6 A PESQUISA-PILOTO: TURMA “EJA-MEMO-1”
6.3 CONCLUSÕES SOBRE A PESQUISA-PILOTO – TURMA “EJA –
Para finalizar a análise de nossa pesquisa na turma “EJA-MEMO-1”, é relevante comentar que, nos textos analisados, observamos uma dinâmica de “deriva” da memória, tendo em vista que a cada nova produção sobre um mesmo tema, os alunos seguiam um percurso diferente para construir seu texto, mesmo se tratando da mesma pessoa e da mesma fase de sua vida. Esse processo pode ser percebido, por exemplo, quando se observa que houve no exemplo da Aluna A, cujos textos tratam de um mesmo tema, mas com abordagens diferentes, uma dinâmica de entrada e saída de personagens que não se entrecruzam nas narrativas, como se não fizessem parte do mesmo enredo. Um exemplo é o caso da personagem “tia”, que aparece no primeiro texto e não aparece no segundo, e do personagem “avô”, que aparece no segundo sem ter aparecido no primeiro. Essa dinâmica própria da memória, nos ajudou a compor as narrativas, o que permite criar diversas possibilidades de registro das lembranças. Ressaltamos que no trabalho com produções escritas de história de vida, suscitar a memória é importante como pré-texto, mas, uma vez que o texto atinja um patamar em que a narrativa esteja satisfatória no relato dos fatos, deve-se buscar trabalhar no texto em si, sob o risco de o objeto do trabalho limitar-se não à língua, mas à memória.
Podemos afirmar que a pesquisa obteve o resultado esperado, que era diagnosticar a situação em que estavam inseridos os sujeitos que pretendíamos pesquisar, tomar conhecimento de suas dificuldades em relação à produção escrita e aplicar medida interventiva, de modo a verificar o que funcionaria e o que não, para aperfeiçoar na pesquisa final. Dessa forma, verificamos o que funcionou e o que precisava ser aperfeiçoado e percebemos – com base em nossas próprias observações e nas contribuições da banca composta para a qualificação – que precisávamos fazer ajustes e planejamos de que forma realizar tais ajustes na próxima pesquisa, já com a outra turma.
Em nossas observações, constatamos que, na turma “EJA-MEMO-1”, as atividades não foram muito precisas, já que foram dados três temas e cada aluno reescreveu sobre um tema diferente. Também não houve um comando específico com base no qual o aluno pudesse observar o que estava sendo proposto a ele. Então, quanto a isso, elaboramos uma única proposta (Vide Anexo A), para a atividade principal de nossa pesquisa, que era a produção de textos inspirados em memórias. Assim, buscamos delimitar bem o que esperávamos dos alunos.
Ponderamos que, nessa primeira turma, não possibilitamos ao aluno a leitura de textos de narrativas inspiradas em histórias de vida. Ao não ler textos que mostrassem, na
prática, o que esperávamos deles, não demos a eles condições de observar como outras pessoas se narram, como registram suas memórias, como se identificam, como fazem ser interessante aquilo que querem contar. Também, dessa forma, “pulamos” uma etapa importante no trabalho de preparação do aluno para o momento da produção do seu próprio texto.
Tentando corrigir essa falha e, ao mesmo tempo, agregar mais conhecimentos à aula, proporcionando aos alunos algo que fora tirado deles, o “direito à literatura”, acrescentamos, ao que nos diz Cândido, o que nos mostrou Petit sobre a influência positiva da leitura de textos literários em contextos de crise. Com essa finalidade, selecionamos textos literários de autores que, inspirados em suas memórias, nos contam sobre suas histórias de vida. Dessa forma, buscávamos devolver ao aluno esse direito, promovendo a leitura de textos literários com fruição e liberdade para pensar e discutir, ampliando não só sua capacidade linguística como também sua habilidade de produção de sentidos. Selecionamos, então, os textos:
“A velha”, do livro 200 Crônicas Escolhidas, de Rubem Braga “Aniversário”, do livro Memórias de menina, de Rachel de Queiroz “Escola Antiga”, do livro Memórias de menina, de Rachel de Queiroz “Lembranças”, do livro 200 Crônicas Escolhidas, de Rubem Braga
“Os doidos”, do livro Tantos Anos, de Rachel de Queiroz e Maria Luiza de Queiroz “Pela Janela”, do livro Nu, de botas, de Antonio Prata
“Promessa em azul e branco”, do livro Aruanda e Banho de cheiro, de Eneida de Moraes “Velas, por quem?”, de Maria Lúcia Medeiros
Capítulo XI, “O menino é o pai do homem”, do livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Excertos do livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus Todos eles podem ser lidos na seção Anexo C.
Também optamos por ensinar de forma mais sistemática a construção do texto narrativo escrito. E, embora narrar seja uma ação desempenhada de maneira natural, consideramos relevante proporcionar aos alunos esse conhecimento, com vistas a ajudá-los a organizar melhor a “matéria bruta” da narração e, consequentemente, se expressar de forma mais organizada e clara por meio da escrita, bem como estruturar melhor seus textos e construir de forma mais detalhada e interessante os fatos e os demais elementos da narrativa. Com esse intuito, elaboramos um material conciso, buscando ser claro e objetivo, tomando como embasamento as considerações feitas por Gancho (2006) e Platão e Fiorin (2006, 2007 e 2016) sobre o texto narrativo. Tais materiais englobam tópicos como: característ icas do texto
narrativo, elementos básicos da narrativa, noções de verossimilhança e conflito, tipos de discurso e organização do enredo. Além disso, nos embasamos em material teórico elaborado e divulgado pela equipe da Olimpíada de Língua Portuguesa para explorar o gênero Memória literária, mesmo não querendo fazer dessa explanação uma definição de características fechadas para as produções textuais dos alunos, já que optamos por trabalhar de forma mais livre com texto narrativo sem especificar um gênero.
Aliado a isso, buscamos em Adam (1992), porém de forma bem mais simplificada, trabalhar com um esquema da sequência narrativa que, esperávamos, pudesse esclarecer e orientar os alunos na construção dos momentos de sua narrativa e com uma curva de tensão que ilustrava esses momentos. Também nos embasamos em Sabarich e Dintel (2014) para mostrar estratégias simples, mas que apostávamos que surtiriam um bom efeito no sentido de melhorar o texto narrativo dos alunos. Com isso, tencionávamos levá-los a aperfeiçoar suas habilidades de contar histórias e mais do que isso: de se narrarem.
Isto esclarecido, partamos para as explicações sobre nosso retorno à escola a fim de desenvolver a nova pesquisa, dessa vez com outra turma, com novos sujeitos, novas histórias de vida, nova resistência e novos desafios.