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DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA: um dos caminhos possíveis

4 LEITURA LITERÁRIA E MEMÓRIA: LER, REFLETIR,

4.1 DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA: um dos caminhos possíveis

Uma vez cruzada a porta e atravessada a fronteira por intermédio da leitura, o sujeito estará do outro lado. Logo, ao se proporcionar a leitura em turmas de EJA, cujos alunos vivem em contextos paradoxais, críticos, se está abrindo não simplesmente uma porta a ser cruzada por eles, mas uma abertura para um outro lugar, onde a fuga para encontrar o devaneio, o pensamento, a lembrança e a imaginação de um futuro tornam-se possíveis. Dessa forma, por

exemplo, “Em contextos violentos, uma parte deles já não é mais feita refém; ela escapa à lei do lugar ou aos conflitos cotidianos. (Petit, 2009, p. 76). Assim, o sujeito poderá encontrar seus desejos, seus medos, regiões que ele mesmo não tenha explorado antes ou não saiba expressar. A esse respeito, Petit (2009) afirma que

Ao longo da vida, procuramos as bolas que nos são lançadas e que nos permitirão discernir melhor o que existe ao redor de nós, e mais ainda o que acontece dentro de nós e não conseguimos exprimir. Precisamos do outro para ‘revelar’ nossas próprias fotografias. (PETIT, 2009, p. 51).

Esse papel pode ser exercido pelos escritores que devolvem às palavras o seu poder de expressar o mais recôndito da experiência humana, carregando de sentidos os textos, que são caracterizados por Petit (2009) como “conservatórios de sentido típicos da sociedade em que vivemos”. Então, num processo dialógico vemos que

Mitos, contos, lendas, poesias, peças de teatro, romances que retratam as paixões humanas, os desejos e os medos ensinam as crianças, aos adolescentes, aos adultos também, não pelo raciocínio, mas por meio de uma decifração inconsciente, que aquilo que os assusta pertence a todos. São tantas as pontes lançadas entre o eu e os outros, tantos os vínculos entre a parte indizível de cada um e a que é mostrada aos outros. (PETIT, 2009, p. 116).

Assim, é contando com a solicitude das palavras de um outro, da forma de articular as ideias de um outro, da visão de mundo de um outro, que cada sujeito se faz perceber naquilo que escreve. Isso ocorre porque, segundo Petit (2009, p. 108), a leitura abre caminho em direção à interioridade, aos territórios dos sentimentos, que acabam por ser divididos com o autor ou com quem empresta a voz para a leitura, abrindo um espaço íntimo nesse sujeito, verbalizando seus sentimentos. A leitura, então, viria como o despertar, dentro do sujeito, daquilo que dorme ou é deixado lá propositalmente por lhe machucar, resgatando “pedaços de histórias, fragmentos de memórias, os vapores de sensações esquecidas”, já que “a leitura e a vida são tão estreitamente vinculadas [...] pouco interessa ‘diferenciar o que pertence ao leitor do que pertence ao escritor. A leitura, ao inspirar a vida interior, instaura um processo terapêutico discreto, cujo poder talvez não consigamos medir’” (PETIT, 2009, p. 113-114). Assim,

É por meio de intersubjetividades gratificantes que surge o desejo de ler, e o ato de dividir é inerente à leitura como a todas as atividades de sublimação. Mesmo se leio sozinha no meu quarto, quando viro as páginas, quando levanto os olhos do livro, outros estão ali ao meu lado: o autor, os personagens cujas vidas ele narra ou aqueles que ele criou, se se tratar de uma ficção (e talvez aqueles que o inspiraram), os

outros leitores do livro, de ontem e de amanhã, os amigos que dele me falaram ou a quem imagino que eu poderia recomendar. Mas também os que construíram a minha vida ou que a compartilham hoje, cujos rostos, brincadeiras, traições ou generosidade estão prontos para aparecer nas entrelinhas. Sozinha, sou muito povoada dentro de mim mesma. (PETIT, 2009, p. 139-140).

