3 A LINGUAGEM EM AÇÃO NA COMPOSIÇÃODOS TEXTOS DE
3.3 E A ESCRITA, COMO DESENVOLVÊ-LA? COMO DOM,
TRABALHO?
A escrita passou por várias concepções ao longo dos períodos históricos e das diretrizes que a educação tomava em dado momento. O trabalho com a produção escrita, ao longo do tempo, passou por diversas reformulações. Lembremos, por exemplo, de momentos passados em que a escrita era feita em vários formatos: a cópia, o ditado, a resolução de questões discursivas, muitas das quais com respostas apenas transcritas da superfície textual, ora por meio de cópia, ora de paráfrase. Em todos estes casos, limitava-se o aluno a ser o repetidor de ideias prontas. Essa forma de trabalhar a escrita vai contra o que afirma Fiad (2006) quando diz que a escrita precisa ser um processo e não apenas um produto.
No entanto, com o passar do tempo, estudos foram se desenvolvendo e foram surgindo diversas outras formas de analisar a relação do sujeito usuário da linguagem com a modalidade escrita. E, assim, novas formas de produção da modalidade escrita foram chegando à sala de aula. Dessa forma, a construção de sentidos por parte do aluno, sob a forma de textos, foi emergindo com força suficiente para pôr em destaque as dificuldades existentes nesse processo.
Para algumas perspectivas, ao longo do tempo, a intervenção do professor se fazia com preocupação maior de correção gramatical, deixando para segundo plano o conteúdo, o
estilo, a intenção etc. e no qual o professor era o detentor do conhecimento e o aluno o receptor deste. Muito distante de qualquer interação pensada para o processo de aquisição da língua. Naquelas perspectivas, não se considerava o aluno com suas experiências vividas fora do ambiente escolar. Era como se ele entrasse na escola sem nada saber da língua ou de qualquer outro assunto.
Uma vez escolhido nosso ponto de partida e de chegada – o texto – e para que a produção escrita deste contemple o processo dialógico da linguagem, constituindo-se num processo de variados fios ideológicos, composto por diversas vozes, numa construção linguística que prima pela reflexão, cabe-nos agora escolher a concepção de escrita que converge para essa perspectiva. Nesse sentido, Sercundes (1997) faz acepção a três linhas metodológicas: escrita como dom, escrita como consequência e escrita como trabalho.
Na primeira concepção, a escrita como dom, “é necessário simplesmente ter um título, um tema e os alunos escrevem, praticamente não há atividade prévia para se iniciar um trabalho de produção.” (SERCUNDES, 1997, p. 98). Essa concepção vai de encontro ao que Bakhtin/Voloshínov (2013) postula como Subjetivismo abstrato, pois nela claramente se vê que se concebe a linguagem como expressão do pensamento. Por meio dela, se entende que somente quem recebe o “dom divino” está apto a produzir textos escritos, restando aos demais apenas lamentar. Na escrita como dom, não se cria relação do aluno/produtor com a situação de produção, resultando apenas em uma atividade sem finalidade, nem interlocutores definidos.
A segunda concepção, escrita como consequência
tem como ponto de partida o saber oral que conduzirá a uma escrita, a um registro, muitas vezes homogeneizado desse saber, verificando-se que esse registro é consequência do trabalho realizado. Basta ler um texto, ver um filme, dar um passeio etc. para que se tenha um pretexto para a produção escrita. (SERCUNDES, 1997, p. 99).
Esta abordagem reflete a visão defendida pelo Objetivismo abstrato ao definir que o falante receberia um sistema pronto, o qual usaria para se comunicar, com ele não podendo interagir. Semelhante a essa visão, na escrita como consequência, é suficiente que o sujeito domine as estruturas linguísticas para ser capaz de construir um texto escrito, porque o resto (os temas, as razões para se dizer etc.) viria de outro lugar.
Esta concepção é assim denominada pelo fato de que o texto é o resultado, ou seja, a
consequência de uma atividade proposta pela professora fora do ambiente da sala de aula, por
tendo como finalidade interagir verbalmente a fim de aprender a usar a língua e seus recursos, mas sim ser lido e corrigido pelo professor.
E, por último, vejamos no que se concretiza a escrita como trabalho. Essa perspectiva
parte do saber oral, com grande diferença de que esse é reconhecido, trabalhado pelo professor, já que a produção escrita é tida como uma contínua construção de conhecimento, ponto de interação entre professor/aluno porque cada trabalho escrito serve de ponto de partida para novas produções, que sempre adquire, a possibilidade de serem reescritas, de apresentarem uma “terceira margem”. (SERCUNDES, 1997, p. 99).
A escrita como trabalho compreende, então, etapas que farão do processo de ensino/aprendizagem uma constante, colocando o aluno em uma situação real de interação. O
trabalho se dá por meio das atividades prévias que prepararão este aluno para o momento
crucial da produção de textos. No espaço desse trabalho, dialogarão o aluno, o professor e o texto, o que associa esta concepção de escrita à perspectiva interacionista da linguagem, sendo assim a escolhida para fundamentar nossa proposta com a EJA, em que a produção escrita implicasse no resultado de um processo de uso da linguagem no contexto da interação, seja nas leituras prévias feitas em sala, seja nas discussões para compreensão e interpretação dos textos, seja no planejamento do texto, na gravação dos áudios, na escrita, na avaliação pelo professor, na reescrita, enfim, criando-se um ambiente propício à interação, da qual faça parte o movimento de alterar, acrescentar, suprimir, do qual esperamos que resultem as versões do texto de memória, que fujam de uma compreensão estanque do mundo, mas sim que revelem o protagonismo do aluno.