http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/3918/6/Pablo%20Bas%C3%ADlio%20de%20S%C3%A1%20Leite%20Chakur
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(2) Pablo Basílio de Sá Leite Chakur. URBANIDADE: PROPOSIÇÃO DE UMA ESTRATÉGIA DE AVALIAÇÃO DE INSTRUMENTOS URBANÍSTICOS NA CIDADE DE SÃO PAULO. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.. Orientador: Prof. Dr. Carlos Leite de Souza. São Paulo, 2018.
(3) M339c Chakur, Pablo Basílio de Sá Leite. Urbanidade : proposição de uma estratégia de avaliação de instrumentos urbanísticos na cidade de São Paulo / Pablo Basílio de Sá Leite Chakur. 193 f. : il. ; 21 cm Dissertação (mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018. Orientadora: Carlos Leite de Souza. Bibliografia: f. 187-193. 1. Urbanidade. 2. Parâmetros de urbanidade. 3. Marco regulatório. 4. Plano Estratégico Diretor (PDE). 5. Instrumentos urbanísticos autoaplicáveis. 6. Matriz de Avaliação. I. Souza, Carlos Leite de. II. Título. CDD 711.4098161. Bibliotecária responsável: Giovanna Cardoso Brasil CRB-8/9605.
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(5) Em memória de meu querido pai (1940-1996).
(6) AGRADECIMENTOS Ao Carlos Leite de Souza, pela precisa e essencial orientação. Ao padrinho Bento, pelas importantes trocas de ideias, pela belíssima revisão do texto e por me encaminhar, com 8 anos de idade, aos estudos de técnicas de desenho. Aos meus pais Cilene e Osmar, por me transmitirem valores pautados na ética e no amor e pelo irrestrito estímulo ao estudo. À Leandra, pelo amor e companheirismo. Às minhas irmãs Andrea, Gabriela e Paloma, pela dedicação inabalável à nossa família. À madrinha Maria Helena, pela amorosa e constante presença em nossas vidas. Aos amigos de longa data, pela torcida e eterna amizade. À Fernanda, pela parceria e confiança de sempre. À Angélica Alvim e José Antônio Apparecido Jr., pelas importantes contribuições em minha qualificação. Aos professores da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pela minha formação e por fomentarem minha paixão pela Arquitetura..
(7) RESUMO No contexto de indagações sobre o futuro urbanístico para a cidade de São Paulo, esta dissertação propõe uma ferramenta para avaliar em que medida os instrumentos urbanísticos estabelecidos no Plano Diretor Estratégico da cidade de São Paulo de 2014, peça principal do Marco Regulatório, contribuem para o fomento de urbanidade. Dois aportes constituem a base da proposição: a literatura sobre o conceito de urbanidade e um conjunto de instrumentos urbanísticos autoaplicáveis, que são parte do plano e foram criados com o propósito de regular a organização e a expansão urbanas. Para viabilizar a proposição da ferramenta, o estudo correlaciona conceito e instrumentos. Para isso, reelabora o conceito de urbanidade em termos de parâmetros de urbanidade e a eles associa um conjunto específico de instrumentos urbanísticos que se organizam em grupos funcionais. Essa correlação, acrescida de um campo para a avaliação, é disposta em forma de tabela e constitui a ferramenta de avaliação denominada Matriz de Avaliação de Instrumentos Urbanísticos. O teste da ferramenta é feito sobre um ensaio urbano através do qual é feita a espacialização dos instrumentos com seus respectivos valores em um território pré-definido da cidade de São Paulo. Esse exercício exploratório permite avaliar não só a funcionalidade da ferramenta quanto o potencial gerador de urbanidade dos instrumentos urbanísticos. Por fim, as considerações finais, antes de apontar desdobramentos futuros do estudo realizado, pontuam as suas principais contribuições: trazer reflexões sobre o conceito de urbanidade, sobre sua operacionalização e sobre a sua aplicação na elaboração de instrumentos urbanísticos regulatórios que visam fomentar urbanidade e propor uma ferramenta de avaliação desses instrumentos.. Palavras-chave: Urbanidade. Parâmetros de Urbanidade. Marco Regulatório. Plano Diretor Estratégico (PDE). Instrumentos Urbanísticos Autoaplicáveis. Matriz de Avaliação..
(8) ABSTRACT Against the backdrop of inquiries into the urban future of the city of São Paulo, this dissertation proposes a tool for assessing the extent to which the urban planning instruments established in the Strategic Master Plan of the city of São Paulo in 2014, the key document of the Regulatory Landmark of the city of São Paulo, contribute to the promotion of urbanity. Two contributions form the basis of the proposition: the literature on the concept of urbanity and a set of self-applied urban planning instruments, which are part of the plan and were created with the purpose of regulating urban organization and expansion. To make possible the setup of the tool, the study correlates concept and instruments. To do this, it re-elaborates the concept of urbanity in terms of urbanity parameters and associates them with a specific set of urbanistic instruments that are organized into functional groups. This correlation, with the addition of an assessment field is arranged in a table and constitutes the evaluation tool called the Assessment Matrix of Urbanistic Instruments. The test of the tool is done on an urban test through which the instruments are spatialized with their respective values i n a predefined territory of the city of São Paulo. This exploratory exercise makes it possible to evaluate not only the functionality of the tool but also the urbanity potential of the urban planning instruments. Finally, the final considerations, before pointing out future developments of the study, highlight the main contributions of the dissertation: to shed some light on the concept of urbanity, its operationalization and its application in the making of urban regulatory instruments that aim to foster urbanity and to put forward a tool to assess those instruments.. Keywords: Urbanity. Urbanity Parameters. Regulatory Landmark. Strategic Master Plan. Urbanistic Tools. Assessment Matrix..
(9) LISTA DE FIGURAS Figura 1: Exemplos dos tipos de espaço urbano. Figura 2: Brasília: exemplo de espaço público de grandes dimensões. Figura 3: Diferenciação e identidades: uma roda de capoeira na Avenida Paulista,. cidade de São Paulo. Figura 4: A vida em condomínios: Complexo Cidade Jardim, um espaço privado. com shopping, escritórios e residências. Figura 5: Marcação temporal da urbanidade: Festa de N. Sra da Achiropita,. Bixiga. Figura 6: Marcação temporal da urbanidade: Festival das Estrelas, Liberdade. Figura 7: Intervenção do poder público em parceria com o capital privado:. construção de habitação de interesse social em bairro nobre (Jardim . Edite, Brooklin). Figura 8: Diversidade de atividades no limite entre o público e o privado (Nova. York). Figura 9: Bairro modelo sem vida urbana: Programa Minha Casa Minha Vida. (Rio de Janeiro). Figura 10: Comparação entre modelos de verticalização europeu e asiático. (CHAKRABARTI, 2013). Figura 11: Comparação entre modelo horizontal e vertical (CHAKRABARTI,. 2013). Figura 12: Relação entre consumo de gasolina e densidade urbana. Figura 13: Densidades das Prefeituras regionais de São Paulo. Figura 14: Buscando a compacidade..
(10) Figura 15: Tipo de núcleos de vizinhança. Figura 16: Fórmula para medição da compacidade. Figura 17: O conceito de urbanidade parametrizado. Figura 18: Comparativo da aplicação do coeficiente de aproveitamento na versão. revista de 2004 do PDE de 2002 e no PDE de 2014. Figura 19: Cota de Solidariedade. Figura 20: Valorização da mobilidade urbana com redes de corredores de ônibus,. metrô e trem. Figura 21: Estratégia de qualificar a vida urbana nos bairros. Figura 22: Av. 23 de Maio: exemplo de fratura urbana. Figura 23: Áreas de influência de estações de metrô e trem e dos corredores de. ônibus. Figura 24: Estratégia de reorganizar as dinâmicas metropolitanas. Figura 25: Distribuição de empregos: comparativo entre a situação anterior e a. proposta no PDE 2014. Figura 26: Retorno da Zona Rural como contenção da expansão urbana. Figura 27: Territórios de interesse da cultura e da paisagem. Figura 28: Instrumentos de participação social. Figura29: Os tipos de territórios e respectivas zonas. Figura 30: Exemplo de aplicação do instrumento Dimensão de Quadra. Figura 31: Exemplo de aplicação do instrumento Gabarito de Altura Máxima. Figura 32: Exemplo de aplicação do instrumento Taxa de Ocupação. Fonte: Figura 33: Recuos Mínimos. Figura 34: Valores dos coeficientes de aproveitamento dentro das áreas de.
