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Caracterizadora da vida urbana, urbanidade tem sido objeto de estudo de diferentes especialidades como Filosofia, Ciências Sociais e, particularmente, Arquitetura e Urbanismo. Contudo, como adverte Netto (2014, p. 190), trata-se de um conceito “difuso e pouco sistemático”.

Diante dessa imprecisão, a noção de urbanidade sugerida por Aguiar (2012) e a definição lexicográfica articulada em Houaiss e Villar (2001) oferecem uma primeira aproximação conceitual.

Aguiar (2012) argumenta que "falar de urbanidade ao nos referirmos à cidade significa estar falando de uma cidade ou lugar que acolhe ou recebe as pessoas com civilidade, polidez e cortesia". (AGUIAR, 2012, p. 62). Enquanto Houaiss e Villar (2001) dizem que "[...]urbanidade substantivo feminino 1 qualidade ou condição de ser urbano (no sentido de ‘civilizado, cortês’) 1.1 fig. Conjunto de formalidades e procedimentos que demonstram boas maneiras e respeito entre os cidadãos; afabilidade, civilidade, cortesia" (HOUAISS; VILAR, 2001, p. 2809).

Observe-se que a definição lexicográfica complementa a noção de Aguiar (2012) e destaca atributos da urbanidade que caracterizam o habitante da cidade, o indivíduo urbano: ser urbano, ser civilizado, ser cortês e ser afável. Por outro lado, urbanidade qualifica também a cidade, o espaço urbano. Transferindo esses e outros atributos humanos para a cidade, Aguiar (2012) enumera uma série de atributos relevantes para a delimitação qualitativa do conceito: cortesia, civilidade, afabilidade, hospitalidade, extroversão, entre outros. Explica ele:

Utilizo o termo [urbanidade] exatamente em seu sentido tradicional e mais corriqueiro – aquele que se refere à cortesia entre pessoas - apenas que aplicado aos não humanos; edifícios, ruas e cidades. Edifícios dotados de cortesia, gentis com o corpo.

Ruas e bairros dotados de civilidade, e por aí vai.(...) (AGUIAR,

2012, p.273, grifos nossos)

Espaços com urbanidade são espaços hospitaleiros. O oposto são os espaços inóspitos ou, se quisermos, de baixa urbanidade. Vivemos em cidades onde o espaço público é cada vez mais inóspito, marcado por grades nas fachadas de prédios, extensos muros contornando introvertidos condomínios, megashopping

centers / megaestacionamentos e, a pior parte, as áridas freeways

urbanas. Essa parece ser cada vez mais, nas mais diversas culturas, a urbanidade da classe média.  Em meio a essa forte tendência ao desurbano o que poderia justificar o nosso interesse - meu e de outros tantos pesquisadores e estudantes que compõem esse nosso grupo - em estudar e discutir sobre a urbanidade? Sugiro em resposta que haveria compartilhada entre essas pessoas, ou pelo menos entre boa parte delas, um entendimento de espaço público como lócus de uma cultura urbana compartida, fundada em valores coletivos, uma cultura que envolve o convívio com os opostos, envolve diversidade, troca e, mais que tudo, o desfrute de uma cidade que tenha o espaço urbano como fundo ativo.  Tudo muito ao contrário da atual tendência à segregação em guetos

residenciais, profissionais, comerciais e viários. A urbanidade, assim conceituada, emerge como um parâmetro maior, e

abrangente, na avaliação da qualidade dos lugares (AGUIAR,

2012, p. 61, grifos nossos).

A partir dessas considerações, é possível extrair qualidades opostas que separam os espaços com urbanidade (espaços hospitaleiros, coletivos, extrovertidos e de diversidade) dos espaços com baixa ou desprovidos de urbanidade (espaços inóspitos, individuais, introvertidos e de padronização). São oposições como essas, e considerando também a extensão de vida urbana entre vida a morte

como o faz Jacobs (2014)6 em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades, que

motivam a proposição da ferramenta de avaliação no capítulo 3. Não se trata de uma proposta que busca a caracterização exaustiva de diferentes tipos de urbanidade, mas de uma proposta que busca criar uma ferramenta que possibilite a aferição de aspectos da urbanidade de cidades e de espaços urbanos, posto que a maximização da urbanidade maximiza as qualidades caracterizadoras desses

espaços7.

As considerações até este ponto permitem resumir que urbanidade é uma característica que se aplica a dois tipos de elementos, indivíduos e espaços e designa um tipo particular de relação que qualifica e instaura, de modo recíproco e indissociável, os espaços e os indivíduos que dela participam: os espaços urbanos e as pessoas que os habitam.

