoveram aquele que foi chamado de ―o maior vazamento da história‖ e como os atores políticos reagiram a este fenômeno, com uma campanha de pressão e difamação de Assange para tentar cessar as ações do site.. Palavras-chave: Wikileaks, mídia, política, tecnologia..
(9) ABSTRACT This paper presents a case study of the Wikileaks website, founded by the former Australian hacker Julian Assange, who gained worldwide notoriety in 2010 by leaking secret United States Government documents regarding the wars in Afghanistan and Iraq, as well as from American embassies throughout the World. The publication of all of this content has generated great controversy in the high ranks of international politics and has shed a light on how the owners of power and monopolized media act to silence the discourses of certain narrators, discourses that can greatly jeopardize the political survival of these power actors. Thus, this work presents a case where new digital medias promoted what was portrayed as "the biggest leak in history" and how government actors reacted to this phenomena, with a campaign based on the pressure and defamation of Assange to try and cease all activities of website.. Keywords: Wikileaks, media, politics, technology.
(10) RESUMEN El trabajo presenta un estudio de caso del sitio Wikileaks, fundado por el ex-hacker australiano Julian Assange, que gano fama mundial en 2010 por filtrar documentos secretos de los Estados Unidos relacionados a las guerras de Afganistán e Irak, y de las embajadas americanas de todo el mundo. La publicación de todo este contenido genero una gran controversia en el alto escalón de la política internacional y trajo a la superficie como los dueños del poder y de los medios monopolizados actúan para callar los discursos de narradores que pueden colocar la sobrevivencia política de estos actores del poder en risco. Este trabajo, por lo tanto, presenta un caso donde las nuevas medios digitales promovieran aquella que fue llamada de ―la mayor fuga de información de la historia‖ y como los atores políticos reaccionaran a este fenómeno, con una campaña de presión y difamación de Assange para tentar parar las acciones del sitio.. Palabras-llave: Wikileaks, medio, política, tecnología..
(11) SUMÁRIO INTRODUÇÃO.......................................................................................................................14. I.. A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA ATRAVÉS DA HISTÓRIA: A SOCIEDADE MOLDADA PELA TÉCNICA........................................................................................18. 1. A Independência dos Estados Unidos.................................................................................21 2. Revolução Francesa: os impactos no desenvolvimento social e na tecnologia..................25 3. A primeira Revolução Industrial.........................................................................................28 4. A segunda Revolução Industrial e a chegada das redes......................................................31 5. O início da ciência da computação.....................................................................................34. II.. INFORMAÇÃO E PODER..............................................................................................38. 1. Conceituação sobre poder...................................................................................................38 2. O monopólio da mídia.........................................................................................................47 2.1 Controle da inovação....................................................................................................52 2.2 A tentativa de controle da web.....................................................................................55. III.. HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS.............................................................66. 1. Os bastidores da política e economia: a Escola de Chicago...............................................66 2. A cultura do medo e o imaginário social............................................................................70 3. Contracultura.......................................................................................................................72 4. O movimento hacker...........................................................................................................83. IV.. A SOCIEDADE DIGITAL...............................................................................................91. 1. A lógica de redes.................................................................................................................91 1.1 Determinismo tecnológico......................................................................................96 1.2 Estrutura das redes.................................................................................................98 2. Redes e as telas digitais: um novo modelo informacional................................................103.
(12) 3. A cultura da participação na web......................................................................................111. V.. CONSTRUÇÃO DO WIKILEAKS..............................................................................120. 1. Julian Assange: formação da personalidade por trás do Wikileaks..................................120 1.1 Surge Mendax: os primeiros passos de Assange no meio digital.........................124 2. Fundação do Wikileaks.....................................................................................................131 2.1 Tecnologias para construção do site.....................................................................133 3. Primeiros vazamentos do site: de 2006 a 2009.................................................................138 4. Bradley Manning: um soldado, os documentos e a represália..........................................143 5. Acordos entre Julian Assange e a grande mídia: os desafios para analisar os documentos e o jornalismo de dados.......................................................................................................149 6. Os vazamentos: o vídeo Collateral Murder......................................................................154 6.1 Os Diários de Guerra do Afeganistão...................................................................157 6.2 Os documentos da Guerra do Iraque.....................................................................161 6.3 Os vazamentos das embaixadas estadunidenses...................................................163 VI.. A REPERCUSSÃO DO WIKILEAKS.........................................................................167. 1. Ataques ao site: pressão do governo norte-americano para o fechamento da página e confronto cibernético........................................................................................................167 2. A resposta dos seguidores de Assange..............................................................................173 3. A paralisação do Wikileaks: o confinamento de Assange e o refúgio na embaixada equatoriana........................................................................................................................175. CONCLUSÃO.......................................................................................................................181. REFERÊNCIAS....................................................................................................................186. ANEXOS................................................................................................................................197 ANEXO 1 – Declaração Universal dos Direitos Humanos....................................................197 ANEXO 2 - Rede de apoio a Bradley Manning.....................................................................206.
(13) ANEXO 3 – Guia interativo: banco de dados dos documentos diplomáticos do Jornal The Guardian.................................................................................................................................207 ANEXO 4 – Vídeo ―Collateral Murder‖................................................................................210 ANEXO 5 – Documentos diplomáticos sobre o Brasil..........................................................213.
(14) 14. INTRODUÇÃO A ascensão da tecnologia não se deu com datas definidas de início e fim, pois que não há substituição, mas a absorção e modificação, ou seja, há evolução que consequentemente reestrutura a sociedade nos aspectos econômicos, políticos e no comportamento social. As mudanças ocorrem, com a evolução tecnológica, devido ao efeito de rede que consiste na vinculação entre vários indivíduos no uso de uma nova ferramenta tecnológica, como explica Roger Parry (2012, p.29). Este mesmo efeito proporcionou, por exemplo, a prensa rotativa, o vapor, o telégrafo, o telefone, o rádio, a televisão e a internet. Assim, hoje o cenário de um ambiente em rede, com a transmissão de informação em tempo real, que permite a interação entre audiência e mensagem, traz consigo uma nova economia não informal da comunicação. O pesquisador Yochai Benkler analisa este momento de transição comunicacional ao indicar três fatores que formam as possibilidades das novas tecnologias na disseminação e produção de informação. O pesquisador conceitua: A economia da informação em rede melhora as capacidades práticas dos indivíduos ao longo de três dimensões: (1) melhora nossa capacidade de fazer mais por e para nós mesmos, (2) aumenta nossa capacidade mais comum com os outros, sem ser obrigado a organizar nossa relação através de um sistema de preços ou nos tradicionais modelos hierárquicos de organização social e econômica; e (3) melhora a capacidade dos indivíduos de fazer mais em organizações formais que operam fora da esfera do mercado (2006, p.8, tradução nossa1).. A relevância histórica que o caso Wikileaks apresenta, desde a implantação do site, com a obtenção dos documentos à sua publicação, está profundamente ligada às novas tecnologias digitais, pois sem elas e diante da transformação por qual a sociedade passa com a penetrabilidade cada vez maior dos aparelhos conectáveis, seria impossível o site de Julian Assange realizar os vazamentos. O pesquisador Sebastião Carlos de Morais Squirra faz o apontamento da importância do Wikileaks ao dizer: Pode-se dizer que nunca na história da humanidade volume tão grande de informações secretas foi colocado à disposição das pessoas, na sua originalidade, sem pressões que formatavam o que podia ou não ser 1. The networked information economy improves the pratical capacities of individuals along three dimensions: (1) it improves their capacity to do more for and by themselves; (2) it enhances their capacity to do more in loose commonality with others, without being constrained to organize their relationship through a price system or in traditional hierarchical models of social and economic organization; and (3) it improves the capacity of individuals to do more in formal organizations that operate outside the market sphere (BENKLER, 2006, p.8)..
