Dos conflitos interpessoais ao conflito social
Dos conflitos interpessoais ao conflito social
Dos conflitos interpessoais ao conflito social
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questão da segurança dos moradores, como se viu, é vista como uma questão coletiva. Conforme já explicitado, os prejuízos da violência são sentidos coletivamente, numa época em que o crescimento da violência urbana nas áreas periféricas das grandes cidades começa a se tornar um fenômeno visível. As análises sobre o tema indicam os anos 1980 como um período de transformação do problema social do crime e da violência.Mas, diferentemente dos moradores de bairros centrais, a periferia aparece no discurso de seus moradores como uma realidade geográfica à parte. É natural acreditar que a distância, a diferenciação da paisagem e a diferença social constituam limites não só de fato, mas de direito, à ação da polícia e do Judiciário nesses bairros distantes. Existe uma certa aceitação da incapacidade do poder público em oferecer segurança aos bairros da periferia. A falta de policiamento não é vista como irresponsabilidade de uma política pública de segurança ineficaz e ultrapassada, que deveria ser exercida igualmente em todos os lugares. A periferia enxerga-se como tal, não apenas geograficamente, mas também politicamente.
A todo instante, os moradores entrevistados fazem duras críticas ao trabalho policial, à sua ineficiência, à sua ineficácia, à corrupção, à violência. Contam casos acontecidos consigo ou com pessoas próximas. Reconhecem na ação policial atitudes racistas, discriminatórias em relação à periferia e a seus habitantes. Apresentam
todos os motivos pelos quais não se deve confiar na polícia. Mas, quando se pede aos moradores uma reflexão sobre o modo adequado para solucionar o conflito, a polícia é sempre lembrada e vista como um recurso de pacificação social.
Em relação ao Judiciário, constatou-se uma dualidade nos discursos. De um lado, a Justiça Pública é vista como o meio mais adequado para resolução de conflitos criminais. Num plano ideal, as falas sobre a justiça oficial são sempre positivamente valoradas. Entretanto, quando se fala da prática, fala-se também da morosidade, dos altos custos dos serviços de advocacia, dos recortes de classe nas sentenças judiciais. Quando se fala especificamente da Justiça Criminal, fala-se de experiências concretas de violências vividas pelos entrevistados ou por pessoas queridas, que são experiências de injustiça.
Os conflitos criminais vividos pelas pessoas que moram na periferia da grande metrópole estão na periferia da ação do Judiciário.
Diante dessa sua condição de periferia política, a comunidade do bairro ocupa os espaços que o Estado não se interessa em ocupar. Cuida de sua própria segurança, e às vezes de sua própria justiça. Embora, manifeste-se no discurso um desejo de inclusão desses conflitos na esfera estatal e pública.
Os casos de linchamento aqui revisitados são histórias de conflitos que não encontraram uma via de canalização nas instâncias oficiais. Mas foram absorvidos pela mobilização da comunidade diante do medo e do sentimento de injustiça coletivos. A revolta mobiliza a rede de relações da vizinhança para a ação de justiça popular. E essas ações são vistas pelos moradores dos bairros como uma produção efetiva de justiça, em que o coletivo recupera uma correlação de forças que havia sido violada, instaurando um novo equilíbrio no lugar onde havia a tensão entre os grupos de moradores e bandidos. Esse novo equilíbrio traz consigo um novo tempo, um tempo menos violento.
Aos olhos dos moradores, portanto, a justiça popular praticada na forma do linchamento concorre com a justiça oficial e apresenta sua vantagem, na medida em que interfere no conflito com os bandidos e promove a pacificação do bairro. Apesar
de idealmente reivindicada, a justiça dos tribunais não atua no tempo nem no espaço do bairro. E o que sobressai são relações políticas de outra natureza, que ancoram e legitimam as ações da justiça popular.
Essa tensão política de inclusão/exclusão faz com que se leia os linchamentos aqui estudados não apenas como resposta aos conflitos interpessoais no interior de uma comunidade articulada de modo específico, mas como expressão do próprio conflito social. O linchamento, além de um ritual de execução de justiça que repõe reciprocidades quebradas no nível local de sociabilidade, é uma expressão de ruptura com um estado de coisas, é uma forma de protesto social, contra o crime e o criminoso, mas também contra a polícia, a justiça, os políticos, que não fazem o que deveria ser feito segundo as expectativas daqueles que se revoltam ou apoiam a revolta. Justifica-se essa afirmação pela constatação de que não há uma regra geral para a ocorrência de linchamentos, não são todos os crimes de sangue que os motivam; apenas em certas situações é que eles eclodem, situações de revolta, indignação, sedição.
Como em outras situações de sedição popular, a revolta contra a condição de periferia política não propõe a revolução das relações de poder da sociedade, pois, como foi constatado, não há um desejo de destruição das instituições; ao contrário, o que se quer é expandir o Judiciário e a Polícia. Por isso, o alvo dos discursos são agentes dessas instituições, idealmente concebidas, que “deturpam” a sua verdadeira função. Assim como o alvo da ação são aqueles que imediatamente ameaçam a segurança local, como é comum, de acordo com Thompson (1998), ocorrer em sociedades em que as relações de dominação não são produzidas face-a- face entre poderosos e subalternos, mas são atravessadas por uma série de mediações e reproduções; desta forma, nos motins reage-se contra aquele que representa na situação concreta a exploração e a violação do direito à segurança que os amotinados acreditam deter.
Embora, por essas razões, nitidamente associados a movimentos conservadores, os processos aqui estudados indicam um questionamento da posição
que ocupam esses habitantes da periferia no sistema de poder desta sociedade. Da profundidade desse questionamento depende a manutenção de uma política de segurança pública e de justiça baseada na atual divisão social do trabalho de distribuição de justiça, ou uma modificação das relações de poder que permita a incorporação de uma diversidade maior de interesses no exercício do poder público.
O processo de racionalização da atividade judicial, com a constituição de um corpo específico de funcionários, com a alta codificação dos procedimentos, a construção de um campo de conhecimento e poder, encontra o seu limite nas revoltas populares que caracterizam a ocorrência dos linchamentos. Estes expressam o estranhamento e a frustração das expectativas daqueles que deles tomam parte, ao mesmo tempo em que se ancoram e reforçam um contexto mental de descrédito nas instituições judiciárias oficiais, contexto em que operam dispositivos costumeiros de justiça e canalização de conflitos. Entendidos dessa forma, os linchamentos aqui estudados são expressão de um conflito de interesses que ganha uma dimensão política na medida em que questionam a desigualdade de acesso às instituições públicas, à participação nas políticas públicas, a desigualdade enfim no exercício da cidadania e da própria condição humana.
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Bibliografia citada
Bibliografia citada
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