CAPÍTULO III A tributação e os objetivos nacionais constitucionais
3.2 O problema da concentração da renda no B rasil
3.2.2 Condicionamentos do atraso
O colonialismo, compreendido não apenas como uma política de governo (implicando em drenagem de renda via tributação e intermediação metropolitana), mas também como atitude dos agentes econômicos (refletindo-se na transferência de renda pessoal para a metrópole - ou para as metrópoles), resultou no esgotamento da capacidade de poupança e investimento, logo na possibilidade de garantir o desenvolvimento.
Uma primeira conclusão é que as disparidades regionais apareceram muito cedo, praticamente desde o início da vida econômica do Brasil. Mais do que isto, pode-se afirmar que as causas desequilibradoras eram mais fortes naqueles tempos, sendo intrínsecas ao modelo mercantilista. Este modelo, entretanto, provocava o deslocamento regional, na medida em que as atividades
75 B U E SC U , Mircea. Brasil: d isparidades de renda no p a ssado: subsídios p a r a o estudo dos pro b lem a s
preferenciais decaíram e novas oportunidades se ofereciam para a exportação - em outras palavras, quando um novo ciclo aparecia.
De onde provinham essas disparidades? As causas institucionais são evidentes, sendo responsável o próprio modelo mercantilista-colonialista. Primeiro, a fundação de engenhos exigia fortes investimentos, logo a existência de uma classe de capitalistas, embora às vezes bastante ineptos. A necessidade de atrair os investidores levou a Metrópole a conceder-lhes vários fatores que fortaleceram sua posição econômica, social e política, permitindo inclusive os abusos a que aludi, criadores de maior concentração da renda.
A marginalização do resto da população, em decorrência de próprio modelo, contribuiria no mesmo sentido e seria perda de tempo procurar alguma política redistributiva. Acrescenta-se o caráter cíclico da economia, fazendo com que, em períodos de depressão, os pequenos cultivadores e donos de engenhos, não podendo resistir à queda da receita, sejam forçados a entregar seus bens aos seus credores ou aos grandes proprietários. O escravagismo era responsável pela presença de uma enorme massa de pessoas com praticamente nenhuma renda.
Pode-se identificar bem outro fator de concentração do lado dos assalariados. Apesar da alta dos preços no século XVII, inclusive na segunda metade, de evidente recessão econômica, os salários nominais ficaram inalterados ou mesmo declinantes, o que correspondia ao seu aviltamento em termos reais.
Ainda na atualidade, é notória a disparidade de renda existente no Brasil, constituindo-se quase como “marca registrada“ nacional, motivando esporadicamente protestos e indignações sucessivamente pacificadas à medida em que outras prioridades vão surgindo. Camargo e Giambiagi anotam que
Apesar de tudo isso (sentimento de injustiça social, problemas orçamentários devido aos enormes custos com infra-estrutura e serviços
parte dos governos, quanto pela sociedade civil em geral, para reduzir a desigualdade de renda hoje vigente no Brasil. Na verdade, os artigos deste livro mostram com clareza o aumento dessa desigualdade e da incidência de pobreza no país ao longo da década. 76
Adicionalmente, à medida que o país se democratiza e os grupos sociais se organizam para pressionar pela solução dos problemas que mais afetam suas vidas, as questões da distribuição de renda e da pobreza absoluta começam a ganhar uma perspectiva cada vez mais política e menos ligada exclusivamente à questão do crescimento econômico, como foram tratadas no passado. Em conseqüência, os governos passam a olhar para as possíveis soluções dessas questões e direcionar maiores esforços nesse sentido.
Conforme apontado pelo IERJ - Instituto Econômico do Rio de Janeiro, a publicação dos dados do Censo Demográfico de 1970 revelou um aumento considerável na desigualdade de renda no Brasil na década de 60. Apesar do crescimento da renda real no período, o índice de Gini 77calculado para a distribuição de pessoas com rendimentos mostra elevação de 0,50 para 0,57 no período, uma deterioração sem dúvida significativa, especialmente quando contrastada com a relativa estabilidade verificada a partir de 1970.78
Contrariando as expectativas de estudiosos, principalmente Langoni, de que o aumento da concentração de renda entre 1960 e 1970 teria sido duplamente transitório, sendo portanto “ autocorrigível a longo prazo “, a realidade demonstrou que o aumento na concentração de renda no Brasil esteve longe de ser transitório, tendo mesmo se acentuado drasticamente no final da década de 80.
76 IERJ (CAM ARGO, José Márcio e GIAMBIAGI, Fabio) (organizadores). D istribuição de renda no B rasil. RJ: Paz e Terra, 1991.
