A sociologia do Poder Judiciário no Brasil
A sociologia do Poder Judiciário no Brasil
A sociologia do Poder Judiciário no Brasil
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oa parte da discussão acadêmica a respeito do Poder Judiciário no Brasil vem se concentrando em torno do papel dessa instituição na consolidação da democracia. Muitos autores concordam em dizer que a única forma de assegurar o funcionamento da democracia social é garantir aos cidadãos o acesso à plenitude dos seus direitos, e isso só poderia ser feito através do funcionamento de um Poder Judiciário que fosse acessível e desse tratamento igual a todos. Sendo assim, o direito igualitário de acesso à justiça é o direito que assegura o acesso a todos os demais direitos. Porém, o que a experiência cotidiana e a acumulação científica nessa área vêm demonstrando é que, na sociedade brasileira, o direito de acesso à justiça não é igualitário e não tem atingido a todos.Os dados da pesquisa de vitimização da PNAD de 1988 (IBGE, 1988) revelaram que 55% das pessoas maiores de 18 anos entrevistadas em todo o país não haviam recorrido à justiça por ocasião do último conflito em que se haviam envolvido. Destas, 42,7% declararam ter resolvido seus conflitos por conta própria. Quando se tratam de conflitos criminais a porcentagem dos que não recorreram à justiça sobe para 72%.
A crítica ao sistema de justiça tornou-se ainda mais aguda com o final dos anos 1990, quando o problema do medo do crime se tornou uma questão nacional. Os pesquisadores e o senso comum disseminam a idéia de que o crescimento da violência é um reflexo do mal funcionamento da Justiça. Alguns defendem o endurecimento das leis e da atuação dos agentes de segurança e justiça. Outros defendem uma reformulação mais ampla do sistema, pois discordam da sua estruturação. Critica-se o trabalho da polícia, do Judiciário e a situação carcerária.
De acordo com Sadek, o debate sobre o Judiciário se estruturou ao redor de três eixos de problemas, ou três aspectos de um mesmo questionamento:
a relação
entre os três Poderes;
os problemas estruturais
, expressos no mal funcionamento, em problemas de administração, formação e procedimentos;
a distribuição e o
acesso desigual da justiça
, através das práticas jurídicas (Sadek e Arantes, 1994).Nos últimos anos, o Judiciário tem ganhado destaque na vida política do país, em função de uma reconfiguração de poderes trazida pela Constituição de 1988, garantindo maior autonomia e independência, inclusive orçamentária (Sadek, 1996). O Judiciário vem sendo chamado a intervir mais e mais na regulação dos poderes. Além disso, existe um contexto internacional de maior demanda ao Judiciário para combater abusos dos outros poderes (Santos, 1996). As próprias sociedades civis, em muitos países, têm adotado estratégias políticas que englobam o recurso à Justiça. No Brasil, este movimento é embrionário, mas é inegável.
Este papel de mediador da política nacional, entretanto, tem tornado tensa a relação entre os poderes, pois se pede ao Judiciário que tome parte nas questões nacionais, porém sem se posicionar politicamente. O que Sadek e Arantes (1994) consideram uma situação paradoxal, mas ao mesmo tempo de fortalecimento deste poder.
Mas não é só nas questões políticas nacionais que o Judiciário tem tido sua demanda inflada. Cresce também a demanda por solução de conflitos individuais, assim como cresce o interesse da sociedade em garantias coletivas ou plurilaterais (Lopes, 1994). A partir da abertura política, com o surgimento de novos direitos, os cidadãos e as organizações intensificaram a exigência de suas garantias através de processos judiciais. Isso criou um problema estrutural para a instituição, que não conseguiu se expandir nas mesmas proporções da demanda, apesar da autonomia orçamentária que conquistou em 1988. A conflitualidade social vem se tornando mais tumultuada nos últimos anos, têm crescido as taxas de violência, a inadimplência fiscal e de contratos particulares. Porém, o número de juízes, promotores e funcionários não tem crescido para acompanhar a maior demanda por justiça. Sadek
e Arantes (1994) ainda chamam a atenção para o problema da falta de adequação dos profissionais às novas exigências da Justiça. Os concursos públicos para o Judiciário não têm conseguido selecionar pessoas para ocupar os cargos, que permanecem vagos. A Justiça, ao contrário da expectativa, vem perdendo agilidade nas decisões, seja por excesso de formalidades do rito, ou por desfuncionalidade do sistema. Além disso, lembram os autores, que existe algo como uma “mentalidade dos juízes”, que os torna avessos ao diálogo com a sociedade, ao controle externo e pouco sensíveis às mudanças que vem ocorrendo na realidade na qual estão inseridos. Esta crise estrutural, lembra Souza Santos (1996), vem ocorrendo também em outros países, e as reformas nos sistemas judiciários no mundo ainda estão em curso.