(15) 15. divulgado. E isso só foi possível pelo território altamente permissivo das tecnologias digitais da modernidade, que colocou em sistemas facilmente acessíveis todas as informações, que passaram a ser disponibilizadas a qualquer pessoa munida dos instrumentos tecnológicos a que muitos têm ao seu alcance (2011, p.76).. Esta pesquisa, então, tem como objetivo demonstrar a importância das tecnologias digitais no cenário atual da comunicação, e indicar o momento de transição por qual passa a estrutura comunicacional moderna, em uma fase de adaptação dos processos de produção de informação por parte da grande mídia e dos atores sociais e políticos. A relevância do fenômeno Wikileaks está em apresentar as formas de governança dentro e fora da rede. A reação dos atores políticos, com a pressão feita para o fechamento do site, demonstra o incômodo que as ações do site causaram. Yochai Benkler comenta o case como: O episódio Wikileaks nos obriga a confrontar o fato de que os membros da rede [...] são mais suscetíveis às novas formas de ataques do que no passado, e de possuir novas formas de resiliência em face desses ataques. Em particular, os proprietários comerciais das infraestruturas do ambiente em rede podem negar o serviço (da internet) para falantes controversos. [...] O governo dos Estados Unidos, por sua vez, pôde usar esta vulnerabilidade para trazer novos tipos de pressão sobre divulgações indesejáveis em parceria extralegal com os fornecedores privados de infraestrutura (2011, p.1, tradução nossa2).. O estudo será feito através de uma pesquisa qualitativa. Roberto Jarry Richardson (2008, p.79) define essa linha de pesquisa como ―uma forma adequada de entender um fenômeno social‖. Então, o objeto de estudo, o Wikileaks, será descrito devido ao seu caráter revelador, onde apresenta o uso das tecnologias digitais no trato da informação dentro do ambiente em rede. O relato da trajetória do site tem como objetivo demonstrar as causas de seu aparecimento, história e relação que a página virtual teve com a mídia. A descrição sobre as infraestruturas tecnológicas dos meios de comunicação serão feitas baseadas em obras teóricas sobre o tema. O objetivo é apresentar como funcionam estas tecnologias, da construção da mensagem, transmissão, até a recepção, e apresentar quais foram às influências no campo da comunicação destas mídias. O primeiro capítulo traz três momentos históricos onde a tecnologia transformou a sociedade e possibilitou uma maior penetração dela na vida cotidiana, além de maximizar o 2. The Wikileaks episode forces us to confront the fact that the members of the networked […] turn out to be both more susceptible to new forms of attack than those of the old, and to possess different sources of resilience in the face of these attacks. In particular, commercial owners of the critical infrastructures of the networked environment can deny service to controversial speakers. […] The United States government, in turn, can use this vulnerability to bring to bear new kinds of pressure on undesired disclosures in extralegal partnership with these private infrastructure providers (BENKLER, 2011, p.1)..
(16) 16. potencial da mídia como veículo para lutas sociais. Serão abordadas a Independência Americana e o uso que fizeram da mídia para conquistar a liberdade, a Revolução Francesa que utilizou a comunicação com o mesmo fim, e o advento das máquinas a vapor, que transformariam a sociedade de forma radical. O segundo capítulo mostrará como o poder influencia a sociedade e controla também a mídia e a disseminação de tecnologias. Serão apresentadas conceituações sobre as formas de poder. Inclusive a relação que os altos escalões da política possuem com a mídia, e a própria mídia como uma força, e como as grandes corporações midiáticas controlam o conteúdo da mídia. Por fim, será apresentada a tentativa dos governos em controlar a internet. O terceiro capítulo desta dissertação irá abordar o tema da Contracultura e do movimento hacker. Ambos os movimentos, que estiveram à margem da cultura tradicional ocidental, esboçam como estes participantes tiveram influência no uso de tecnologias da informação para o uso social, de contestar as forças políticas e também como formataram a internet atual. Esta base ajudará a entender melhor a figura de Julian Assange e as ideias que o australiano defende e do por que da fundação do Wikileaks. O quarto capítulo trata da Sociedade em Rede, como as conexões são formadas e como a introdução das tecnologias digitais vêm moldando a sociedade atual. Será abordada também a relação entre homem e máquina e como os usuários da rede realizam trabalhos colaborativos. No próximo capítulo, o quinto, será contada a história do Wikileaks. Desde a infância de Julian Assange, fundador do site, onde viveu nos ambientes de contracultura e do movimento hacker, que fincou os ideais que defenderia ao divulgar os documentos secretos. Será mostrada também a vida e a situação do soldado americano Bradley Manning, que vazou a Assange os documentos secretos relacionados aos Estados Unidos, que levou o site a virar notícia em todo o mundo e sofrer os ataques do governo norte-americano. No sexto e último capítulo serão apresentadas as pressões que os governos fizeram a empresas e veículos de mídia ligados ao Wikileaks para paralisarem seus serviços e acordos com o site de Julian Assange. Serão apresentadas as campanhas de difamação contra o australiano e como a mídia mudou da parceira, para a crítica do site que vazou os documentos secretos dos Estados Unidos. Além de mostrar a prisão de Assange, com denúncia de abusos sexuais contra duas suecas, e a situação na qual se encontra hoje exilado dentro da embaixada equatoriana em Londres..
(17) 17. A presente dissertação de mestrado vai na mesma direção do Programa de Desenvolvimento e Capacitação de Recursos Humanos em TV Digital da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, do qual este pesquisador foi bolsista e recebeu apoio..
