Procurámos, com este capítulo, contribuir para uma melhor compreensão da relação existente entre o desenvolvimento psicossocial do indivíduo (em particular do adulto e do idoso) e o surgimento de acontecimentos desiquilibrantes, de que a perda do cônjuge é um exemplo. Neste contexto, explorámos o fenómeno sob um ponto de vista desenvolvimental, isto é, como um conjunto de tarefas normativas que desafiam os recursos do indivíduo e lhe proporcionam assim a possibilidade de reorganização e de mudança pessoal.
Concluímos que a experiência do luto é entendida, num contexto desenvolvimental:
a) como uma tarefa associada a uma etapa da vida do indivíduo.
Na verdade, Erikson apresenta-nos a perda como algo que faz parte da vida.
A perda do cônjuge sendo algo que, mais tarde ou mais cedo, uma mulher casada poderá ter que enfrentar, apresenta-se como um acontecimento que vai influenciar o momento do desenvolvimento em que o indivíduo se encontra, ou seja, o conflito ou crise cujo equilíbrio ele procura alcançar. Os sentimentos associados ao fenómeno do luto podem, deste modo, precipitar, manter, dificultar ou até ajudar a resolver a crise instalada.
Talvez se possa afirmar que Erikson, ao traduzir o desenvolvimento humano como um processo que se desenrola do
nascimento até à morte, estivesse a descrevê-lo como um sistema cujo equilíbrio pode ser alterado por várias ocorrências normativas ou não normativas. A viuvez, neste sentido, apresenta-se como um acontecimento desiquilibrante, capaz de perturbar o equilíbrio alcançado, num certo momento do Ciclo de Vida, constituindo-se, por isso, como um período de transição.
b) como uma tarefa normativa do próprio Ciclo de Vida
Havighurst propõe que as pessoas progridam, ao longo do Ciclo de Vida, através da realização de tarefas, características de cada período etário como a adolescência, a velhice ou a meia idade. Este autor definiu um total de seis períodos, sendo o período da velhice aquele em que surge a necessidade de realizar a tarefa de saber lidar com a morte do cônjuge. Quando esta situação surge a pessoa confronta-se com a mudança e a aprendizagem de novos papeis. Podemos, portanto, afirmar que, neste sentido, perder o cônjuge é uma transição desenvolvimental.
A proposta desenvolvimental de Havighurst envolve a noção de que a realização de tarefas passa por um processo de aprendizagem. Por exemplo, ao adaptar-se à morte do cônjuge a pessoa viúva terá que aprender e desempenhar novos papeis. A viuvez surge, assim, como uma tarefa normativa cuja realização satisfatória ou não, influenciará o rumo do desenvolvimento, isto é, a concretização de outras tarefas.
c) como uma tarefa que parece envolver uma reestruturação da própria identidade.
Marcia definiu e estudou os estatutos de identidade ao longo da vida adulta, criando um modelo explicativo dos mesmos. Os conceitos de exploração e compromisso representam duas dimensões que caracterizam os diferentes modos que o indivíduo adopta perante a tarefa da identidade. É através dos estatutos de identidade, que
Marcia explica o desenvolvimento da identidade ao longo de cada estádio de desenvolvimento psicossocial, definido por Erikson. Segundo Marcia, um indivíduo vê a sua identidade ser reformulada três vezes após a adolescência. Contudo, perante acontecimentos stressantes, como a perda do cônjuge, esta reformulação pode tornar-se mais frequente. O indivíduo vê, assim, a sua identidade, entretanto formada, ser reestruturada. Adaptar-se à perda surge, deste modo, como uma tarefa reestruturante da identidade.
d) como um conjunto de sentimentos associados à mudança e ao crescimento
Griffin apresenta-nos a perda como algo que deve ser tolerado e que faz parte da nossa existência. Saber lidar com ela e com os sentimentos que lhe estão associados implica mudança e crescimento. Como o luto pressupõe a existência de uma perda, podemos concluir que, ao experienciar este fenómeno, o indivíduo cresce como pessoa reorganizando-se em termos de identidade e de personalidade no sentido da mudança.
e) como um período de transição
Os desafios que se colocam a cada indivíduo não se resumem somente ao período da adolescência, mas prolongam-se ao longo da toda a vida, influenciando o seu crescimento e desenvolvimento. A adaptação à perda surge, pois, como um desafio que parece influenciar o curso desenvolvimental do indivíduo obrigando-o a adoptar novos papeis e adaptar-se a novas situações.
