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3.4 MECANISMOS DE PARTICIPAÇÃO

3.4.1 Conferências Nacionais de Cultura

No Brasil, como parte do reconhecimento da importância da participação direta da sociedade para a formulação de políticas públicas, foram realizadas Conferências de Cultura convocadas pela união, através do Ministério da Cultura, pelos estados e municípios, por meio dos respectivos órgãos gestores de cultura.

Pelo modelo de funcionamento das conferências de cultura, as etapas municipais, territoriais37 e estaduais antecederam a culminância nacional do processo de escuta,

diálogo e participação social. Cabe observar que, pela metodologia de trabalho, as propostas que poderiam ser aprovadas e priorizadas na etapa nacional já haviam passado pelos “filtros” nas etapas que a antecediam. Ou seja, eram discutidas nos eixos e plenárias federais propostas com força, aderência ou apelo sociocultural.

A I CNC, convocada pela portaria ministerial n° 180 de 31 de agosto de 2005, e realizada em Brasília, além de colocar em diálogo estado e sociedade como afirmado em seu tema “Estado e Sociedade construindo políticas públicas de cultura”, contribuiu para acender o tema da cultura nas pautas políticas governamentais sendo um importante espaço de retomada do diálogo pelas diferentes camadas de governo.

Diversas proposições desta conferência, conforme sistematizado em seu relatório final, apontam para necessidade de institucionalidade da gestão cultural. Dentre as reivindicações pela institucionalidade da gestão pública estão em destaque: a) propostas de constituição de órgãos de gestão (secretarias e fundações), b) adequação orçamentária para as atividades culturais (estruturação de fundos) e c) efetivação de instâncias participativas e consultivas (conferências e conselhos) (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2006).

Esta preocupação pode ser observada em proposições como: a) a vinculação orçamentária, através da aclamada Proposta de Emenda Constitucional - PEC 15038, que previa percentagens mínimas de investimento pelos entes federados, sendo 2% no

37 As Conferências de Cultura acontecem em várias etapas: Municipais; Territoriais; Setoriais; Estaduais e

culminam na realização da Conferência Nacional de Cultura. As Conferências Territoriais acontecem a partir do agrupamento de vários municípios e é responsabilidade dos Estados. Quase nenhum estado realiza conferências territoriais, a Bahia, por realizar é uma exceção.

Orçamento da união, 1,5% no orçamento dos estados e Distrito Federal, 1% do orçamento dos municípios; b) a implantação do Sistema Nacional de Cultura como instrumento de articulação, gestão, informação, formação e promoção de políticas públicas de cultura com participação e controle pela sociedade; e c) a implementação de um sistema de financiamento diversificado.

A II Conferência Nacional de Cultura, convocada pela Portaria nº46 de 10 de julho de 2009, teve, como tema geral, "Cultura, Diversidade, Cidadania e Desenvolvimento" ocorreu num momento em que o Programa Cultura Viva já havia ganhado uma maior visibilidade nacional e tinha iniciado seu processo de expansão. Essa constatação, se confirma, em alguma medida, nos resultados do encontro, no qual foram retiradas 32 propostas prioritárias e três delas tinham relação com o PCV.

Um dos cinco eixos temáticos da II CNC era voltado para refletir a institucionalidade da cultura e tinha como diretriz, exposta em regimento interno, pensar o fortalecimento da ação do Estado e da participação social no campo da cultura (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2009). Apesar disso, outros eixos elegeram propostas prioritárias que tratavam de institucionalidade. Conforme pode ser observado na tabela abaixo, propostas relacionadas com o Cultura Viva que reivindicavam uma institucionalidade para o Programa, no seu viés normativo e com garantia de dotação orçamentária, apareceram em eixos diversos.

Tabela 4 Proposta de institucionalidade do PCV priorizadas na II CNC (2009)

Eixo Sub-Eixo Proposta Priorizada

EIXO 1: PRODUÇÃO SIMBÓLICA E DIVERSIDADE CULTURAL 1.3 - Cultura, Educação e Criatividade

36 - Instituir a lei Griô, que

estabelece uma política nacional de transmissão dos saberes e fazeres de tradição oral, em diálogo com a educação formal, para promover o fortalecimento da identidade e ancestralidade do povo brasileiro, por meio do reconhecimento político, econômico e sociocultural dos Griôs Mestres e Mestras da tradição oral, acompanhado por uma proposta de um programa nacional, a ser instituído, regulamentado e implantado no âmbito do MINC e do Sistema Nacional de Cultura.

EIXO 2: CULTURA, CIDADE E CIDADANIA

2.1: Cidade como fenômeno cultural

83 - Criar marco regulatório (Lei Cultura Viva) que garanta que os Pontos de Cultura se tornem política de Estado garantindo a ampliação no número de Pontos contemplando ao menos um em cada município brasileiro e Distrito Federal, priorizando populações em situação de vulnerabilidade social de modo a fortalecer a rede nacional dos Pontos de Cultura. EIXO 5: GESTÃO E INSTITUCIONALIDADE DA CULTURA 5.2 Planos Nacional, Estaduais, Distrital, Regionais e Setoriais de Cultura 308 – Defender a aprovação do Programa Cultura Viva e o Programa Mais Cultura no âmbito da proposta de consolidação das leis sociais como políticas públicas de Estado, com dotação orçamentária prevista em lei e mecanismo público de controle e gestão compartilhada com a sociedade civil.

Fonte: elaboração própria a partir dos resultados da 2ª Conferência disponibilizadas pelo MinC.