(18) 18. CAPÍTULO I – A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA ATRAVÉS DA HISTÓRIA: A SOCIEDADE MOLDADA PELA TÉCNICA. A história revela que as inovações tecnológicas reestruturam a sociedade, sendo possível afirmar que a introdução de novas tecnologias na sociedade acarreta em uma série de mudanças na economia, na política e no comportamento social. Neste sentido, o pesquisador Lloyd Morrisett argumenta que ―a sociedade cria a tecnologia, mas a sociedade também é criada pela tecnologia‖ (2004, p.22, tradução nossa)3. O autor continua sua análise entre tecnologia e sociedade ao afirmar a necessidade de pesquisar as inovações técnicas no decorrer da história e analisar como a construção social aconteceu na formação da sociedade contemporânea: Se a natureza humana é parcialmente resultado das tecnologias da sociedade, torna-se crucial examinar a tecnologia, tanto para determinar os efeitos da tecnologia na história e para tentar inferir as consequências de decisões tecnológicas no desenvolvimento futuro da sociedade (MORRISETT, 2004, p.22, tradução nossa)4.. Na mesma direção, a pesquisadora Tamara Benakouche (1999, p.5) cita o historiador Thomas Hugues, considerando-o como o principal representante da abordagem das ―complexas relações entre técnica e sociedade‖, caracterizada como ―conjunto de elementos sociais, políticos, econômicos e técnicos envolvidos nas várias etapas de criação, desenvolvimento e difusão de uma tecnologia dada‖. A análise de Thomas Hugues, baseada em extensa documentação, demonstra: [...] as intrincadas relações entre artefatos físicos – como dínamos e transformadores – e interesses empresariais e governamentais, estilos nacionais ou culturais de gestão, personalidade dos inventores, caráter das legislações sobre o controle dos serviços públicos e sobre patentes, respostas dos usuários, dentre outros aspectos envolvidos na configuração do que considera um sistema.. Benakouche (1999, p.5-6) continua a explicar que para Thomas Hugues a definição de sistema ―conserva a noção de componentes conectados numa rede ou estrutura, sob um comando centralizado, o qual visa garantir a otimização do desempenho do conjunto na. 3. [...] Society creates technology, but society is also created by technology (Morrisett, 2004, p.22). [...] If Human nature is partially the result of a society‘s Technologies, it becomes crucial to examine technology, both to ascertain the effects of technological history and to attempt to infer the consequences of technological decisions on the future development of society (Morrisett, 2004, p.22). 4.
(19) 19. perseguição dos seus objetivos‖, atentando que num sistema sociotécnico as relações são permeadas por conflitos devido a ―influência das sociedades‖ diante dos ―diferentes estilos nacionais‖. Assim, Benakouche (1999, p.6-7) apresenta os conceitos de ―reverse salient‖ e ―momentum‖ elaborados por Thomas Hugues: O primeiro, de difícil tradução para o português, inspira-se no vocabulário militar, e sugere a necessidade de uma ação coletiva e concentrada quando um sistema tecnológico dado apresenta obstáculos – ou pontos fracos – em seu desenvolvimento; a superação desses obstáculos exige que, uma vez identificados, os ―reverse salientes‖ sejam traduzidos em ―problemas críticos‖, cuja solução permite a continuação do processo de expansão do sistema em questão. Segundo Hugues, provavelmente a maioria das invenções e desenvolvimentos tecnológicos resulta de esforços para corrigir os ―reverse salientes‖. O conceito de ―momentum‖, por sua vez, refere-se à etapa em que o desenvolvimento de uma tecnologia dada adquire uma ampla aceitação por parte de indivíduos e instituições de algum modo relacionados à mesma, ou seja, quando se constitui um contexto que lhe é favorável. A partir daí, os sistemas técnicos expandem-se rapidamente, adquirindo uma espécie de autonomia (HUGUES in BENAKOUCHE, 1999, p.6-7).. Também, o geólogo Milton Santos (2008, p.43), analisa que a noção de ―reverse salient‖ de Thomas Hugues decorre da contingência histórica ―de verificar como os resíduos do passado são um obstáculo à difusão do novo ou juntos encontram a maneira de permitir ações simultâneas‖. Nesse ponto, o pesquisador Christian Pierre Kasper (2009, p.15) verifica que na concepção de Thomas Hugues, o sistema é uma entidade que envolve ―tanto artefatos quanto relações regradas entre pessoas, isto é, formas de organização‖, ou seja, é ―tanto social quanto técnico‖ em ―torno de um objetivo comum‖. Para o processo de implantação tecnológica funcionar, o também historiador Trevor I. Williams (2009, p.15) observa que a informação, tanto no aspecto de reunir e transmitir conhecimento, é de suma importância para a continuidade da inovação: Se aceitarmos a definição de que o homem é um primata criador de ferramentas, podemos olhar para um bastão pontiagudo endurecido no fogo ou para uma pedra rudemente lascada como evidência de realização tecnológica. Mas se vamos falar de seres civilizados no sentido geralmente aceito, devemos procurar mais que isso. Além das habilidades manuais, devemos olhar para a capacidade de pensamento racional conceitual e a habilidade para se comunicar através de uma linguagem falada e, em última análise, escrita. Somente assim as realizações de uma geração podem ser transmitidas para as próximas e, por estas, ser aperfeiçoadas. Tendemos a considerar a informação tecnológica como uma inovação moderna, mas, na realidade, trata-se de uma das mais antigas e mais fundamentais: um sistema para manutenção de registros e relatos públicos foi um dos primeiros requisitos das comunidades organizadas..
