PARTE I – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
CAPÍTULO 4 – O TURISMO: ESTRATÉGIA DE INTERVENÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO CENTRO HISTÓRICO
4.3. PLANEAMENTO E DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO DO CENTRO HISTÓRICO
O turismo consiste num dos principais vetores de recuperação urbana (Troitiño, 2000). O “turista patrimonial” é equiparado ao viajante romântico da primeira metade do séc. XIX. São visitantes cultos e com um elevado poder aquisitivo, e extremamente sensíveis ao património, aos valores que representa, à sua conservação e recuperação. Por isso deve-se apostar no turismo como um vetor de dinamização urbana em sentido amplo (Vaquero, 2003).
“O turista é um consumidor que consome ‘erres’ (recuperação, reabilitação, re- criação) e cidades ‘históricas’” (Delgado, 2000; De la Calle Vaquero, 2002, cit. Pereiro, 2009:288). O turismo cultural urbano estará então ligado ao urbanismo dos três “r”, traduzido em projetos de revitalização para as áreas mais degradadas da cidade.
O turista urbano-cultural é, segundo Manuel Delgado, “um recurso fundamental do qual depende em grande medida a prosperidade dessas cidades para as quais se trata de atrair, tanto o visitante eventual como o investidor que escolhe esse cenário para investir (…)” (Delgado, 2003:357).
O fenómeno turístico está intimamente relacionado com o desenvolvimento económico a que inúmeras áreas urbanas estão a assistir.
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A aplicação dos princípios do desenvolvimento ao centro histórico subentende, por sua vez, o planeamento e a elaboração de estratégias. O planeamento das áreas centrais das cidades implica o estudo das condições do presente, as perspetivas futuras e a tomada de decisões a partir da informação sobre as diversas variáveis que intervêm no processo turístico, isto é, implica uma estratégia de âmbito local. A estratégia é aqui entendida como o meio de atingir um fim desejado, através do plano estratégico, que consiste num instrumento de gestão, uma espécie de processo metodológico, que estabelece uma visão para o futuro, define um conjunto de objetivos de médio/longo prazo e identifica as ações a empreender para os atingir.
O turismo constitui um pilar importante para a economia de muitas cidades históricas, tendo contribuído para se porem em marcha importantes processos de reabilitação arquitetónica e de recuperação urbana.
Os processos de intervenção urbana para o turismo recebem várias denominações, entre elas, a de requalificação e revitalização urbana. Segundo Paes (2010:14), estes processos evidenciam-se “como mudança formal, funcional e simbólica na produção do espaço urbano” e poderiam ser denominados como “refuncionalização, posto que a maioria destes tem como objetivo a (re)inserção de funções nos espaços eleitos” (cit. Pinheiro & Santos, 2012).
Quadro 10 - Modelo de interação entre regeneração dos centros históricos e turismo
Regeneração dos centros históricos Desenvolvimento do turismo cultural
Modelo de Regeneração
Tipo de planeamento escolhido (estatal ou parceria entre o setor público e privado)
Influência da ideologia dominante (intervenções de índole liberal ou de cariz social)
Modelo de regeneração seguido (liderado pela reposição da imagem, pela cultura ou pelo turismo)
Modelo de desenvolvimento do turismo Tipo de planeamento turístico (centrado no estado ou em
parcerias)
Influência da ideologia dominante (intervencionismo, papel facilitador, não intervencionista)
Importância atribuída aos recursos culturais urbanos. Conhecimento dos novos modelos de procura turística Processo de regeneração do centro histórico
Relação entre a reposição da diversidade funcional e da preservação da identidade local
Intervenções para diversificar a função residencial Normas de preservação e salvaguarda do património do
centro histórico
Tipo de interpretação do centro histórico adotado Normas de gestão do trânsito
Processo de desenvolvimento do produto turístico cultural Regras de transformação do património em atração turística
Desenvolvimento do complexo ACE (Artes, Cultura e Entretenimento) e sua função como atração turística Conhecimento do modo de formação dos “clusters” turísticos
(atrações e outros serviços)
Conhecimentos da forma como os turistas gerem os seus orçamentos temporais de visita
(“tourists time budgets”) Processo de formação dos bairros culturais em centros
históricos
Objetivos da política comum europeia para a cultura, para o turismo e para o desenvolvimento regional Objetivos da política regional e local para a cultura, para o
turismo e para o desenvolvimento regional Objetivos da criação do bairro cultural (vocacionado para a
cultura ou para o turismo)
Modelo de planeamento e gestão do bairro cultural
Gestão de fluxos turísticos no centro histórico Intervenções ao nível do volume Intervenções ao nível dos impactos
Regulação da frequência
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O quadro que supra mencionado evidencia claramente a interação existente entre centros históricos e turismo.