(11) . influência dos Eixos de Estrutura da Transformação Urbana.. Figura 35: Valores dos coeficientes de aproveitamento fora das áreas de influências. dos Eixos de Estrutura da Transformação Urbana Figura 36: Coeficiente de Aproveitamento nas ZEIS. Figura 37: Exemplos de aplicação do instrumento Cota Parte de Terreno por. unidade habitacional. Figura 38: Exemplo de atuação do instrumento Fruição Pública. Figura 39: Exemplo de atuação do instrumento Fachada Ativa. Figura 40: Mapa de distribuição previsto no instrumento Quota Ambiental. Figura 41: Quadro quantificador dos instrumentos Quota Ambiental e Taxa de. Permeabilidade. Figura 42: Exemplo da atuação do instrumento Eixos de Estrutura e. Transformação Urbana. Figura 43: Quantificações estabelecidas pelo instrumento Número de Vagas. Máximo por Empreendimento. Figura 44: Síntese dos instrumentos urbanísticos distribuídos em grupos. funcionais. Figura 45: Matriz de Avaliação de Instrumentos Urbanísticos. Figura 46: Matriz de Avaliação dos Instrumentos Urbanísticos: valores dos. instrumentos urbanísticos aplicados na zona ZEU. Figura 47: Matriz de Avaliação dos Instrumentos Urbanísticos: valores dos. instrumentos urbanísticos aplicados na zona ZEIS-3. Figura 48: Bairros selecionados: Brás e Mooca. Figura 49: Contextualização do território selecionado em relação dos Eixos de. Transformação e de Estruturação Urbana..
(12) Figura 50: Contextualização do território selecionado e dos principais. equipamentos urbanos do entorno. Figura 51: Zoneamento do território: zonas ZEU e ZEIS-3 . Figura 52: A ampla infraestrutura de transporte do território. Figura 53: Áreas de Cortiços. Figura 54: Grande extensão das quadras existentes no território. Figura 55: A baixa variedade na Rua Uruguaiana, uma morfologia típica das ruas. do território. Figura 56: Algumas verticalizações próximas às linhas da CPTM e do Metrô. Figura 57: O baixo adensamento do território existente. Figura 58: Relação entre Infraestrutura de transporte e verticalização das. edificações. Figura 59: Rua Paulo Afonso. Figura 60: Residências de baixo gabarito na Rua 21 de Abril. Figura 61: Estabelecimentos residenciais verticais Rua Hipódromo. Figura 62: Parque de maior expressão mais próximo do território e ciclofaixas. Figura 63: Modelagem da situação atual do território, vista Sudeste. Figura 64: Modelagem da situação atual do território, vista Sudoeste. Figura 65: Edificações residenciais verticais, grande edifícios comerciais e. industriais e edificações institucionais que permanecem no modelo. Figura 66: Presença dos lotes remembrados maiores na zona ZEIS-3. Figura 67: Presença dos lotes remembrados maiores na zona ZEIS-3. Figura 68: Planilha auxiliar para estudos de massa. Figura 69: Distribuição das unidades nas zonas ZEU e ZEIS-3..
(13) Figura 70: Aplicação dos instrumentos dos grupos funcionais GFRD e GFRG. Figura 71: Térreo das edificações onde estão aplicados instrumentos dos grupos. funcionais GFQE e GFQMA. Figura 72: Configuração da Rua Joaquim Nabuco antes do ensaio. Figura 73: Configuração da Rua Joaquim Nabuco depois do ensaio. Figura 74: Configuração da Rua Vieira Martins antes do ensaio. Figura 75: Configuração da Rua Vieira Martins depois do ensaio. Figura 76: Resultado da aplicação de gabaritos diversos em cinco quadras. Figura 77: Aplicação de diferentes valores do instrumento TO. Figura 78: Aplicação de diferentes de valores de recuos frontais do instrumento. RMin. Figura 79: Remembramentos ocupados por construções de uso residencial. Figura 80: Situação da compactação do território antes do ensaio. Figura 81: Situação do território compacto depois do ensaio. Figura 82: Situação anterior à aplicação do instrumento Ampliação do Passeio. Público (APP) na Rua Joaquim Nabuco. Figura 83: Situação posterior à aplicação do instrumento Ampliação do Passeio. Público (APP) na Rua Joaquim Nabuco. Figura 84: Situação anterior à aplicação do instrumento Ampliação do Passeio. Público (APP) na Rua Vieira Martins. Figura 85: Situação posterior à aplicação do instrumento Ampliação do Passeio. Público (APP) na Rua Vieira Martins. Figura 86: Ampliação do espaço público com a aplicação dos instrumentos FPub. e APP. Figura 87: Criação de novos percursos pedonais no final da Rua Joaquim Nabuco.
(14) . com a aplicação dos instrumentos FPub e APP.. Figura 88: Aplicação dos instrumentos FPub em lotes estreitos. Figura 89: Contribuição positiva da aplicação do instrumento FPub para a. qualificação das calçadas na ZEU em contraste com a sua não. aplicação na zona ZEIS-3. Figura 90: Situação da Rua Joaquim Nabuco sem a aplicação dos instrumentos. FAt e FPub. Figura 91: Situação anterior à aplicação da Fat na Rua Joaquim Nabuco. Figura 92: Situação posterior à aplicação da Fat na Rua Joaquim Nabuco. Figura 93: Situação anterior à aplicação da Fat na Rua Vieira Martins. Figura 94: Situação posterior à aplicação da Fat na Rua Vieira Martins. Figura 95: Situação anterior à aplicação do instrumento TP. Figura 96: Situação posterior à aplicação do instrumento TP..
(15) LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AEL . Áreas de Estruturação Local. AIU . Áreas de Intervenção Urbana. APC . Área de Proteção Cultural. APPa . Áreas de Proteção Paisagística. AUE . Áreas de Urbanização Especial. BIR Bens imóveis representativos CA . Coeficiente de Aproveitamento. CG . Cota Parte de Garagem. CPT . Cota Parte de Terreno. CPTM . Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. CS Cota Solidariedade DOT Desenvolvimento Urbano Orientado pelo Transporte FUNDURB . Fundo de Desenvolvimento Urbano. GFQE . Grupo Funcional Qualificador do Espaço. GFQMA . Grupo Funcional Qualificador do Meio Ambiente. GFRD . Grupo Funcional Regulador da Densidade. GFRG . Grupo Funcional Regulador da Geometria. GFRM Grupo Funcional Regulador da Mobilidade Urbana GFRU . Grupo Funcional Regulador do Uso. HIS . Habitação de Interesse Social.
(16) OMS . Organização Mundial da Saúde. OUC Operações Urbanas Consorciadas PEUC Parcelamento, Edificação e Utilização Compulsórios PDE Plano Diretor Estratégico PIU . Projetos de Intervenção Urbana. PMSP . Prefeitura Municipal de São Paulo. SMDU . Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. TICP . Territórios de Interesse da Cultura e da Paisagem. UPZ . Uso Permitido por Zona. ZEIS . Zonas Especiais de Interesse Social. ZEPAM . Zonas Especiais de Proteção Ambiental. GFRG . Grupo Funcional Regulador da Geometria. DQu Dimensão da Quadra GAB . Gabarito de Altura Máxima. TO Taxa de Ocupação RMin Recuo Mínimo.