(20) 20. Williams exemplifica a importância da inovação tecnológica ao citar eventos históricos, principalmente no que se refere a acontecimentos militares, que são grandes responsáveis pela evolução tecnológica. Durante os impérios Alexandrino e Romano, Trevor I. Williams (2009, p.27) retrata que: A ascensão e queda dos impérios do velho e clássico mundo refletem, de muitas maneiras, o concomitante desenvolvimento da tecnologia. A tecnologia militar contribuía diretamente para a vitória, como quando o cônsul romano Crasso foi derrotado em 53 a.C. por uma força pátia numericamente inferior. O advento de arcos compostos, carruagens de guerra puxadas a cavalos, cavalaria, armas de ferro, aríetes e outros equipamentos conferiam vantagens em lutas contra armas menos efetivas. A ocupação de um novo território expandia a habilidade tecnológica do conquistador e do conquistado, em campos tais como cerâmica e trabalhos em metal.. A queda de Crasso demonstra que a evolução tecnológica pode, no caso militar, suprimir um número maior de inimigos com artefatos mais desenvolvidos. O exemplo de Williams demonstra que a inovação acontece através da evolução da informação contida sobre o objeto, e se desenvolve ao resolver os ―reverse salients‖, como defende Hughes. O futurista Alvin Toffler (2012, p.27-28), na obra clássica A Terceira Onda, indica que se podem analisar as transformações sociais através das inovações tecnológicas por meio da ―frente da onda‖, onde, segundo o autor, ―identificará os padrões chaves de mudança à medida que forem emergindo, a fim de podermos influenciá-los‖. O autor define que a história da humanidade, e sua relação com a tecnologia, são dividas em três ondas revolucionárias. A Primeira Onda (de 8000 a.C. até 1650 e 1750 d.C.) corresponde ao aparecimento da agricultura, a Segunda Onda (1750 a meados de 1955) vem com a Revolução Industrial, e a Terceira Onda (1955 até a atualidade) aparece após o término da Segunda Guerra Mundial, com a introdução da informática na sociedade. A influência da tecnologia na formação social moderna faz com que a inovação tecnológica ganhe destaque nas transformações na qual a humanidade passou no decorrer da história, tanto nos modos de produção e na divisão de trabalho quanto na formação das instituições públicas e privadas. Toffler continua sua análise quando reflete sobre a influência das máquinas a vapor da Revolução Industrial, e tece sua tese sobre como o maquinário impacta as decisões sociais: Encharcados em tal pensamento mecanicista imbuídos de uma fé quase cega no poder e eficiência das máquinas, não é de se admirar que os revolucionários fundadores das sociedades da Segunda Onda, quer capitalistas quer socialistas, inventassem instituições políticas que compartilhassem muitas das características das primeiras máquinas industriais (TOFFLER, 2012, p.83)..
(21) 21. O sociólogo Daniel Bell (1977, p.93) considera esta transformação social durante a industrialização da Segunda Onda como a ascensão do technicien, o qual Bell descreve como ―a palavra francesa que tem um sentido muito mais amplo que a do nosso ‗técnico‘- isto é, do perito altamente especializado em Ciências Aplicadas‖. A partir desta definição, o sociólogo constrói seu argumento ao dizer que na sociedade industrial o conhecimento técnico era aplicado nos assuntos sociais, ―de uma maneira metódica e sistemática‖. Bell a partir da reflexão de uma sociedade coordenada pela técnica, pelo conhecimento científico, analisa que a sociedade tecnocrata aparece durante a industrialização. ―A administração das coisas - a substituição da política pelo critério racional - eis o selo da tecnocracia‖ (BELL, 1977, p.94). Tal constituição social, através da técnica e do conhecimento científico continua na modernidade. O cientista político Zbigniew Brzezinski (1970, p.10) conclui a tecnocracia da seguinte forma: ―A sociedade pós-industrial está a se tornar em uma sociedade ―tecnotrônica‖: uma sociedade que é moldada culturalmente, psicologicamente, socialmente e economicamente pelo impacto da tecnologia e da eletrônica - particularmente na área da computação e da comunicação‖ (tradução nossa)5. Ainda, explica Brzezinski (1970, p. 10), que prefere utilizar o neologismo ―tecnotrônica‖ por transmitir diretamente o caráter dos principais impulsos das mudanças em nosso tempo, pois o termo ―pós-industrial‖, utilizado por Daniel Bell, apesar de pioneiro, poderia ser chamado de ―era pós-agrícola‖. Porém, para embasar a citação de Brzezinski é necessário entender como a tecnologia transforma a sociedade iniciando com a Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial com os acontecimentos que contribuíram para a evolução da tecnologia e da comunicação.. 1. A Independência dos Estados Unidos. O país que conhecemos como Estados Unidos da América começou sua história com a fundação entre 1607 e 1682 das treze colônias britânicas da América do Norte. Com exceção dos índios americanos, todos os demais habitantes eram europeus, que mantinham sua origem cultural, como a língua, hábitos e ideias.. 5. The post-industrial society becoming a ―technetronic‖ society: a society that is shaped culturally, psychologically, socially and economically by the impact og technology and electronics – particularly in the area of computers and communications (Brzezinski, 1970, p.10)..
(22) 22. Conta o historiador Edward Mcnall Burns (1983, p.763) que já no século XVIII as ideias e hábitos dos colonos começaram a divergir dos da metrópole, objetivando uma nação individualizada com ―um caráter e um destino próprios‖. Também, o sistema econômico das colônias justificava deixarem de se sujeitar à autoridade britânica. O historiador Marc Ferro explica esta situação ao destacar o sentimento destes colonos. O autor denuncia que ―na verdade, os colonos ingleses, cuja identidade americana ia se afirmando cada vez mais, faziam suas queixas com veemência tanto maior quanto aumentavam sua força econômica e desenvolviam sua capacidade de se valerem do direito para se defender‖ (1996, p.247). Com o final da Guerra dos Sete Anos (1756-63) ou ―Guerra dos Franceses e dos Índios‖, como era chamada na América, em 1763, foi assinado o Tratado de Paris favorecendo os britânicos, que obtiveram todo controle da região norte do continente, inclusive o Canadá. Porém, o tesouro britânico ficara extremamente comprometido e, como para os estadistas ingleses a América havia sido beneficiada, então as colônias deviam arcar com uma parte da dívida. Após a Guerra dos Sete Anos, a Grã-Bretanha contraiu uma dívida de 130 milhões de libras, e como explica a pesquisadora Stephanie Schwartz Driver (2006, p.10), a população britânica já pagava 20% de tributos para a coroa e não estavam dispostos a aceitar novas cobranças. Na tentativa de aumentar as receitas, o governo inglês impôs leis às colônias para o aumento do lucro. A primeira, como relata Driver (2006, p.11) foi a Lei do Açúcar de 1764, que restringia o valor pago pelo produtor para a administração colonial e impedia a exportação de certos produtos, tendo o Império Britânico como único comprador. Ressentidos com o aumento da tributação, as 13 colônias entraram com petições contra a regulamentação, os colonizados iniciaram protestos, boicotes e teve início o movimento contra a importação, que mais tarde teria relevância para a independência americana. Outra tentativa britânica no aumento de receita foi a implantação da Lei do Selo de 1765. O texto indicava que ―todo material impresso estaria sujeito a selagem, desde jornais e panfletos até certificados e documentos legais, e os selos passariam a ser adquiridos de agentes americanos nomeados pela coroa‖ (DRIVER, 2006, p.12). As duas leis inflamaram a população das colônias, que iniciou uma série de protestos ao julgar que as regulamentações restringiam as liberdades econômicas e de expressão das 13 colônias. O Parlamento inglês retirou as duas leis, mas manteve a Lei do Chá, e esta seria o estopim para a independência americana..