Essas propostas demonstram aproximações com o entendimento da necessidade da formulação de uma institucionalidade mais perene para a política de cultura quando apontam: 1) a criação de uma lei, como proposição de uma norma que assegure continuidade; 2) o estabelecimento legal de dotação orçamentária, o que auxilia no entendimento da prioridade de uma política e garantias de dotações mínimas para a sua permanência; e 3) a participação da sociedade civil através de mecanismos de participação, gestão e controle o que interage com o conceito de política pública em ambientes democráticos e republicanos.

Realizada no governo Dilma Rousseff, no ano de 2013, a III Conferência Nacional de Cultura teve como mote a discussão de “Uma política de estado para a cultura: desafios do Sistema Nacional de Cultura”. Nesta conferência o Programa Cultura Viva aparece, mais uma vez, com propostas aprovadas que se preocupam com aspectos que o dotem de uma institucionalidade assegurada por normas. Das propostas aprovadas, como transcrito na tabela abaixo, uma delas é priorizada (3.2.1). É possível perceber ainda, de forma clara, o discurso de inserção do Cultura Viva enquanto política de base comunitária do Sistema Nacional de Cultura, e em outra proposta (3.5) a relevância da ação Pontos de Cultura, quando reivindicada a sua ampliação sem a necessária vinculação com o PCV.

Tabela 5 Propostas priorizadas e aprovadas na III CNC que têm relação com a institucionalidade do Programa Cultura Viva

Eixo Tipo de Proposta Proposta I - IMPLEMENTAÇÃO DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA

Aprovada 1.2 Aprovar e regulamentar o PL 757/2011 (Cultura Viva), contemplando estratégias de vinculação e fortalecimento entre o Cultura Viva, Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Cultura, e Sistemas Nacional, Estaduais e Municipais de Cultura considerando o Programa Cultura Viva como política de base comunitária do SNC (incluindo Conselhos, Setoriais, Fundos, e demais elementos constitutivos do Sistema) para garantir os direitos à cultura dos cidadãos, assegurados pelos artigos 215 e 216 e 216-A da Constituição Federal.

CIDADANIA E DIREITOS CULTURAIS

Priorizada 3.21. Garantir a aprovação, sanção e regulamentação da Lei Cultura Viva, PLC 70/2013 que institucionaliza a política nacional de cultura, educação e cidadania - Cultura Viva, efetivando sua implantação com a garantia de no mínimo um ponto de cultura em cada município, possibilitando a criação de consórcios culturais intermunicipais, consolidando uma política cultural de base comunitária para fortalecer e ampliar o Programa Cultura Viva; e investir, por meio de fundo mantenedor específico para o Programa Cultura Viva, na criação de novos pontos e pontões de cultura e no fortalecimento, revitalização e consolidação dos já existentes, com atenção aos pontos indígenas, quilombolas, aos grupos de culturas tradicionais, populares, comunitários, urbanos e rurais, garantindo o cumprimento das leis de acessibilidade e considerando as seguintes necessidades: a) alterar o processo de financiamento e prestação de contas, através do cadastro nacional dos pontos de cultura, por meio de resultados e tabela de preços regionalizada, criando mecanismos de monitoramento e fiscalização com a participação da sociedade civil organizada e população em geral; b) extinguir a modalidade de convênio, simplificando os mecanismos de repasse de recursos,

priorizando prêmios, bolsas e outras maneiras de financiamento e fomento; c) propiciar e consolidar o desenvolvimento profissional de artistas e produtores de cultura com capacitação e formação continuada; d) regionalização e municipalização dos programas; e) ampliação dos investimentos compartilhados entre o Governo Federal, Estados e Municípios integrantes do Sistema Nacional de Cultura e fortalecimentos das fontes de financiamento por meio de uso de recursos dos fundos de cultura, mecanismos de incentivo e renúncia fiscal, vale-cultura, bem como recursos de outras políticas e fundos públicos; f) atenção a todas as linguagens artísticas e manifestações culturais, grupos e coletivos da diversidade cultural; g) integração de iniciativas como pontos de leitura, pontos de memória, museus comunitários, ecomuseus dentre outros.

CIDADANIA E DIREITOS CULTURAIS

Aprovada 3.5 Criar, descentralizar e ampliar as redes de Pontos de Cultura, através de processo de premiação, em todos os municípios, promovendo sua articulação com conselhos municipais, estaduais, nacionais e internacionais com o objetivo de fortalecer os conselhos de cultura, os fazedores de cultura e as atividades desenvolvidas pelos pontos e democratizar a inclusão artística e o acesso à cultura para crianças, jovens, e adultos, idosos e pessoas com deficiência.

Fonte: elaboração própria a partir dos resultados da III Conferência disponibilizadas pelo MinC.

Em termos de institucionalização, destaca-se como proposta priorizada e segunda mais votada, com 581 votos, no Eixo 3 “Cidadania e Direitos Culturais” a que inclui bandeiras de reivindicação do PCV e sobretudo da rede de Pontos de Cultura, como: a extinção da modalidade convênionas relações dos Pontos de Cultura com os órgãos gestores da rede (união, estados e municípios), além da previsão legal de participação da sociedade civil no monitoramento e fiscalização dos recursos públicos transferidos.

O conceito de cultura alvo das políticas do Ministério, que vinha sendo ampliado, retroagiram substantivamente, e o modo de relação com as instituições e atores do campo parece, cada vez mais, inexistente. Fica notório que as sucessivas mudanças de gestão e

condução do MinC tem influenciado negativamente na pauta da cultura no Brasil, acarretando na ruptura de importantes ações que contavam com o apoio direto e contundente da sociedade civil.