3. REFLEXÕES SOBRE CONFLITO, E PRIMEIRAS ABORDAGENS DO PROBLEMA QUANDO DO EXERCÍCIO DA COMPETÊNCIA
3.2. Conflito e as categorias fenomenológicas de Peirce
As perguntas que encerram o item anterior, em especial a segunda formulada, aparentam certa ingenuidade que não deveria justificar maiores reflexões sobre o tema. Isso porque, o conflito tende a ser um elemento necessário ao direito141, já que relações intersubjetivas voltam-se ao conflito e, sendo tais relações objeto do direito, o conflito delas decorrentes também o será. Não haveria norma secundária se não houvesse o descumprimento de um comando normativo (a instaurar um conflito), ou seja, inexistiria participação do Estado-juiz142 sem um conflito apto a motivá-la.
141 “...dado um conflito hipotético e uma decisão hipotética, a questão é determinar suas condições
de adequação: as possibilidades de decisões para um possível conflito. Pressupomos aqui o ser humano como um ser dotado de necessidades (comer, viver, vestir-se, morar etc.), que são reveladoras de interesses (bens de consumo, de produção, políticos etc.). Esses interesses, nas interações sociais, ora estão em relação de compatibilidade, ora são incompatíveis, exigindo-se fórmulas capazes de harmonizá-las ou de resolver, autoritariamente, seus conflitos.” (FERRAZ
JUNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito: técnica, decisão, dominação. 6ª Ed., São Paulo : Atlas, 2011, p. 66).
142 “...uma regra jurídica completa consta de duas normas. Na norma primária, tem-se o
pressuposto fáctico (ou hipótese de incidência) em relação-de-implicação com a consequência: a relação jurídica. Abstratamente, se ocorre o fato F, então A ficará numa relação R com B. Na norma secundária, a hipótese fáctica é a não-observância do dever da parte do sujeito passivo, a
Logo, “normatizar o conflito” quer nos parecer algo corriqueiro, ainda que se mantenha a assertiva de ser ele oriundo da concretude enunciativa. Utilizaremos, então, as categorias cenopitagóricas da fenomenologia de Peirce para confirmar (ou infirmar) essas assertivas. Vejamos:
Como já asseverado no item 1.3.1., Charles S. Peirce foi um dos percursores do estudo científico do signo. Entretanto, é importante frisarmos, aqui, a principal diferença de sua obra com a de Ferdinand de Saussure (outro percursor desta Ciência): Peirce não se limita à linguagem verbal, para ele todo e qualquer fenômeno que produza significação é objeto de seu estudo143 e, por isso, de importância impar o conhecimento de suas categorias fenomenológicas.
Isso porque, tal diferença acima demonstrada, entre a Semiótica de Peirce e a Semiologia de Saussure também é visível entre suas categorias fenomenológicas em detrimento à de outros pensadores (como Aristóteles)144.
Peirce constrói suas categorias a partir da relação (articulação e combinação) dos próprios fenômenos (não necessariamente, insista-se, formalizados em proposições) e, com isso, pode ampliar o grau de universalidade de representação do pensamento.
Assim como faz com o signo (relação triádica: interpretamen, objeto e interpretante), Peirce também divide os fenômenos existentes em três classes que se inter-relacionam: primeiridade, secundidade e terceiridade.
qual implica o exercício da sanção e da coação (já aqui através de órgão jurisdicional).”
(VILANOVA, Lourival. Causalidade e Relação no Direito. 4ª Ed., São Paulo : RT, 2000, p. 175). 143 “Semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou
seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido.” (SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica.
São Paulo : Brasiliense, 1983, p. 13.).
144 “Enquanto as categorias aristotélicas derivavam-se da análise do ato predicativo realizado pelo
sujeito ao expressar-se num discurso, nele representando a realidade, as categorias propostas por Peirce correspondem aos modos elementares pelos quais se articulam e se combinam os fenômenos que povoam o universo total e irrestrito da experiência.” (SILVEIRA, Lauro Frederico
Em verdade, a última (terceiridade) compõe as anteriores e, a secundidade compõe a primeiridade, ao ponto de se vislumbrar, na terceiridade, características (não predominantes) das demais, assim como características de primeiridade devem aparecer em elementos que compõem a secundidade.
Aplicando os elementos componentes do signo a estas categorias fenomenológicas teremos o objeto como primeiridade, já que se trata de um “não- ser”, ou seja, o objeto, isoladamente, não possui significado algum. O objeto, exclusivamente observado, possui qualidades que motivarão significações diversas, que somente aparecerão quando da sua substituição por um signo (“ser”).