(23) 23. A coroa britânica cedeu o monopólio da venda do chá nas colônias à Companhia das Índias Orientais, ―cujo preço baixo arruinava os comerciantes norte-americanos que se abasteciam em outras paragens‖ (FERRO, 1996, p.249). Diante deste fato, os colonos organizaram uma manifestação para marcar seu protesto e com um grupo disfarçado de indígenas invadiu os barcos da Companhia das Índias e jogou ao mar os carregamentos de folhas de chá. Este evento ocorrido em Massachusetts em 1773 ficou conhecido como ―Tea Party‖ (Festa do Chá), e levou a coroa, em 1774, a aplicar a Lei de Coerção, com a intenção de controlar as colônias americanas através do fechamento dos portos (até que o chá fosse pago), confisco de terras e passar o controle das colônias totalmente para a Grã-Bretanha (DRIVER, 2006, p.16-17). A repressão inglesa levou os líderes das colônias a realizar assembleias para discutir o que fazer para solucionar a situação entre colônias e metrópole. Então, em 4 de julho de 1776, os Estados Unidos declaram independência. A Independência Americana é um marco histórico para o desenvolvimento da comunicação como forma de aproximar a população para defender uma causa comum. Os pesquisadores Asa Briggs e Peter Burke (2006, p.103) esclarecem a participação da mídia como uma das causas do evento: A causa da independência dos Estados Unidos, que se valeu de um precedente inglês – o Grande Protesto inglês do século XVII serviu de fonte para a declaração de independência norte-americana -, foi precedida tanto por panfletos quanto por jornais. Já havia em circulação 42 jornais diferentes nas colônias da América do Norte em 1775, e alguns deles, como o New York Journal, o Philadelphia Evening Post e o Massachusetts Spy, incitaram a causa revolucionária, descrevendo atrocidades cometidas pelo Exército britânico. A longo prazo eles criaram uma cultura política nacional com as notícias que publicavam [...] e ajudaram na emergência de uma nova comunidade idealizada e definida em oposição aos ingleses. [...] Por volta de 1800, havia 178 semanários e 24 diários.. Antes da Declaração de Independência ser redigida por Thomas Jefferson, o panfleto político, Senso Comum de janeiro de 1776, de Thomas Paine, levou para a população a causa da independência, que até então, não havia sido mencionada abertamente pelos líderes revolucionários norte-americanos. Stephanie Schwartz Driver (2006, p.21) explica que o panfleto vendeu mais de 150 mil cópias apenas nas primeiras semanas e teve 25 reimpressões apenas no primeiro ano de circulação. A autora detalha o panfleto ao analisar que ―Paine escreveu com paixão, usando uma linguagem acessível ao homem comum, em vez de adotar a prosa erudita e complexa normalmente usada por autores de panfletos‖ (2006, p.21). O conteúdo atacava a monarquia ao inferir que este sistema de governo que confere um imenso poder a uma pessoa, era antinatural e corrupto. O próprio escreveu que: ―Para uma sociedade.
(24) 24. e diante de Deus, um homem honesto tem mais valor de que todos os facínoras coroados que já existiram‖ (DRIVER, 2006, p.21). Os congressistas estadunidenses distribuíram cópias para as 13 colônias para inflar a população sobre a causa da independência. Os jornais e os panfletos, como o Senso Comum de Thomas Paine, representaram uma força expressiva para motivar os colonizados a resistir contra as leis britânicas, resultando em uma necessária proteção à liberdade de expressão e de imprensa, posteriormente sacramentada na Declaração de Independência e na Primeira Emenda da Constituição norteamericana, conforme afirmam os pesquisadores Joseph D. Straubhaar e Robert LaRose (2004, p. 227). A causa principal da independência mudou de restrições econômicas impostas pela coroa britânica para uma questão moral. Marc Ferro (1996, p.253) analisa este momento ao relatar que ―tratava-se de afirmar o direito do conjunto da população de participar do governo da comunidade: isso a que, por sua própria existência, o monarca, um Parlamento mal eleito [...] e uma representação inadequada se opunham‖. O historiador expõe este sentimento da população norte-americana na época ao concluir: Assim, era preciso construir uma ordem política nova (grifo do autor), e foi esse projeto que animou a população, toda ela envolvida nos conflitos econômicos ou institucionais. Tal projeto deu-lhe uma energia fantástica, como provam o número e o conteúdo dos livros, dos libelos, dos jornais editados nas colônias inglesas da América entre 1763 e 1783. Como prova também o tom da Declaração de Independência, absolutamente moral (1996, p.253).. Os norte-americanos criam a Constituição, adotada em 1787, onde incluem uma emenda que enaltece o privilégio do livre exercício da comunicação, sem passar por censura prévia ou correr o risco de punições penais, como acontecia antes nas monarquias europeias. Cabe citar, então, a Primeira Emenda, que defende: O congresso não deve fazer leis a respeito de se estabelecer uma religião, ou proibir o seu livre exercício; ou diminuir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou sobre o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações por ofensas.. A Primeira Emenda ainda foi uma das principais influências para o crescimento da comunicação nos Estados Unidos, e influenciou outros países a adotar lei parecida para o trato da comunicação. O papel da mídia na independência americana demonstra que a evolução da comunicação impressa permitiu unir a população pela causa e disseminar os ideais independentes para fora dos Estados Unidos. O mesmo uso dos meios de comunicação também iria acontecer, alguns anos mais tarde, na Revolução Francesa..
(25) 25. 2. Revolução Francesa: os impactos no desenvolvimento social e na tecnologia. No período compreendido entre os séculos XV e XVIII ocorreram transformações na estrutura da sociedade ocidental, determinando mudanças econômicas, sociais, jurídicas, políticas e ideológicas. O historiador Edward Mcnall Burns (1983, p.585) ao tratar da Revolução Francesa, demonstra como foi profunda a influência exercida sobre o mundo moderno por esse acontecimento, que adveio entre os anos de 1789 e 1799. Ressalta que a Revolução Francesa, além de liquidar com ―o mercantilismo e os remanescentes do feudalismo‖, ―foi uma das fontes principais do nacionalismo militante, do individualismo econômico e do princípio da soberania das massas‖. Ainda, Burns (1983, p. 592) enumera algumas causas políticas e econômicas da Revolução Francesa. Uma das principais causas políticas foi o governo despótico dos Bourbons, detendo o rei o poder soberano sem quaisquer ―restrições legislativas de qualquer espécie‖. O rei impedia ―qualquer crítica à sua política impondo uma censura rígida à imprensa‖ e ―restringindo a liberdade de palavra‖. Uma segunda causa política ―foi o caráter ilógico do governo‖, pois ―por quase toda parte as qualidades dominantes do sistema eram a ineficiência, o desperdício e o suborno‖. A causa política mais decisiva veio ―das guerras desastrosas a que se lançou a França no século XVIII‖, sendo que o primeiro dos conflitos que preparou o terreno para a Revolução Francesa foi a Guerra dos Sete Anos (1756-63), com a derrota esmagadora causando a entrega de quase todas as possessões coloniais francesas. Como causas econômicas, está em primeiro lugar a ascensão da burguesia francesa, que era composta de negociantes, industriais, banqueiros e advogados, cujos privilégios políticos lhes eram negados. Burns (1983, p. 594) ainda ressalta que outra causa econômica da Revolução Francesa era ―o desejo por parte dos homens de negócios, de se livrarem do mercantilismo‖. Um terceiro fator que contribuiu para a Revolução Francesa foi o sistema de privilégios beneficiando os nobres e o clero que para Burns (1983, p. 595) ―a maioria deles eram parasitas a consumir a riqueza que outros produziam com o suor do seu rosto‖. Por fim outra causa econômica da Revolução Francesa foi o injusto sistema tributário em que os nobres obtinham isenções das tributações e o ônus recaia sobre os camponeses e a burguesia, pois os artesãos e os operários não possuíam o que ser taxado..