(17) SUMÁRIO 19 INTRODUÇÃO 32 CAPÍTULO 1 - URBANIDADE 32 1.1.Conceituando urbanidade 48 1.2.Parametrizando o conceito de urbanidade 49 1.2.1 Parâmetro Diversidade 56 1.2.2 Parâmetro Densidade 64 1.2.3 Parâmetro Compacidade 70 1.2.4 Parâmetro Qualidade Física do Espaço 81 1.2.5 Urbanidade parametrizada 86 CAPÍTULO 2: INSTRUMENTOS URBANÍSTICOS 86 2.1 As estratégias de execução do PDE de 2014 97 2.2 Selecionando e descrevendo os instrumentos urbanísticos 98 2.2.1 Grupo Funcional Regulador do Uso (GFRU) 100 2.2.2 Grupo Funcional Regulador da Geometria (GFRG) 104 2.2.3 Grupo Funcional Regulador da Densidade (GFRD) 106 2.2.4 Grupo Funcional Qualificador do Espaço (GFQE) 109 2.2.5 Grupo Funcional Qualificador do Meio Ambiente (GFQMA) 110 2.2.6-Grupo Funcional Regulador da Mobilidade Urbana (GFRM).
(18) 113 CAPÍTULO 3 - AVALIAÇÃO DOS INSTRUMENTOS URBANÍSTICOS 113 3.1 Construindo a Matriz de Avaliação dos Instrumentos Urbanísticos 116 3.2 Selecionando as zonas para a aplicação dos instrumentos urbanísticos 119 3.3 Selecionando e descrevendo a configuração do território 136 3.4 Espacializando os instrumentos no território 151 3.5 Avaliando a aplicação dos instrumentos urbanísticos por meio da matriz 151 3.5.1 Avaliação da aplicação dos instrumentos do grupo funcional GFRU 153 3.5.2 Avaliação da aplicação dos instrumentos do grupo funcional GFRG 157 3.5.3 Avaliação da aplicação dos instrumentos do grupo funcional GFRD 159 3.5.4 Avaliação da aplicação dos instrumentos do grupo funcional GFRM 154 3.5.5 Avaliação da aplicação dos instrumentos do grupo funcional GFQE 177 3.5.6 Avaliação da aplicação dos instrumentos do grupo funcional GFQMA 180 CONSIDERAÇÕES FINAIS 187 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
(19) INTRODUÇÃO. INTRODUÇÃO A crescente discussão da urbanidade nos grandes centros urbanos é motivada, dentre outras causas, pelo fenômeno do espraiamento urbano (urban sprawl) que, ao longo do século 20, gerou (e ainda tem gerado), dentre outras distorções, produtos imobiliários perversos, como a proliferação de condomínios fechados sem responsabilidades urbanísticas com o entorno, contribuindo, assim, com a deterioração dos espaços públicos. Esses condomínios, onde ao morador oferece-se boa parte de sua atividade diária, são categorizados como “construções de cidades dentro da cidade” (JACOBS, 2014, p. 49). Em sua grande maioria, são construções afastadas dos centros econômicos, tendo, como subproduto, o estímulo ao uso do automóvel e ao deslocamento diário dos munícipes para regiões mais centrais da cidade, em que, naturalmente, se concentra a maior oferta de trabalho. Elucidativa e instigante é esta observação de Aguiar (2012) sobre a leitura que diferentes tipos de moradores fazem dos espaços urbanos que habitam: O habitante do condomínio fechado, em geral conservador, lê e sente a urbanidade do centro da cidade como uma situação hostil. Ele se sente bem no desurbano. Por outro lado, o morador da cidade dita tradicional [...] lê e sente a pseudourbanidade do condomínio fechado como algo exótico, esdrúxulo. (AGUIAR, 2012, p.78) Até o século 20, o centro da cidade era o lugar onde ocorriam as principais atividades que agrupavam as pessoas em aglomerações. Com o passar dos anos, as cidades passaram a mudar os locais dos seus centros econômicos, levando ao esgotamento e à deterioração dos seus centros históricos. Na cidade de São 19.
(20) INTRODUÇÃO. Paulo, por exemplo, o centro econômico, que se estabeleceu na região da Sé no ápice da cultura cafeeira, deslocou-se, passando pelo vale do Anhangabaú, movimentando-se em direção à Praça da República, depois subindo para o espigão da Paulista e atingindo as regiões da Avenida Brigadeiro Faria Lima e da Vila Olímpia. (SALDIVA, 2018) Assim, com a expansão cada vez maior do tecido urbano, urbanistas e planejadores de tráfego passaram a ter também maior responsabilidade nos projetos de desenvolvimento das cidades. Como resultado dessa expansão, o arranjo espacial das cidades pautou-se por funções distintas e privilegiou o fluxo de veículos (GEHL, 2015). Com o espraiamento das cidades, surgiram também novas tendências de localização dos usos residenciais, comerciais e industriais e, com elas, uma significativa alteração na lógica centro-periferia (SPOSITO; GÓES, 2013). Acrescenta-se a essa alteração topológico-funcional uma alteração políticoeconômica: a tendência de aplicação de políticas econômicas neoliberais. Atualmente, nas cidades brasileiras, o capital privado tem sido aplicado na saúde, educação, moradia, segurança, incluindo também, entre os seus alvos de compra, espaços de convívio coletivo. Assim, a criação de espaços privados condominiais, voltados para si e induzidos pelo urbanismo do medo, com muros e grades, potencializa não só a segregação urbana e social como também a decorrente redução da urbanidade local, com a consequente deterioração dos espaços públicos coletivos. Essa é a gênese dos “não-lugares” de Augé (1994, p.71)¹, ou seja, locais de passagem destituídos de identidade, de relações e de história. Outros exemplos desses “não lugares” são os aeroportos ou estações rodoviárias, aos quais se somam os condomínios fechados que deram o mote inicial deste. 1 Marc Augé (1994) define “não lugar” como espaços não antropológicos e provocados pela supermodernidade.. 20.
(21) INTRODUÇÃO. estudo. É desnecessário reforçar que são inúmeros e diversos os fatores responsáveis pela desvalorização dos espaços públicos. Este trabalho, em particular, observa fatores que dizem respeito à relação que se estabelece entre o poder público municipal e a iniciativa privada na promoção da urbanidade dos espaços públicos da cidade. Independentemente da escala, o objeto arquitetônico, indispensável para a formação do espaço exterior, pode não contribuir positivamente para a formação de uma cidade mais humana. Há inúmeras razões para se recuperar e promover os espaços públicos e coletivos. A formação da identidade da cidade é uma delas, porque, nos espaços públicos acontece a diversidade de hábitos cotidianos casuais e individuais, a exteriorização da vida privada e a exposição do indivíduo a experiências da pluralidade humana (MORGIN, 2009). A soma dessas experiências coletivas resulta, como mostra Jacobs (2014), na compreensão da identidade pública das pessoas. Nesses espaços as experiências de interesse coletivo acontecem como, por exemplo, as manifestações públicas de conteúdo político-ideológico do dia 17 de abril de 2016, dia da votação do impeachment da Presidente Dilma Rousseff no Congresso Nacional. Outra razão importante para a recuperação dos espaços públicos é a melhoria da saúde da população. O crescente número de doenças como a obesidade e doenças mentais e pulmonares nas grandes cidades torna evidente a necessária ampliação das áreas de lazer e dos equipamentos de cultura para a melhoria da saúde dos munícipes (SAUDIVA, 2018). Ainda hoje, as grandes cidades mundo afora sofrem com os efeitos da mudança de uma cidade industrial para uma cidade de serviços. Exemplos de efeitos 21.
