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PARTE 4 – ESTUDO LOCALIZADO DO ABANDONO ESCOLAR PRECOCE

4. Conclusões

“Abandonar precocemente a escola com um baixo nível de instrução tem vindo a constituir, cada vez mais, um potencial factor de vulnerabilidade a situações de precariedade económica”. (Detry e Cardoso, 1996, p. 30)

A terciarização que marca as sociedades actuais desde há algumas décadas tem também sido importante em concelhos tradicionalmente agrícolas como Beja. Esta situação apela ao aumento da escolarização dos trabalhadores, o que se tem reflectido no desemprego de pessoas com baixas qualificações escolares e a sua inserção no mercado de trabalho apenas com ocupações sazonais em alguns trabalhos agrícolas ou outros pouco qualificados.

No Alentejo registam-se valores de abandono escolar precoce próximos da média nacional, mas existem valores elevados de repetências. O abandono escolar não apresenta valores elevados (registam-se, inclusive, alguns bons resultados, com valores que chegam a 0) mas só não é maior, nesta região como noutras, porque não há saídas ao nível do mercado de emprego e o prolongamento da escolarização (mesmo ao nível do ensino secundário) é apenas uma forma de adiar o desemprego iminente.

Existem diferenças nos dados apresentados, mesmo entre os dados das escolas e os da DREA, o que comprova a inexactidão dos dados que se obtêm ao nível nacional. Por outro lado, a falta de informações das escolas sobre os casos individuais estende-se também ao próprio fenómeno do abandono escolar precoce, que não é estudado; talvez por se tratar de uma percentagem pequena dentro do universo escolar e porque os órgãos de gestão estão sobrecarregados com demasiadas funções/actividades e acções de gestão. Provavelmente também por estes motivos é difícil, na prática, os dirigentes das escolas e professores conjugarem esforços com outros profissionais (psicólogos, assistentes sociais, animadores que já estão em algumas escolas, integrados em serviços ou em equipas) para prevenir e, sobretudo, combater o abandono escolar. Isto porque se ao nível da prevenção todos estes profissionais podem ter uma palavra a dizer e mesmo alguma actuação profícua a desenrolar, o combate a casos efectivos de abandono escolar é mesmo impossível porque não há trabalho de equipa entre as entidades exteriores que acompanham os alunos que abandonam (quando esse acompanhamento existe, o que nem sempre acontece ou porque nem todos os casos são comunicados ou por falta de meios dessas entidades) e a própria escola que acolheu os alunos ou os seus professores.

A escola perde o rasto dos alunos e não sabe de que forma ou quando acontece a sua inserção na vida activa. Falta orientação e formação profissional nas escolas. Este dado não só aparece em muitos dos estudos consultados, como é opinião da maior parte das pessoas contactadas ao longo da realização desta investigação.

A falta de contacto com os encarregados de educação dos alunos que abandonam a escola demonstra a necessidade de existirem estruturas e técnicos nas escolas que possam ir ao seu encontro e promover a necessária ligação entre a família e a escola: “esta aproximação é fundamental. Os técnicos de serviço social podiam desenvolver aqui um papel muito importante (…) os professores não são preparados para enfrentar muitos destes problemas” (Ferrão e Honório, 2000, p. 173 e 174) – este facto fica comprovado com o sucesso do gabinete que já funcionou numa das escolas de um dos agrupamentos de escolas de Beja e que resultou mesmo no quase total desaparecimento do fenómeno do abandono escolar, como foi mencionado. Contudo, mesmo entre estas entidades que funcionam no espaço escolar e as escolas parece haver alguma falta de conjugação de esforços para enfrentar o problema do

abandono escolar de forma sistematizada. Seria também necessário conjugarem esforços para analisar com muita atenção o insucesso escolar, uma vez que o abandono escolar se está a transformar nele - quando nos dizem que o CFP está cheio de casos de abandono escolar é de insucesso que se está a falar (o professor Stephen Stoer fala a este propósito duma institucionalização do abandono escolar, numa palestra efectuado aquando de um seminário sobre Abandono Escolar realizado em Albufeira em Fevereiro de 2005).

A desmotivação dos jovens pela escola parece estender-se à sua própria vida, pois muitos não têm projectos futuros nem se interessam por nenhuma actividade em particular. Ao contrário do que é apresentado noutros estudos (Carvalho, 1998), a dimensão do trabalho não parece assumir em Beja uma posição de relevo, parece antes ter o lugar assegurado quando não há mais nada para fazer e a rede de contactos sociais para aí converge; pelo contrário, casos há em que o contexto envolvente de desemprego e desinteresse familiar desemboca numa vida sem “fazer nada”, que se vai prolongando até tocar a inércia ou a marginalidade.

Contudo, como em alguns dos estudos realizados49 já se concluiu (Carvalho, 1998; Stoer e Araújo, 2000) a escola converteu-se numa “agência de credencialização” (Stoer e Araújo, 2000, p. 81) que serve apenas para fazer uma transição mais fácil para o mundo do trabalho.

“A aprendizagem para o trabalho no Portugal semirural parece significar, sobretudo, aprender a sobreviver numa economia clandestina ou aprender a viver com a frustração de um sonho nunca realizado. A igualdade de oportunidades de sucesso parece ser, mais do que nunca, ou uma referência nostálgica à década de 70 ou um slogan cujo objectivo é canalizar, muito cedo, alguns jovens (ainda que sem sucesso) para uma estrutura ocupacional legalizada. Para tornar a escola democrática uma realidade em Portugal será necessário reviver o princípio de igualdade de oportunidades, situando a escola tanto no seu contexto nacional como mundial”. (Stoer e Araújo, 2000, p. 98)

49

A maior parte destes estudos foram elaborados tendo como pano de fundo a região Norte do país, que tem uma realidade socioeconómica muito diferente do Alentejo, sobretudo em termos de mercado de trabalho (parecem inclusive haver indícios de que o trabalho infantil está a aumentar no Norte).