As avaliações de inimputabilidade con- sistem em geral de três componentes importantes similares à maioria das ava- liações forenses: uma entrevista, o uso de instrumentos de avaliação forense rela- cionados e a coleta de informações de ter- ceiros e colaterais (Zapf et al., 2006). En- tretanto, não existem abordagens amplas bem estabelecidas e validadas empirica- mente para conduzir uma avaliação de inimputabilidade. Borum e Grisso (1996) pesquisaram psicólogos e psiquiatras fo-
renses, perguntando sobre os elementos centrais para um relatório de inimputa- bilidade. Os resultados revelaram onze elementos diferentes essenciais para um relatório: (1) história psiquiátrica; (2) es- tado mental atual; (3) exame formal do estado mental; (4) uso atual de alguma medicação psicotrópica; (5) testagem psicológica; (6) registros médicos; (7) in- formações da polícia; (8) presença ou au- sência de diagnóstico anterior; (9) presen- ça/ausência e grau de abuso de álcool/ substância; (10) descrição do delito pelo acusado e (11) descrição do delito por terceiros. Entretanto, existem algumas evidências da confiabilidade e validade global das avaliações de inimputabilida- de e de algumas abordagens de avaliação comumente utilizadas.
Confiabilidade e validade das
avaliações de inimputabilidade
Há poucas informações empíricas a res- peito dos métodos utilizados em avalia- ções de inimputabilidade. As pesquisas sugeriram em geral que os profissionais de saúde mental raramente consideram um acusado inimputável, mais uma vez em contraste com a percepção do público. Cochrane e colaboradores (2001) encon- traram que apenas 12% dos 719 encami- nhados por inimputabilidade foram con- siderados inimputáveis em uma amostra federal de criminosos. Ao examinarem as decisões dos clínicos, Murrie e Warren (2005) observaram que a maioria dos clí- nicos considerava inimputáveis entre 5 e 25% dos que lhes eram encaminhados por inimputabilidade. Os profissionais de saúde mental também variam a por- centagem de decisões de inimputabilida- de de acordo com os diferentes padrões
em vigor, o contrário dos jurados que via de regra decidem esses casos (Wettstein, Mulvey e Rogers, 1991). Por fim, o fator mais importante nos achados de inimpu- tabilidade pode ser a decisão final do pe- rito (Steadman, Keitner, Braff e Arvanties, 1983). Como consequência, é muito im- portante que se avaliem a confiabilidade e validade dessas decisões.
O exame da confiabilidade e valida- de das avaliações de inimputabilidade é especialmente importante devido à na- tureza adversarial do processo. Brodsky (1991) e Rogers (1987) alertaram sobre o potencial de psicólogos forenses e outros profissionais de saúde mental ficarem comprometidos com um resultado legal particular ou intencionalmente molda- rem a sua avaliação à teoria do advoga- do contratante. Otto (1989) realizou um estudo análogo em que examinou a ori- gem potencial da parcialidade em casos de inimputabilidade e encontrou que o testemunho do perito nesses casos pode variar de acordo com a parte que o con- tratou. Alunos avançados no curso de graduação em um programa de psicolo- gia clínica tinham maior probabilidade de classificar o acusado como culpado se fossem contratados pela acusação e tinham maior probabilidade de classifi- cá-lo como NGRI se fossem contratados pela defesa. No entanto, esse estudo usou estudantes da graduação, e não psi- cólogos forenses ou outros profissionais de saúde mental treinados, e a amostra era pequena (n = 32). Beckham, Annis e Gustafson (1989) não encontraram par- cialidades atribuíveis ao lado que con- tratou dentre os 180 peritos forenses que avaliaram o material de casos hipo- téticos. Entretanto, Homant e Kennedy (1987) também encontraram que em três
estudos separados as crenças políticas dos peritos estavam relacionadas às suas conclusões finais em um caso hipotético de inimputabilidade.
Estudos que têm seu foco na confiabi- lidade entre os avaliadores encontraram índices altos de concordância entre eles. Fukunaga, Pasewark, Hawkins e Gude- man (1981) conseguiram examinar 355 casos no Havaí. As cortes tipicamente indicaram dois avaliadores independen- tes para avaliarem a inimputabilidade de um acusado. Examinando esses registros, eles encontraram um índice de 92% de concordância entre os avaliadores. Entre- tanto, não ficou claro se os profissionais independentes se comunicaram entre si antes de escreverem o relatório, aumen- tando potencialmente o índice de concor- dância se eles realmente colaboraram. De um modo geral, esses índices altos não devem causar surpresa considerando- -se que os vereditos de inimputabilidade são usualmente o resultado de um acordo entre a defesa e a acusação e raramente envolvem um julgamento e uma batalha entre os peritos (Melton et al., 1997). Os casos que têm probabilidade de envolver um julgamento disputado são os menos prováveis de envolverem casos claros de qualquer forma e envolvem um gru- po de características únicas prováveis de reduzir o consenso entre os especialistas (Zapf et al., 2006). Esses estudos também tendem a focar na concordância geral e não examinam as diferentes característi- cas que se relacionam à decisão final do perito. Um estudo que examinou a con- fiabilidade de uma dessas características entre os examinadores, os sintomas diag- nósticos, encontrou uma concordância significativa entre os peritos forenses (r = 0,73) que receberam matérias de casos
ambíguos destinadas a produzir a menor concordância (Beckham et al., 1989). Eles também examinaram as características que se relacionavam com as decisões de culpa e NGRI dos peritos. Aqueles peri- tos que consideraram o acusado culpado o classificaram como apresentando me- nos esquizofrenia no momento do delito, julgaram o comportamento do acusado como sendo menos provavelmente um produto de doença mental, consideraram informações de terceiros como mais im- portantes, classificaram a entrevista clíni- ca e alguns dados da avaliação cognitiva como menos importantes e tinham maior experiência forense (Beckham et al., 1989).
Também é problemático estudar a validade das avaliações de inimputabi- lidade devido à falta de critérios estabe- lecidos ou de um padrão-ouro (Borum, 2003b). Tipicamente, a decisão dos avalia- dores é comparada com o veredito final nesses casos. Entretanto, o veredito final é influenciado pela opinião do perito e, portanto, o critério do veredito final é tendencioso a favor da validade dessas decisões. Não é de surpreender que exista alta concordância entre os vereditos finais em casos de inimputabilidade e os julga- mentos dos peritos envolvidos. Fukunaga e colaboradores (1981) encontraram 93% de concordância entre as conclusões do perito e o julgamento final. Em um estudo de 143 acusados que alegaram o equiva- lente a NGRI em um condado metropo- litano durante um ano, houve 98% de concordância entre a opinião da avalia- ção do perito e o veredito final (Janofsky, Vandewalle e Rappeport, 1989). Os altos índices de concordância também sugerem que a assim chamada batalha entre os pe- ritos não é a norma em casos de inimpu- tabilidade (Janofsky et al., 1989).