Não obstante as diferenças esboçadas entre a democracia direta experimentada pelas cidades-estado gregas e a democracia indireta dos modernos, viu-se que ambas descendem do mesmo princípio da soberania popular.
Constatou-se, contudo, que a democracia representativa se torna a única solução política viável nos Estados modernos, dadas as dimensões deste e a complexidade dos problemas, que exigem conhecimentos especializados, experiência administrativa e política.
Da essência desta “representação” advêm as eleições, e principalmente o sufrágio por elas consagrado, como instrumentos do exercício da soberania popular, à medida que conferem ao povo a prerrogativa de escolher aqueles que irão exercer o poder em seu nome.
A solução propiciada pelo método representativo, porém, acompanhou a produção de novos e diferentes problemas. Nessa perspectiva, o presente estudo voltou-se menos à questão da estabilidade e sobrevivência dos regimes democráticos e mais ao debate acerca da qualidade dos regimes democráticos instituídos. Isto porque, mesmo com instituições políticas frágeis e uma engenharia política ineficaz, as democracias instaladas sobreviveram e se consolidaram, como em certa data ponderou Churchill, senão como o melhor regime, o melhor dentre todos os outros. O desafio, doravante, parece estar em conferir efetiva concretização ao ideário democrático.
Tendo em vista estas assertivas, discorreu-se sobre os sistemas eleitorais, porquanto constituem mecanismos responsáveis pela técnica jurídica de transformação dos votos dos eleitores em mandatos políticos eletivos. Esta função torna os sistemas eleitorais imprescindíveis à compreensão da representação política e do sistema partidário, e das possibilidades de evolução democrática para formas jurídicas que lhe garantam maior legitimidade e efetividade.
Os sistemas eleitorais foram, então, divididos em duas famílias, a proporcional e a majoritária. Contatou-se que estas, bem como todas as suas vertentes e subsistemas, apresentam algum ponto negativo em sua essência, evidenciado a inexistência de um modelo perfeito. Ainda assim, pôde-se destacar um ponto em que os sistemas proporcionais mostram- se superiores ao escrutínio majoritário: aquele busca a melhor representação matemática entre o número de votos recebidos e o número de cadeiras ocupadas, o que facilita a representação da democracia.
Reveste-se de grande importância no sistema de representação proporcional, conforme se apontou, a fixação em listas dos nomes dos candidatos a cargos políticos, a fim de que o eleitor, quando do sufrágio, possa indicar aquele que dentre os elencados melhor reflete suas aspirações e anseios.
Uma primeira opção encontra seu fundamento na lista fechada, na qual os partidos definem não somente os nomes inseridos nesse arranjo eleitoral, mas, sobretudo, suas respectivas ordens. O eleitor, assim, não vota em candidatos específicos, mas em partido.
A outra alternativa, esta adotada pelo sistema brasileiro, perpassa pelo aco- lhimento da lista aberta, sistema no qual o eleitor pode votar em qualquer dos candidatos arrolados por qualquer partido, permitido também o voto de legenda.
Ultrapassado o estudo dos sistemas eleitorais e partidários em espécie, analisou-se o sistema político brasileiro. As experiências nos mostram que, ao longo desses quase dois séculos de vida independente, passamos por momentos de graves crises e rupturas, inúmeras vezes ensejadoras de reações antidemocráticas. Mas, paralelamente, foi forçoso reconhecer que houve progressos acentuados de natureza política, de que é exemplo a Carta de 1988, que consagra o estado de direito democrático.
Há, contudo, aperfeiçoamentos a serem logrados. Devido aos peculiares facetas do ambiente político nacional, nosso sistema não consegue, com efetividade, resolver todas as questões que emergem da democracia representativa, estando estas relacionadas à governabilidade, às virtudes republicanas ou à própria legitimidade democrática, como se explanou.
Neste contexto, surge a questão da reforma política, cuja discussão tem freqüentado a agenda pública de nossos governantes, praticamente desde a promulgação da Constituição de 1988. Percebeu-se, porém, que nos últimos anos, as críticas se consolidaram, de modo que os políticos brasileiros, até por uma questão de sobrevivência, têm conferido atenção especial ao tema.