O signo (ou interpretamen), portanto, é um “ser” e, assim, pertencente à secundidade, já que quando reflito sobre determinado objeto em verdade reflito sobre um signo que substituiu tal fenômeno e, assim, o “ser” (signo) é o objeto de minhas reflexões, ao passo que o fenômeno que ele representa (substitui) é um “não ser”, pois necessita daquele para ser pensado145.
Por fim, o interpretante integrará a categoria da terceiridade, por tratar-se de um “vir-a-ser”, pois ele também será um signo (“ser”) futuro que necessitará de um novo interpretante, e este por sua vez também tornar-se-á signo, num processo dinâmico tendente ao inesgotável (digo tendente ao inesgotável, pois ele pode ser final, quando não mais houver novas possibilidades de transformações)146. O “vir a ser” advém do signo e do objeto (ambos projetam o
145 “Quando penso, não penso a coisa pensada e sim sua representação. O Objeto, o fenômeno é
o mesmo, o que muda é o processo de representação = substituição. Sempre penso substituindo, é um constante processo de transformação, um processo mutante. Compreender é ter consciência de linguagem, é conhecer o processo das representações para poder transformar, ultrapassar limites, controlar os acasos, os imprevistos.”. (TURIN, Roti Nielba. Aulas: introdução ao estudo das linguagens. São Paulo : Annablume, 2007, p. 37).
146 Em se tratando de semiose jurídica, ou de interpretação das leis, o “vir-a-ser” é a construção de sentido que o intérprete (autêntico ou não) faz partindo dos signos (enunciados prescritos) que representam (substituem) seu objeto, qual seja, regulação de condutas intersubjetivas. Essa construção de sentido, insista-se, é denominada de norma jurídica e, para alcançar suas pretensões prescritivas, deve possuir um mínimo deôntico. A semiose jurídica é de fácil percepção, pois quando se trata de intérprete autêntico, sua construção deverá, obrigatoriamente, estar vertida em linguagem escrita (uma sentença, por exemplo) e, assim, tal signo será
interpretante). Valendo-nos, novamente, das lições de Roti Nielba Turin147, segue interessante exemplo esclarecedor desta classificação do interpretante como um “vir-a-ser”:
...o Signo “casa” pode substituir várias ideias do Objeto. Primeiro vamos substituí-lo por abrigo. É nosso abrigo epidérmico. O que temos é uma casa, que nos leva ao Interpretante de proteção, que poderá ser o Signo de um outro Objeto, por exemplo: proteção nos remete à segurança. Objeto: nossa segurança: queremos ter proteção para termos segurança: traz-nos um novo Interpretante: liberdade. Tendo segurança temos liberdade, que pode vir a ser o signo de um novo Objeto, e assim num constante “vir-a-ser”.
Pelas explicações acima, relacionadas aos elementos componentes do signo, já é possível perceber as características necessárias para o enquadramento do fenômeno em uma das três categorias cenopitagóricas de Peirce. Vejamos:
Primeiridade representa a potencialidade do ser, aquilo que é espontâneo, casual, mera qualidade de sensação. É a base primeira de toda a realidade, o primeiro contato com ela148 Aqui se tem um qualissigno.
Secundidade, por sua vez, representa a existência ou factualidade. Parte da primeiridade, mas possui especificidade irredutível em relação àquela, já que advém da relação (ligação, confronto, negação etc.) de dois elementos, sendo certo que só há existência quando houver imposição sobre os demais - existo perante os demais. Aqui se fala em sinsigno.
novamente interpretado, gerando um novo interpretante, até que haja o encerramento, ainda que provisório, dessa semiose (por exemplo, com o posicionamento da mais alta Corte do país). 147 TURIN, Roti Nielba. Aulas: introdução ao estudo das linguagens. São Paulo : Annablume, 2007, p. 38/39.
148 “Em suma, qualquer qualidade de sensação, simples e positiva, preenche a nossa descrição
daquilo que é tal como é, absolutamente sem relação com nenhuma outra coisa. ‘Qualidade de sensação’ é a verdadeira representante psíquica da primeira categoria do imediato em sua imediatidade, do presente em sua presentidade.” (PEIRCE, Charles Sanders. Escritos Coligidos
[seleção e tradução Armando Mora D’Oliveira e Sergio Pomerangblum]. Vol. XXXVI. São Paulo : Abril Cultural, 1974, p. 24).
Por fim, terceiridade é a característica do contínuo, do pensamento e da lei. Supõe a existência das outras duas categorias (primeiridade e secundidade). Terceiridade é um sinônimo de representação149. Nessa classe aparece o legissigno.
