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Multidisciplinaridade, Pluridisciplinaridade e Transdisciplinaridade

Capítulo 2: Interdisciplinaridade

2.3. Multidisciplinaridade, Pluridisciplinaridade e Transdisciplinaridade

diferentes áreas do conhecimento, dialoga sobre um assunto em comum, onde cada um expõe seus argumentos e demonstram interesses e objetivos diversos em relação ao tema central. Um seminário temático, por exemplo, cuja discussão principal seja “A origem da Vida”, onde cada especialista apresenta diferentes argumentos, pode ser considerada como uma abordagem multidisciplinar. No contexto escolar, Santomé (1998) explica que a multidisciplinaridade pode ser compreendida como a “[...] mera justaposição de matérias diferentes, oferecidas de maneira simultânea, com a intenção de esclarecer alguns de seus elementos comuns, mas na verdade nunca se explicitam claramente as possíveis relações entre elas” (p.71). Essa definição

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revela que a multidisciplinaridade estabelece, apenas, uma justaposição entre as disciplinas, mas não possibilita claramente uma relação entre elas. Nessa abordagem o objeto de estudo é analisado, interpretado, compreendido sob diferentes ângulos; mas, em nenhum momento há um rompimento das fronteiras disciplinares. Sendo assim, as disciplinas cooperam com o problema proposto, dentro do seu próprio campo de conhecimento (ALMEIDA FILHO, 1997).

Fourez (2002b) explica que, na abordagem multidisciplinar não é definido previamente pelos professores um projeto com objetivos comuns; e que por isso ela possibilita um ensino do tipo temático. Ou seja, um conjunto de disciplinas trata simultaneamente um assunto - de uma temática – mas, em nenhum momento, os profissionais envolvidos estabelecem entre si relações, ainda que ligadas ao campo técnico ou científico (ALMEIDA FILHO, 1997). Um exemplo relacionado à multidisciplinaridade poderia ser a realização de um evento científico cuja temática seria “As enchentes na cidade de Itajubá – Minas Gerais”. Neste evento haveria a participação de diversos especialistas - biólogos, físicos, engenheiros, meteorologistas entre outros – e cada um apresentaria as contribuições da sua área para o problema, sem demonstrar qualquer tipo de superioridade. Todavia, cada sujeito produziria a sua representação – produto final – pessoal sobre o problema proposto.

Então, na multidisciplinaridade, “as pessoas, no caso as disciplinas do currículo escolar, estudam perto, mas não juntas” (PIRES, 1998, p.176). Em uma atividade multidisciplinar o aluno recorre aos conteúdos de diferentes disciplinas para solucionar um problema ou questão. No entanto, não existe a preocupação em articular as disciplinas entre si. Essa proposta pode parecer, muitas vezes, arbitrária para o aluno, uma vez que ele não consegue vislumbrar a relação entre os saberes (FOUREZ, 200b).

Na pluridisciplinaridade também há uma articulação entre especialistas de diversas disciplinas que possuem o objetivo de realizar uma investigação sobre um tema, questão ou problema em particular. Contudo, essa justaposição acontece por meio de “[...] disciplinas mais ou menos próximas,

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dentro de um mesmo setor do conhecimento” (SANTOMÉ, 1998, p.71) como, por exemplo, a física e a química.

Ricardo (2005) afirma que a pluridisciplinaridade incentiva os alunos a transferirem conteúdos de uma disciplina à outra diante de situações de natureza semelhantes, uma vez que ela possibilita um olhar abrangente em situações variadas. Por sua vez, o aluno passa a ter subsídios para lidar – em diferentes contextos - com problemas ou circunstâncias que demonstrem aspectos divergentes. Diferente da multidisciplinaridade, a pluridisciplinaridade tenta estabelecer uma cooperação melhor entre as disciplinas valorizando o ponto de vista de cada um dos especialistas envolvidos. Ela “consiste em tratar uma questão justapondo as contribuições de diversas disciplinas, em função de uma finalidade convencionada entre os parceiros do processo” (FOUREZ, 2002b, p.63).