A intervenção no turismo urbano deverá “assentar não apenas no planeamento e gestão do turismo mas mais contextualizadamente no planeamento e gestão da cidade” (Henriques, 2003:205). Cabe, no entanto, referir que o planeamento aplicado ao turismo raramente está dedicado única e exclusivamente ao turismo; pelo contrário, o planeamento turístico envolve todo um conjunto de “considerações económicas, sociais e ambientais que refletem a diversidade de fatores que influenciam o desenvolvimento do setor” (Henriques, 2003:205) nas cidades.
Na opinião de Miguel Angel Troitiño (2003) para darmos uma resposta adequada, é preciso que as nossas cidades históricas estejam bem organizadas em termos urbanísticos, meio ambiente, oferta cultural, rotas e itinerários pedonais e equipamentos e infraestruturas turísticas.
A revitalização urbana não se limita ao objetivo da melhoria da qualidade de vida e do espaço urbano local, é muito mais que isso, uma vez que grande parte dos projetos de revitalização apresentam-se também como um dos instrumentos inseridos no planeamento urbano para concretizar políticas como o marketing de cidade e o planeamento estratégico.
No caso do planeamento e gestão do turismo urbano, a estratégia visa essencialmente atingir três grandes objetivos:
“Assegurar a conservação dos recursos turísticos com valor;
Melhorar as experiências dos visitantes que interagem com os recursos turísticos;
Maximizar os retornos económicos, sociais e ambientais a ser usufruídos pelos agentes da comunidade anfitriã” (Hall & MacArthur, 1998, cit. Henriques, 2003:233). Aplicado ao turismo, o planeamento ocorre sob uma variedade de formas (“desenvolvimento, infraestruturas, uso do solo e dos recursos, organização, recursos humanos, promoção e marketing”), sistemas ou estruturas (“diferentes governos, organizações quase e não governamentais”), dimensões ou escalas (“internacional, transnacional, regional, local e de lugar”) e em diferentes períodos ou tempos (“para desenvolvimento, implementação, avaliação e o atingir satisfatório dos objetivos de planeamento”) (Hall, 2000; Page & Hall, 2003, cit. Henriques, 2003:207).
Somente através da planificação turística é possível gerir um modelo de desenvolvimento turístico que implique todos os setores turísticos tanto privados como públicos. Neste sentido, no entender de Castrillo (2003:177) “as administrações públicas devem assumir uma função de liderança, seja a nível local ou regional, para a planificação
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do desenvolvimento turístico com participação de todos os setores da sociedade e na procura de se alcançar objetivos de sustentabilidade”.
Este novo modelo de desenvolvimento turístico deve garantir a eficiência do setor em termos económicos e preservar a identidade da sociedade sobre a que se fundamenta, gerindo a boa gestão dos recursos em proveito da geração futura.
Tudo isto conduz à necessidade de considerar de forma integrada e a longo prazo a evolução do turismo nas cidades históricas, e de introduzir uma gestão orientada a aproveitar as suas possibilidades e a minimizar os impactos não desejáveis. Dita gestão, com objetivos distintos em cada fase do desenvolvimento turístico, implica medidas orientadas a incidir sobre a oferta e/ou sobre a procura. Em fases iniciais dominarão atuações orientadas a valorizar a oferta e a atrair a procura. Em fases “maduras” podem ter importância as ações orientadas para a qualificação, inovação, racionalização, diversificação e compatibilização, evitando qualquer tendência a ultrapassar certos limites. Em fase de declínio é preciso abordar medidas orientadas principalmente a recuperar um equilíbrio compatível com os limites (Palazuelo, 2003).
Figura 14 - Princípios e valores do turismo sustentável
Fonte: Henriques, 2003:225 Metas sociais
Benefícios para a comunidade Participação Planeamento Educação Saúde Emprego Satisfação do visitante Equidade e conservação Metas económicas
Benefícios económicos para residentes locais e outros agentes Indústria viável economicamente Empresas viáveis economicamente
Integração económico ambiental Valores da comunidade assentes na economia Turismo sustentável Manutenção ou expansão da biodiversidade
Benefícios provenientes dos recursos Degradação mínima dos recursos Aceitação dos valores dos recursos Delimitação da procura e oferta Design adaptativo
Equidade intergeracional Metas ambientais
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Em Espanha, diz o citado autor, destacam-se algumas cidades que, como Santiago de Compostela, Gerona e Salamanca, desenvolveram ideias e propostas interessantes em torno da incorporação da temática turística como eixo do desenvolvimento urbano, pondo em prática uma gestão integrada.