(26) 26. Os preceitos dos revolucionários franceses foram constituídos durante a Assembleia Constituinte de 1789, onde adotam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. O jurista especialista em direito constitucional, José Afonso da Silva (2002, p. 158) considera: O texto da Declaração de 1789 é de estilo lapidar, elegante, sintético, preciso e escorreito, que, em dezessete artigos, proclama os princípios da liberdade, da igualdade, da propriedade e da legalidade e as garantias individuais liberais que ainda se encontram nas declarações contemporâneas, salvas as liberdades de reunião e de associação que ela desconhecera, firmado que estava numa rigorosa concepção individualista.. Ainda, Silva (2002, p.157-158) afirma que ―os revolucionários franceses já vinham preparando o advento do Estado Liberal ao longo de todo o século XVIII‖, sendo que as fontes filosóficas e ideológicas da declaração são europeias, ou seja, obra do pensamento político, moral e social de todos os teóricos e filósofos do século XVIII. Assinala que a Declaração francesa de 1789 é ―universalizante‖, pois que pretende ―ultrapassar os indivíduos do país para alcançar um valor universal‖, motivo que ―serviu de modelo às declarações constitucionais de direitos dos séculos XIX e XX, com evoluções‖. O historiador Edward Mcnall Burns (1983, p.608), esclarece que a Declaração foi ―parcialmente modelada pelo Bill of Rights dos ingleses e adotando os ensinamentos dos filósofos políticos liberais‖, considera como direitos individuais invioláveis: ―a liberdade de palavra, a tolerância religiosa e a liberdade de imprensa‖. Porém, o pesquisador analisa que a Declaração não se preocupa com o bem-estar do homem comum, e critica ao concluir: Não se faz qualquer referência aos direitos do homem comum a uma parte equitativa da riqueza por ele produzida, nem tampouco à proteção do estado aos incapacitados de ganhar a vida. Os autores da Declaração dos Direitos não eram socialistas nem estavam particularmente interessados no bem-estar econômico das massas (1983, p.608).. O historiador Eric J. Hobsbawn (2007, p.91) vai ainda mais fundo na crítica a Declaração dos revolucionários franceses ao afirmar que o manifesto não possuía um caráter libertador ao homem comum, e sim que favorecia a classe média emergente na época, e também aos ricos, como a classe política dominante. O historiador relata que: Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. Uma monarquia constitucional baseada em uma oligarquia possuidora de terras era mais adequada à maioria dos liberais burgueses do que a república democrática que poderia ter parecido uma expressão mais lógica de suas aspirações teóricas, embora alguns também advogassem esta causa. Mas, no geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata, mas sim um devoto do constitucionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários..
(27) 27. Ainda assim, a Revolução Francesa teve impacto na construção da sociedade moderna. Eric J. Hobsbawn (2007, p. 83-84) esquadrinha como as mudanças na sociedade francesa transformaram a sociedade, e lista: A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radicaldemocrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e científica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países. A ideologia do mundo moderno atingiu as antigas civilizações que tinham até então resistido as ideias europeias inicialmente através da influência francesa. Esta foi a obra da Revolução Francesa.. Além das transformações nos sistemas políticos e econômicos, a Revolução Francesa também trouxe a mídia como parte importante na estratégia de conseguir atingir seus resultados, principalmente no que se refere à disseminação dos ideais revolucionários e também para a formação do nacionalismo militante. Asa Briggs e Peter Burke (2006, p.103-104) relatam o surgimento da mídia francesa durante os eventos da Revolução e a descrevem da seguinte forma: A matéria impressa teve parte importante na Revolução Francesa, que começou com apelos a uma imprensa livre. O conde de Mirabeau (1749-81) adaptou a Areopagitica (1788) de Milton, Marie-Joseph Chénier lançou uma forte Dénonciation dês inquisiteurs de la pensée (1789) e Jacques-Pierre Brissot produziu um Essai sur la necessite de la presse (1789). Brissot tinha em mente os jornais em particular, pois na época em que sua obra surgiu, os eventos se sucediam com tamanha velocidade que não podiam ser acompanhados pela produção de livros ou mesmo panfletos. Houve uma explosão de novas publicações, com pelo menos 250 jornais fundados nos últimos seis meses de 1789. Diferentes periódicos dirigiam-se a públicos díspares, inclusive de camponeses (para quem se destinava La Feuille villageoise). O tamanho dessas novas folhas era pequeno, mas a Gazette Nationale imitou o formato grande dos jornais ingleses.. Os autores continuam a análise sobre a mídia francesa durante este período e concluem como as inovações midiáticas durante a Revolução e as estratégias de comunicação feitas na época trouxeram para a área da comunicação. Asa Briggs e Peter Burke (2006, p.106) destacam: No entanto, a mídia francesa desempenhou um papel necessário, tanto na destruição de tradições antigas quanto na invenção de novas, ao tentar criar uma nova política sem igreja ou rei. Não é por acidente que a frase opinion publique e o termo ―propaganda‖ se tornaram de uso comum na época. Da mesma maneira, a famosa guilhotina entrou para a linguagem da comunicação, seja no nome de uma máquina usada por impressores para cortar as bordas de folhas de papel, seja designando a tentativa de finalizar os debates parlamentares sobre determinado tópico..
