PARTE II – ESTUDO DE CASO
CAPÍTULO 8. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente investigação permitiu-nos, numa primeira fase, conhecer a realidade que atravessam hoje os centros históricos de muitas cidades. Vimos como centros históricos, antes carregados de significado, têm vindo a perder o fascínio que outrora exerciam sobre os seus residentes e visitantes, tornando-se espaços cada vez mais frágeis.
Esses espaços urbanos, entidades complexas, têm sido olhados por diferentes disciplinas isoladamente, no entanto, merecem um olhar multidisciplinar como alguns autores defendem (Ferreira, 2003; Henriques, 2003).
Muitos desses lugares foram afetados negativamente pelo crescimento dos subúrbios, uma tendência do urbanismo do pós-guerra. Assiste-se à descentralização de funções dos centros históricos, nomeadamente da habitação, comércio, animação ou serviços, o que tem influenciado negativamente a atratividade destas áreas. Mas, muitos outros constrangimentos estão na base do seu declínio e dos problemas económicos, ambientais, físicos ou sociais com que se debatem.
Os inquéritos que têm vindo a ser aplicados por algumas entidades locais revelam que estes constrangimentos cujos aspetos mais significativos incidem sobretudo na degradação do património construído e no enfraquecimento comercial, são bem conhecidos pelos intervenientes.
À semelhança de muitas cidades, Chaves enfrenta graves problemas de degradação e envelhecimento, crescimento da periferia e abandono da habitação que todos eles têm provocado a desertificação do seu centro histórico. Mesmo aquelas ruas que de dia constituem as artérias mais vivas, percorridas por residentes e visitantes e por trânsito automóvel, à noite são um autêntico deserto, um museu de comércios.
É evidente a necessidade de se reverter a tendência de declínio dessas áreas através de processos de intervenção urbana em prol do turismo e suportados pelo turismo. Tais processos recebem várias denominações, entre elas, a de requalificação e revitalização urbana.
As políticas de revitalização apresentam-se assim como um importante agente de recuperação de centros históricos. Estes, em especial, possuem as particularidades das cidades tradicionais e, quando devidamente impulsionadas, estão na base do rejuvenescimento de tantos territórios que são hoje apontados como exemplo.
As cidades passam assim a procurar o renascimento dos seus centros, revitalizando áreas centrais decadentes e subutilizadas, nomeadamente através da reutilização do
Capítulo 8 – Conclusões e considerações finais
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património. O que se verifica é a necessidade de um regresso ao centro, que se revela unicamente possível a partir do coração da cidade.
Para revitalizar um património é necessário identificarmo-nos com ele, valorizando-o. O centro histórico de Chaves é atrativo para os seus habitantes, o que lhes encanta são os seus monumentos e edifícios antigos, as varandas, as ruas, o passado histórico da cidade e a Ponte Romana (o chamado ex-libris). No entanto, são inúmeros os aspetos negativos da cidade apontados: estacionamento, estado de conservação dos edifícios, demasiados automóveis, entre outros, que fazem com que a população residente veja o futuro com olhos reticentes.
Sabido é que para que uma urbe se converta em centro de atração turística, é preciso que os seus habitantes a considerem atrativa, isto é, para que uma cidade seja de agrado aos turistas, deve sê-lo primeiro para aqueles que nela habitam (Esteve, 2003). É fundamental criar-se um sentimento de orgulho, de pertença à comunidade, à paisagem urbana. Existe a necessidade de se reconstruir um “nós”.
Por outro lado, para que uma estratégia de revitalização seja desenvolvida é primordial que a área em questão possua recursos que potenciem o seu desenvolvimento, estes devem ser claramente identificados assim como os constrangimentos. O diagnóstico efetivo da realidade é o primeiro passo para reunir esse conhecimento.
É então importante identificar os atributos, recursos naturais e ambientais, potenciadores de valor e que, por isso, devem ser desenvolvidos para sustentar o crescimento da cidade.