(22) INTRODUÇÃO. negativos são os grandes vazios, repletos de galpões subutilizados. Um exemplo de efeito positivo é o crescimento do turismo, e, com ele, a necessidade de recuperação e de criação de novos espaços públicos para impulsioná-lo. Um exemplo de recuperação é o que se tem feito em áreas portuárias degradadas, hoje símbolos turísticos de muitas cidades como Buenos Aires, Londres, Barcelona e Bilbao (MADANIPOUR, 2013). É importante pontuar que a construção de espetaculares edificações privadas não é por si mesma uma iniciativa promotora do excursionismo. Necessária é também a promoção da urbanidade dos espaços públicos que interligam essas edificações. A escassez financeira do poder público, as pressões das forças do mercado e o patrimonialismo têm moldado a organização e o crescimento da cidade, comprometendo o futuro urbanístico do município de São Paulo. Esse fato, aliado a políticas urbanas ineficientes, tem feito com que a cidade pouco tenha avançado nas questões essenciais de urbanidade nos últimos anos. Ao se considerarem os fatores abordados até aqui (alterações topológicofuncional e político-econômica), observa-se a forte tendência de se considerar o capital privado como protagonista na construção da cidade. Devido ao seu crescimento e à necessidade de sua absorção, o capital privado passa a instaurar novas centralidades. Enquanto a construção de novos centros econômicos vai ficando cada vez mais para a iniciativa privada, a responsabilidade pelo planejamento do crescimento da cidade fica para o poder público, que, para esse fim, tem recorrido a instrumentos de política de planejamento urbano. Nesse cenário, destacam-se legislações como o Plano Diretor Estratégico2 (PDE), peça principal3 do Marco Regulatório do município de São Paulo (MR, 2018).. 2 O PDE é uma lei municipal específica que visa orientar o desenvolvimento e o crescimento do município de São Paulo. 3 Além do Plano Diretor Estratégico (PDE), o Marco Regulatório do município de São Paulo reúne as seguintes peças: a Lei de Zoneamento (atual denominação da Lei de Parcelamento Uso e Ocupação do Solo - LPUOS), Planos das Prefeituras Regionais, Código de obras e edificações (COE) e Projetos de Intervenção Urbana (PIU).. 22.
(23) INTRODUÇÃO. Comentam-se dois desses PDEs: o PDE de 2002 (PDE, 2002), o primeiro PDE aprovado após a sanção do Estatuto da Cidade de 2001 (ESTATUTO DA CIDADE, 2001), e o PDE de 2014 (PDE, 2014), que é a referência para a exploração dos instrumentos urbanísticos a serem avaliados neste estudo. O primeiro trouxe iniciativas importantes que, no geral, como será lembrado, não saíram do papel; o segundo trouxe inovações e procurou sanar inadequações do primeiro. Uma compilação de dinâmicas urbanas atuantes no munícipio de São Paulo ilustra resultados da aplicação de PDEs e reafirmam a constatação de distorções que se pontuam nesta introdução. Algumas dessas dinâmicas são exemplificadas com base em Calliari (2016), que se fundamenta em Meyer, Grostein e Biderman (2004): •. Ocupação socioeconômica desigual de setores contíguos;. •. Esvaziamento residencial dos “bairros centrais”;. •. Promoção de setores urbanos através de operações urbanas;. • . Impacto dos projetos de infraestrutura em escala local e metropolitana;. •. Organização de polo funcional de transporte metropolitano;. •. Consolidação de subcentros regionais;. •. Transformação funcional de polos industriais tradicionais;. •. Formação de núcleos urbanos autônomos;. •. Novas formas de organização físico-espacial da atividade . 23.
(24) INTRODUÇÃO. . industrial;. •. Difusão do “condomínio fechado” como modelo habitacional;. • . Espaços estratégicos para projetos urbanos de abrangência metropolitana.. Note-se que dinâmicas urbanas como densidades urbanas desiguais, bairros monofuncionais e segregação socioespacial vão na contramão da urbanidade. Essas dinâmicas, que contribuem para o distanciamento entre grupos de pessoas, para a redução das possibilidades de interação e, como argumenta Netto (2014), para o não reconhecimento dos diferentes, são negativas para a promoção de urbanidade. Considere-se, agora, o PDE de 2002. Sem perder de vista sua motivação nos ideais neoliberais, recorde-se que esse PDE traçou várias diretrizes impactantes: estruturar a transformação da cidade através de mecanismos de mercado, como Parceria Público-Privada e Operações Urbanas; racionalizar a infraestrutura instalada com a participação da iniciativa privada; implantar políticas públicas, organizadas pelo setor de Desenvolvimento Socioeconômico, Humano e de Qualidade de vida e pelo setor Urbano e Ambiental; estimular, por meio das políticas públicas, a integração entre uso e ocupação do solo, transporte e moradia; com essa integração, possibilitar diversas atividades em uma mesma zona e minimizar os deslocamentos entre casa e trabalho. Giaquinto (2010), entretanto, referindo-se a esse PDE como repetição de planos anteriores, não poupa, na sua tese de doutorado, severas críticas ao planejamento urbano ineficiente nele proposto:. 24.
(25) INTRODUÇÃO. [...] pode-se afirmar que o PDE [de 2002] e os PRE [Planos Regionais Estratégicos das Subprefeituras] obedecem rigidamente uma tradição da Prefeitura do Município de São Paulo, que consiste em ver o planejamento urbano somente através do zoneamento de uso. Visão esta que reflete os interesses dos moradores de bairros de elite e do mercado imobiliário, bem como, refletem, também, a história e a formação dos próprios técnicos da administração pública. Isso ocorre não de forma geral, mas sim em cada tabela, cada mapa, cada coeficiente ou taxa incluída na lei. (GIAQUINTO, 2010, p. 165). A voz de Giaquinto (2010) somou-se à voz de Meyer et al. (2015), ao considerar a urbanização de São Paulo dispersa e fragmentada. O fato é que, com sua excessiva abrangência e avalanche de Operações Urbanas, o PDE de 2002 apresentou inadequações. Por um lado, do conjunto de intervenções urbanas de iniciativa pública divulgadas na imprensa, poucas saíram do papel; por outro, as intervenções de iniciativa privada foram inauguradas em abundância, mas descuidando das áreas para o pedestre. Desse tipo de descompasso entre a precária iniciativa pública e a intervenção privada nem sempre positiva decorre o fato de a cidade de São Paulo ter hoje transporte urbano ineficiente, áreas de lazer escassas e condições de circulação inadequadas para o pedestre. Nakano e Guatella (2015) reforçam o coro de críticas aos PDEs anteriores ao PDE de 2014. Na espacialização, questionam a forma urbana que esses PDEs desenham. Diante desse quadro nacional composto por milhares de municípios com leis de zoneamento, surgem indagações a respeito do tipo e da qualidade de espaços e das formas urbanas geradas pelas aplicações dos parâmetros de uso e ocupação instituídos por essas leis [de PDEs anteriores ao PDE de 2014]. Quais são as. 25.
(26) INTRODUÇÃO. características e qualidades desses espaços e formas urbanas, do ponto de vista da vitalidade e diversidade na vida urbana, geradas pelas aplicações daqueles parâmetros? (NAKANO; GUATELLA, 2015, p. 143). Após experiências advindas da aplicação do PDE de 2002 e de PDEs anteriores, o poder público lança o PDE de 2014, sancionado no dia 31 de julho de 2014. Esse PDE, proposto no contexto da revisão e consolidação de projetos estruturantes defendidos na revisão do marco regulatório de política urbana municipal, é orientado pelo Programa de Metas da PMSP (PROGRAMA DE METAS, 2016), a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo (SMDU) e a SPUrbanismo (FRANCO et al., 2015). Tendo por base os fundamentos expressos na Constituição Federal, no Estatuto da Cidade e na Lei Orgânica do Município de São Paulo, o PDE de 2014 é uma iniciativa que busca reverter heranças que não foram positivas dos PDEs anteriores. Observe-se que tanto na página de apresentação do Marco Regulatório quanto na página de apresentação do PDE de 2014 reforçam-se os ideais de urbanidade dessa nova iniciativa: O Marco Regulatório do município de São Paulo é composto por instrumentos de planejamento urbano que visam organizar os espaços da cidade e torná-la um lugar mais agradável de se viver. Esses instrumentos definem as regras para usarmos, desenharmos e ocuparmos os espaços da cidade de modo a garantir, por exemplo, moradias perto dos empregos, serviços e equipamentos urbanos, bons espaços públicos, preservação do meio ambiente, moradia adequada e transporte coletivo de boa qualidade. (MR, 2018, s.p.) [...] o PDE direciona as ações dos produtores do espaço urbano, públicos ou privados, para que o desenvolvimento da cidade seja feito de forma planejada e atenda às necessidades coletivas de toda a população, visando garantir uma cidade mais moderna, 26.
