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Condicionamentos, Comportamento e Diálogo

Limite da Macrozona Urbana

ÁREAS CATEGORIA DE USO CONFORME LEI MUNICIPAL Nº 2.507 / 81 TIPOS DE EMPREENDIMENTOS OU ATIVIDADES

7. CONSIDERAÇÔES FINAIS

7.1. Sobre o Processo de Participação Pública

7.1.2. Condicionamentos, Comportamento e Diálogo

A observação crítica do processo de participação, em todas as suas etapas, e incluindo o observador, “que também se observa”, permitiu constatar a forte influência dos condicionamentos sobre o comportamento de cada um e, sobretudo, a enorme dificuldade que todos têm para livrar-se dessas condições que impedem a abertura para o diálogo e, em conseqüência, o próprio diálogo. Essas constatações, que certamente não estão isentas de parcialidade, mas feitas a partir da intenção de absoluta honestidade, servem, ao menos, como indicadores desse fenômeno amplamente reconhecido, mas nem sempre devidamente considerado. Com esse propósito relata-se a seguir as manifestações mais importantes dos condicionamentos que puderam ser percebidos.

• Experiência pessoal: atinge todos os participantes, indistintamente. De um lado, a experiência de cada um constitui-se em um fator enriquecedor do diálogo, na medida em que traz para o debate diferentes visões de uma mesma realidade. De outro, essa experiência encerra o participante no “seu universo” dificultando a aceitação e a incorporação da visão do outro. Durante os debates, a experiência de cada um, e as vezes a falta dela, foi motivo do surgimento de conflitos determinados pela intransigência. As propostas dos atores representantes da vertente institucional, especificamente os da Prefeitura e CETESB, eram extremamente diferentes daquelas dos atores da vertente comunitária, sobretudo das ONGs. Nesses momentos, os relatos de moradores da região foram de fundamental importância para o estabelecimento do consenso. Com a descrição de uma realidade pouco conhecida dos demais, os relatos dos moradores acrescentavam complexidade às questões, demonstrando a necessidade de maior reflexão e tolerância em relação às diferentes visões.

• Conservadorismo: evidencia-se na insegurança diante do “novo” e surge de forma contundente diante de decisões que impliquem em mudanças nas regras vigentes. A insegurança se manifesta em argumentos a favor da necessidade cada vez maior de mais informações e mais estudos. Desta forma, em nome da precaução, prefere-se manter a situação vigente, adiando indefinidamente as decisões, mesmo quando tal situação demonstra-se inadequada. Enquanto a realidade exige, invariavelmente, escolhas entre opções afastadas daquela que seria a ideal, as alternativas ou soluções possíveis são avaliadas em relação à uma situação considerada ideal e, desta forma, parecem ser sempre insatisfatórias. Em conseqüência há uma grande dificuldade de se dar início a um

processo de “ganhos sucessivos”, a partir do qual a situação ideal se estabelece como o objetivo final, a ser atingido por aproximação, ou conquistado em etapas. • Legalismo: é notável, sobretudo entre os atores sociais mais jovens, o vigor da

idéia de que somente as propostas adequadas à legislação em vigor podem ser cogitadas. Desta forma, a própria liberdade de pensar encontra os seus limites nas normas instituídas, admitidas como verdadeiros dogmas. A modificação dessas normas, adequando-as ao que a comunidade considera desejável não se afigura como algo plausível ou conveniente. Assim, a legitimidade de um anseio que implique na modificação das regras vigentes é seriamente questionada. Há uma evidente manifestação de receios ou de dúvidas, não só quanto à conveniência, mas também quanto à possibilidade, ou “legalidade”, de se propor alterações das leis. Essa subordinação passiva às normas parece decorrer de três fatores principais. O primeiro refere-se ao desconhecimento dos propósitos principais que motivaram a instituição de uma determinada regra, o segundo à idéia de que tudo pode ser resolvido pela simples instituição de normas, e o terceiro à desconfiança na capacidade e na disposição das autoridades para atuar em favor do interesse comum, restando daí as leis como o recurso último de que dispõe a sociedade. Em conseqüência da descrença nas autoridades verifica-se , também, entre alguns atores, a idéia de que participar é preciso para evitar o pior, isto é, para evitar deliberações relacionadas a interesses específicos em detrimento do interesse público. Assim, propostas de instituição de novas regras que se somam às existentes parecem ser sempre bem vindas. No entanto, ocorre o contrário quando se trata de propor a alteração de uma regra, substituindo-a por outra considerada adequada.

• “Cidadanismo”: trata-se de tentar expressar aqui a idéia de que o Estado deve e pode, sob quaisquer circunstâncias, satisfazer todos os anseios dos seus cidadãos desde que eles tenham sido, previamente, transformados em direitos. O comportamento resultante dessa idéia também se evidencia nos momentos críticos de decisão, quando cobra-se do Estado a garantia contra os eventuais riscos de erro na escolha de uma determinada alternativa. O “cidadanismo” parece resultar de uma composição do conservadorismo com o legalismo. A participação termina no momento da escolha, sempre condicionada à garantia de que o Estado assuma as responsabilidades e os riscos. O temor resolve-se com a instituição da garantia, como um direito.

• Simplismo: surge como uma necessidade determinada pelo conservadorismo, isto é, traduz-se em um comportamento que também atua no sentido de dificultar as modificações da situação vigente. De um lado a aprovação ou aceitação de mudanças é sempre condicionada ao conhecimento de mais informações e à realização de mais estudos. Invoca-se, quase sempre, a necessidade de abordagens complexas para justificar as mudanças. As expressões “multidisciplinar” e “holismo” são empregadas com freqüência. No entanto, de outro

lado, quando se trata de combater as mudanças, ou de defender a manutenção da situação vigente, qualquer argumento parece ser válido. Várias vezes durante os debates sobre os usos possíveis nas áreas da Serra do Japi, toda a complexidade do seu território foi traduzida exclusivamente pela sua extensão. O tamanho do território era apresentado como argumento para indicar o quanto de atividade poderia ocorrer em seu interior. Outras vezes, o “princípio da precaução” surgia como uma expressão útil, como um argumento capaz de justificar a decisão de nada fazer, ou de não se tentar nenhuma alternativa. Em todos os casos essas expressões são usadas de forma simplista, mas sempre perigosa. Os argumentos que simplificam questões complexas, transformando-as em problemas de aritmética elementar, são facilmente assimiláveis e permitem conclusões rápidas. Portanto, são aceitos imediatamente. As expressões usualmente utilizadas encerram conceitos com os quais todos concordam, facilitando a aceitação dos argumentos que delas se utilizam. Sob tais circunstâncias, no momento do debate, é difícil perceber a incoerência entre o conceito invocado e o raciocínio simplista empregado.