Chaves possui inúmeros recursos, entre os quais se destacam o património histórico e cultural, o comércio tradicional e as Termas de Chaves, que são as principais potencialidades que a cidade tem para oferecer ao visitante, e constituem a base da sua atratividade e diferenciação (ver quadro 51).
Tal como um produto, as caraterísticas da cidade são um instrumento para competir e diferenciar-se de outras cidades, com as quais pode estar em competição para atrair clientes, projetando, simultaneamente, a sua imagem e identidade. A identidade está hoje ligada ao potencial do lugar e a imagem constitui o centro da sua atratividade.
As cidades são cada vez mais conhecidas pelas capacidades que afirmam possuir e pelas representações que fazem de si, sendo por isso importante a gestão da imagem, através da qual as cidades revelam as oportunidades que podem oferecer (Alves, 2007:55).
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Quadro 51 – Principais potencialidades do centro histórico de Chaves
Caraterísticas gerais Forte relação entre as ruas e o traçado da cidade;
Masterplan do centro histórico.
Conservação do património construído
Atratividade do património construído;
Obras de requalificação importantes a decorrer; Construção do Museu das Termas;
Existência de edifícios antigos que ainda preservam a traça original.
Diversidade funcional Ainda permanecem diversas funções (comércio, serviços, habitação, serviços
públicos, entre outros);
Principal centro de atração da região;
Elevado nível de concentração de estabelecimentos de restauração e bebidas; Reduzido índice de criminalidade e insegurança;
Grandes empreendimentos empresariais: parque empresarial, plataforma logística e mercado abastecedor;
Predomínio do comércio retalhista.
Mobilidade e acessibilidade Boas acessibilidades para a cidade;
Existência de sistema de transportes urbanos coletivos; Existência de ligação pedonal entre as duas margens do rio.
Comunicação e marketing Nova imagem adotada pelo Município para promover os produtos alimentares típicos
(Pastel de Chaves, folar, entre outros).
Produção cultural Forte presença do passado;
Agenda cultural;
Oferta semanal de eventos culturais diversificados;
Exposições constantes de pintura e escultura na Sala Multiusos e outros espaços públicos;
Eventos marcantes realizados ao longo do ano (Feira dos Sabores de Chaves, Feira do pastel e do folar, Festas da cidade, Feira da castanha, Feira dos Santos).
Turismo Elevada vocação turística;
Nova fase de renovação das Termas, através do Projeto Aquae; 2º lugar no ranking da cura termal a nível nacional;
Vocação das Caldas de Chaves não só para a vertente de saúde, mas também, para a vertente de bem-estar/lazer termal;
Museu das Termas ao ar livre; Candidatura a património mundial.
Elaboração própria
É então de capital importância que a cidade encontre essa identidade, o chamado “espírito do lugar”, o seu “ADN” territorial, isto é, os seus elementos de distinção, que a tornam única, inimitável e reconhecida pelo mercado e a partir dos quais se poderá diferenciar e obter uma vantagem competitiva sustentável.
O principal desafio hoje consiste então em pensar-se um novo modelo de desenvolvimento para o centro histórico, que proporcione ao mesmo tempo qualidade de vida aos habitantes da cidade histórica e a seus visitantes. A revitalização é um elemento do desenvolvimento sustentável dos centros históricos, que preconiza melhorar a qualidade de vida, procurando solucionar os problemas urbanos referentes ao desenvolvimento económico, ambiental, segurança, habitacional, urbanístico, social e cultural.
Contudo, a revitalização urbana não se limita ao objetivo da melhoria da qualidade de vida; é muito mais que isso. Deve ser entendida como instrumento de gestão do território, como uma estratégia.
Os processos de revitalização dos centros históricos devem, por isso, ter em atenção a adoção de estratégias orientadas para o mercado e para a reestruturação da própria imagem.