(27) INTRODUÇÃO. equilibrada, inclusiva, ambientalmente responsável, produtiva e, sobretudo, com qualidade de vida. (PD, 2018, s.p.) Criado para ordenar o desenvolvimento da cidade e fruto de um processo marcadamente participativo4, o PDE de 2014 e leis derivadas estabelecem um conjunto de instrumentos urbanísticos e estratégias de planejamento voltado para legislar sobre a regulamentação e a ampliação de novos espaços urbanos, dando, ao poder público do município, elementos para estabelecer controle sobre a ordenação e o crescimento da cidade. Assim, com instrumentos e estratégias, o poder público do município passa a observar iniciativas do capital privado e estabelecer regras de uso, ocupação e organização dos espaços da cidade com foco na urbanidade. Destaca-se, por exemplo, um dos seus grandes objetivos: reordenar o território com base no conceito de Desenvolvimento Urbano Orientado pelo Transporte (DOT), que reconhece a importância do desenvolvimento do desenho urbano em conjunto com o planejamento do transporte público. Para isso, foram definidos Eixos de Transformação Urbana próximos ao transporte de massa como metrô, trem e corredores de ônibus, onde o adensamento populacional é estimulado. O PDE de 2014 traz inúmeros instrumentos que tangenciam escalas territoriais diversas para ordenar a cidade. Para este estudo, o recorte é sistematizar e avaliar os instrumentos urbanísticos que afetam a “dimensão humana” (GEHL, 2015, p.3) da cidade, ou seja, os instrumentos que têm impacto no chão da cidade, em escala local, e no cidadão. São exemplos de instrumentos dessa natureza o coeficiente de aproveitamento, a fruição pública, a cota parte máxima de terreno por unidade, a fachada ativa, a cota de garagem e a ampliação do passeio público. Esses instrumentos visam promover o adensamento e a compactação da. 4 A legitimidade social ao PDE de 2014 afere-se dentro processo participativo em que foi criado. A proposição de estratégias de desenvolvimento da cidade contou com a mobilização da sociedade: mais de 25 mil participantes e 10 mil contribuições. Foram inúmeras as rodadas de discussão, as oficinas e as audiências públicas. (PDE, 2014). 27.
(28) INTRODUÇÃO. habitação nas proximidades do transporte público de massa, a diversificação do uso do solo e a melhoria das condições físicas dos espaços públicos através do alargamento de calçadas e da dinamização dos passeios públicos. Há significativas interdependências entre esses instrumentos que serão oportunamente salientadas. Por exemplo, o uso do potencial máximo do coeficiente de aproveitamento depende dos recuos, da taxa de ocupação e do gabarito de altura. Um segundo recorte importante para o desenvolvimento deste estudo é considerar, para a presente investigação, apenas os instrumentos urbanísticos autoaplicáveis, ou seja, instrumentos com aplicabilidade imediata a partir do PDE, sem a necessidade de regulamentação posterior em outra(s) lei(s) (PINTO, 2001). Giaquinto (2010) sinaliza a importância de se considerar a autoaplicabilidade dos instrumentos urbanísticos na elaboração de PDEs. A atribuição municipal, a obrigatoriedade da função social da propriedade, a inclusão da questão ambiental e sustentação jurídica para os instrumentos de política urbana disponibilizados consistiram em uma mudança significativa de paradigmas. No entanto, restaram resquícios anacrônicos como a não explicitação da autoaplicabilidade dos instrumentos do plano diretor e a ideia de ordenação como se os problemas urbanos se resumissem à desordem territorial. (GIAQUINTO, 2010, p. 30) Em seguida, Giaquinto (2010) aponta que as: políticas públicas, objetivos, diretrizes e ações não são detalhados e, como não poderia deixar de ser, não são autoaplicáveis, configurando-se em um verdadeiro “plano cardápio” (VILLAÇA, 2005 apud GIAQUINTO, 2010) onde os técnicos e políticos podem escolher as bases para seus discursos e eventualmente suas ações. (GIAQUINTO, 2010, p. 84). 28.
(29) INTRODUÇÃO. Por fim, Giaquinto (2010) ressalta que: [...] os instrumentos de política urbana como a Outorga Onerosa do Direito de Construir, Transferência do Direito de Construir, RIMA, RIVI, ZEIS e Disciplina de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo foram regulamentadas e podem ser considerados autoaplicáveis. Os demais instrumentos como Direito de Preempção, Fundo de Desenvolvimento Urbano, Concessão Urbanística, Consórcio Imobiliário, Direito de Superfície e principalmente Concessão do Direito de Uso foram deixados para ser regulamentados posteriormente ou abordados superficialmente. (GIAQUINTO, 2010, p. 164) Para concluir esta introdução, destacam-se, a seguir, os objetivos e as etapas de desenvolvimento da dissertação. Considerando a sanção do PDE de 2014 e, sobretudo, os impactos negativos de PDEs anteriores, que colocam em dúvida a qualidade do futuro urbanístico da cidade de São Paulo, mesmo que norteado por ideais urbanísticos como os defendidos no PDE de 2014, este estudo propõe criar uma ferramenta de avaliação que possibilite avaliar (i) a aplicabilidade de uma seleção de instrumentos urbanísticos autoaplicáveis, previstos no PDE de 2014 e leis derivadas, e (ii) em que medida a aplicação desses instrumentos, em um exercício de modelagem urbanística5, contribuem para gerar urbanidade. Essa ferramenta, denominada Matriz de Avalição de Instrumentos Urbanísticos, é resultante do estudo que estabelece a correlação entre o conceito amplo de urbanidade e os instrumentos urbanísticos técnicos e mensuráveis por meio da reelaboração do conceito em termos de parâmetros de urbanidade. Essa correlação, em que se associam os instrumentos, organizados em grupos funcionais, aos parâmetros e seus respectivos valores, acrescida de um campo para a avaliação, é disposta em forma. 5 O objetivo do exercício de modelagem urbanística, ou ensaio urbano, é espacializar a aplicação dos instrumentos urbanísticos em um determinado território urbano para viabilizar sua posterior avalição por meio da matriz de avaliação.. 29.
(30) INTRODUÇÃO. de tabela e constitui a ferramenta de avaliação de cada um dos instrumentos sob os aspectos da sua aplicabilidade e da sua contribuição para gerar urbanidade. Em outras palavras, o cerne da dissertação é a construção e a aplicação exploratória, através de um exercício de modelagem urbanística, da ferramenta na avaliação do resultado da aplicação dos instrumentos urbanísticos em um território específico da cidade de São Paulo. Pontos de partida da investigação, dois aportes (um de natureza conceitual e outro de natureza técnica) constituem a base para o empreendimento: (a) o conceito de urbanidade, discutido na literatura selecionada nas referências bibliográficas e sua parametrização; (b) os instrumentos urbanísticos autoaplicáveis do PDE de 2014. Estas sete etapas descrevem o desenvolvimento da pesquisa: (1) Delimitação do conceito de urbanidade (seção 1.1) e sua parametrização em termos da proposição dos parâmetros de urbanidade (seção 1.2) com base na literatura; (2) Contextualização no âmbito dos PDEs, seleção, descrição e agrupamento funcional dos instrumentos urbanísticos autoaplicáveis propostos no PDE de 2014 (seções 2.1 e 2.2); (3) Proposição da Matriz de Avaliação dos Instrumentos Urbanísticos com base nos parâmetros e instrumentos (seção 3.1); (4) Seleção das zonas urbanas para a aplicação dos instrumentos (seção 3.2); (5) Seleção do território e descrição da sua configuração espacial antes da. 30.
