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Thorndike e a lei do efeito

CONDICIONAMENTO OPERANTE

resolução. A maioria das gaiolas (caixas ou câmaras) era uma espécie de engradado com cerca de 20 polegadas de comprimento, 15 de largura e 12 de altura. Cada uma delas tinha um alçapão na parte superior, através do qual um gato podia ser colocado na gaiola, e, em um dos lados, havia uma porta pela qual podia escapar para apanhar um pedaço de comida (carne ou peixe) do íado de fora. A porta mantinha-se fechada por uma tranca ou tramei a, mas podia ser aberta do lado de dentro quando o gato acionasse adequadamente um mecanismo que a destravava — uma ala­ vanca, um arame preso a uma roldana ou uma maçaneta, ou qualquer outro dispositivo simples.

O procedimento experimental para uma dada tarefa qualquer era mais ou menos como se segue. Um gato esfomeado era colocado na gaiola até que, no decurso de sua atividade, acontecesse de acionar o mecanismo apro­ priado de destrave — por exemplo, até que puxasse o arame ou abaixasse a alavanca que abria a porta. Logo que dei­ xasse a gaiola e comesse a migalha de comida que o espe­ rava do lado de fora, era apanhado outra vez pelo experi­ mentador e colocado de volta na gaiola, cuja porta tinha sido fechada de novo. Depois de uma segunda escapada e comida, o procedimento repetia-se; e assim por diante.

Para cada problema, Thomdike anotava o tempo que o animal demorava em escapar da gaiola em cada tentativa sucessiva. A Figura 5 mostra, graficamente, o número de segundos necessários para um gato, em cada uma das vinte e quatro tentativas, puxar o arame e deixar a câmara.

Esta curva, que representa razoavelmente os resultados obtidos com outros gatos e outros problemas, ajuda a en­ tender o que aconteceu nestes estudos. Em primeiro lugar, vemos uma redução geral no tempo requerido por tentativa para o animal sair da * câmara. O número de segundos ne­ cessário para a primeira escapada foi de 160; para a vigésima quarta foi de apenas sete. A quantidade e a rapidez do decréscimo foi maior para certos problemas e para certos animais do que para outros; e houve uma grande variação no número ae tentativas necessárias antes que o tempo de fuga se tornasse mínimo. Em segundo lugar, parece que, a despeito do decréscimo geral de tempo à medida que au­ mentava o número de tentativas, aumenta consideravelmente

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a irregularidade. Recuos no progresso de um animal não eram raros. Assim, o escape da caixa na segunda tentativa requereu apenas 30 segundos, enquanto que na tentativa três, que se seguiu imediatamente, noventa segundos foram necessários. Em alguns dos outros experimentos de Thorn- dike, estas irregularidades foram ainda mais pronunciadas e continuaram por muitas tentativas até que fosse desenvol­ vida uma solução rápida e consistente.

Fic. 5. Tempo para escapar em tentativas sucessivas por um dos yatos de Thorndike (Segundo Tliomdike, 1898).

Enquanto registrava o tempo, Thorndike não deixou de observar o comportamento dos animais. Notou, por exemplo, que o gato ao enfrentar a situação-problema pela primeira vez, fazia vigorosas tentativas de escapar da prisão. ‘Tenta espremer-se através de qualquer abertura; arranha e morde as barras ou a tela; enfia a pata nas aberturas que encontra e arranha tudo o que encontra;. . . Por oito ou dez minutos, arranha, morde e espreme-se sem cessar”. (Psychol. Mono gr. 1898).

No decurso de tal atividade, quase todos os gatos dão com a resposta que abre a porta e dá acesso à comida. Quando voltam à caixa para um segundo teste, a luta re­ começa, e continua até que uma segunda solução seja en-

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t'ontrada. Gradualmente (repentinamente, em alguns casos), com as sucessivas prisões e fugas, a quantidade de atividade inútil diminui e o comportamento do gato torna-se claramente dirigido para o mecanismo de destravamento. Finalmente, desenvolve-se uma resposta bem dirigida e este­ reotipada: o “problema” foi resolvido.

De acordo com Thorndike, a solução de um tal proble­ ma por gatos e outros animais implica na formação de asso­ ciação entre certo aspecto da situação-estimuladora, tal como a corrente de arame ou a alavanca de madeira, com o movimento específico que faz a porta abrir. Além disso, argumenta, a relação estímulo-resposta que finalmente apa­ rece foi obviamente influenciada pelo resultado deste mo­ vimento. O prazer experimentado pelo animal ao sair da gaiola e a comida servem para cunhar a conexão entre es­ tímulo e a resposta que leva ao prazer. Pela mesma razão, us conexões estímulo-resposta que não levam a uma con- sequência agradável não foram reforçadas e tendem a desa­ parecer.

Esta foi a primeira aproximação a um princípio básico do comportamento. Treze anos depois, quando Thorndike reeditou sua monografia como parte do livro Animal Intelli­ gence (1911), a mesma idéia foi formalmente apresentada como a Lei do E feito:

“ Das várias respostas à mesma situação, as que forem acompa­ nhadas ou seguidas de perto pela satisfação do animal, serão, em iguais condições, mais firmemente relacionadas com a situação, de modo que, quando esta tornar a ocorrer, aquelas terão maior pro­ babilidade de voltarem a ocorrer. Quanto maior for a satisfação ou o desconforto, maior o fortalecimento ou o enfraquecimento da liga­ ção”. (Thorndike, E . L . — Animal intelligence: experimental studies.