(28) 28. A Revolução Francesa termina em 1799 com o Golpe do 18 Brumário (novembro de 1799) que levou Napoleão Bonaparte ao poder. Edward Mcnall Burns (1983, p. 619) cita as razões da vitória de Napoleão como ―o sentimento de revolta ante a venalidade e a indiferença do governo, o rastilho de ódio deixado pelas agruras da inflação, a humilhação resultante das derrotas militares‖. Napoleão também teve papel fundamental no desenvolvimento da mídia francesa e para estabelecer parâmetros para como seria a propaganda governamental dali para frente. ―Outras figuras históricas também souberam manipular diferentes tipos de mídia. Luís XIV, por exemplo, empregou pintores e jornalistas para se promover, mas Napoleão foi o primeiro na história moderna a perceber o poder ilimitado da propaganda. Ele dominou todos os meios de comunicação que teve à disposição‖, analisa o historiador americano Wayne Hanley (in DIAS, 2005, s.p.). O pesquisador ainda cita o fato de que, se não fosse pela propaganda, Napoleão não teria se tornado no líder que foi. Utilizou de poemas, moedas comemorativas, artigos em jornais, censura à imprensa e confisco de obras de arte. ―Principalmente, uma cuidadosa construção da imbatível imagem de um estadista que não descansa nunca, elaborada pelos melhores pintores da época‖, completa o historiador (in DIAS, 2005, s.p.). Asa Briggs e Peter Burke (2006, p.106) analisam o poder da mídia napoleônica ao exaltar os métodos de autopromoção do estadista francês, onde destacam: O poder da mídia residia em sua capacidade de reavivar memórias do passado revolucionário. A antiga analogia entre a imprensa e o Exército foi relembrada por Napoleão ao declarar que ―quatro jornais hostis devem ser mais temidos do que cem mil baionetas‖.. Na Batalha de Waterloo (1815), na Bélgica, Napoleão foi derrotado por um exército formado por uma coalizão de ingleses, holandeses e alemães. Retornando a Paris, abdicou e foi exilado pelo governo da Inglaterra em Santa Helena onde morreu em 1821.. 3. A primeira Revolução Industrial. O historiador Eric J. Hobsbawm analisa os principais desenvolvimentos históricos do período entre 1789 e 1848, com ênfase ao que chama de ―dupla revolução‖: a Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Industrial (inglesa) contemporânea, esboçando a sociedade por elas produzida:.
(29) 29. A grande revolução de 1789-1848 foi o triunfo não da ―indústria‖ como tal, mas da indústria capitalista; não da liberdade e da igualdade em geral, mas da classe média ou da sociedade ―burguesa‖ liberal; não da ―economia moderna‖ ou do ―Estado moderno‖, mas das economias e Estados em uma determinada região geográfica do mundo (parte da Europa e alguns trechos da América do Norte), cujo centro eram os Estados rivais e vizinhos da GrãBretanha e França. (2007, p. 16). Aqui, cabe observar, em linhas gerais, as mudanças ocorridas nos diversos níveis da sociedade na civilização ocidental, quanto as forças econômicas e sociais e as ferramentas políticas e intelectuais, no período de 1789 a 1914, que para Hobsbawm (2007, p. 16) ―constitui a maior transformação da história humana desde os tempos remotos quando o homem inventou a agricultura e a metalurgia, a escrita, a cidade e o Estado‖. Na Grã-Bretanha as máquinas a vapor foram a característica central da Revolução Industrial. Thomas Newcomen, em 1712, inventou uma máquina a vapor para bombear água das minas de carvão inglesas. James Watt, construtor de aparelhos científicos da Universidade de Glasgow, em 1763, melhora a ideia de Newcomen e em 1769 patenteou sua primeira máquina. James Watt firma sociedade com Matthew Boulton e inicia a venda dos motores para fábricas e minas. Os historiadores Asa Briggs e Peter Burke (2006, p.115-117) relacionam o vapor com a impressão gráfica, quando em 1814 o jornal londrino The Times, na Printing House Square, instala ―uma enorme prensa a vapor‖ que ―tornou possível a produção de mil exemplares por hora‖ e ressaltam que o jornal ―podia ser impresso mais tarde e trazer notícias mais recentes‖. O início do sistema fabril, como ensina Edward Macnall Burns (1983, p.668), deve-se muito apropriadamente ao seu verdadeiro fundador Richard Arkwright, ―o inventor do bastidor hidráulico‖ e fundador da primeira fábrica movida por força hidráulica em 1771. Patenteou sua máquina de fiar em 1769. ―Encontrou tenaz oposição por parte dos poderosos interesses da indústria de lã. Suas oficinas foram depredadas por multidões de trabalhadores enfurecidos, os quais temiam que as máquinas de Arkwright os deixassem sem emprego‖. Este movimento ficou conhecido como o Ludismo, quando, em 1779, o operário Ned Ludd (de onde surge o nome do movimento) invadiu a oficina em que trabalhava para quebrar as máquinas adquiridas pelo proprietário, ao sustentar que o advento da tecnologia nos métodos de produção iria substituir os operários e, por consequência, causar desemprego. O movimento ganha força 30 anos depois do ataque de Ludd a oficina. Em 1812, Mr. Smith, dono de tecelagem no leste da Inglaterra recebe uma carta contendo ameaças contra seu negócio assinada por alguém que se denominava General Ludd. O historiador Voltaire Schilling explica que esta reação se deve que ―a revolução industrial, com a rápida.
(30) 30. disseminação da máquina a vapor, como era de se esperar, provocou ali uma radical mutação socioeconômica.‖ Registros indicam que os ataques aconteceram até por volta de 1817. No ano de 1776, Adam Smith publica ―A riqueza das nações‖. Fundador da economia clássica (1776-1880) e aclamado como o ―profeta dos ideais capitalistas‖ (BURNS, 1983, p.693) teve como discípulos Thomas R. Malthus, David Ricardo, James Mill e Nassau Senior. Dentre os elementos principais da teoria dos economistas clássicos pode-se citar o individualismo econômico; o ―laissez-faire‖; a obediência à lei natural; a liberdade de contrato; e a livre concorrência e livre câmbio. Adam Smith elabora a teorização do conceito de ―divisão do trabalho‖, princípio central do projeto de economia liberal, como demonstram os sociólogos Armand e Michèle Mattelart (2005, p.13): A ―divisão do trabalho‖ representa um primeiro passo teórico. É preciso remontar ao final do século XVIII para encontrar em Adam Smith (17231790) a primeira formulação científica. A comunicação contribui para a organização do trabalho coletivo no interior da fábrica e na estruturação dos espaços econômicos. Na cosmópolis comercial do laissez-faire, a divisão do trabalho e os meios de comunicação (vias fluviais, marítimas e terrestres) rimam com opulência e crescimento. A Inglaterra já efetuou sua ―revolução da circulação‖, que começa a integrar-se naturalmente à nova paisagem da revolução industrial em andamento.. Edwar Mcnall Burns (1983, p.605) acrescenta: […] a Riqueza das nações de Smith tornou-se a sagrada escritura dos economistas individualistas dos séculos XVIII e XIX. Sua influência como causa da Revolução Francesa foi indireta, mas nem por isso deixou de ser profunda. Fornecia uma resposta categórica aos argumentos mercantilistas, fortalecendo assim a ambição, por parte da burguesia, de pôr termo a um sistema político que continuava a bloquear o caminho da liberdade econômica.. A evolução do capitalismo e o crescimento econômico permitido pela Revolução Industrial trouxeram consigo novos progressos tecnológicos. Na Grã-Bretanha, em 1820, havia várias pequenas ferrovias industriais movidas a vapor. A primeira estrada de ferro foi inaugurada em 1825, como explica o historiador Trevor I. Williams (2009, p.148): A ferrovia foi finalmente aberta em 27 de setembro de 1825, e a locomotion de Stephenson conduziu até Stockton 12 vagões contendo carga, 21 vagões com passageiros comuns e um vagão com os diretores. Assim, a superioridade do vapor sobre a tração a cavalo foi prontamente demonstrada, incentivando a criação da primeira estrada de ferro pública do mundo, dedicada inteiramente ao vapor e que usava apenas seu próprio material rodante: a Estrada de Ferro Liverpool e Manchester, inaugurada em 15 de setembro de 1830, pelo Duque de Wellington, então primeiro ministro.. Apesar do conhecimento do método de fabricação do aço ser conhecido por séculos, a produção era vagarosa, difícil e cara, o que causava a produção em pequena escala. Em 1856,.
