Capítulo 6: Análise das Entrevistas
6.4. O que o professor entende por Interdisciplinaridade?
Desenvolver projetos interdisciplinares é um dos grandes desafios da prática docente. Por isso, durante a entrevista, abordamos, mais uma vez, a temática da Interdisciplinaridade. As falas a seguir exemplificam de forma significativa, os conflitos, dúvidas, angústias e dificuldades que os professores vivenciam em suas instituições de ensino:
“Olha, desde 2007 que eu já trabalho dessa forma, né. E até quero perguntar novamente, por que ontem eu fiquei assim...meia....Gente será que eu ainda to entendendo errado o que, que é INTERDISCIPLINARIDADE? Por que ontem a minha supervisora em Delfim falou pra mim que não é. [P11]
A fala de P11 demonstra a angústia para saber se o trabalho que tem sido desenvolvido é, de fato, interdisciplinar. O comentário de P11 revela que diante da dúvida a sua metodologia de trabalho foi colocada à prova pela supervisora da escola. A partir disso, é possível concluir que a compreensão sobre Interdisciplinaridade não é meramente uma questão de semântica. Por isso, em nosso entender, torna-se fundamental discutir esse conceito em uma perspectiva epistemológica e não apenas em uma perspectiva que visa à operacionalização prática de uma atividade supostamente interdisciplinar.
Consideramos que assim o professor terá condições de analisar se o trabalho que ele desenvolve é ou não interdisciplinar. Caso contrário, a carência de um embasamento teórico pode levá-lo a cometer sérios erros conceituais, assim como práticos.
Verificamos isso na continuação da fala de P11 e também na contribuição de P9:
“Por que o que eu entendo, vamos agora você vai me ajudar.
A Interdisciplinaridade significa o que: eu vou montar projeto, eu tenho um tema. Aquele tema eu vou colocar como uma situação problema, definir o que, que é e, vou tentar colocar dentro daquela situação problema todos os conteúdos possíveis tá certo? Ai eu vou colocar todas as disciplinas”.
[P11]
“Então, eu acho que é pegar um projeto e jogar dentro de todas as materias. Quando você consegue ENGLOBAR todas as matérias em um único projeto que se tá..que é a matemática, português, geografia, ciências. De maneira que tá tudo envolvido”. [P9]
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O comentário anterior revela a dificuldade que P11 e P9 tiveram para compreender, por exemplo, que o trabalho interdisciplinar se caracteriza pelo diálogo entre os saberes de cada disciplina para solucionar uma situação problema. Entretanto, para P11 a Interdisciplinaridade seria inserir, dentro da situação problema, todos os conteúdos curriculares. Já a fala de P9 evidencia o descaso com a concepção do projeto, ao considerar que basta “jogá-lo” dentro de todas as disciplinas. Além disso, essa ação não seria interdisciplinar, mas sim multidisciplinar, conforme foi discutido. Desse modo, mais uma vez inferimos sobre a necessidade de uma compreensão epistemológica sobre esse termo.
Outro aspecto que merece atenção ainda no comentário de P11 está relacionado ao tema e à situação problema. Como salientamos em nossa discussão teórica, o tema é algo mais central, mas que possibilita ao professor trabalhar os conteúdos curriculares. Todavia, é preciso esclarecer que tanto o tema quanto a situação problema possuem diferentes peculiaridades; e, por isso, não podem ser transformados ou reduzidos a uma única coisa.
Dando continuidade a sua fala, P11 exemplificou como realizou, durante o curso, a atividade da IIR:
“Conforme eu fiz na Ilha, né!!? Eu trabalhei com e Ilha falando sobre a situação problema como, sobre o derramamento de óleo em alto mar. Ai eu procurei colocar Física, Química, Biologia, Português, Inglês, Filosofia, Artes, Sociologia, né?!
Então foi todos os conteúdos. E de que forma eu trabalhei? Eu, professora de Física, né, eu fui procurar todos os conteúdos possíveis, pra poder, vê em qual. Cada uma, cada disciplina.
Depois como a minha aula são só duas aulas, aí eu peguei procurei pelos professores. E, pedi para eles se eu não poderia trabalhar com textos. Primeiro eu reuni com eles em sala, mostrei todo o PROJETO. E depois eu fui....peguei e falei assim: “- Eu preciso trabalhar com tudo isso que tá aqui, mas só nas duas aulas minhas eu não posso”. Ai foi onde eu vim.