New York, Macmillan, 1911, pag. 2 4 4 ).

Por esta época, Thomdike tinha se reunido ao corpo docente do “Teachers College” na. Universidade de Columbia e iniciado uma longa e produtiva carreira de pesquisador em psicologia e educação. Homem de fortes inclinações práticas, motivação poderosa e originalidade marcante, a produção anual de seu trabalho era enorme em quantidade e variável no conteúdo. Dos seus primeiros experimentos com animais, foi levado aos problemas da aprendizagem, aos

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procedimentos da sala de aula, elaboração de dicionário, testes de inteligência e orientação vocacional. Para onde quer que se voltasse nunca perdeu de vista o princípio fun­ damental que descobriu e, de tempos em tempos, apresentava outros testemunhos específicos de sua operação.

Não foi a Lei do Efeito a única solução de Thomdike aos problemas de como a aprendizagem tem lugar em ani­ mais e seres humanos. Já nas suas primeiras reflexões (1898), reconheceu a lei do exercido de acordo com a qual as conexões se fortalecem através da mera repetição ou se enfraquecem pelo desuso. Em 1932, entretanto, foi levado pelas suas próprias pesquisas a rever a posição primitiva e argumentar contra o exercício como fator que agisse independentemente do efeito. Também, em 1913, propus a lei da prontidão, mas esta não era mais do que um palpite, em termos de “unidades condutoras”, quanto às condições fisiológicas subjacentes a operação do seu princípio, básico e nunca desempenhou um papel muito importante nas suas pesquisas. Mais interessantes e empiricamente fun­ damentadas foram as cinco leis subdisiárias que deveriam suplementar as primárias. Uma delas, a da transferência associativa é o equivalente thomdikiano ao princípio de Pav- lov, e uma outra (resposta por analogia) tem certa serne* lhança com o princípio de generalização de que se tratará no Capítulo 5. Em geral, entretanto, deixou estas leis su­ bordinadas em estado relativamente rudimentar, não sendo necessário tratá-las aqui extensivamente.

A Lei do Efeito foi, pois, a maior contribuição de Thomdike e o principiante em Psicologia geralmente aceita sua formulação sem dificuldades. “Ensaio e erro, com êxito acidental” parece descrever satisfatoriamente um grande nú­ mero de comportamentos de solução de problema, tal como aparecem na vida diária. Em geral, se aceita facilmente que a maioria das reações a situações estimuladoras se gravam devido aos seus próprios efeitos. Pode-se até afirmar que mesmo antes de se ouvir falar de Thomdike, já se supunha a operação de um princípio geral semelhante, e que se pode­ ria ter feito referência a isso se tivesse sido perguntado. Como, de outra forma, se pode dizer que uma pessoa se orienta numa cidade estranha, “aprende as particularidades”

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de uma ocupação nova, resolve um quebra-cabeças chinês, ou domina qualquer habilidade complicada, a não ser pelo ofeito do êxito que resulta de seu comportamento de ensaio e erro?

Porém, poderá surpreender ouvir que o princípio de Thorndike foi posto em dúvida por psicólogos durante vá­ rios anos. Como, disse um grupo de críticos, podem “pra­ zer” ou “satisfação”, que são estados mentais, exercer uma influência sobre fenômenos claramente físicos como respos­ tas a estímulos? Como, disseram outros, os resultados de uma ação podem ter qualquer efeito sobre a própria ação desde que esta já foi realizada e terminada antes dos resul­ tados aparecerem — que tipo de relação causa-efeito é essa. na qual o efeito tem que funcionar como a causa? Ainda outros, menos preocupados com a filosofia ou lógica da posi­ ção de Thorndike, argumentaram que faltava à sua formu­ lação generalidade e que nem sempre ela se apoiava em latos. Observações foram citadas para mostrar (1) que tinsaio-e-erro é típico somente de uma forma muito estrita de solução de problema — aquela na qual o “insight” na si­ tuação havia sido proibido pelas próprias condições do ex­ perimento; (2 ) que, mesmo com gatos de Thorndike, a solução de um probelma nem sempre era “acerto-ou erro” e gradualmente alcançada, mas, pelo menos em alguns casos, pràticamente obtida na primeira tentativa; e (3) que a apren­ dizagem se verifica sem qualquer efeito — quando se deu

Urna chance a ratos de percorrerem um labirinto sem intro­ duzir qualquer recompensa de alimento, verificou-se pela velocidade em aprender em tentativas recompensadas, que huvlam aproveitado das explorações “não recompensadas” anteriores.

Diante dos últimos desenvolvimentos, tais argumentos, e grande parte das investigações a que deram origem, se reve­ lam um tanto fora do assunto. Serviram para obscurecer e não para esclarecer um princípio fundamentar; para atrasar ao invés de estimular uma linha de investigação importante, Uma completa apreciação da contribuição de Thorndike apa- rece somente trinta anos depois da publicação de sua pri- meira monografia, quando o princípio foi reafirmado e proposto claramente dentro de uma teoria mais àmpla.

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