A voz de Gehl (2005), ao discutir o conceito de “cidade viva”, soma-se à voz de Aguiar (2012) na qualificação do conceito de urbanidade, mas aponta também para a importância da quantificação na sua delimitação.

6 Uma referência de destaque sobre o estudo de urbanidade.

7 Observa-se que Aguiar (2012), além de propor a aferição de graus

de urbanidade, cogita também a especificação de uma tipologia de urbanidades. Essa investigação, entretanto, não será abordada nesta dissertação.

A cidade viva é um conceito relativo. Poucas pessoas em uma rua estreita de uma cidadezinha podem, com facilidade, apresentar uma cidade viva, animada. O que importa não são números, multidões ou o tamanho da cidade, e sim a sensação de que o espaço da cidade é convidativo e popular; isso cria um espaço com significado.

A cidade viva também precisa de uma vida variada e complexa, onde as atividades sociais e de lazer estejam combinadas, deixando espaços para a necessária circulação de pedestres e tráfego, bem como oportunidades para participação da vida urbana. Calçadas abarrotadas, com multidões se acotovelando para abrir caminho, nunca indicam boas condições para a vida da cidade. Enquanto essa discussão sobre a cidade viva se desenrola em torno de quantidade na forma de um significativo número de participantes, a qualidade é igualmente importante preocupação e destaca a

necessidade de um convite multifacetado8 (GEHL, 2005, p. 63,

grifos nossos).

O fato é que, na literatura sobre urbanidade, as dimensões qualitativa e quantitativa são constantemente abordadas na argumentação dos autores. Mongin (2009), com base em Romains (1919 apud MONGIN, 2009), ao fundamentar a experiência do espaço urbano, discute a qualidade espacial e temporal das aglomerações, valendo-se de atributos quantitativos ao propor a aferição da intensidade (um

atributo quantitativo) das aglomerações com valores polares: +/- intensas9, +/-

extensas, +/- duradouras, +/- felizes, +/- densas ou +/- sufocantes10.

Porque envolve espaços e indivíduos, o conceito de urbanidade envolve também (a) tipos e escalas de espaços urbanos, porque urbanidade é característica dos espaços urbanos que, por sua vez, condicionam as relações interpessoais; (b) a civilidade que estabelece através das relações interpessoais, mediante graus

8 A Rua Augusta na cidade de São Paulo exemplifica essas considerações de Gehl (2005). Com ampla diversidade de usos, estimula a circulação de grande número de pessoas ao longo do dia. Porém, suas calçadas estreitas e seu mobiliário urbano inadequadamente disposto caracterizam-na como um espaço urbano qualitativamente deficiente. Trata-se, assim, de um espaço quantitativamente pleno de pessoas, mas carecendo de atributos físicos de qualidade, ao observarem-se pessoas tropeçando umas nas outras em determinados horários.

9 Mongin (2009, p. 77), por exemplo, avalia que o “espaço de Paris

tem, como condição, lugares que permitem agregações mais ou menos intensas”.

10 Netto (2012), que considera ser inadequado tratar a urbanidade

apenas como um problema de intensidade da convergência dos diferentes, sinalizando a importância de qualificarem-se “esses diferentes”, traz o bairro de Copacabana na cidade do Rio de Janeiro como exemplo de agregações de diferentes. Para ele, esse bairro é um lugar apropriado por pessoas de classes sociais, etnias e campos sociais diferentes, cuja violência, causada também pela diferenciação de classes sociais, contribui para reduzir sua urbanidade. Identifica aí uma condição contextual de urbanidade: “diferenças de sociedade e espacialidade produzem diferenças de urbanidade” (NETTO, op. cit., p. 214), justificando a importância da dimensão qualitativa: Quando entendemos que a relação entre forma de vida social e espacialidade vai além da copresença e uma relação com o espaço mediada por informação social complexa, capaz de ser associada a atividades e referenciar a prática, as diferenças qualitativas latentes em diferentes espaços e formas de vida sobressaem como tão ou mais relevantes que diferenças de intensidade. (NETTO, op. cit., p. 215). Contra argumentando seu próprio raciocínio, Netto (op. cit.) observa ainda que, dessa maneira, qualquer forma de vida urbana pode conter urbanidade e, todavia, uma forma urbana hostil ou espaços segregados divergiriam do conceito usual de civilidade.

distintos de privacidade, porque urbanidade constitui-se a partir de relações indivíduo-indivíduo e indivíduo-espaço urbano público de uso coletivo, que contribui para a construção da civilidade dos indivíduos; (c) significado físico- temporal que se constrói através das relações individuo-indivíduo e indivíduo- espaço urbano, porque urbanidade é sensível ao tempo, ao espaço, aos indivíduos e à vivência.

