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Condutas especialmente mencionadas na lei

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 176-179)

O legislador, no art. 171, § 2º, CP enumera determinadas condutas que normalmente seriam casos de estelionato, mas que se achou por bem destacar para que não restassem dúvidas, tendo em vista a linha tênue que muitas vezes separa a má-fé criminal do mero ilícito civil. Vejamos cada uma delas:

I – Disposição de Coisa Alheia vomo Própria

Possível em alienações de bens móveis e imóveis. Os exemplos vão desde os casos mais folclóricos como a venda do Pão de Açúcar até a comercialização de veículos com leasing, imóveis alugados ou arrendados etc. Não há o crime do art. 171, § 2º, I, CP, porém, se um autor de crime anterior (furto, roubo, estelionato etc.) vende depois o produto, há, sim, mero exaurimento do crime

antecedente.

II – Alienação ou Oneração Fraudulenta de Coisa Própria

Desta vez a coisa (móvel ou imóvel) pertence à pessoa, mas não poderia ser disposta devido a algum gravame legal ou contratual. Nesse passo é controvertida a venda de coisa penhorada. A penhora é instituto processual, e não direito real sobre coisa alheia, portanto, embora já se tenha decidido pela configuração de alienação fraudulenta de coisa própria, vem-se entendendo haver atipicidade do fato e apenas responsabilização civil do depositário infiel.

Também já se decidiu por crime de estelionato na forma básica e por crime de fraude à execução (art. 179, CP). Embora ciente de que esse posicionamento é minoritário, prevalecendo o entendimento de que se trata de mero ilícito civil, entendemos que há realmente subsunção perfeita ao art. 171, § 2º, II, CP. É preciso observar que neste inciso não é vedado o comércio das coisas gravadas de algum ônus, e sim o seu comércio sem que seja dada ciência ao adquirente dessa condição.

III – Defraudação de Penhor

Agora não se trata da penhora processual, mas do contrato de penhor (art.

1431, CC) que consiste na tradição da coisa móvel, suscetível de alienação que, em garantia do débito, o devedor ou alguém por ele faz ao credor, ficando ela vinculada à obrigação.

IV – Fraude na Entrega de Coisa

A fraude pode ser: a) quanto à substância ou essência (ex.: entregar uma joia dizendo ser de ouro quando não é); b) quanto à qualidade (ex.: a joia é de ouro, mas o estelionatário diz que é de 24 quilates quando é de 18); c) quanto à quantidade (ex.: dimensão, número, peso etc.). Aqui é preciso relembrar que o crime deve ter vítima determinada, acaso seja indeterminada pode ocorrer crime contra o consumidor, relações de consumo ou economia popular.

V – Fraude para Recebimento de Indenização ou Valor de Seguro

Tratam-se de golpes contra firmas de seguros. São exemplos comuns: a) esconder automóvel e registrar furto para receber seguro; b) simular acidente de automóvel; c) indivíduo que se autolesiona para haver valor de seguro. O estelionato normalmente é crime material, que se consume com o efetivo prejuízo financeiro. Mas nessa figura ocorre uma exceção. Trata-se de crime formal, que se consume com os atos lesivos e fraudulentos, não necessitando o efetivo recebimento do valor do seguro para a consumação. Esse recebimento efetivo constituirá mero exaurimento do crime.

É preciso distinguir as condutas praticadas por incêndio, explosão ou destruição de embarcações ou aeronaves. Há concurso aparente de normas, mas na verdade devem prevalecer os arts. 250, § 1º, I, CP; 251, § 2º, CP, e 261, § 2º, CP, tipos que preveem como causas de aumento de pena ou acréscimo de pena de multa o intuito econômico (Princípio da Especialidade). Já nos casos em que, para receber o seguro o agente pratique os delitos de inundação (art. 254, CP), desastre ferroviário (art. 260, § 1º, CP), desabamento ou desmoronamento (art.

256, CP), haverá concurso formal por não estar previsto nestes delitos o proveito econômico.

VI – Fraude no Pagamento por meio de Cheque

Comete esse crime quem: a) emite cheque sem suficiente provisão de fundos;

b) frustra o pagamento (há fundos, mas o agente susta dolosamente o cheque). O endossante que repassa o cheque não comete esse crime, pois não “emitiu” o cheque nem o sustou. Comete, porém, o previsto no art. 171, caput, CP se tem ciência de que o cheque é sem fundos ou sustado e o repassa a terceiro.

Há necessidade de que o agente obre com má-fé ou fraude. Se o cheque é desvirtuado de sua função (ordem de pagamento à vista) e aquele que o recebe sabe disso, não há crime (exs.: cheques pós-datados; cheques dados como garantia de dívida). Também não há crime quando um cheque é sustado com justa causa (ex.: inadimplemento contratual por parte do recebedor do cheque).

Sobre a consumação desse crime há várias doutrinas: a) Basileu Garcia considera crime formal que se consume com a simples emissão do título, ou seja, com a mera assinatura do agente; b) Nelson Hungria afirma que a consumação se dá quando o cheque é posto em circulação; c) Magalhães Noronha considera crime material que só se consume quando apresentado o cheque ao sacado e este recusa o pagamento pela inexistência de fundos ou existência de contraordem.

Esta última tese é abrigada pela jurisprudência, inclusive pela Súmula 521 do STF assim redigida:

O foro competente para o processo e julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade de emissão dolosa de cheque sem fundos, é o do local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado.

No estelionato por cheque sem fundos, o pagamento antes do recebimento da denúncia enseja falta de justa causa para a ação penal, conforme entendimento do STF. Há inclusive a Súmula 554, STF, que preceitua: “O pagamento de cheque emitido sem suficiente provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta o prosseguimento da ação penal”.

Há ainda casos em que são usados cheques em estelionatos, mas o crime é o do art. 171, caput, CP (exs.: compras com cheques furtados; cheques de contas encerradas; cheques emitidos com nome falso; cheque emitido de conta aberta com dados cadastrais falsos etc.). Nessas situações a competência não se regula conforme a Súmula 521, STF, mas normalmente pela regra do art. 70, CPP.

Estelionato Majorado (art. 171, § 3º, CP)

A lei prevê aumento de pena da ordem de um terço se a lesão patrimonial atinge entidade de direito público ou instituto de economia popular, assistência social ou beneficência. A Súmula 24 STJ estabelece que esse aumento se aplique à lesão a entidade autárquica de previdência social. O incremento penal se justifica, pois que não se trata de vítima particular, mas de um conjunto indeterminado de pessoas, da sociedade em geral.

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 176-179)