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Concepções sobre o conceito de Contextualização

Capítulo 5: Análise dos Fóruns

5.5. Concepções sobre o conceito de Contextualização

Nas duas edições do curso, tivemos a oportunidade de verificar quais concepções os professores apresentavam sobre o conceito de Contextualização. Ao longo da análise, constatamos pela fala de alguns professores certa aproximação com a concepção de Contextualização apresentada nas DCNEM, quando a consideram como um mecanismo de aprendizagem significativa. Isso se nota, por exemplo, na fala do professor P10:

“[...] penso que contextualizar seja dotar de significado as questões e conceitos trabalhados, na medida em que o aprendiz compreenda e reconheça a importância do que foi aprendido, enquanto condição para continuar aprendendo e interagir no universo que o cerca. Nesse sentido, o trabalho interdisciplinar é muito favorável. Ao dialogar sobre questões relevantes, há a possibilidade de transitar por diversas áreas do conhecimento, ampliando assim a aprendizagem e tornando-a mais significativa”. [P10]

No argumento apresentado por P10, verifica-se também que é justamente o significado atribuído ao conhecimento que servirá de estímulo para o aluno continuar aprendendo. Ao término da fala, P10 salienta a relevância da Interdisciplinaridade quando permite ao aluno transitar em diferentes disciplinas para ampliar o conhecimento que está sendo construído.

Já P11 iniciou o seu relato com uma reflexão sobre a própria prática pedagógica, quando, no início da carreira, propiciava aos alunos apenas o papel de ouvintes. Ele também salientou que somente após trabalhar com abordagem de projetos é que conseguiu possibilitar, aos alunos, uma aprendizagem significativa, segundo a sua compreensão. No entanto, ao argumentar sobre a Contextualização verificamos uma confusão conceitual com o conceito de Problematização:

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“[...] No início de minha carreira era uma professora tradicional

“aulas expositivas, exercícios, tarefas”, onde meus alunos era apenas ouvinte. Hoje vejo que os projetos desenvolvidos levam os alunos a busca do conhecimento e de uma aprendizagem mais significativa e prazerosa. Quando o professor é o propagador e leva a informação através do diálogo e criatividade ele usa um mecanismo de Contextualização”.

[P11]

Na fala de P11, o diálogo é um mecanismo da Contextualização, mas ainda cabe lembrar que, conforme a abordagem dada no curso, o diálogo é uma forma de problematizar a relação do homem com o mundo para que assim ele possa sentir-se parte do problema. Outra confusão conceitual está presente no argumento de P12:

“Entendo que a Contextualização parte do princípio das construções realizadas, da formalização do conhecimento adquirido ao longo da resolução da Problematização. A Contextualização no contexto escolar diz respeito a aprendizagem do aluno, ou seja, a partir das situações problemas lançadas pelo professor o aluno irá construir artefatos para atender ao que foi requerido. Após esta etapa no momento da socialização individual ou colaborativa entre os alunos é que ocorrerá a Contextualização, que basicamente é a demonstração do que se aprendeu“. [P12]

No discurso de P12 há uma sucessão de confusões e o mais preocupante é que eles não estão apenas relacionados à definição de Contextualização. No início da fala de P12 fica evidente o conflito entre o conceito de problema e Problematização. Em seguida, sobre o fato de que a Contextualização está relacionada com a construção de artefatos, mas ao mesmo tempo também a considera como a exposição dos conteúdos aprendidos.

Ainda em nossa análise constatamos que para três professores a Contextualização seria um recurso para introduzir um tema, situar o conteúdo em sua origem, bem como relacioná-lo a sua aplicação, isso fica claro nas falas de P8, P2 e P20:

“[...] a maneira de abordar o conhecimento e/ ou um conteúdo, situando-o a sua origem e à sua aplicação [...]”. [P8]

“[...] introduzir, inserir um certo tema, vincular o conhecimento à sua origem e à sua aplicação”. [P2]

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“Contextualizar é você dar uma "base" para introduzir um determinado assunto. Por exemplo: falar sobre um filósofo sem contextualizar a época em que viveu, a moral e os costumes e valores vividos é muito importante para entendermos suas ideias e entendimento do mundo. Contextualizar: "Trazer o assunto para o cotidiano do aluno e TAMBÉM colocar o objeto de estudo dentro de um universo que lhe faça sentido"”. [P20]

Diante de tais argumentos, entendemos que a interpretação apresentada por esses três docentes faz referência ao conceito de reContextualização.

Outro aspecto considerado por esses professores é de que a Contextualização possibilita a aplicação do conhecimento. Porém, a nosso ver essa aplicação não pode se dar de forma mecânica, mas deve permitir ao aluno uma reflexão constante para que ele possa, na medida do possível, encontrar o melhor caminho para solucionar o problema ou compreender a situação proposta pelo professor. É importante destacar que a última frase do argumento de P20 reduz a Contextualização ao cotidiano e, ao mesmo tempo, aproxima-se da ideia de aprendizagem significativa defendida nas DCNEM.