Em geral, estas críticas dirigem-se, particularmente, a aspectos do sistema proporcional de lista aberta, vigente entre nós desde 1945. Acusado da maior parte das mazelas de nosso modelo, sugere-se sua substituição pelo sistema de lista fechada, adotado pela maioria das democracias representativas. Tal proposta corporificou-se a partir da recomendação emanada da Comissão Especial de Reforma Política da Câmara dos Deputados, em 2003.
Detendo-se, pois, aos possíveis efeitos advindos da mudança preconizada, pôde-se inferir que várias das críticas e análises voltadas à lista aberta não se sustentam empiricamente
e uma possível mudança para a lista fechada não representaria uma alternativa satisfatória, uma vez que a ausência de accountability personalizado, a tendência à oligarquização partidária e a possibilidade de estimular o sentimento antipartidário superam em demasia os benefícios esperados.
Salientou-se, ainda, que a disciplina e a identidade partidárias, tidas como entraves provocados pela lista aberta, já são, em certa medida, desfrutadas sob as regras atuais. Além disso, indicou-se que outros fatores, como a corrupção, independem do sistema eleitoral em vigor.
Os defeitos e distorções do sistema de lista aberta, também constatados nesta pesquisa, não devem ser negligenciados, pois efetivamente existem (embora em um plano inferior ao normalmente apregoado), mas a mudança desejável não deve passar pela adoção do sistema de lista fechada.
Diante de todo exposto, pode-se afirmar que Brasil vive um processo de amadurecimento com um lado muito positivo, o de que os preceitos democráticos são tidos – ainda que no discurso, por enquanto – como imprescindíveis para a vida em sociedade.
Entendemos que este amadurecimento democrático compreende, também, o processo de conscientização, ou melhor, do voto consciente dos cidadãos. Isto nos leva a concluir que, mais importante do que a mudança da lei, é a mudança de comportamento da opinião pública.
Aperfeiçoar a democracia parece significar construir cidadania, que por seu turno, valendo-se das idéias de Dallari, significa construir novas relações e consciências, revelando algo que não se aprende tão somente por intermédio doutrinário, legal, jurídico, formal, mas com a convivência na vida social e pública.
Este panorama em que se discute a modificação de nosso sistema político, sem embargo do aprofundamento que a temática deve tomar para não se incorrer em novos erros, é por si, enriquecedora, à medida que evidencia o vigor de nossas instituições democráticas, a legitimarem o debate.
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ANEXO A - Projeto de Lei nº 1.210, de 2007.
Dispõe sobre as pesquisas eleitorais, o voto de legenda em listas partidárias preordenadas, a instituição de federações partidárias, o funcionamento parlamentar, a propaganda eleitoral, o financiamento de campanha e as coligações partidárias, alterando a Lei n.º 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral), a Lei n.º 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos Políticos) e a Lei n.º 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei das Eleições).
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º Esta Lei dispõe sobre as pesquisas eleitorais, o voto de legenda em listas partidárias preordenadas, a instituição de federações partidárias, o funcionamento parlamentar, a propaganda eleitoral, o financiamento de campanha e as coligações partidárias, alterando a Lei n.º 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral), a Lei n.º 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos Políticos) e a Lei n.º 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei das Eleições).
Art. 2º Os artigos adiante enumerados da Lei n.º 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral), passam a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 105. (REVOGADO)
...
Art. 107. Determina-se para cada partido ou federação o quociente partidário dividindo-se pelo quociente eleitoral o número de votos válidos dados sob a mesma legenda, desprezada a fração. (NR)
Art. 108. Estarão eleitos tantos candidatos por partido 2 ou federação partidária quantos o respectivo quociente partidário indicar, na ordem em que foram registrados. (NR)
Art. 109. ...
I – dividir-se-á o número de votos válidos atribuídos a cada partido ou federação pelo número de lugares por eles obtidos, mais um, cabendo ao partido ou federação que apresentar a maior média um dos lugares a preencher;
II – ...