Considere-se a definição dos tipos de espaço urbano a partir das seguintes denominações polares: espaço público e espaço privado, espaço coletivo e espaço restrito e espaço de propriedade do Estado e espaço de propriedade privada. Essas denominações permitem a proposição destes oito tipos de espaço urbano, com exemplificações na figura 1:

• Espaço urbano público (propriedade do Estado);

• Espaço urbano privado (propriedade da iniciativa privada);

• Espaço urbano de uso coletivo (não há restrições de uso para os cidadãos);

• Espaço urbano de uso restrito (há restrições de uso para certos cidadãos);

• Espaço urbano público de uso coletivo (propriedade do estado sem restrições de uso para os cidadãos);

• Espaço urbano privado de uso coletivo (propriedade da iniciativa privada sem restrições de uso para os cidadãos);

restrições de uso para certos cidadãos);

• Espaço urbano privado de uso restrito (propriedade da iniciativa privada com restrições de uso para certos cidadãos).

Figura 1: Exemplos dos tipos de espaço urbano. Fonte: Elaboração do

autor, com base em Oliveira (2013, p. 9).

Um recorte se faz necessário devido à amplitude de tipos. Neste trabalho, restringe-se o estudo ao espaço urbano público de uso coletivo, porque a propriedade pode ser ou não privada, já o uso do solo urbano é de domínio público. Além disso, embora Netto (2014, p. 242) comente que a cidade se tornou “o lugar de manifestações predominantemente de interesse privado”, é no espaço urbano público de uso coletivo que se constrói urbanidade e sua “reconquista supõe enfrentar uma vasta gama de conflitos, cuja solução constitui

um dos principais desafios para o desenvolvimento integral” (ALOMÁ, 2013,

s.p.). Esse recorte vai também ao encontro da necessidade de separação nítida entre o público e o privado reivindicada por Jacobs (2014), comentada mais abaixo, e tem, como pressuposto, valorizar o estudo desse espaço urbano, onde os atributos da urbanidade se sobressaem. Ainda segundo Jacobs (2014), cabe a esse tipo de espaço o papel de formação da vizinhança e não ao espaço urbano privado de uso coletivo, que predomina nos condomínios e shopping centers de nossas cidades. Na contramão, os espaços urbanos públicos de uso privado são abrigos para grupos sociais similares e fazem com que a alteridade se dilua na similaridade dos indivíduos. Em suma, a urbanidade tem mais força em uma

11 Reforçando essa proposição de Gehl (2012), boa parte das críticas

feitas aos urbanistas pelos principais autores [Jacobs (2014), Glaeser (2011), Cullen (2008), Speck (2016) e Rogers (2001)] que discutem a vitalidade nas ruas é direcionada ao abandono da dimensão humana no planejamento das cidades. Ao longo dos anos, o pedestre foi negligenciado na construção de cidades monofuncionais, onde o uso do automóvel foi priorizado. Para exemplificar esse fato, constata-se que na cidade de São Paulo de hoje, se houver uma oportunidade para o planejamento de algum tipo de revitalização de uma grande gleba da cidade, o urbanista não conseguirá implementá-lo sem a consultoria de planejadores de tráfego, que recorrem a software avançado no cálculo do que pode ou não ser proposto com melhorias urbanas, tendo como principal regulador das ações o automóvel.

calçada movimentada, se comparada à socialização em uma área comum de um megacondomínio habitacional privado.

A noção de ‘escala’, no contexto do espaço urbano, é assim exemplificada:

A urbanidade é composta, portanto, por algo que vem da cidade, da rua, do edifício e que é apropriado, em maior ou menor grau, pelo corpo, individual e coletivo. A urbanidade, assim entendida, estaria precisamente nesse modo de apropriação da situação pelas pessoas, seja na escala do edifício, seja na escala da cidade. (AGUIAR, 2012, p. 273, grifos nossos)

A escala denota, portanto, o escopo que se seleciona para a análise: a cidade toda, uma região da cidade, um bairro, uma região do bairro, uma vila, um condomínio, uma rua, uma praça, um edifício, entre outras escalas.