(31) INTRODUÇÃO. aplicação dos instrumentos que são alvos da avaliação (seção 3.3); (6) Realização do ensaio urbano no território selecionado (seção 3.4); (7) Avaliação descritiva do resultado da aplicação dos instrumentos no território (visível na espacialização feita no ensaio urbano) por meio da matriz de avaliação (seção 3.5).. 31.
(32) CAPÍTULO 1. CAPÍTULO 1 - URBANIDADE Neste capítulo, após a discussão do conceito de urbanidade e sua caracterização nocional em termos qualitativos e quantitativos (seção 1.1), propõe-se sua decomposição em parâmetros de urbanidade com o objetivo de capturar aspectos do conceito que podem ser direta ou indiretamente mensuráveis (seção 1.2). 1.1 Conceituando urbanidade Caracterizadora da vida urbana, urbanidade tem sido objeto de estudo de diferentes especialidades como Filosofia, Ciências Sociais e, particularmente, Arquitetura e Urbanismo. Contudo, como adverte Netto (2014, p. 190), trata-se de um conceito “difuso e pouco sistemático”. Diante dessa imprecisão, a noção de urbanidade sugerida por Aguiar (2012) e a definição lexicográfica articulada em Houaiss e Villar (2001) oferecem uma primeira aproximação conceitual. Aguiar (2012) argumenta que "falar de urbanidade ao nos referirmos à cidade significa estar falando de uma cidade ou lugar que acolhe ou recebe as pessoas com civilidade, polidez e cortesia". (AGUIAR, 2012, p. 62). Enquanto Houaiss e Villar (2001) dizem que "[...]urbanidade substantivo feminino 1 qualidade ou condição de ser urbano (no sentido de ‘civilizado, cortês’) 1.1 fig. Conjunto de formalidades e procedimentos que demonstram boas maneiras e respeito entre os cidadãos; afabilidade, civilidade, cortesia" (HOUAISS; VILAR, 2001, p. 2809). 32.
(33) CAPÍTULO 1. Observe-se que a definição lexicográfica complementa a noção de Aguiar (2012) e destaca atributos da urbanidade que caracterizam o habitante da cidade, o indivíduo urbano: ser urbano, ser civilizado, ser cortês e ser afável. Por outro lado, urbanidade qualifica também a cidade, o espaço urbano. Transferindo esses e outros atributos humanos para a cidade, Aguiar (2012) enumera uma série de atributos relevantes para a delimitação qualitativa do conceito: cortesia, civilidade, afabilidade, hospitalidade, extroversão, entre outros. Explica ele: Utilizo o termo [urbanidade] exatamente em seu sentido tradicional e mais corriqueiro – aquele que se refere à cortesia entre pessoas - apenas que aplicado aos não humanos; edifícios, ruas e cidades. Edifícios dotados de cortesia, gentis com o corpo. Ruas e bairros dotados de civilidade, e por aí vai. (...) (AGUIAR, 2012, p.273, grifos nossos) Espaços com urbanidade são espaços hospitaleiros. O oposto são os espaços inóspitos ou, se quisermos, de baixa urbanidade. Vivemos em cidades onde o espaço público é cada vez mais inóspito, marcado por grades nas fachadas de prédios, extensos muros contornando introvertidos condomínios, megashopping centers / megaestacionamentos e, a pior parte, as áridas freeways urbanas. Essa parece ser cada vez mais, nas mais diversas culturas, a urbanidade da classe média. Em meio a essa forte tendência ao desurbano o que poderia justificar o nosso interesse - meu e de outros tantos pesquisadores e estudantes que compõem esse nosso grupo - em estudar e discutir sobre a urbanidade? Sugiro em resposta que haveria compartilhada entre essas pessoas, ou pelo menos entre boa parte delas, um entendimento de espaço público como lócus de uma cultura urbana compartida, fundada em valores coletivos, uma cultura que envolve o convívio com os opostos, envolve diversidade, troca e, mais que tudo, o desfrute de uma cidade que tenha o espaço urbano como fundo ativo. Tudo muito ao contrário da atual tendência à segregação em guetos 33.
(34) CAPÍTULO 1. residenciais, profissionais, comerciais e viários. A urbanidade, assim conceituada, emerge como um parâmetro maior, e abrangente, na avaliação da qualidade dos lugares (AGUIAR, 2012, p. 61, grifos nossos). A partir dessas considerações, é possível extrair qualidades opostas que separam os espaços com urbanidade (espaços hospitaleiros, coletivos, extrovertidos e de diversidade) dos espaços com baixa ou desprovidos de urbanidade (espaços inóspitos, individuais, introvertidos e de padronização). São oposições como essas, e considerando também a extensão de vida urbana entre vida a morte como o faz Jacobs (2014)6 em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades, que motivam a proposição da ferramenta de avaliação no capítulo 3. Não se trata de uma proposta que busca a caracterização exaustiva de diferentes tipos de urbanidade, mas de uma proposta que busca criar uma ferramenta que possibilite a aferição de aspectos da urbanidade de cidades e de espaços urbanos, posto que a maximização da urbanidade maximiza as qualidades caracterizadoras desses espaços7. As considerações até este ponto permitem resumir que urbanidade é uma característica que se aplica a dois tipos de elementos, indivíduos e espaços e designa um tipo particular de relação que qualifica e instaura, de modo recíproco e indissociável, os espaços e os indivíduos que dela participam: os espaços urbanos e as pessoas que os habitam. 6 Uma referência de destaque sobre o estudo de urbanidade.. A voz de Gehl (2005), ao discutir o conceito de “cidade viva”, soma-se à voz de Aguiar (2012) na qualificação do conceito de urbanidade, mas aponta também para a importância da quantificação na sua delimitação.. 7 Observa-se que Aguiar (2012), além de propor a aferição de graus de urbanidade, cogita também a especificação de uma tipologia de urbanidades. Essa investigação, entretanto, não será abordada nesta dissertação.. 34.
