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Homicídio culposo

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 30-33)

O Código Penal prevê em seu art. 121, § 3º, o homicídio culposo, ou seja, aquele em que a morte causada pelo agente advém de conduta informada por imprudência, negligência ou imperícia. A pena prevista é consideravelmente reduzida (detenção, de 1 a 3 anos).

Com o advento do Código de Trânsito Brasileiro (Lei n. 9.503/97), quando o homicídio culposo se dá estando o infrator na direção de veículo automotor, configura-se não mais infração ao art. 121, § 3º, CP, mas ao art. 302, CTB, cuja pena é consideravelmente maior (detenção, de 2 a 4 anos). Tenha-se em mente, porém, que, se o homicídio for doloso, mesmo que seja realizado utilizando um veículo automotor (ex.: indivíduo que atropela e mata dolosamente alguém), continuam valendo as disposições do Código Penal (art. 121).

Portanto, hoje, em se tratando de homicídio culposo é preciso fazer a distinção entre o crime do Código Penal e o do Código de Trânsito. Esta não é dificultosa, bastando saber que a aplicação do Código de Trânsito resume-se aos casos de acidentes ocorridos no trânsito viário nos quais o autor do crime esteja na direção de veículo automotor. O Código Penal terá uma aplicação residual a todos os demais casos.

Tanto o Código Penal (art. 121, § 4º, parte inicial) como o Código de Trânsito (art. 302, parágrafo único) preveem causas de aumento de pena para os respectivos homicídios culposos. É preciso estar atento para que cada grupo de causas de aumento de pena tem sua aplicação delimitada ao diploma legal aplicável ao caso, ou seja, as causas de aumento de pena previstas no CP somente são aplicáveis aos casos de seu art. 121, § 3º, enquanto que as causas de aumento previstas no CTB somente são aplicáveis aos casos de tipificação do art. 302, CTB.

No Código Penal as causas de aumento de pena previstas para o homicídio culposo são as seguintes:

a) Inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício.

Um exemplo seria aquele do médico que não esteriliza os seus instrumentos, realizando cirurgia que resulta em infecção generalizada e morte do paciente.

À primeira vista pode parecer que esta figura seria o mesmo que a imperícia em

geral como configuradora da culpa. No entanto, diferencia-se no seguinte detalhe: enquanto na imperícia o agente ignora a regra técnica e por isso age erroneamente, no caso do art. 121, § 4º, CP, o agente tem conhecimento da regra, mas, mesmo assim, não a observa. Frise-se, porém, entendimento divergente de Guilherme de Souza Nucci, para quem essa diferenciação seria problemática e deveria ser abolida a causa de aumento de pena, pois embora prevista no Código Penal, na verdade não teria aplicação prática, tendo em vista ser inviável sua distinção da modalidade de culpa consistente na imperícia (NUCCI, 2003, p. 151).

b) Deixar de prestar imediato socorro à vítima ou não procurar diminuir as consequências de seus atos.

Neste caso deve-se lembrar que o agente não responderá em concurso pelo crime de omissão de socorro (art. 135, CP), porque isso constituiria bis in idem.

Se a vítima for socorrida por terceiros, tiver morte instantânea, sofrer ferimentos leves que não demandem socorro imediato ou o autor do crime culposo não puder por motivo alheio à sua vontade prestar socorro (v.g. risco de sua integridade física por populares; impossibilidade física da prestação do socorro etc.), não se configurando abandono pelo agente, este não incide na figura. Também se afasta a figura quando o autor do crime culposo não presta diretamente o socorro, mas aciona quem de direito (v.g. polícia, bombeiros, ambulância etc.).

c) Fugir para evitar a prisão em flagrante.

Visa o dispositivo desestimular a fuga do agente que pode dificultar a posterior apuração da autoria.

No art. 302, parágrafo único, CTB, aplicável aos homicídios culposos na direção de veículo automotor, existem cinco figuras prevendo aumento de pena entre um terço e a metade:

a) Não possuir permissão para dirigir ou Carteira de Habilitação.

b) Praticar o crime na faixa de pedestres ou na calçada.

c) Deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente.

Acaso o indivíduo cometa homicídio culposo no trânsito e não socorra a vítima, responderá pelo crime de homicídio culposo (art. 302, CTB) com o aumento de pena, mas não responderá pelo crime autônomo de omissão de socorro também previsto especificamente para os casos de crimes de trânsito no art.

304, CTB. Igualmente ao que ocorre no CP, estaria configurado o bis in idem.

Não obstante a redação do parágrafo único do art. 304, CTB, as mesmas limitações para aplicação do aumento de pena por omissão de socorro, vistas quando se tratou do homicídio culposo do Código Penal, têm plena aplicabilidade. A dicção do parágrafo único do art. 304, CTB, constitui-se em verdadeira aberração jurídica, dificilmente aplicável na prática, tendo em vista infração a princípios básicos do Direito Penal Moderno, tais como o Direito Penal do Dano, Tutela de bens jurídicos, lesividade das condutas etc.

d) No exercício de profissão ou atividade, estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros.

Perdão judicial

O § 5º do art. 121, CP, prevê hipóteses de perdão judicial. Para tanto, as consequências do crime têm que atingir realmente de forma muito grave o próprio agente para possibilitar o perdão e não aplicação de pena. Ocorrerá tal caso sempre que a pena pareça diminuta em face da punição que o próprio fato, com suas consequências, impôs ao sujeito. São exemplos: perder o próprio filho, agente que fica paralítico etc.

Uma indagação surgiu com o advento do CTB, qual seja, o perdão judicial do art. 121, § 5º, CP, pode ser aplicado em casos de infração ao art. 302, CTB?

A doutrina inicialmente manifestou-se dividida sobre o tema, havendo posicionamentos pró e contra. Os contrários argumentavam que o art. 300, CTB, que previa o perdão judicial, foi vetado e que o art. 291, CTB, manda aplicarem-se subsidiariamente somente as normas gerais (Parte Geral) do Código Penal. Estando o Perdão Judicial tratado na Parte Especial do Código Penal, seria inaplicável. Por seu turno, aqueles que defendiam a possibilidade de aplicação firmavam-se nas razões do veto do art. 300, CTB, que efetivamente fazem menção ao Perdão Judicial do Código Penal e dizem que este seria aplicável, somente não mantendo o art. 300, CTB, para evitar redundância legal e devido à opção pela redação mais técnica e abrangente do art. 121, § 5º, CP.

Quanto à questão das normas gerais ditas no art. 291, CTB, entende-se que não são estritamente as da Parte Geral do Código Penal, mas todas as normas de aplicação geral, independentemente de sua topografia no diploma legal em destaque. Ora, o Código Penal tem normas de caráter geral tanto em sua Parte Geral como em sua Parte Especial (por exemplo o conceito de funcionário público). O Perdão Judicial previsto no art. 121, § 5º, CP, seria outro exemplo de norma geral alojada na Parte Especial do Código Penal Brasileiro. Enfim, a polêmica sobre o tema foi-se assentando com o passar do tempo e atualmente

predomina francamente o entendimento de que é plenamente cabível a aplicação do Perdão Judicial previsto no Código Penal aos crimes de trânsito.

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 30-33)