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CAPÍTULO I – O CONTEXTO HISTÓRICO CULTURAL DA IGREJA DE RONDÔNIA

5. A escolha do locus portovelhense para a pesquisa de campo

5.4 Conclusão de uma eclesialidade Entrelaçamentos de poderes e conquistas

Num lugar de invasões, posses e repressões como é o caso da Amazônia, a história das mulheres merece muito mais estudo, pois como não podiam ser diferentes elas são marcadas como a terra e as florestas, ou seja, pelas conquistas.

50 Arquidiocese de Porto Velho. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. s/d, p.26-29. 51 Diocese de Ji-Paraná. 2003, p.25.

52 Ibidem, p. 15.

53 Os mapas do CERIS - Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais confirmam que a relação número de habitantes por presbítero no Brasil estão nas paróquias mais populosas dos regionais Norte e Nordeste, ou seja, há carência de padres nestas regiões. Eles estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste com números que variam entre 1513 a mais de 3710. A mesma tendência pode ser constatada na distribuição das religiosas no Brasil. Regionais como o Norte 1, Noroeste e Nordeste 4 apresentam um número de religiosas que varia de 373 a, no máximo, 480. Já nos regionais que compõem a região Sul e Sudeste do Brasil o número mínimo de irmãs é de 1543, chegando a mais de 6.000. O regional Nordeste 5 apresenta a maior carência de irmãs, onde há 9.914 habitantes para cada religiosa. Por fim, comparando-se a distribuição dos padres de acordo com o tipo de vinculação (diocesano ou de ordem religiosa) constata-se que os presbíteros diocesanos são em número menor, mas estão melhor distribuídos entre os regionais, embora mais concentrados no Nordeste, Centro- Oeste, Sudeste e Sul. Já os presbíteros provenientes de congregações e ordens religiosas - chamados presbíteros dos institutos - estão basicamente concentrados nas regiões Sudeste e Sul. Apenas o regional Sul 1 apresenta neste universo, mais de 1000 padres dos institutos religiosos, o que corresponde a mais de 20% do contingente total de presbíteros dos institutos no Brasil.

À medida que surge o fascínio de conquistar a terra, também existe a sedução por suas mulheres e, ela aparece de forma velada ou explicita, seja nas comunidades ribeirinhas ou nos “investimentos clandestinos”. As mulheres sempre são as responsáveis diretas pela organização das famílias, tendo, em grande parte da população, mais responsabilidades que os homens, seja no trabalho doméstico ou profissional. E são elas as primeiras a sentirem os efeitos perniciosos ou preconceituosos levados pelas doutrinas religiosas.

Na Igreja de Porto Velho, como em quase todas as demais igrejas da região, se nota uma presença significativa de mulheres sob o comando de homens. Até em pastorais tradicionalmente constituídas por presenças femininas, como é o caso da Pastoral da Criança, os trabalhos são coordenados por um homem. E por que as mulheres se submeteriam a esse exercício de governo? Talvez seja exatamente como estratégia política para garantir a presença deles também nesses espaços, ou seja, nas pastorais aonde elas são maioria.

Concluindo este breve espaço reservado às mulheres, queremos registrar a afirmação do teólogo ALTEMEYER54: “A Igreja primitiva era animada e não comandada”. Ele elaborou essa frase após a comemoração do Dia Internacional das Mulheres e de terem questionado sobre o papel de subordinação das mulheres sob o poder dos homens nas instituições religiosas. Ele se reportava dizendo que o cristianismo deveria resgatar a dimensão feminina da Igreja cristã primitiva, perdida na história. E como ele, nós pensamos que a Igreja rondoniense tem muito a dizer sobre as mulheres, pois são elas que ajudam a definir o perfil da sua eclesiologia. Cremos que para ela se torna apropriada a expressão de “ekklesia de

mulheres” utilizada na teologia bíblica por SCHUSSLER-FIORENZA. Ela diz:

é preciso dar nome a uma nova realidade política que significa uma assembléia democrática para tomada de decisões, dos cidadãos livres. Objetiva criar uma visão e uma realidade alternativa de Igreja, que não seja a patriarcal. Ela não situa esta visão e esta realidade às margens da Igreja patriarcal, mas no centro desta. Como a hera, busca envolver as ervas daninhas patriarcais e eclesiais, substituindo-as uma a uma por uma práxis diferente. (SCHUSSLER-FIORENZA, 1995).

Portanto, na práxis católica fica evidente a necessidade de reconstruções dos trabalhos das mulheres, pois questões relativas a elas devem ser discutidas com urgência e, debatidas, poderão ser transformadas e configurar uma nova eclesialidade. Esta não deverá buscar sua identificação apenas nos grupos feministas dos movimentos bíblicos, mas se tornará plausível na medida em que, efetivamente, as mais diversas lutas por transformações eclesiais desejem e lutem por acabar com as relações patriarcais de exclusão, dominação e injustiças. Deverá ser

54 Prof. Fernando Altemeyer da PUC - S.Paulo, em entrevista ao Jornal A Folha de S.Paulo, do dia 09/03/2006, no caderno em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

uma atitude multivariada, política, articulada e conjunta para reunir poderes e “não poderes”, ou seja, os poderes legitimados e enfraquecidos. SCHUSSLER-FIORENZA afirma que numa

ekklesia de mulheres se deve:

reunir os “poderes dispersos dos mais fracos” na luta pela libertação. Estes poderes corporificam-se em diferentes estratégias feministas: em estar em casa, em suas raízes, na liderança eclesial, nos trabalhos intelectuais, teológicos e espirituais, no poder ritual de dar nome ao divino em imagem de mulher, no poder de interpretação, reconstrução, tomada de decisão e transformação. (SCHUSSLER-FIORENZA, 1995).

Nesse sentido, apesar de termos sentido avanços nas relações institucionais nas últimas décadas, há a necessidade de impedirmos que seduções de cunhos patriarcais venham a proliferar ainda mais nas estruturas que, depois de legitimadas pelas hierarquias, se tornem complexas e difíceis de serem revertidas. Isso dificultará novas respostas às perguntas da modernidade, entre elas as relativas às posturas hierárquico-eclesiásticas, nos seus dogmatismos e autoritarismos decisórios. Com novas impostações eclesiais, as mulheres poderão encontrar respostas inovadoras às suas atividades e isso não deverá acontecer apenas na Igreja da Amazônia, mas em todo um contexto de Igreja Católica que pede novos cenários, solicita novas teorias, carece de inovações e clama condutas geradoras de novos poderes. Ao final deste capítulo ousamos dizer que é através da atuação delas nas comunidades brasileiras, marcadas por exclusões, opressões, indiferenças e injustiças que se constata o poder da sua coragem e da sua persistência. E é nesse poder, estabelecido num mesmo Espírito em muitos e diferentes trabalhos, que sobrevivemos nas comunidades, resistimos às desumanizações e lutamos pelas transformações.

CAPÍTULO II - A IGREJA PORTOVELHENSE NA PESQUISA DE CAMPO55