II – PERSPECTIVAS TEÓRICAS SOBRE O LUTO
1.IntroduçãoMuito do que sabemos acerca da perda limita-se ao conhecimento de como as pessoas lidam com a morte do cônjuge ou de um parente próximo (Bonanno, 2001). No entanto, esta literatura esteve confinada, principalmente, à perspectiva psiquiátrica e clínica. Na realidade, tal como documenta Bonanno (2001), os indivíduos que padecem de um enlutamento crónico ou severo, descritos nesta literatura, pareciam apresentar um perfil comum. Estas pessoas possuíam uma relação ambivalente com a pessoa falecida, estavam incapazes de aceitar a perda e de progredir ao longo das suas vidas. Perante estas atitudes, considerava-se estar em presença de um luto patológico:
“Unfortunately, in the absence of a comparable literature on the normal grief experience, bereavement theorists have tended to overgeneralize this chronic or pathological profile to encompass all bereaved individuals”(Bonanno,
2001, p.719).
Ou seja, uma experiência de luto normal adquiriria também um carácter patológico. Contudo, surgiram mudanças com o propósito de se pensar a experiência do luto longe das tendências clínicas. (Bonanno, 2001). Alguns estudiosos propuseram-se desafiar a perspectiva tradicional sobre o luto, (o luto como experiência a trabalhar), ao submetê-la a processos de pesquisa e investigação. Com efeito, Bonanno (2001) refere uma revisão de literatura sobre o luto levada a cabo por Wolfgang e Margaret Stroebe e cujos resultados apontam para a ausência de dados empíricos que suportem a perspectiva tradicional do trabalho de luto. Na sequência desta e de outras investigações, surgiram outras visões e novas
perspectivas com modelos explicativos do processo de luto. A perspectiva tradicional do trabalho de luto deixou, portanto, de constituir a visão dominante deste processo. Parece-nos, pois, pertinente compreender que significado adquire o processo de luto para algumas perspectivas ilustrando como as mesmas entendem e pensam este processo.
Neste capítulo traçaremos o percurso de algumas perspectivas sobre o processo de luto: a perspectiva do luto como uma experiência a trabalhar conduz-nos a uma visão tradicional deste processo, baseada no conceito introduzido por Freud “grief work” (trabalho de luto); a perspectiva seguinte entende, ao contrário da perspectiva anterior, que o indivíduo deve manter os laços com a pessoa falecida reprimindo, ao mesmo tempo, pensamentos e sentimentos negativos causadores de sofrimento; a perspectiva do luto como um trabalho de aceitação assenta no facto de que se deve encontrar um meio termo em relação às perspectivas anteriores. Ou seja, durante o processo de luto deve ser permitido o reconhecimento de emoções e sentimentos tristes, sem que seja preciso evitá-los ou persistir no seu aparecimento; o modelo fásico apresenta-nos a experiência do luto como um processo que se desenrola ao longo de várias etapas. Prosseguimos, depois, com o desenvolvimento da perspectiva do luto como período de transição: neste sentido, o luto surge como o início de um processo de transição de papeis para a mulher enlutada. No ponto seguinte é apresentada a teoria da oscilação, na qual o fenómeno do luto aparece conceptualizado como um processo dinâmico e mais construtivo (Parkes, 2002). Terminamos o capítulo com uma abordagem dos factores de risco para o luto, com o objectivo de compreender a sua importância na determinação de indivíduos que estarão em risco de experienciar um luto complicado.
2. A perspectiva do luto como “uma experiência a