Fourez (1997a; 2002b) argumenta sobre a importância da representação para o processo de ensino e aprendizagem. De acordo com o autor, não basta perguntar sucessivamente para o professor especialista qual é a sua representação particular de um problema, mas analisar a aproximação entre as disciplinas para que assim haja a possibilidade de construir uma representação sistêmica e inovadora do problema estudado. Por outro lado, o autor alerta que se o objetivo da abordagem pluridisciplinar estivesse pautado na elaboração de uma representação final, isso implicaria uma alteração no grau de participação das áreas do conhecimento, pois dependendo do problema uma área teria elementos mais significativos do que outra. Consequentemente, essa abordagem não seria mais tida como pluridisciplinar, mas como veremos mais adiante passaria a apresentar características voltadas para uma abordagem mais interdisciplinar.

Com relação à transdisciplinaridade, Jean Piaget, em um congresso sobre Interdisciplinaridade, em 1970, definiu esse conceito da seguinte forma:

“[...] Trata-se da construção de um sistema total, sem fronteiras sólidas entre as disciplinas, ou seja, de uma teoria geral de sistema e estruturas, que inclua estruturas operacionais, estruturas de regulamentação e sistemas probabilísticos, e que una estas diversas probabilidades por meio de transformações

64 reguladas e definidas” (PIAGET, 1972 apud SANTOMÉ, 1998, p. 70).

Na abordagem transdisciplinar é difícil distinguir onde começa ou termina cada disciplina, já que ela é tida como a transferência de conceitos, modelos, competências, métodos “[...] de uma disciplina para outra ou na prática comum a diversas disciplinas de certas competências11” como do tipo lógico, cognitivo, organizacional, comunicacional, relacional entre outros “[...]

com uma determinada intencionalidade” (FOUREZ 2000a, p.393).

A transdiciplinaridade pode acontecer quando, por exemplo, aprendemos a conduzir um automóvel e em determinado momento temos a necessidade de transferir esse saber para outra situação, ou seja, vemo-nos obrigados a dirigir um tipo diferente de carro (FOUREZ 2000a). O autor afirma que nessa situação “[...] as aprendizagens realizadas num contexto restrito são transferidas para outras situações” (FOUREZ, 2002a, p.394). Já para Ricardo (2005), o conceito de transdisciplinaridade fica mais claro quando analisamos a palavra “tensão”, utilizada tanto na física quanto na psicologia. Na psicologia ela tem o sentido de designar, por exemplo, “[...] uma tensão nervosa, como uma metáfora ao sentido dado na mecânica” (RICARDO, 2005, p. 210). Essa operação de transferências de saberes de um campo do conhecimento a outro é extremamente complexa para os alunos e exige um elevado grau cognitivo (FOUREZ, 2001), em virtude da existência da transferência intradisciplinar e da transdisciplinar, sendo que, a “[...] transdisciplinar não difere de um todo da intradisciplinar [...]” (FOUREZ, 2001, p.197), mas essa última é mais espontânea e acontece frequentemente. Um exemplo clássico seria quando o aluno utiliza os conceitos de aceleração em Cinemática e, posteriormente, em Leis de Newton.

A transdisciplinaridade pode ser uma proposta interessante a partir do momento em que os professores elaboram um projeto pedagógico comum com objetivos bem definidos e que utilizem conceitos e métodos que se aplicam a um largo conjunto de situações (FOUREZ, 2001). Por outro lado, “[...] é preciso considerar cuidadosamente a adesão a uma crença transdisciplinar, a qual

11 Tais competências são consideradas transversais – permitem ao aluno atuar em uma multiplicidade de situações.

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poderia levar à aceitação da unificação dos saberes ou a formas absolutas de integrá-los já evidenciadas como insustentáveis” (RICARDO, 2005, p.210).

Tanto a multidisciplinaridade quanto a pluridisciplinaridade e a transdisciplinaridade possuem um enfoque metodológico, onde há uma evidente preocupação com o nível de interação e comunicação entre as disciplinas, bem como com a travessia das fronteiras disciplinares. Por outro lado, a Interdisciplinaridade, como veremos a seguir, está relacionada com uma integração de saberes, onde, a partir disso, o aluno terá subsídios para resolver um problema e construir uma representação sobre ele.