Eles ficaram sentados, eu vim na aula deles e fui trabalhando e eles me ajudando dentro de sala de aula. Depois eu vim na aula de Química, trabalhei novamente, certo? Pedi licença para o professor, trabalhei com ele lá dentro, né, mostrando como que era os alunos fazendo; e ele sentado, depois ele me
173 ajudou. Depois foi no de História, só o ÚNICO que eu não fiz, que eu não vim, não participei foi da parte do Intercâmbio, né?
Que ele tá fazendo o intercâmbio no horário de...que eu estava em sala de aula”. [P11]
A contribuição de P11 evidencia a dificuldade que esse docente teve para colocar os conteúdos de várias disciplinas dentro do projeto. Por outro lado, demonstra a vontade que ele teve para desenvolver a IIR, assumindo disciplinas que não tinham relação com sua formação. Ao mesmo tempo, deparou-se com a inércia dos professores de sua instituição diante dessa atividade. Em nosso capítulo teórico enfatizamos que, diante dos obstáculos para desenvolver um trabalho interdisciplinar com outros docentes, é possível optar por implementar um projeto interdisciplinar sozinho. É importante lembrar que o professor também tem a possibilidade de trabalhar com outras propostas metodológicas como, por exemplo, a multidisciplinaridade. Todavia, para isso, é fundamental compreender as diferenças epistemológicas e metodológicas entre cada uma delas.
Mesmo diante de todas as limitações para trabalhar com a IIR, esse docente conseguiu com êxito realizar um trabalho significativo. A partir da elaboração e implementação da IIR, os alunos apresentaram na Feira de Ciências da escola maquetes e folhetos45 sobre a problemática do derramamento de óleo em alto mar. Nessa perspectiva, tanto a maquete quanto o folheto, são a representação interdisciplinar do problema proposto, ou seja, o produto final da IIR construída por ele ao longo do curso.
Outro professor que informou possuir ainda muitas dificuldades para entender o conceito de Interdisciplinaridade foi P21:
Éh::: engraçado que no curso eu falei: “- Gente, a gente faz de um jeito e pensa que tá interdisciplinar, mas é tão difícil de entender esse conceito”. Eu tenho bastante dificuldade.
Também no PACTO também a gente teve algumas aulas sobre esse conceito de Interdisciplinaridade e o que eu fazia antes eu achava que era e depois lá parece que não é. Eu ainda tenho dúvida ((risos do entrevistado)) dentro de mim”. [P21]
45As fotos de algumas maquetes e do folheto, que foram elaborados para a Feira de Ciências realizada em Outubro de 2014, estão disponíveis no anexo 1.
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P21 destaca que durante o curso teve a oportunidade de compreender que o trabalho desenvolvido na escola não era, de fato, interdisciplinar.
Revelou também que, em uma ação de formação proposta pelo MEC - Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa - essa discussão se fez presente.
No entanto, sua fala demonstra que essa formação contribuiu para gerar mais dúvidas. É possível que a definição conceitual sobre Interdisciplinaridade, tratada na formação do Pacto, não seja a mesma da discussão proposta no curso “Trabalhando com projetos em sala de aula: construindo uma Ilha Interdisciplinar de Racionalidade". Logo, torna-se natural a dificuldade de P21 para compreender esse conceito. Ainda durante a entrevista ele salientou que:
“[...] eu gosto muito de trabalhar com projeto. Eu até falei que a ilha eh::: é uma forma diferente, mas não deixa de ser um projeto, né? E no projeto o que eu procurava fazer: eu escolhia um tema, né? E ali eu ia buscando e tentando éh:::
CONTEXTUALIZAR né? É por exemplo, se eu ía trabalhar matemática eu procurava contextualizar matemática dentro daquele tema que eu tinha escolhido. E ali eu ía colocando todos os conteúdos ía trabalhando. Na Geografia, o que eu poderia usar? Português eu trazia textos sobre aquele tema.
Então eu achava que isso era até muito tempo todo mundo que trabalhava na rede achava que isso era interdisciplinar, né? E:::
eu ainda fico nessa dúvida ((risos do entrevistado)) tenho que te confessar isso, né?” [P21]
Observa-se que, mesmo tendo dúvidas, P21 desenvolvia seus projetos em sala de aula. Por outro lado, para ele tais projetos eram interdisciplinares, já que tentava abordar todos os conteúdos sobre o tema trabalhado. Ideia semelhante foi apresentada, por exemplo, por P11. Entretanto, o momento mais crítico da fala de P21 é quando avalia que: “[...] eu achava que isso era até muito tempo todo mundo que trabalhava na rede achava que isso era interdisciplinar, né? [...]”. Essa frase demonstra que a ausência de uma compreensão epistemológica sobre o conceito de Interdisciplinaridade interfere, de forma significativa, na prática docente em sala de aula. Desse modo, há professores que estão implementando projetos interdisciplinares equivocados.