Parágrafo único. O preenchimento dos lugares com que cada partido ou federação partidária for contemplado far-se-á segundo a ordem em que seus candidatos forem registrados nas respectivas listas. (NR)
Art. 110. (REVOGADO)
Art. 111. Se nenhum partido ou federação alcançar o quociente eleitoral, proceder-se-á a nova eleição. (NR)
Art. 112. Considerar-se-ão suplentes da representação partidária ou da federação os candidatos não eleitos efetivos das listas respectivas, na ordem em que foram registrados. (NR)”
Art. 3º Fica acrescido, à Lei n.º 9.096, de 19 de setembro de 1995, o art. 11-A, com a seguinte redação:
“Art. 11-A Dois ou mais partidos políticos poderão reunir-se em federação, a qual, após a sua constituição e respectivo registro perante o Tribunal Superior Eleitoral, atuará como se fosse uma única agremiação partidária, inclusive no registro de candidatos e no funcionamento parlamentar, com a garantia da preservação da identidade e da autonomia dos partidos que a integrarem.
§ 1º A federação de partidos políticos deverá atender, no seu conjunto, às exigências do art. 13, obedecidas as seguintes regras para a sua criação:
I – só poderão integrar a federação os partidos com registro definitivo no Tribunal Superior Eleitoral;
II – os partidos reunidos em federação deverão permanecer a ela filiados, no mínimo, por três anos;
III – nenhuma federação poderá ser constituída nos quatro meses anteriores às eleições.
§ 2º O descumprimento do disposto no § 1º deste artigo acarretará ao partido a perda do funcionamento parlamentar.
§ 3º Na hipótese de desligamento de um ou mais partidos, a federação continuará em funcionamento, até a eleição seguinte, desde que nela permaneçam dois ou mais partidos. § 4º O pedido de registro de federação de partidos deverá ser encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral acompanhado dos seguintes documentos:
I – cópia da resolução tomada pela maioria absoluta dos votos dos órgãos de deliberação nacional de cada um dos partidos integrantes da federação;
II – cópia do programa e estatuto comuns da federação constituída; III – ata da eleição do órgão de direção nacional da federação.
§ 5º O estatuto de que trata o inciso II do § 4º deste artigo definirá as regras para composição da lista preordenada da federação para as eleições proporcionais. (NR)”
Art. 4º Os arts. 13, 39, 44 e 45 da Lei n.º 9.096, de 1995, passam a vigorar com as seguintes alterações:
“Art. 13. Tem direito a funcionamento parlamentar, em todas as Casas Legislativas para as quais tenha elegido representante, o partido que, em cada eleição para a Câmara dos Deputados, obtenha o apoio de, no mínimo, dois por cento dos votos apurados nacionalmente, não computados os brancos e nulos, distribuídos em, pelo menos, um terço dos Estados e eleja, pelo menos, um representante em cinco desses Estados. (NR)
...
Art. 39. Ressalvado o disposto no art. 31, o partido político ou federação pode receber doações de pessoas físicas e jurídicas para a constituição de seus fundos, sendo vedado usá- los no financiamento de campanhas eleitorais. (NR)
... Art. 44...
II – na propaganda doutrinária e política, exceto no segundo semestre dos anos em que houver eleição;
III – no alistamento; 4
IV – na criação e manutenção de instituto ou fundação de pesquisa e de doutrinação e educação política, sendo esta aplicação de, no mínimo, vinte por cento do total recebido, dos quais, pelo menos, trinta por cento serão destinados às instâncias partidárias dedicadas ao estímulo e crescimento da participação política feminina.
...
§ 4º É vedada a aplicação de recursos do Fundo Partidário em campanhas eleitorais. (NR) ...
Art. 45. ... ...
IV - promover e difundir a participação política das mulheres, dedicando ao tema, pelo menos, vinte por cento do tempo destinado à propaganda partidária gratuita.
... (NR)”
Art. 5º Os dispositivos adiante enumerados da Lei n.º 9.504, de 1997, passam a vigorar com seguinte redação: “Art. 5º Nas eleições proporcionais, contam-se como válidos apenas os votos dados às legendas partidárias e às de federações. (NR)
Art. 6º Poderão os partidos políticos e as federações partidárias, dentro da mesma