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Pavlov e o reflexo condicionado

CONDICIONAMENTO REFLEXO

A associação destes dois estímulos é realizada em intervalos regulares por vários dias, sempre numa hora em que o cachorro esteja com fome. O propósito é, naturalmente, de­ terminar se um estímulo (o som) adquirirá o poder de eliciar a mesma resposta que o outro (a comida). Assim, depois de algumas associações, o estímulo originariamente ineficaz (som) é apresentado sozinho para verificar se produz salivação.

A Tabela 1 reproduz ós dados de um experimento de Anrep (1920), um dos discípulos de Pavlov e nela se pode ver o que acontece quando se realiza um experimento como este. Neste estudo, um som de 637-5 ciclos por segundo era produzido durante cinco segundos; dois ou três segundos depois dava-se ao cachorro bolacha em pó. Repetia-se a associação em intervalos de cinco a trinta e cinco minutos. Em dezesseis dias, tinham sido realizadas cinquenta destas associações e seis verificações tinham sido feitas só com o som.

Tabela I

AQUISIÇÃO DE U M REFLEX O SALIVAR CONDICIONADO

(Anrep, 1920)

Número de estimula- Magnitude da resposta Latência da resposta ções associadas (gotas de saliva) (em segundos)

1 010 0 18 20 20 9 30 60 2 40 62 1 50 59 2

Nas verificações, o som tinha a duração de trinta segundos e Anrep media a magnitude das respostas pelo número de gotas secretadas neste período. Alem disso, registrava a latência das respostas em segundos.

Por esta tabela pode-se ver que a quantidade de sali­ vação em resposta ao som isolado aumentou de zero, depois de uma só combinação, até sessenta gotas na verificação pos­ terior k trigésima associação. Além deste aumento na magni­ tude das respostas, houve uma diminuição na latência da resposta ao som, de 18 a 2 segundos. Não houve muita modificação destes resultados com a continuação das

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associações, o que demonstra que a ligação som-salivação já estava bem estabelecida por ocasião da trigésima com' binação.

Experimentos como este levaram Pavlov a formular um novo princípio:

"Se acontecer de um estímulo casual qualquer acompanhar uma ou várias vezes um outro que elicie reflexos inatos bem definidos, o primeiro começará ele próprio a produzir os efeitos daqueles reflexos inatos.. . Chamamos estas duas espécies de reflexos, e os estímulos pelos quais são eliciados, de incondicionados (inatos) e condicionados

(adquiridos), respectivamente.” (Pavlov, 1923, traduzido por E. B. Holt in Animal Drive and Leaming Process, 1931, pág. 24).

Um desenho esquemático ou paradigma do condiciona* mento pavloviano pode ser útil a esta altura.

Neste paradigma, três reflexos estão representados. A salivação pela comida e o levantar de orelhas pelo som são reflexos “incondicionados”; a salivação pelo som é “condi­ cionado”. As letras S e R referem-se, naturalmente, a “stimulus/i” ( —estímulo, lat.) e “responsio/onis” (^resposta, lat.). O uso do r minúsculo apenas indica que a resposta: levantar as orelhas não tem grande importância no processo de condicionamento; pode mesmo desaparecer durante a aplicação repetida do estímulo sonoro. A resposta importante, e a que é medida, é a que pertence ao reflexo salivar.

Desde logo, Pavlov e seus discípulos descobriram que este tipo de condicionamento só ocorria quando o reflexo salivar era mais forte que o reflexo eliciado pelo estímulo “casual”. Por exemplo: um intenso choque elétrico (ao invés de um som, luz ou toque) não se tornava um estímulo condicionado da salivação porque produzia uma grande perturbação emocional no animal. Isto levou Pavlov a dizer que um reflexo condicionado deve sempre ser baseado sobre um reflexo incondicionado que seja “biologicamente mais im­ portante” ou “fisiologicamente mais forte”. O mais forte dos

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dois reflexos incondicionados é o que fortalece ou reforça

a nova ligação estímulo-resposta. O estímulo do reflexo' incondicionado mais forte é frequentemente chamado de “estímulo reforçador”.

O princípio de Pavlov foi reformulado por Skinner (1938), de modo a ressaltar a importância do estímulo re­ forçador e salienta o fato de que o novo reflexo se forma pela combinação de elementos dos dois reflexos que já estavam

presentes no repertório do organismo.

“A apresentação aproximadamente simultânea de dois estímulos, um dos quais (o estímulo “reforçador” ) pertence ao reflexo que existe no momento com alguma força, pode produzir um incremento na força de um terceiro reflexo composto da resposta do reflexo re­ forçador e do outro estímulo”. (Skinner, T he Behavior of organisms, 1938, pag. 18)

Fatures temporais no condicionamento

Na citação acima, como na de Pavlov, especifica-se uma relação temporal de estreita proximidade entre os dois es­ tímulos. Um estímulo deve ser “acompanhado” ou “apro­ ximadamente simultâneo” a outro. Estas expressões levam a outras perguntas sobre aquela relação. O condicionamento ocorre mais rapidamente se as apresentações forem simul­ tâneas ao invés de sucessivas? Se a combinação sucessiva é eficiente, qual dos dois estímulos deve vir em primeiro lugar para melhores resultados? É o condicionamento ainda possível se decorrer um lapso de tempo considerável entre os dois estímulos?