(35) CAPÍTULO 1. A cidade viva é um conceito relativo. Poucas pessoas em uma rua estreita de uma cidadezinha podem, com facilidade, apresentar uma cidade viva, animada. O que importa não são números, multidões ou o tamanho da cidade, e sim a sensação de que o espaço da cidade é convidativo e popular; isso cria um espaço com significado. A cidade viva também precisa de uma vida variada e complexa, onde as atividades sociais e de lazer estejam combinadas, deixando espaços para a necessária circulação de pedestres e tráfego, bem como oportunidades para participação da vida urbana. Calçadas abarrotadas, com multidões se acotovelando para abrir caminho, nunca indicam boas condições para a vida da cidade. Enquanto essa discussão sobre a cidade viva se desenrola em torno de quantidade na forma de um significativo número de participantes, a qualidade é igualmente importante preocupação e destaca a necessidade de um convite multifacetado8 (GEHL, 2005, p. 63, grifos nossos). O fato é que, na literatura sobre urbanidade, as dimensões qualitativa e quantitativa são constantemente abordadas na argumentação dos autores. Mongin (2009), com base em Romains (1919 apud MONGIN, 2009), ao fundamentar a experiência do espaço urbano, discute a qualidade espacial e temporal das aglomerações, valendo-se de atributos quantitativos ao propor a aferição da intensidade (um atributo quantitativo) das aglomerações com valores polares: +/- intensas9, +/extensas, +/- duradouras, +/- felizes, +/- densas ou +/- sufocantes10. Porque envolve espaços e indivíduos, o conceito de urbanidade envolve também (a) tipos e escalas de espaços urbanos, porque urbanidade é característica dos espaços urbanos que, por sua vez, condicionam as relações interpessoais; (b) a civilidade que estabelece através das relações interpessoais, mediante graus. 8 A Rua Augusta na cidade de São Paulo exemplifica essas considerações de Gehl (2005). Com ampla diversidade de usos, estimula a circulação de grande número de pessoas ao longo do dia. Porém, suas calçadas estreitas e seu mobiliário urbano inadequadamente disposto caracterizam-na como um espaço urbano qualitativamente deficiente. Trata-se, assim, de um espaço quantitativamente pleno de pessoas, mas carecendo de atributos físicos de qualidade, ao observarem-se pessoas tropeçando umas nas outras em determinados horários. 9 Mongin (2009, p. 77), por exemplo, avalia que o “espaço de Paris tem, como condição, lugares que permitem agregações mais ou menos intensas”. 10 Netto (2012), que considera ser inadequado tratar a urbanidade apenas como um problema de intensidade da convergência dos diferentes, sinalizando a importância de qualificarem-se “esses diferentes”, traz o bairro de Copacabana na cidade do Rio de Janeiro como exemplo de agregações de diferentes. Para ele, esse bairro é um lugar apropriado por pessoas de classes sociais, etnias e campos sociais diferentes, cuja violência, causada também pela diferenciação de classes sociais, contribui para reduzir sua urbanidade. Identifica aí uma condição contextual de urbanidade: “diferenças de sociedade e espacialidade produzem diferenças de urbanidade” (NETTO, op. cit., p. 214), justificando a importância da dimensão qualitativa: Quando entendemos que a relação entre forma de vida social e espacialidade vai além da copresença e uma relação com o espaço mediada por informação social complexa, capaz de ser associada a atividades e referenciar a prática, as diferenças qualitativas latentes em diferentes espaços e formas de vida sobressaem como tão ou mais relevantes que diferenças de intensidade. (NETTO, op. cit., p. 215). Contra argumentando seu próprio raciocínio, Netto (op. cit.) observa ainda que, dessa maneira, qualquer forma de vida urbana pode conter urbanidade e, todavia, uma forma urbana hostil ou espaços segregados divergiriam do conceito usual de civilidade.. 35.
(36) CAPÍTULO 1. distintos de privacidade, porque urbanidade constitui-se a partir de relações indivíduo-indivíduo e indivíduo-espaço urbano público de uso coletivo, que contribui para a construção da civilidade dos indivíduos; (c) significado físicotemporal que se constrói através das relações individuo-indivíduo e indivíduoespaço urbano, porque urbanidade é sensível ao tempo, ao espaço, aos indivíduos e à vivência. Considere-se a definição dos tipos de espaço urbano a partir das seguintes denominações polares: espaço público e espaço privado, espaço coletivo e espaço restrito e espaço de propriedade do Estado e espaço de propriedade privada. Essas denominações permitem a proposição destes oito tipos de espaço urbano, com exemplificações na figura 1: • Espaço urbano público (propriedade do Estado); • Espaço urbano privado (propriedade da iniciativa privada); • Espaço urbano de uso coletivo (não há restrições de uso para os cidadãos); • Espaço urbano de uso restrito (há restrições de uso para certos cidadãos); • Espaço urbano público de uso coletivo (propriedade do estado sem restrições de uso para os cidadãos); • Espaço urbano privado de uso coletivo (propriedade da iniciativa privada sem restrições de uso para os cidadãos); • Espaço urbano público de uso restrito (propriedade do estado com. 36.
(37) CAPÍTULO 1. restrições de uso para certos cidadãos); • Espaço urbano privado de uso restrito (propriedade da iniciativa privada com restrições de uso para certos cidadãos).. Um recorte se faz necessário devido à amplitude de tipos. Neste trabalho, restringe-se o estudo ao espaço urbano público de uso coletivo, porque a propriedade pode ser ou não privada, já o uso do solo urbano é de domínio público. Além disso, embora Netto (2014, p. 242) comente que a cidade se tornou “o lugar de manifestações predominantemente de interesse privado”, é no espaço urbano público de uso coletivo que se constrói urbanidade e sua “reconquista supõe enfrentar uma vasta gama de conflitos, cuja solução constitui um dos principais desafios para o desenvolvimento integral” (ALOMÁ, 2013, s.p.). Esse recorte vai também ao encontro da necessidade de separação nítida entre o público e o privado reivindicada por Jacobs (2014), comentada mais abaixo, e tem, como pressuposto, valorizar o estudo desse espaço urbano, onde os atributos da urbanidade se sobressaem. Ainda segundo Jacobs (2014), cabe a esse tipo de espaço o papel de formação da vizinhança e não ao espaço urbano privado de uso coletivo, que predomina nos condomínios e shopping centers de nossas cidades. Na contramão, os espaços urbanos públicos de uso privado são abrigos para grupos sociais similares e fazem com que a alteridade se dilua na similaridade dos indivíduos. Em suma, a urbanidade tem mais força em uma. Figura 1: Exemplos dos tipos de espaço urbano. Fonte: Elaboração do autor, com base em Oliveira (2013, p. 9).. 37.
(38) CAPÍTULO 1. calçada movimentada, se comparada à socialização em uma área comum de um megacondomínio habitacional privado. A noção de ‘escala’, no contexto do espaço urbano, é assim exemplificada: A urbanidade é composta, portanto, por algo que vem da cidade, da rua, do edifício e que é apropriado, em maior ou menor grau, pelo corpo, individual e coletivo. A urbanidade, assim entendida, estaria precisamente nesse modo de apropriação da situação pelas pessoas, seja na escala do edifício, seja na escala da cidade. (AGUIAR, 2012, p. 273, grifos nossos) A escala denota, portanto, o escopo que se seleciona para a análise: a cidade toda, uma região da cidade, um bairro, uma região do bairro, uma vila, um condomínio, uma rua, uma praça, um edifício, entre outras escalas. Gehl (2012), entretanto, ao qualificar os espaços com urbanidade, inclui o elemento humano na discussão de escala e critica as grandes dimensões dos espaços urbanos públicos de uso coletivo, como o ilustrado na figura 2. Propõe que promover a urbanidade na escala humana é privilegiar “rotas diretas, lógicas e compactas; espaços de modestas dimensões; e uma clara hierarquia segundo a qual foram tomadas decisões para a escolha dos espaços mais importantes” (GEHL, 2012, p. 67)11. Assim, quando se fala em escala humana, ou seja, na escala de maior contato com o pedestre, fala-se de escala local. Para Aguiar (2012), é na escala local que o pedestre pode ver o seu entorno imediato: “aquele trecho de rua, aquela esquina,. 11 Reforçando essa proposição de Gehl (2012), boa parte das críticas feitas aos urbanistas pelos principais autores [Jacobs (2014), Glaeser (2011), Cullen (2008), Speck (2016) e Rogers (2001)] que discutem a vitalidade nas ruas é direcionada ao abandono da dimensão humana no planejamento das cidades. Ao longo dos anos, o pedestre foi negligenciado na construção de cidades monofuncionais, onde o uso do automóvel foi priorizado. Para exemplificar esse fato, constata-se que na cidade de São Paulo de hoje, se houver uma oportunidade para o planejamento de algum tipo de revitalização de uma grande gleba da cidade, o urbanista não conseguirá implementá-lo sem a consultoria de planejadores de tráfego, que recorrem a software avançado no cálculo do que pode ou não ser proposto com melhorias urbanas, tendo como principal regulador das ações o automóvel.. 38.