Acrescentando outros elementos à discussão, mas dialogando com as ideias apresentadas por P8, P2 e P20, P9 salientou que:

“Contextualização de forma geral, é o ato de vincular o conhecimento à sua origem e à sua aplicação. Dentro do contexto escolar, consiste em aproveitar sempre as relações entre conteúdos (o conhecimento transmitido pelo educador e apreendido pelo aluno) e contexto (situação na qual o processo ensino-aprendizagem se dá, nível socioeconômico, entre outros) para dar significado ao aprendido, estimular o protagonismo do aluno e estimulá-lo a ter autonomia intelectual”. [P9]

Vemos na fala de P9 que a aplicação do conhecimento está na relação entre os conteúdos curriculares e o contexto de ensino e aprendizagem do aluno. E, que é essa relação que permitirá ao aluno atribuir um significado ao conhecimento, bem como sentir-se estimulado a desenvolver sua autonomia intelectual. Por outro lado, observa-se que para construir esse argumento P9 utilizou como fundamentação teórica a leitura sugerida durante o curso, pois nela havia uma citação sobre a interpretação de Fourez relacionada à

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Contextualização40 que dialoga com a ideia apresentada. No entanto, entendemos que P9, P10 e P20 apresentaram uma visão de Contextualização que dialoga com a proposta exposta nas DCNEM, quando consideram a Contextualização apenas como um recurso para tornar a aprendizagem significativa a partir do momento em que se associa ao contexto de vida do aluno.

A Contextualização também é compreendida para um dos professores como um recurso que pode auxiliar o aluno a desenvolver um interesse pelos conteúdos curriculares. Segundo suas palavras:

“Creio eu que a ideia da Contextualização foi lançada para amenizar perguntas frequentes ou talvez até comportamentos de desinteresse dos alunos, como: "Eu odeio essa disciplina";

"Eu nunca vou usar isso"; "Pra que eu tenho que estudar isso”.

Eu já fiz estes tipos de perguntas quando eu estudava matemática e física. Segundo Jennifer Fogaça41 o aluno é um ser que tem inesgotáveis campos de experiência pessoal que podem ser usados na Contextualização do ensino como:

contexto personal, contexto temporal, contexto social, contexto espacial e contexto ambiental.” [...] [P27]

O argumento de P27 ainda revela que os alunos não conseguem compreender a relevância desses conteúdos. Diante de um ensino propedêutico, no qual impera práticas que valorizam a transmissão de conteúdos e que consideram o aluno como um ser passivo, é natural que o aluno sinta dificuldades para vislumbrar na prática os conceitos trabalhados.

Por outro lado, o professor ao considerar a Contextualização como uma “ideia”

e que foi “[...] lançada para amenizar perguntas frequentes [...]”, mostra que há uma ausência de compreensão sobre as contribuições que ela propicia para o processo de ensino e aprendizagem.

Durante a análise, verificamos que a concepção de um dos professores, P21, demonstrava uma aproximação com a compreensão de Contextualização apresentada nos PCN+, pois a considerava como uma estratégia para um

40 A interpretação de Fourez sobre Contextualização encontra-se na p. 93 desta tese.

41 Para fundamentar a sua fala o professor, por iniciativa própria, pesquisou o tema e utilizou o texto “Contextualização” de Jennifer Fogaça. Disponível em:

http://educador.brasilescola.uol.com.br/trabalho-docente/contextualizacao.htm Acesso em: 25 de Fevereiro de 2016.

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ensino interdisciplinar no qual permite ao aluno analisar a situação problema em um contexto real:

“Entendo a Contextualização como indispensável para a Interdisciplinaridade, onde devemos observar o tema de estudo em seu contexto real. No meu caso, que trabalho com o ensino fundamental I, e sou a professora de todos os conteúdos, tento elaborar projetos que sejam de interesse dos alunos de maneira interdisciplinar. Sempre achei que o ensino escolar tenha que ser útil ao aluno e que ele consiga enxergar isso enquanto estuda em sala de aula. Acredito que isso seja a Contextualização. No entanto, nos anos de experiência que tenho, nem sempre conseguimos fazer isso e a repetição de exercícios e o simples cumprimento de planejamento acaba acontecendo.” [P21]

O argumento de P21 também revela uma insegurança na prática adotada em sala de aula. Isso fica claro quando expressa a seguinte frase: “[...]

Acredito que isso seja a Contextualização [...]”. Em virtude disso, reitera-se a necessidade de discussões conceituais mais profundas sobre a Contextualização nos cursos de formação. Consideramos que mediante um aprofundamento teórico o professor terá condições de construir estratégias pedagógicas que valorizem a Contextualização. E, assim, poderá mudar o cenário de sala de aula, o qual valoriza apenas a repetição de exercícios e o cumprimento do planejamento como bem destacou P21 na última frase do seu argumento.