Sob esse viés, nos remetemos novamente ao dialogismo bakhtiniano, por meio do qual notamos que se faz clara a constituição de sentidos da leitura, ao lançar, entre o inconsciente do leitor, as palavras do escritor e todas as demais vozes que tecem o texto, uma ponte que comprova que aquilo que toca um dos lados da ponte, também afetou outro lado e assim vão se constituindo os fios de significação, pelos quais vão transitar as opiniões e visões de mundo de cada um desses lados, porque

Não importa o meio onde vivemos e a cultura que nos viu nascer, precisamos de mediações, de representações, de figurações simbólicas para sair do caos, seja ele exterior ou interior. O que está em nos precisa primeiro procurar uma expressão exterior, e por vias indiretas, para que possamos nos instalar em nós mesmos. Para que pedaços inteiros do que vivemos não fiquem incrustados em zonas mortas do nosso ser. De outra forma, não temos condições de fazê-lo. (PETIT, 2009, p. 115). Vale ressaltar, em relação à experiência com leitura em contextos de crise vivenciada por Petit (2009) alguns pontos análogos com nossa pesquisa. Muito embora, à primeira vista, os contextos em que a pesquisadora trabalhou sejam bem mais críticos, guardadas as devidas proporções, há muitos pontos em comum. Por exemplo, o fato de ambas as pesquisas terem como foco sujeitos que, por alguma razão, são estigmatizados, porque fazem parte de um grupo subjugado, por exemplo. Além disso, outro traço em comum pode ser constatado quando ela afirma que, para que a mediação pela leitura seja eficiente, é necessário haver hospitalidade, por parte do mediador, bem como é importante que o sujeito seja reconhecido em sua singularidade; que seja chamado pelo nome, ouvido, o que buscamos fazer na atmosfera de nossa pesquisa, pois acreditamos que, sem essa postura, não conseguiríamos nos aproximar deles a ponto de entrar em seu mundo, conhecer um pouco de sua vida e poder intervir no que fosse necessário para o aperfeiçoamento de seu texto. Além do mais, ela cita que, muitos desses sujeitos vêm de contextos, familiares ou mesmo, escolares – em nosso caso – em que ele não tinha muito contato com a leitura. Dessa forma, alguém tem que emprestar sua voz para que eles entendam aquela que o livro carrega.

Para finalizar nossas colocações acerca do primeiro caminho possível pela leitura, não podemos deixar de citar Petit (2009) quando se refere a uma imagem interessante criada

por Didier Anzier4, que pensava que “por meio do sonho, se refizesse a cada noite o envelope psíquico vital que os pequenos traumatismos do dia haviam crivado de furos” (PETIT, 2009, p. 114-115). A essa imagem sobre o sonho ela relaciona a leitura, afirmando que

Talvez a leitura também recupere, no dia a dia, o que se esgarçou e controle aquilo que é estranho, inquietante. A ordenação sequencial, a elaboração estética contida nos textos tranquilizam: o tempo é ordenado, os acontecimentos contingentes ganham sentido em uma história vista em perspectiva. E é como se, mediante a ordem secreta que emana da literatura, o caos do mundo interior pudesse assumir uma forma. (PETIT, 2009, p. 114-115).

Portanto, a leitura literária não é somente um acréscimo, um bálsamo para as dores da vida, um exercício para a atividade psíquica, mas algo de que se usufrui furtivamente, como que pela apropriação indébita, mas que, no entanto, deveria ser acessível a qualquer ser humano, desde a mais tenra idade e ao longo de todo o seu percurso de vida, podendo este servir-se dela na hora que tivesse vontade e, por meio dela, ver o que antes não via, dar sentido a sua vida e representar o já vivido, pois dessa maneira se permite ao sujeito

Elaborar um espaço onde encontrar um lugar, viver tempos que sejam um pouco tranquilos, poéticos, criativos, e não apenas ser o objeto de avaliações em um universo produtivista. Conjugar os diferentes universos culturais de que cada um participa. Tomar o seu lugar no devir compartilhado e entrar em relação com outros de modo menos violento, menos desencontrado, pacífico. (PETIT, 2009, p. 289)