77 O índice de Gini é universalmente utilizado para m edição dos níveis de desigualdade. 78 CAM ARGO e GIAM BIAGI, op. cit., p. 33.
A trajetória concentracionista para o Brasil é nitidamente ascendente desde os anos 60, ocorrendo apenas uma pequena redução em 1988, o mesmo sendo válido ao nível regional, excetuando-se algumas espasmódicas regressões, de pouco expressão, em anos isolados. Deve-se pontificar que essa deterioração repartitiva da renda não se mostrou associada às taxas de crescimento do produto, o que sugere seja o padrão de crescimento e não sua taxa (ou velocidade da taxa) o fator determinante da performance distributiva.79
Relativamente à desigualdade salarial, no Brasil ela é mais elevada do que a desigualdade dos rendimentos do trabalho, uma vez que a extensão da jornada de trabalho tende a ser maior entre os trabalhadores com menores salários.
Mencione-se ainda que as estatísticas nem sempre conseguem captar a situação real de desigualdade, principalmente da distribuição pessoal da renda. Cerca de 90% da renda levantada corresponde a rendimentos do trabalho, segundo demonstram as Pesquisas Nacionais por Amostragem Domiciliar. Isto significa dizer que os outros tipos de rendimento estão bastante subestimados, apontando, portanto, para uma distribuição de renda ainda pior do que a indicada pelos dados.
Assim, a melhoria da distribuição da renda passa obrigatoriamente pela melhoria da distribuição salarial. O crescimento econômico tem um papel fundamental, mas não deve substituir uma política salarial adequada, com elevação forte e gradual do salário mínimo.
A política econômico-social das últimas décadas também tem sido apontada como fator agravante da já concentrada renda nacional. Ib Teixeira, indagando sobre as causas da concentração de renda no Brasil, aponta a inflação descontrolada das décadas de 70, 80 e 90, estimando em 30 bilhões de dólares os recursos que os pobres pagavam com a inflação, entregando esses recursos aos bancos e aos mais ricos da pirâmide social. Igualmente a elevada
população em 25 anos, sem que fosse possível solucionar o déficit social já existente anteriormente, é por ele citado como fator de agravamento da péssima distribuição de riquezas entre a população.80
Entretanto, as políticas econômicas implementadas por sucessivos governos visando o controle da inflação e a estabilidade cambial, fórmula adotada pelo Plano Real a partir de 1994, têm surtido efeito contrário à redistribuição de renda, como assinala Paulo Nogueira Batista Júnior. A drástica elevação das taxas de juros e as medidas restritivas aos gastos orçamentários tendem a aumentar o desemprego, atingindo sobretudo os trabalhadores menos qualificados, ao passo que beneficiam aqueles que já têm patrimônio financeiro acumulado, ou seja, os aplicadores no mercado financeiro.
Em relação às empresas o mesmo raciocínio é verdadeiro: o câmbio estável beneficia os endividados em moeda estrangeira, quase sempre as filiais de corporações estrangeiras, as empresas brasileiras de grande porte, os bancos e outras instituições financeiras. Já os juros altos sobrecarregam os endividados em moeda nacional, geralmente pequenas e médias empresas e pessoas físicas de menor renda, que dependem de crédito interno para adquirir bens de consumo duráveis. Quanto ao governo, sendo ele o principal devedor em moeda nacional, resta-lhe o corte de gastos e o aumento de receitas via tributação, normalmente recaindo sobre a classe média que não tem como fugir do Imposto de Renda retido na fonte e os pobres que já suportam pesada carga
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de tributos indiretos.
O mais preocupante é constatar que a concentração de renda, geradora da extrema desigualdade social e dos seus conhecidos efeitos maléficos, tem-se mantido nos mesmos níveis e resistido incólume às mudanças estruturais e conjunturais das últimas décadas. Para exemplificar, mencione-se que os 10%
80 TEIXEIRA, Ib. Quem concentrou a ren da no Brasil? Jornal da Tarde, 24-8-96, caderno de Sábado, p. 02. 81 BAT ISTA JR., Paulo Nogueira. Concentração d a ren da nacional. Folha de S. Paulo, Caderno 2, 01/10/98, p. 2.
mais ricos da população se apropriam de 50% do total da renda das famílias, enquanto os 50% mais pobres da população detêm apenas 10% da renda.82
Embora os indicadores econômicos não classifiquem o Brasil como um país pobre, os indicadores sociais situam-no como um país extremamente injusto e desigual, com muitos pobres, a despeito de apresentar farta disponibilidade de recursos para combater a pobreza. Essa conclusão foi obtida em estudo realizado por Ricardo Paes de Barros e outros, que aponta como saída um urgente projeto de sociedade que enfrente o desafio de combinar democracia com eficiência econômica e justiça social.83