Torna-se assim necessário, segundo Palazuelo (2003:423) orientar o produto “cidade histórica” para que se maximizem os seguintes fatores: “sustentabilidade e a duração da estância dos visitantes; um bom equilíbrio dos fluxos turístico-patrimoniais, culturais, meio urbano e entorno local”.
De acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável o planeamento e gestão dos espaços turísticos deve resultar de uma parceria público/privada. “A gestão participada, enquanto co-responsabilização dos atores locais para o desenvolvimento sustentável, assume-se como um fator de sucesso nas políticas locais de desenvolvimento sustentável” (Henriques, 2003:224). As autoridades locais devem, assim, implicar os seus habitantes e os agentes socioeconómicos nos diversos domínios da gestão local.
O desenvolvimento turístico no contexto da sustentabilidade deve estar integrado num processo de planeamento mais abrangente, envolvendo metas/objetivos económicos, sociais e ambientais (ver figura 14).
A adoção de um modelo de desenvolvimento do turismo sustentável deve pressupor, na aceção de Donaire (1998), seis princípios básicos, nomeadamente, planeamento, integração, abertura, participação, durabilidade e viabilidade:
Turismo planeado na medida em que implica o estudo detalhado das condições do presente, as perspetivas futuras e a tomada de decisões;
Turismo integrado, uma vez que a oferta turística deve ser o resultado dos recursos locais;
Turismo aberto na medida em que o turismo sustentável é essencialmente uma estratégia de âmbito local;
Turismo dimensionado no tempo e no espaço. A dimensão temporal implica a redução da sazonalidade. A dimensão espacial implica determinar a capacidade de carga do território e limitar a afluência de turistas às caraterísticas físicas do espaço;
Turismo participativo, pois exige a participação de todos os agentes que intervêm no processo turístico;
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Turismo duradouro. O turismo não pretende apenas assentar no crescimento de curto prazo da procura, mas também nos efeitos de médio e longo prazo derivados do modelo turístico adotado. O turismo sustentável procura integrar o crescimento económico com a preservação do meio ambiente e a identidade local, que são os princípios ativos do desenvolvimento turístico.
Este novo modelo de desenvolvimento para as cidades, que deve reger-se por critérios de sustentabilidade, deverá implicar a cidade como um todo. As políticas públicas deverão ser geridas com qualidade e ser capazes de articular a cooperação de todos os atores implicados, de forma a atingir uma participação ativa e responsável por parte dos cidadãos. As cidades veem-se obrigadas a definir uma estratégia de qualificação dos seus recursos humanos, de infraestruturas de serviços, para adquirir a singularidade e notoriedade suficientes nos diferentes subsistemas de cidades às quais pertencem ou se inscrevem, alcançando a suficiente competitividade e capacidade de projeção para atrair novos fluxos e/ou aumentar a sua capacidade de direção ou organização dos mesmos (Esteve, 2003:183).
Esteve (2003) faz referência a uma série de fatores que, em sua opinião, determinam o desenvolvimento económico:
Formação de recursos humanos;
Investigação e desenvolvimento tecnológico;
Infraestruturas de acessibilidade externa: telecomunicações; estradas; porto; aeroporto; caminhos-de-ferro; etc.;
Infraestruturas de mobilidade interna: circulação; transportes públicos e privados; estacionamento;
Indústria,
Produção;
Comércio e distribuição;
Turismo;
Ordenamento do território, etc.
Em resumo, estamos perante um novo desafio, o de adequar as cidades históricas à função turística, integrando-a harmoniosamente para que se converta em aliada da recuperação urbana. O desenvolvimento turístico nas cidades sustentáveis deveria ser não somente um desejo, senão uma estratégia explícita, necessária para tornar o turismo um marco de compatibilidade com o património, com o meio ambiente, com a sociedade e, também, com a economia (Troitiño, 1998).
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As estratégias turísticas devem integrar-se no conjunto das políticas urbanas, criando condições que permitam compatibilizar a curto e médio prazo a preservação do património cultural e a sua rentabilização económica. A união entre património e turismo permite pensar as cidades monumentais desde um ponto de vista estratégico (Troitiño, 2003).