Pode-se observar isso, por exemplo, no argumento de P27:
“Éh:::Então na escola nos estamos com vários desafios, vários projetos interdisciplinares. Na escola a gente trabalha com projetos. [...] Então eu creio que esse conceito de
175 Interdisciplinaridade éh::: esse eu achei interessante por que a gente pensa simplesmente que é pegar três disciplinas e trabalhar paralelo né? E não é isso. Éh:: eu vi que tem....vou dar um exemplo: É o ciclo da água. A gente tá trabalhando o ciclo da água. O professor de Química, de Física e Geografia, né? Então. Éh::: o de Química vai...ele vai tá trabalhando sobre a química da água, os processos de eva/...evaporação, transpiração e tal; física vai explicar sobre as mudanças do estado da água; e eu, no caso de geografia, éh mostrar o clima local, éh como se forma as chuvas. Então é tentar fazer um trabalho assim, éh vamos dizer em conjunto. Entendeu?” [P27]
P27 afirma que, para o corpo docente da sua escola, o projeto desenvolvido por eles é tido como interdisciplinar, no entanto, observa-se que é uma ação multidisciplinar. Desse modo, a fala exemplifica e evidencia que dentro do contexto escolar ainda persistem os equívocos conceituais e práticos relacionados à multidisciplinaridade e à Interdisciplinaridade.
Entretanto, mesmo diante desse cenário, verificamos na entrevista que P1 foi um dos docentes que conseguiu, após o término do curso, desenvolver um trabalho interdisciplinar que dialoga com a proposta da IIR. A fala a seguir retrata uma atividade, sobre sistema de medida, que esse docente desenvolveu com seus alunos. Para tanto, ele fez uso de uma:
“[...] estória em quadrinhos...uma história literatura infantil que fala da girafa e do mede- palmo e aí....mede-palmo que é um bichinho um inseto lá..que..que anda se arrastando e medindo um palmo e tal. E aí, eu trabalhei todos os conceitos de medidas com eles: de centímetro, de metro, de tudo a partir disso aí[...].”[P1]
Desse modo, a ação interdisciplinar se deu da seguinte forma:
“[...] na história... a história era assim: tinha que salvar a Girafa, que a Girafa ficou enroscada num galho. E aí os animais...
esse mede-palmo foi chamando os animais. Foi um subindo em cima do outro pra conseguir tirar... laçar lá... a girafa com teia de aranha, que a aranha fez lá para puxar a girafa do lugar. Então aí eles tiveram que, por exemplo, eu trabalhei com eles a questão da ordem, quem que subiu. Depois "- Quanto será que media cada animal”? e aí eles...português foi feita a interpretação. E aí eles tinham uma ordem que eles subiam.
[....] Eles tinham que voltar na história para ver qual que era a ordem dos animais. Depois “- Quanto será que media cada animal? Quanto que media a girrafa? Quanto que media cada animal”? [...]. Ah!!! Eles ficaram mais... bem mais curiosos, por que dai eles tinham que resolver o problema. Como é que ia resolver? Como que ia registrar o Palmo? Que eles tinham medida da mesa, da cama deles. Do que eles mediam em
176 casa. Depois vinham..depois mediam com a fita métrica, comparavam o que eles tinham medido.” [P1]
A partir do exposto é possível perceber que P1 fez o uso de diferentes estratégias para trabalhar o conteúdo de Sistemas de Medidas. Segundo sua fala, ele utilizou a literatura infantil para realizar a Problematização, expôs para os alunos a situação problema, sistematizou os conceitos trabalhados e possibilitou aos alunos utilizarem saberes de diferentes disciplinas para resolver o problema proposto. Para essa atividade, P1 não contou com a colaboração de outros colegas, ou seja, desenvolveu o trabalho sozinho. Desse modo, esse fato corrobora com o que afirmamos anteriormente, durante a análise da fala de P11, sobre a possibilidade do professor realizar um projeto interdisciplinar sozinho.