A morosidade é um capítulo à parte nessa crise, pois ela é vista pelos agentes da justiça como um mal necessário para assegurar as garantias de defesa e acusação. No entanto, pesquisas recentes têm apontado para o fato de que há uma morosidade decorrente da inadequação funcional do sistema. De acordo com Santos, Marques e Pedroso (s/d), as causas da morosidade podem ser de dois tipos: endógenas e funcionais. As causas endógenas da morosidade da justiça são aquelas inerentes ao próprio sistema judiciário, como volume excessivo de trabalho, irracionalidade na alocação de funcionários, irracionalidade de rotinas estabalecidas e consolidadas temporalmente, ou ainda problemas decorrentes de imperícia, despreparo ou negligência por parte dos responsáveis pelo serviço. As causas de tipo funcional correspondem à morosidade gerada pelas partes em litígio no processo. Esta, em regra, atende ao interesse da parte, que utiliza uma série de expedientes para que a instrução do processo não avance, na expectativa de que o tempo possa enfraquecer o conjunto probatório. No Brasil, constata-se que a morosidade da Justiça ganha contornos ainda mais evidentes, se comparada com a de outros países. O tempo médio que um processo de homicídio costuma levar aqui é ainda superior ao tempo médio que leva em Portugal, na França, na Inglaterra ou na Alemanha. Se nesses países a morosidade da justiça já é posta em questão, no Brasil
torna-se um entrave efetivo para o acesso dos cidadãos ao direito de justiça. Um processo pode correr por anos a fio, possibilitando que a memória de testemunhas se esvaneça, que os réus desapareçam do controle do Judiciário, ou então fiquem presos aguardando julgamento, gerando impacto no sistema penitenciário (NEV/USP, 1997). Toda essa demora da Justiça é muito desencorajadora para quem a ela recorre6 . De outra parte, as decisões demoradas soam como injustas não apenas para as vítimas para também para os réus, que podem vir a ser condenados muito tempo depois do delito, quando até mesmo já podem ter reorganizado sua vida e adotado um outro estilo de conduta.
Num contexto de crescimento das necessidades de intervenção nos conflitos, como é este pelo qual passa a sociedade brasileira, a falta de respostas ágeis por parte da Justiça tem provocado descrédito e favorecido a impunidade.
O terceiro aspecto que tem chamado a atenção para o Judiciário é o da administração e distribuição da justiça. Muito tem-se questionado a efetividade do princípio da igualdade de acesso à justiça no Brasil. O que se vê é que como letra de lei ele existe, mas – nas palavras de Adorno – permanece “não raro contido em sua expressão simbólica” (Adorno, 1994).
As pesquisas sociais neste campo têm demonstrado a Justiça Criminal como espaço de aplicação seletiva da lei, cujo efeito é produzir e reproduzir as desigualdades através das práticas judiciais. É neste aspecto da Justiça Pública no Brasil que se deve concentrar por ora.
Sobre as práticas jurídicas não se pode deixar de lembrar a existência de rituais de distanciamento praticados pelos profissionais da justiça (Faria, 1994), como o uso de jargões e expressões em latim. O que só contribui para a imagem de exterioridade que tem a Justiça aos olhos da população em geral, que desconhece o seu funcionamento e os mecanismos de garantia dos direitos. E é o desconhecimento da população em relação às regras da justiça que torna possível a
6Para uma análise detida sobre a morosidade no sistema de justiça brasileiro, pode se consultar o relatório nº 3 do projeto temático do NEV/USP, onde há inclusive uma análise dos mesmos processos consultados para o fim da atual pesquisa (USP/NEV, 1997).
existência e a eficácia dos mecanismos de produção e reprodução das desigualdades no interior do sistema judiciário. Contribui ainda mais com este fato, a adoção de uma estética, um gosto de classe e um estilo de vida (Bourdieu, 1983) que claramente identifica os juízes e promotores com um estrato social detentor de poder, dificultando para o restante da população identificá-los com a defesa de um interesse público.
Impossível deixar de mencionar uma anotação do caderno de campo que se refere a visitas a um equipamento público num bairro periférico da Zona Leste de São Paulo, onde funciona um Juizado Especial7. Embora de instalação muito simples, a sala de audiências dispõe de tablados, como em todos os fóruns, que põem em evidência a figura do juiz, situado acima das outras pessoas presentes. Uma das autoridades que ali servia destoava gritantemente de todos os usuários e funcionários pelas roupas que portava. A escolha das cores, dos tecidos nobres, do corte impecável, dos detalhes algo exuberantes, dos acessórios ostensivamente dourados, maquiagem completa e penteado, meias finas e salto muito altos evidenciavam um padrão de gosto e consumo de certos setores da classe alta, marcadamente contrastante com as possibilidades de consumo da população que atendia naquele bairro, onde não há um centro comercial e o shopping center mais perto dista muitos quilômetros.