Gehl (2012), entretanto, ao qualificar os espaços com urbanidade, inclui o elemento humano na discussão de escala e critica as grandes dimensões dos espaços urbanos públicos de uso coletivo, como o ilustrado na figura 2. Propõe que promover a urbanidade na escala humana é privilegiar “rotas diretas, lógicas e compactas; espaços de modestas dimensões; e uma clara hierarquia segundo a qual foram tomadas decisões para a escolha dos espaços mais importantes”

(GEHL, 2012, p. 67)11.

Assim, quando se fala em escala humana, ou seja, na escala de maior contato com o pedestre, fala-se de escala local. Para Aguiar (2012), é na escala local que o pedestre pode ver o seu entorno imediato: “aquele trecho de rua, aquela esquina,

o conjunto de linhas de visada que ali se interconectam” (AGUIAR, 2012, p.

74).Para ele, uma característica fundamental para a condição de urbanidade é a

intensidade de ligações entre os interiores privados e os espaços públicos de uso coletivos, trata-se do que Gehl (2015) denomina soft edges.

Mesmo que a escala local seja crucial para a delimitação da urbanidade, ela é parte inerente da escala global. A vida das calçadas é parte da vida da cidade, assim como, ao mudarmos o ponto de vista, a vida da cidade é composta pelas vidas das calçadas. Tal sinergia entre urbanidade local e urbanidade global é abordada por Aguiar (2012).

Ao apreciar essa escala local, a pessoa estará simultaneamente vivenciando a escala global, ou seja, a condição espacial global na qual aquela situação local está imersa, ainda que não a esteja vendo. A efetividade dessa escala global sobre uma determinada situação urbana é predominante. Pode-se dizer, como sugerido por Hillier, que uma mesma situação local – tipo e arranjo de edifícios, estilo etc. – quando hipoteticamente imersa em outra situação global resultaria em outra condição de urbanidade; isso porque terá um padrão de uso do espaço distinto daquele observado na localização anterior e, provavelmente, um grau de vitalidade, de animação, igualmente diferente daquele, seja maior ou menor. Todos os elementos da urbanidade globalmente estabelecidos. A condição de urbanidade de toda e qualquer situação urbana seria, portanto, em qualquer circunstância, resultante da sobreposição de condições locais e globais, atuando simultaneamente em uma determinada situação (AGUIAR, 2012, p. 74).

A interdependência entre as escalas local e global sugere a abordagem de ambas.

No entanto, nesta dissertação, a análise foca a urbanidade na escala local. Figura 2: Brasília: exemplo de espaço público de grandes dimensões.

Não se poderia deixar concluir esta discussão de escalas e tipos de espaços urbanos públicos antes de abordar os que são perversos à escala local. Trata-se dos espaços resultantes de conjunturas sociocultural e histórica, somadas às ações políticas e à aplicação de planos urbanos municipais, que, ao invés de promover, acabam por comprometer a urbanidade desses espaços na escala humana da cidade contemporânea. Mauro Calliari (2016) qualifica uma série de espaços

públicos perversos na cidade contemporânea12. Estes quatro são relevantes para

a avaliação de espaços urbanos da cidade de São Paulo: Espaços do não-lugar, Espaços de Fluxos, Espaços de Consumo e Espaços de Lugares Vazios.

Os Espaços do não-lugar são espaços isentos de identidade, relações e história (AUGÈ, 1994). Associados a locais de passagem, eles não oferecem a sensação de apropriação pelo usuário, dificultando as relações interpessoais. Calliari (2016) exemplifica os espaços que estão associados ao transporte coletivo em que as pessoas estão sempre aguardando o momento para partir: aeroportos, rodoviárias, terminais intermodais, entre outros. A circulação, segundo Mongin (2009), é um dos valores proeminentes nas cidades, o que faz com que o fluxo sobre os lugares e paisagem prevaleça. Consequentemente, a experiência urbana condicionada por lugares e paisagens perde a força para os Espaços de Fluxo, que são exemplificados por grandes avenidas, viadutos e elevados. Quanto maior for o número de vias retas e largas, cortando os lugares e paisagens para permitir velocidades maiores dos fluxos, menor será o número de conexões e fruições entre os lugares e paisagens e, por conseguinte, menor será o número de

experiências urbanas. 12 São considerados espaços perversos: Espaços do não-lugar, Espaços

de Fluxos, Espaços de Consumo, Espaços Êmicos e Fágicos, Espaços de Lugares Vazios, Espaços das Edge Cities, Espaços Aerotrópolis, Espaço Públicos Disneylizados e Espaços Cidades Genéricas.