(39) CAPÍTULO 1. o conjunto de linhas de visada que ali se interconectam” (AGUIAR, 2012, p. 74). Para ele, uma característica fundamental para a condição de urbanidade é a intensidade de ligações entre os interiores privados e os espaços públicos de uso coletivos, trata-se do que Gehl (2015) denomina soft edges. Mesmo que a escala local seja crucial para a delimitação da urbanidade, ela é parte inerente da escala global. A vida das calçadas é parte da vida da cidade, assim como, ao mudarmos o ponto de vista, a vida da cidade é composta pelas vidas das calçadas. Tal sinergia entre urbanidade local e urbanidade global é abordada por Aguiar (2012). Ao apreciar essa escala local, a pessoa estará simultaneamente vivenciando a escala global, ou seja, a condição espacial global na qual aquela situação local está imersa, ainda que não a esteja vendo. A efetividade dessa escala global sobre uma determinada situação urbana é predominante. Pode-se dizer, como sugerido por Hillier, que uma mesma situação local – tipo e arranjo de edifícios, estilo etc. – quando hipoteticamente imersa em outra situação global resultaria em outra condição de urbanidade; isso porque terá um padrão de uso do espaço distinto daquele observado na localização anterior e, provavelmente, um grau de vitalidade, de animação, igualmente diferente daquele, seja maior ou menor. Todos os elementos da urbanidade globalmente estabelecidos. A condição de urbanidade de toda e qualquer situação urbana seria, portanto, em qualquer circunstância, resultante da sobreposição de condições locais e globais, atuando simultaneamente em uma determinada situação (AGUIAR, 2012, p. 74). A interdependência entre as escalas local e global sugere a abordagem de ambas. No entanto, nesta dissertação, a análise foca a urbanidade na escala local.. Figura 2: Brasília: exemplo de espaço público de grandes dimensões. Fonte: Elaboração do autor, com base em Gehl (2012, p.58).. 39.
(40) CAPÍTULO 1. Não se poderia deixar concluir esta discussão de escalas e tipos de espaços urbanos públicos antes de abordar os que são perversos à escala local. Trata-se dos espaços resultantes de conjunturas sociocultural e histórica, somadas às ações políticas e à aplicação de planos urbanos municipais, que, ao invés de promover, acabam por comprometer a urbanidade desses espaços na escala humana da cidade contemporânea. Mauro Calliari (2016) qualifica uma série de espaços públicos perversos na cidade contemporânea12. Estes quatro são relevantes para a avaliação de espaços urbanos da cidade de São Paulo: Espaços do não-lugar, Espaços de Fluxos, Espaços de Consumo e Espaços de Lugares Vazios. Os Espaços do não-lugar são espaços isentos de identidade, relações e história (AUGÈ, 1994). Associados a locais de passagem, eles não oferecem a sensação de apropriação pelo usuário, dificultando as relações interpessoais. Calliari (2016) exemplifica os espaços que estão associados ao transporte coletivo em que as pessoas estão sempre aguardando o momento para partir: aeroportos, rodoviárias, terminais intermodais, entre outros. A circulação, segundo Mongin (2009), é um dos valores proeminentes nas cidades, o que faz com que o fluxo sobre os lugares e paisagem prevaleça. Consequentemente, a experiência urbana condicionada por lugares e paisagens perde a força para os Espaços de Fluxo, que são exemplificados por grandes avenidas, viadutos e elevados. Quanto maior for o número de vias retas e largas, cortando os lugares e paisagens para permitir velocidades maiores dos fluxos, menor será o número de conexões e fruições entre os lugares e paisagens e, por conseguinte, menor será o número de experiências urbanas.. 12 São considerados espaços perversos: Espaços do não-lugar, Espaços de Fluxos, Espaços de Consumo, Espaços Êmicos e Fágicos, Espaços de Lugares Vazios, Espaços das Edge Cities, Espaços Aerotrópolis, Espaço Públicos Disneylizados e Espaços Cidades Genéricas.. 40.
(41) CAPÍTULO 1. Os Espaços de Consumo são espaços onde a ação é privilegiada em detrimento às relações interpessoais. Através de conceitos propostos por Zygmunt Bauman (2000 apud CALLIARI, 2016), a ação a que Calliari (2016) se refere pode, muitas vezes, estar associada ao ato de consumir, que é um ato individual, nos seguintes espaços: shoppings centers, áreas de esporte, salas de concerto, entre outras. Os Espaços de Lugares Vazios, aqui denominados Espaços Vazios, porque, levando em conta as ponderações de Santos (1985), observa-se que a palavra ‘lugar’ expressa a conotação de ‘pertencimento’, ausente no sentido da palavra ‘espaço’, que é mais objetivo, referencial. O termo francês terrain vague carrega o significado preciso desses espaços urbanos: o de resquícios urbanos não ocupados por pessoas. São exemplos de Espaços Vazios: áreas sob os viadutos e os amplos terrenos abandonados pelas indústrias ao longo de linhas de ferroviárias. Como explicado, a urbanidade constitui-se também a partir de relações indivíduo-indivíduo e o indivíduo e o espaço urbano público de uso coletivo. Essas relações contribuem para a construção da civilidade dos indivíduos. É a experiência interpessoal em diversos graus de intimidade que contribui para que o indivíduo tenha contato com o diferente, identifique-se consigo mesmo e compreenda a si mesmo. A civilidade advém dessa experiência, em que o comportamento humano fica cerceado pelo senso comum do viver público. O indivíduo, quando é obrigado a abrir mão de seus instintos e a conviver com os diferentes, identifica-se em seu grupo de convívio na busca de segurança. Se a civilidade é a atividade através da qual o individuo veste máscaras para protegerse dos outros, a não civilidade é o individuo tirar a máscara na exposição aos outros (CALLIARI, 2016). Como avalia Mongin (2009), o espaço público é incerto, porque não garante a felicidade pública, e o individuo, ao se exteriorizar, 41.
(42) CAPÍTULO 1. se esconde atrás das máscaras para confortar suas indecisões. Netto (2012) também considera as forças de diferenciação na formação das identidades: Gostaria de relacionar as condições de coexistência contidas na noção de senso comum de urbanidade como “civilidade do convívio” ao problema das tensões da diferenciação social que emanam do processo de formação das identidades e definem grupos sociais distintos e distantes, ainda que atuando simultaneamente na cidade. (...) A definição de nossas identidades envolve um movimento de reapropriação: reconhecer a si através do reconhecimento das características e idiossincrasias que constituem Outro como Outro, um movimento progressivo na busca de similaridade entre uns simultaneamente à diferenciação em relação a outros. (...) Produzir e projetar identidades implica em (sic) construir avaliações e categorias relativas a identidades atribuídas a outros: identificar a si e ao outro é defini-los como diferentes. Assim, fundamentalmente, a identificação opera sob a forma da afirmação dos diferentes. A diferenciação implicaria em aproximações e formação de grupos de atores mais simples entre si que diferentes (NETTO, 2012, p. 43;45). Pode-se observar que boa parte dos grupos que, hoje, circulam na Avenida Paulista, cidade de São Paulo, após a sua recente abertura para o lazer13 é formada por similaridades de classes sociais, culturas, ideologias e até mesmo similaridade étnica. Há, como mostra a figura 3, um grupo de afro-brasileiros que realiza roda. Figura 3: Diferenciação e identidades: uma roda de capoeira na Avenida Paulista, cidade de São Paulo. Fonte: Elaboração do autor, com base em <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/11/avpaulista-tem-domingo-de-danca-protesto-e-ato-pela-consciencianegra.html> (Acesso em: 02 set. 2017) 13 Baseada no Decreto N° 57.086 de 24 de Julho de 2016 (PREFEITURA DE SÃO PAULO, 2016), a Av. Paulista em São Paulo, aberta para lazer aos domingos, é um espaço público onde se percebe esse processo de diferenciação e identificação de indivíduos em grupos a que Netto (2014) se refere. Nos primeiros dias, após a completa abertura da avenida para pedestres e ciclistas, notavam-se as pessoas andando a pé, de bicicleta ou de skate e os comerciantes nas ruas e nas lojas tirando proveito do volume maior de pessoas circulando. Aos poucos, aglomerações surgiram e apropriaram-se de trechos da avenida. Hoje, os grupos de convivência diversos, formados por identificações musicais, esportivas e gastronômicas, compartilham o espaço público com os pedestres e ciclistas.. 42.
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