(31) 31. na Grã-Bretanha, Henry Bessemer descobre um novo método de produção, mais rápido e barato. Entre 1880 e 1914 a produção de aço no país elevou de dois para sete milhões de toneladas. Esclarece Edward Mcnall Burns (1983, p.675) ―o aço suplantou quase completamente o ferro para trilhos ferroviários, para o arcabouço de grandes edifícios, para pontes e outros fins que exigiam um metal barato, mas de alta tenacidade‖. Porém, o legado da industrialização seria a massificação que a tecnologia atingiria na sociedade, principalmente na questão de mobilidade social, através dos transportes, tanto aquáticos quantos os terrestres, para movimentar a economia, que anda em paralelo com as comunicações, que ficaria ainda mais evidente com a chegada da segunda Revolução Industrial, e o advento da energia elétrica que coloca em destaque o conceito de rede, utilizado até os dias de hoje.. 4. A segunda Revolução Industrial e a chegada das redes A invenção do dínamo (1873), máquina capaz de converter a energia mecânica em energia elétrica afastou gradativamente o vapor como fonte de força motriz. Explica Edward Mcnall Burns, ao citar o historiador Hebert Heaton (1983, p.675): Se bem que o princípio do dínamo tivesse sido formulado por Michael Faraday em 1831, não se conheceu, antes de 1873, nenhuma máquina desse tipo que se prestasse para fins práticos. A partir dessa data a utilização da energia elétrica na maquinaria industrial progrediu a passos de gigante. O vapor começou a ser gradualmente relegado a um plano inferior, sendo usado, sobretudo, para mover dínamos. Em certas regiões, mormente onde o carvão era escasso, foi ele substituído, mesmo para esse fim, pela energia hidráulica.. Trevor I. Williams (2009, p.135) analisa o impacto da eletricidade na sociedade ao elucidar que: Muito antes do fim do século, a eletricidade era fornecida para o consumo público a partir de estações de centrais geradoras, e a lâmpada de filamento incandescente desafiava a supremacia do gás, há muito estabelecida. Os trens elétricos e os automóveis apareceram nos anos 1880. Não menos importante, a eletricidade foi colocada a serviço do telégrafo e do telefone, e por volta de 1890 já havia um milhão de telefones nos Estados Unidos. Mesmo antes deles, a possibilidade do telégrafo sem fio havia sido demonstrada por Heinrich Hertz, tanto que em 1901 Guglielmo Marconi conseguiu transmitir um sinal cruzando o Atlântico.. A massificação dos usos da energia elétrica na sociedade ficou conhecida como Segunda Revolução Industrial. O sociólogo Manuel Castells (2011, p.74) conclui que ―a.
(32) 32. eletricidade foi a força central da segunda revolução‖. O pesquisador ainda cita que, junto com a eletricidade, outros inventos também tiveram o mesmo impacto, como os produtos químicos, o aço, motor de combustão interna, telégrafo e telefonia. Castells continua sua reflexão sobre o impacto das duas revoluções ao citar o historiador R. J. Forbes, que considera ambos os eventos como delineadores da sociedade moderna ao dizer: ―Foi um processo lento, mas forjou mudanças tão profundas em sua combinação entre progresso material e deslocamento social que, no conjunto, talvez possam ser descritas como revolucionárias se consideradas no período de tempo abrangido‖. Um dos principais legados da industrialização foi a construção de redes para a comercialização e troca de informação. Surgem então as redes marítimas, ferroviárias e o sistema de correios. O filósofo Pierre Lèvy (1998, p.39) argumenta que a evolução de redes de transporte e a comunicação andam em paralelo. O filósofo francês faz sua reflexão ao afirmar: O progresso das técnicas de transporte e de comunicação é, ao mesmo tempo, motor e manifestação desse relacionamento generalizado. Insisto com o paralelo entre transportes e comunicações, pois o efeito de influência mútua é constante, fundamental, verificado em toda parte, enquanto a substituição do transporte físico pela transmissão de mensagens é apenas local e temporário. A navegação de longo curso e a imprensa nascem juntas. O desenvolvimento dos correios estimula e utiliza a eficiência e a segurança das redes viárias. O telégrafo expande-se ao mesmo tempo que as ferrovias. O automóvel e o telefone avançam em paralelo. O rádio e a televisão são contemporâneos do desenvolvimento da aviação e da exploração espacial.. Neste contexto descrito por Lèvy, as redes ganham importância na construção da sociedade moderna. M. A. Santos (in OLIVEIRA et. al., 2008, p.26) aborda o conceito através de duas perspectivas. A primeira o autor denomina de realidade material que corresponde a infraestrutura que permite transportar matéria, energia ou informação, ou seja, é a parte técnica das redes que permite a difusão da segunda característica defendida pelo pesquisador, que é a rede social, onde referencia os indivíduos que utilizam a estrutura tecnológica feita pelas redes. M. R. C. Santana (in OLIVEIRA et. al., 2008, p.26) completa o pensamento de Santos ao analisar que: As redes se distribuem espacialmente por se constituírem como elementos espaciais concretos e sócio-espaciais. Elementos espaciais concretos porque podem ser constituídos de elementos sólidos, portanto tangíveis, com clara presença sobre o território fazendo parte da estrutura espacial de uma sociedade, como as rodovias, redes de energia elétrica e fios de telefone. Sócioespaciais porque não se explicam por isso, mas pela sua presença e contribuição nas relações sociais e de produção, porque podem agilizar os processos sociais de reprodução da sociedade, na medida em que, ao ser parte do espaço geográfico, também é suporte, porque as relações são.
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