Os Espaços de Consumo são espaços onde a ação é privilegiada em detrimento às relações interpessoais. Através de conceitos propostos por Zygmunt Bauman (2000 apud CALLIARI, 2016), a ação a que Calliari (2016) se refere pode, muitas vezes, estar associada ao ato de consumir, que é um ato individual, nos seguintes espaços: shoppings centers, áreas de esporte, salas de concerto, entre outras. Os Espaços de Lugares Vazios, aqui denominados Espaços Vazios, porque, levando em conta as ponderações de Santos (1985), observa-se que a palavra ‘lugar’ expressa a conotação de ‘pertencimento’, ausente no sentido da palavra ‘espaço’, que é mais objetivo, referencial. O termo francês terrain vague carrega o significado preciso desses espaços urbanos: o de resquícios urbanos não ocupados por pessoas. São exemplos de Espaços Vazios: áreas sob os viadutos e os amplos terrenos abandonados pelas indústrias ao longo de linhas de ferroviárias.

Como explicado, a urbanidade constitui-se também a partir de relações indivíduo-indivíduo e o indivíduo e o espaço urbano público de uso coletivo. Essas relações contribuem para a construção da civilidade dos indivíduos. É a experiência interpessoal em diversos graus de intimidade que contribui para que o indivíduo tenha contato com o diferente, identifique-se consigo mesmo e compreenda a si mesmo. A civilidade advém dessa experiência, em que o comportamento humano fica cerceado pelo senso comum do viver público. O indivíduo, quando é obrigado a abrir mão de seus instintos e a conviver com os diferentes, identifica-se em seu grupo de convívio na busca de segurança. Se a civilidade é a atividade através da qual o individuo veste máscaras para proteger- se dos outros, a não civilidade é o individuo tirar a máscara na exposição aos outros (CALLIARI, 2016). Como avalia Mongin (2009), o espaço público é incerto, porque não garante a felicidade pública, e o individuo, ao se exteriorizar,

se esconde atrás das máscaras para confortar suas indecisões.

Netto (2012) também considera as forças de diferenciação na formação das identidades:

Gostaria de relacionar as condições de coexistência contidas na noção de senso comum de urbanidade como “civilidade do convívio” ao problema das tensões da diferenciação social que emanam do processo de formação das identidades e definem grupos sociais distintos e distantes, ainda que atuando simultaneamente na cidade. (...)

A definição de nossas identidades envolve um movimento de reapropriação: reconhecer a si através do reconhecimento das características e idiossincrasias que constituem Outro como Outro, um movimento progressivo na busca de similaridade entre uns simultaneamente à diferenciação em relação a outros. (...) Produzir e projetar identidades implica em (sic) construir avaliações e categorias relativas a identidades atribuídas a outros: identificar a si e ao outro é defini-los como diferentes. Assim, fundamentalmente, a identificação opera sob a forma da afirmação dos diferentes. A diferenciação implicaria em aproximações e formação de grupos de atores mais simples entre si que diferentes (NETTO, 2012, p. 43;45).

Pode-se observar que boa parte dos grupos que, hoje, circulam na Avenida

Paulista, cidade de São Paulo, após a sua recente abertura para o lazer13 é formada

por similaridades de classes sociais, culturas, ideologias e até mesmo similaridade étnica. Há, como mostra a figura 3, um grupo de afro-brasileiros que realiza roda

13 Baseada no Decreto N° 57.086 de 24 de Julho de 2016 (PREFEITURA

DE SÃO PAULO, 2016), a Av. Paulista em São Paulo, aberta para lazer aos domingos, é um espaço público onde se percebe esse processo de diferenciação e identificação de indivíduos em grupos a que Netto (2014) se refere. Nos primeiros dias, após a completa abertura da avenida para pedestres e ciclistas, notavam-se as pessoas andando a pé, de bicicleta ou de skate e os comerciantes nas ruas e nas lojas tirando proveito do volume maior de pessoas circulando. Aos poucos, aglomerações surgiram e apropriaram-se de trechos da avenida. Hoje, os grupos de convivência diversos, formados por identificações musicais, esportivas e gastronômicas, compartilham o espaço público com os pedestres e ciclistas.

Figura 3: Diferenciação e identidades: uma roda de capoeira na

Avenida Paulista, cidade de São Paulo. Fonte: Elaboração do autor, com base em <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/11/av-