Vários investigadores procuraram responder a estas questões, e sabe-se hoje que uma simultaneidade estrita é desnecessária para o desenvolvimento rápido de um reflexo condicionado; e que a estreita sucessão dos estímulos, um vindo dois ou três segundos depois do outro, é provavel­ mente o arranjo mais eficaz. Sabe-se também que só se pode estabelecer um reflexo condicionado com extrema dificuldade, e isto se se conseguir, quando o estímulo con­ dicionado vem depois do incondicionado, mesmo que seja só por uma fração de segundo. Nos termos do exemplo som-comida, o som deve vir antes da comida (como nos

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experimentos de Anrep) se o procedimento tiver de ser eficaz.

A respeito do quão antes do estímulo incondicionado o outro deve vir, as investigações não deram ainda uma res­ posta decisiva, Dos testemunhos experimentais existentes parece provável que o limite seja logo alcançado. Dois tipos de procedimento pavloviano têm relação com esta questão. Num deles a resposta salivar é primeiro condi­ cionada ao som ou a qualquer outro estímulo pelo método da apresentação “simultânea”. Depois, à medida que as associações continuam, só se apresenta o estímulo incondi- cionado quando o estímulo condicionado já tiver estado presente por um certo período de tempo, por exemplo, três minutos. Eventualmente um reflexo “retardado” pode ser estabelecido nestas circunstâncias: o animal responderá com salivação só depois de o estímulo condicionado ter sido apresentado por dois ou três minutos. Poder-se-ia dizer que o animal pode agora “marcar o tempo” com considerável precisão.

O segundo tipo de procedimento é semelhante ao pri­ meiro com uma diferença importante: não se mantém o estimulo condicionado por todo o intervalo de retardamento de maneira contínua, mas só se o apresenta no começo do intervalo.

Entretanto, como no caso do reflexo retardado, a con­ tinuidade das associações deste tipo por longo tempo acabará por estabelecer uma discriminação temporal: o ca­ chorro não salivará até que se aproxime a hora do reforço. Este tipo foi denominado por Pavlov reflexo condicionado de "traço” na suposição de que a causa imediata da salivação fosse algum “traço” deixado no sistema nervoso do animal pelo estímulo condicionado.

Relacionadas com estes dois experimentos, pelo estabe­ lecimento de discriminação temporal, são as seguintes observações, realizadas também no laboratório de Pavlov. (1 ) Alimentava-se regularmente um cachorro a intervalos de trinta minutos. Quando este horário já se tinha tomado rotina, suspendia-se a comida em uma das horas habituais. Não obstante observava-se a ocorrência de salivação ao fim do período de trinta minutos quando normalmente se deveria dar a comida ao cachorro. Segundo a expressão de Pavlov,

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Fíc. 3. Relações temporais no condicionamento reflexo. CS = estí­ mulo condicionado; IS = estímulo incondíeionado

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tinha-se formado um “reflexo temporal”. (2 ) Em outro caso, usou-se o mesmo intervalo de trinta minulos entre os horários de alimentação, mas sempre se dava comida acom­ panhada do som de um metrónomo. Depois de repetidas associações entre o metrônomo e a comida, a salivação tornou-se condicionada ao som, como se teria esperado, mas também dependia do tempo decorrido depois da última alimentação. Se se tocava apenas o metrônomo no começo do período entre as alimentações sucessivas, não ocorria sa­ livação; se o metrônomo tocava um pouco depois, produzia-se uma resposta de pequena magnitude; e à medida que se aproximava o fim do período, o efeito era cada vez maior. Finalmente, depois de um longo treinamento, a salivação ao metrônomo era eliciada apenas bem no fim dos intervalos entre alimentações; a resposta foi condicionada, por assimr dizer, ao metrônomo mais trinta minutos.

Estes surpreendentes resultados nos dizem que o ca­ chorro é capaz de discriminações temporais extremamente delicadas, mas não nos indicam qual o máximo atraso pos­ sível entre o estímulo condicionado e o estímulo incondi-

'ionado. Os experimentos sobre o reflexo retardado e o eflexo de traço são, sob este aspecto, mais relevantes. Certamente, nas condições usuais da experimentação pavlo- viana não se poderá esperar, se as associações de estímulos não se sucedem a intervalos regulares, que seja possível treinar um cão a salivar diante de um som que preceda a

comida de meio dia (6 horas).