Ver comentários já expendidos sobre o crime de roubo, com referência ao art.
158, §§ 1º e 2º, CP. Quanto ao chamado “sequestro relâmpago” (art. 158, § 3º, CP) cabem algumas observações importantes:
a) Em primeiro lugar o novo tipo penal não tem o condão de tipificar todos os casos do popularmente denominado “sequestro relâmpago”. Haverá casos de roubo que continuarão sendo normalmente tipificados no art. 157, § 2º, V, CP, tudo dependendo sempre de uma triagem inicial, discernindo-se sobre a ocorrência in casu de roubo ou de extorsão. Somente quando se concluir pela ocorrência de uma extorsão é que se poderá cogitar da aplicação do art. 158,
§ 3º, CP, havendo cerceamento da liberdade deambulatória da vítima.
Também não se pode esquecer da possibilidade de concurso de crimes, seja entre roubo e sequestro (art. 148, CP), seja entre extorsão e sequestro (art.
148, CP). Isso quando não houver nexo de necessidade entre o sequestro e o roubo ou a extorsão. A própria redação do § 3º, do art. 158, CP, dada pela Lei n. 11.923/2009, deixa isso bem claro ao exigir que o sequestro seja condição
“necessária para a obtenção da vantagem econômica”. Para que se tipifique o roubo ou a extorsão qualificados pelo cerceamento de liberdade da vítima o sequestro deverá ser meio para a execução dos crimes patrimoniais. Se ele (sequestro) for praticado apenas no contexto de um roubo ou de uma extorsão, mas sem nexo de necessidade, ou seja, não sendo “meio” para a prática do roubo ou da extorsão, será o caso de concurso de crimes.
Finalmente, não se pode perder de vista a possibilidade de tipificação, em certos casos, do crime de extorsão mediante sequestro (art. 159, CP). Isso ocorrerá em situações mais graves em que o tempo de cerceamento da liberdade da vítima for mais alargado, bem como houver refém cuja libertação se faça depender do pagamento de resgate.
b) A Lei n. 11.923/2009 criou uma nova qualificadora no crime de extorsão e dentro dela distinguiu três figuras:
Uma primeira em que o crime se qualifica, com pena de reclusão, de 6 a 12 anos, além da multa, pelo simples fato de haver “restrição da liberdade da vítima”
como meio para a prática da extorsão. Nesse caso não se fala em resultados mais gravosos como lesões graves ou morte.
Em outra figura, na parte final do dispositivo enfocado, prevê as outras duas hipóteses qualificadoras. Nesses casos, descreve o legislador a extorsão com restrição da liberdade da vítima somada ao fato de que ocorram lesões graves ou morte. Nessas duas situações últimas estabelece as mesmas penas do crime de extorsão mediante sequestro qualificado por lesões graves ou morte respectivamente (art. 159, §§ 2º e 3º, CP). Assim sendo, doravante se ocorrer um crime de extorsão simples (sem restrição de liberdade nem resultados gravosos de lesões graves ou morte) aplicar-se-á o art. 158, caput, CP, ou no
máximo o art. 158, § 1º, CP (extorsão com aumento de pena), acaso haja concurso de agentes ou emprego de arma. Por outro lado, se ocorrerem lesões graves ou morte, mas em extorsões praticadas sem cerceamento de liberdade da vítima, aplicar-se-á normalmente o art. 158, § 2º, CP, que remete ao art.
157, § 3º, CP. Finalmente, se ocorrer extorsão com restrição da liberdade da vítima, mas sem os resultados mais gravosos de morte ou lesões graves, aplicar-se-á o art. 158, § 3º, primeira parte, CP, com pena de reclusão de 6 a 12 anos e multa. E se houver restrição de liberdade e ainda a morte ou lesões graves, aplicar-se-á a parte final do art. 158, § 3º, CP, que remete a penas do art. 159, §§ 2º e 3º, CP.
Note-se que também a extorsão qualificada pela morte é crime hediondo (art.
1º, III, da Lei n. 8.072/90).
O advento da Lei n. 11.923/2009 trouxe mais um problema ao já conturbado arcabouço jurídico-penal brasileiro, especialmente no relacionamento entre a matéria codificada e a abundante legislação esparsa. Ocorre que a Lei dos Crimes Hediondos (Lei n. 8.072/90) prevê como crime hediondo a extorsão qualificada pela morte, especificando em parênteses que tal se refere ao art. 158,
§ 2º, CP (art. 1º, III, da Lei n. 8.072/90). Com o advento da Lei n. 11.923/2009 e a criação do § 3º, do art. 158, CP, para tratar das extorsões com restrição da liberdade da vítima, inclusive daquelas com resultado morte ou lesões graves, o legislador ensejou uma contradição lamentável, mas cuja solução somente seria possível mediante uma violação ao “Princípio da Legalidade”.
A legislação empresta um tratamento mais rigoroso à extorsão mediante restrição da liberdade da vítima, mas ao mesmo tempo passa a extorsão qualificada pela morte sem restrição da liberdade a ser crime hediondo (art. 1º, III, da Lei n. 8.072/90), enquanto que a extorsão com o mesmo resultado e ainda praticada mediante cerceamento de liberdade não o é.
Certamente haverá aqueles que pretenderão indicar a tipificação hedionda para os casos de morte do § 3º. Os argumentos serão possivelmente o fato de que o legislador cometeu um lapso ao não ajustar a Lei n. 8.072/90 à nova realidade e de que este não poderia ter em 1990 previsto os casos de um § 3º, que somente adveio em 2009. Ademais, a determinação final do § 3º, do art. 158, CP, de aplicação das mesmas penas do crime de extorsão mediante sequestro qualificado (crime sem nenhuma dúvida hediondo, inclusive em sua forma simples), levaria à conclusão de equiparação das situações, justificando a qualificação hedionda da extorsão qualificada pela morte com restrição de liberdade, bem como a aplicação do aumento de pena para a extorsão qualificada
pela morte ou lesões graves, praticada com restrição da liberdade da vítima. A própria contradição que destrói toda a sistemática legal estaria a apontar a possibilidade de uma interpretação ampliativa nesses casos. Aliás, Rogério Sanchez Cunha e Luiz Flávio Gomes já se manifestaram pela aplicabilidade das regras da Lei dos Crimes Hediondos ao § 3º, do art. 158, CP, considerando-o um mero desdobramento do antigo § 2º, do mesmo dispositivo (CUNHA; GOMES, 2009).
Embora tais argumentos apresentem certa coerência e possam ser construídos na tentativa de colmatar uma lamentável lacuna legal e reconstruir uma sistemática coerente, não devem ser acatados, pois que implicariam numa nítida violência ao “Princípio da Legalidade”. Com o advento da Lei n. 11.923/2009 as extorsões com restrição da liberdade qualificadas pela morte não são hediondas.
Isso simplesmente porque a lei assim não prevê, restringindo a aplicabilidade do dispositivo do art. 1º, III, da Lei n. 8.072/90 aos casos específicos do § 2º, do art.
158, CP. Uma lei penal restritiva deve ser restritivamente interpretada, não comportando ampliações ou analogias. Cabe ao legislador, obedecendo à estrita legalidade, alterar a Lei n. 8.072/90 para adequá-la à nova realidade. Não cabe aos intérpretes ou aplicadores do Direito violar o “Princípio da Legalidade” para consertar os equívocos do legislador. Admitir essa hipótese seria extremamente pernicioso ao sistema garantista erigido constitucionalmente, conflitando com a própria conformação de um Estado Democrático de Direito.
Ação penal
Pública incondicionada.