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CAPÍTULO I – O CONTEXTO HISTÓRICO CULTURAL DA IGREJA DE RONDÔNIA

2.1 Breves aportes conjunturais e histórico-político-religiosos

2.1.1 O “poder” da nova cara do agro-negócio

Da parte do governo e das elites, começou, recentemente, a ser pensado, e com 35 anos de atraso, um Plano Amazônia Sustentável (PAS), o qual visa um futuro sustentável para a Região, ampliando a presença do Estado, garantindo a aplicação da legislação, fazendo o ordenamento fundiário e organizando os investimentos em infra-estrutura. E para pensar o poder do agro-negócio nessa região, alguns pontos importantes devem ser notados: primeiro, porque parece atender ao programa do Consenso de Washington22 e não um projeto de nação (61% do território brasileiro); segundo, esse plano é pensado pelo olhar do agro-negócio, de uma burguesia financeira, e não das comunidades ribeirinhas que ali vivem, ou mesmo dos índios das aldeias; terceiro, a idéia de sustentabilidade não tem nada a ver com a idéia de convivência com os recursos renováveis, mas com o lucro obtido destes recursos num projeto

índios, ribeirinhos e pequenos agricultores. As unidades de conservação de uso direto e indireto, e as reservas indígenas, criadas ao longo do projeto e que ocupam 50% da área do Estado, hoje estão sendo invadidas por madeireiros, garimpeiros, pecuaristas e agricultores. O zoneamento econômico e ecológico, embora estabelecido em lei, é desconhecido pela população, impossibilitando que seja colocado em prática.

21 Caderno da Edição no.1234 de agosto de 2005.

22 John Williamson criou a expressão "Consenso de Washington", em 1990, originalmente para significar: o mínimo

denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989. As dez regras básicas são: disciplina fiscal; Redução dos gastos públicos; Reforma tributária; Juros de mercado;

Câmbio de mercado; Abertura comercial; Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições; Privatização das estatais; Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas); Direito à propriedade. Wikipédia, acesso em 05/11/2007

e num modelo de economia vantajosa para alguns; quarto, o próprio governo incentiva o PAS, mas tanto o Ministério da Agricultura, o Ministério das Minas e Energia e o Ministério da Integração não encaminham projetos da Amazônia, e quando o fazem são à revelia dos debates feitos com a população, principalmente com as comunidades ribeirinhas23.

Nos últimos anos, se sabe que o governo liberou, sem consultas públicas, trinta e dois bilhões de reais para investimentos na Região, a fim de atender interesses externos à mesma (subsídios para o agro-negócio, grandes hidrelétricas e pavimentação de estradas). Há informações em jornais locais que muitas atividades são desprovidas até mesmo de licença ambiental. Ao lado disso soma-se, ainda, o Gasoduto Urucu-Porto Velho e o desenvolvimento assustador das grandes hidrelétricas do Rio Madeira-Mamoré. Mas, quais seriam esses desenvolvimentos e investimentos? São para abrigar as pessoas que para lá se deslocam a fim de construir as hidrelétricas. São surpreendentes os ritmos da devastação das terras a fim de atender em tempos recordes as empresas da construção civil.

Por outro lado, nos últimos quatro anos, os informativos da Comissão Pastoral da Terra24 – CPT – comunicam que foram assassinadas, em média, 150 pessoas em conflitos de terra. Diante desses dados, pode-se perguntar: o que mais na região, precisaria de investimentos, além da construção civil e do emprego? Estes investimentos vão melhorar a qualidade de vida da população? Na última década, conforme estatísticas da CNA, o rebanho bovino da Amazônia Legal, teve um crescimento de 194%, atingindo, hoje, cerca de 65 milhões de animais. No mesmo período, a área de produção de soja cresceu 145% e ocupou cerca de 10,8 milhões de hectares25.

O poder público tem priorizado projetos que ainda fazem da Amazônia um produtor de riquezas para “exportação”, tanto para fora da região como para fora do país. Mas, isso parece não contribuir efetivamente com a geração de riquezas locais, como o desenvolvimento regional. Exemplo disso são a agropecuária, a mineração e a produção de energia, o ponto forte da economia da Amazônia. Pouco se nota de benefícios nas economias locais, carentes de infra-estrutura básica, como saneamento, saúde, educação, moradia e outras carências. Perspectivas essas que a pastoral da Igreja católica e, principalmente a grande parte de mulheres, tem tentado trabalhar, mas nem sempre com sucesso.

23 Dados levantados conforme pesquisa nos cadernos de Agropecuária do Jornal Rondônia Agora e dos boletins da Prefeitura Municipal de Porto Velho.

24 Os informativos sobre as questões sociais que afligem a Igreja do local encontram–se disponíveis nos arquivos da CPT, na Cúria da Arquidiocese de Porto Velho-RO. As cópias desses informes se encontram com a autora.

Hoje, se nota praticamente consumada, a pavimentação da Rodovia Cuiabá-Santarém (BR 163), e está prevista para iniciar a pavimentação da BR 319, que liga Porto Velho a Manaus. A finalidade seria transformá-la em dois grandes bolsões de produção de soja, de um lado e de outro dessas rodovias. Por enquanto, os transportes são feitos por meio das embarcações, muitas vezes gigantescos e precários, nas navegações do Rio Madeira. Não se trata somente do impacto ambiental, mas, também, das conseqüências sobre as populações ribeirinhas e indígenas da região. Elas esperam que o Estado promova a colonização desse espaço sem qualquer infra-estrutura, para poder garantir dessa forma, a mão-de-obra para madeireiros e agro-negociantes. A Igreja local tenta interferir nessas negociações, mas sofre muitas represálias e perseguições. Há muitas mulheres das pastorais sociais nesse trabalho, mas nem sempre conseguem atingir seus objetivos.

Para compor melhor ainda o cenário portovelhense, entraria aqui a questão dos crimes de biopirataria, o da exploração da biodiversidade, que são riquezas naturais, sistematicamente depredadas por empresas internacionais. Não apenas a Igreja Católica, mas muitas outras denominações cristãs locais, muitas vezes, procuram acompanhar esses empreendimentos.

Alguns dados da região são alarmantes: no Pará, 772 trabalhadores foram mortos nas florestas desde 1971 e só três réus foram julgados, pois há, de forma generalizada, uma conivência dos poderes públicos com o poder do crime organizado na zona rural. A impunidade se constitui numa espécie de “licença para matar” e garante um poder cíclico que também interfere na participação da Igreja. Esta, através das suas pastorais envolvidas pagam um preço caro, com as vidas dos seus agentes26.

Os Estados do Pará e Rondônia despontam como líderes no cenário nacional com relação ao trabalho escravo. Após a morte da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, o governo brasileiro baixou uma série de medidas para proteger comunidades extrativistas e de pequenos agricultores e o mesmo aconteceu com o caso de Xapuri, Eldorado dos Carajás, Unaí, Corumbiara, Anapu27. Mas, iniciativas e atitudes são tomadas somente quando o derramamento de sangue de inocentes é estampado na mídia nacional e internacional. E continuam dizendo que o agro-negócio gera riquezas e é a salvação da Amazônia. Salvação em meio à corrupção? Claro que nesse cenário o povo busca a sua salvação mediante as propostas das igrejas, sejam elas claras e coerentes ou ambíguas e interesseiras.

26 Conforme informações do jornal Rondônia Agora, disponível em edição digitalizada. 27 Idem Caderno Política. No. 2. pp C3, edição de 24/05/2005.