Mas qual a pertinência em se abordar tais categorias nesse momento? Basta vislumbrar a assertiva do próprio Charles S. Peirce150 com relação à secundidade para entender:
A segunda categoria - o traço seguinte a tudo que é presente à consciência - é o elemento de “conflito”.
(...) Ora, não há resistência onde não existem conflito e ação de força. Por conflito, explico que entendo a ação mútua de duas coisas sem relação com um terceiro, ou médium, e sem levar em conta qualquer lei da ação.
(...) A realidade é aquilo que insiste, nos força a reconhecer um outro diferente do espírito, e nela a Segundidade é predominante. (Recorde-se que antes que a palavra francesa second fosse introduzida no inglês, other era apenas o ordinal numeral correspondente a dois).
Conflito, portanto, é elemento genuinamente inserido na classe fenomenológica da secundidade e, assim, deve possuir as seguintes características a ela inerentes: existência ou factualidade; força; poder; relação entre pares (ação e reação; causa e efeito); mecanicismo; não tem generalidade (fato individual); predominante na realidade (ser); ligado ao passado.
Partindo dessa premissa, não poderíamos falar em “conflito abstrato”, nem muito menos regrá-lo (via representação hipotética) e, assim, estar-se-ia infirmando a assertiva apresentada no início deste item.
Ocorre que um elemento de terceiridade pode degenerar para a secundidade e, desta para a primeiridade e, assim, além do conflito propriamente
149 “...em nível mais geral, a 1.º corresponde ao acaso, originalidade irresponsável e livre, variação
espontânea; a 2.º corresponde à ação e reação dos fatos concretos, existentes e reais, enquanto a 3.º categoria diz respeito à mediação ou processo, crescimento contínuo e devir sempre possível pela aquisição de novos hábitos. O 3.º pressupõe o 2.º e 1.º; o 2.º pressupõe o 1.º; o 1.º é livre.”
(SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo : Brasiliense, 1983, p. 39).
150 PEIRCE, Charles Sanders. Escritos Coligidos [seleção e tradução Armando Mora D’Oliveira e Sergio Pomerangblum]. Vol. XXXVI. São Paulo : Abril Cultural, 1974, p. 96.
dito (secundidade) e possível falar em conflito aparentemente existente (terceiridade), pois possível sua normatização.
A degeneração das categorias, então, seria a predominância do predicado da secundidade (Reação) em face de um elemento que, outrora, esteve vinculado àquele predicado da terceiridade (Representação) e, por óbvio, um predicado de primeiridade (Qualidade) em face de um elemento que, anteriormente, ligava-se predominantemente à secundidade ou terceiridade.
Essa degeneração é consequência da presença, não só da Representação, mas também da Reação e da Qualidade na terceiridade, bem como da Reação e da Qualidade na Secundidade.
O conflito, portanto, também está presente na terceiridade, já que esta categoria contém os elementos das duas anteriores, situação que possibilita a degeneração. Não há, assim, uma redução de predicados (de Reação para Qualidade, ou de Representação para Reação ou para Qualidade), apenas a prevalência de um deles num dado momento histórico.
Trazendo essas categorias ao objeto do presente estudo, vemos que os dispositivos constitucionais que outorgam competência legislativa para instituição de tributos pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios são legissignos, na medida em que são tipos gerais, que se voltam ao futuro (o “vir a ser”), onde a continuidade é marca predominante.
Tais legissignos precisam de outros (réplicas151) para ganharem significação. É exatamente o caso em apreço, ou seja, se não houver a instituição (individualizada – pelo prisma da generalidade do comando constitucional) do tributo pelo ente competente, aquele signo geral existente no texto constitucional não atuará no universo fenomênico.
151 “...a esses sinsignos, Peirce denominará Réplicas dos legissignos, afirmando que esses últimos
somente atuarão no universo fenomênico, através dessas réplicas experienciáveis.” (SILVEIRA,
Ora, se o conflito é secundidade (sinsigno, portanto), mas este pode figurar como réplica de um legissigno, possibilitando sua atuação no mundo fenomênico, então é possível concluir que o conflito também pode ser um legissigno (abstrato), ainda que dependa da concreção para no universo dos fenômenos agir.
Mais do que isso, é possível representar (regrar) certas relações intersubjetivas na busca da não ocorrência de conflito interno, ou seja, é perfeitamente aceitável a existência de um legissigno representando, e normatizando, um conflito aparentemente possível, na pretensão de evitar sua ocorrência ou facilitar a solução do conflito (sinsigno) caso ele se instaure (essa questão será retomada no item 3.4.). Vamos adiante: