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2 “ANTIRRACISMOS” E “ANTIESCRAVISMOS”: SOBRE NUANCES SÍGNICAS E IDENTITÁRIAS

2.1 PARTE I: DAS NUANCES SÍGNICAS

2.1.3 Confronto entre estudos linguísticos e discursivos

Embora não comumente alocado na história da Linguística, mas citado quando se fala dos estudos do discurso, Mikhail Mikhailovitch Bakhtin, filósofo da linguagem e filólogo de

22 Pode-se afirmar que a preocupação com a língua e suas diferentes tendências funcionalistas: precedendo aos

estudos saussurianos, desde fins do séc. XIX, com Whitney von de Gabellentz e Herman Paul, que entendiam que a língua deveria ser explicada em termos cognitivo-funcionais; passando pela década de 1920 com Roman Jakobson e suas funções da linguagem correspondentes a cada elemento da comunicação; Hymes e a competência comunicativa; Émile Benveniste e os estudos da enunciação que perceberam a ausência do sujeito nos estudos linguísticos até então; na década de 60, Austin e Searle, com os “atos de fala” e Michel Pêcheux e a Análise do Discurso ; na década de 70, Halliday. (PEZATTI, 2004).

formação, ocupou-se em trilhar as diferentes visões de língua que orientam as abordagens teórico-metodológicas a fim de definir o percurso de sua escolha. Ele apresenta, em conjunto ou alternando23 com outros pensadores russos, uma proposta confluente com os estudos que relacionam sistema e uso ao levar em conta a língua interacional e a historicidade linguística para a análise científico-acadêmica.

Os desenvolvimentos teóricos de Bakhtin/Volochínov ([1929] 2009, p.74) entram em confronto com as concepções de língua enquanto expressão do pensamento e enquanto sistema encontradas em estudos formalistas/estruturalistas para questionar tanto a precedência teórico- analítica do desempenho chomskyano quanto a langue saussureana24. Isso pode ser depreendido de sua macrodivisão de correntes de estudos da língua, que, embora por ele mesmo definida como não exaustiva de nomenclatura por vezes imprecisa25, é definida em “subjetivismo idealista” e “objetivismo abstrato”:

Na filosofia da linguagem e nas divisões metodológicas correspondentes da linguística geral, encontramo-nos em presença de duas orientações principais no que concerne à resolução de nosso problema, que consiste em isolar e delimitar a linguagem como objeto de estudo específico. Isso acarreta, por suposto, em uma distinção radical entre estas duas orientações para todas as questões que se colocam em linguística. Chamaremos a primeira orientação de “subjetivismo idealista” e a segunda de “objetivismo abstrato”. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, [1929-30] 2009, p. 74, grifos do autor).

Questionando a suposta autonomia das estruturas mentais para a formação da linguagem, Bakhtin/Volochínov ([1929-30] 2009, p.116, grifos do autor) critica o que é chamado de “subjetivismo individualista”: “[...] não existe atividade mental sem expressão semiótica. [...] Não é a atividade mental que organiza a expressão, mas ao contrário, é a expressão que

organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação.” Ele reorienta a

abordagem analítica da linguagem, analisando, de forma inversa os preceitos gerativistas para

23 A autoria de Marxismo e Filosofia da Linguagem, embora atribuída à Volochínov, é reconhecidamente de

Bakhtin. Por questões formais, no entanto, será mantida a dualidade da autoria, conforme consta na 15ª edição da versão brasileira da obra publicada pela Editora Hucitec, utilizada nesta tese.

24 Observe-se que os estudos de Chomsky são posteriores aos de Bakhtin e que, portanto, as afirmações sobre o

confronto entre os pressupostos bakhtiniano e os chomskyanos são aproximações interpretativas da noção de subjetivismo idealista ao mentalismo gerativista. O psicofisiologismo criticado pelos estudos bakhtiniano também se coaduna com o naturalismo linguístico da Teoria da Gramática Gerativa. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV ([1929- 30] 2009; RAPOSO, 1992).

25 Trata-se do não contentamento com a denominação “subjetivismo idealista” expressa em Marxismo e Filosofia da Linguagem. Cf. nota de rodapé em BAKHTIN/VOLOCHÍNOV ([1929-30] 2009, p.74).

os quais a criatividade da língua seria possível justamente pela existência de estruturas mentais inatas que gerariam sentenças numerosas a partir de dados precários e limitados.

No trecho a seguir, Bakhtin/Volochínov ([1929] 2009, p.33 e 34, grifos do autor), designa e critica essas teorias pelo seu prisma mentalista:

[...] O idealismo e o psicologismo esquecem que a própria compreensão não pode manifestar-se senão através de um material semiótico (por exemplo, o discurso interior), que o signo se opõe ao signo, que a própria consciência só pode surgir e se afirmar como realidade mediante a encarnação material em signos. Afinal, compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros signos já conhecidos; em outros termos, a compreensão é uma resposta de signos a outros signos. E essa cadeia de criatividade e de compreensão ideológicas, deslocando-se de signo em signo para um novo signo, é única e contínua: de um elo de natureza semiótica (e, portanto, também de natureza material) passamos sem interrupção para um outro elo de natureza estritamente idêntica. Em nenhum ponto a cadeia se quebra, em nenhum ponto ela penetra a existência interior, de natureza não material e não corporificada em signos.

Ele desloca a compreensão do terreno mental, interior e monológico que inclui estudos quer behavioristas, quer “biologicizantes” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, ([1929] 2009, passim) para o terreno intersemiótico, exterior e dialógico. Desse modo, reluta em confinar os mecanismos de significação da língua para o campo interior, ainda que isso se configure como uma deliberação consigo mesmo. Esclarece ainda que a intercompreensão é intersígnica, pressupõe a transliteração de uma realidade simbólica em outra, formando uma cadeia semiótica.

Bakhtin/Volochínov delimita a criatividade linguística a partir desse encadeamento sígnico ininterrupto, não lacunar, que não permite, por isso, que se situe a geração da língua em uma instância não material, não concretamente realizada em um tempo e espaço delimitados. Conclui, desse modo, que a ideologia não é fruto de mecanismos psicofisiológicos, já que a “realidade dos fenômenos ideológicos é a realidade objetiva dos signos sociais”. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, [1929-30] 2009, p.36) A partir disso, expõe as limitações de atuação do linguista:

O restante da tarefa do linguista não teria senão um caráter preliminar, construtivo, descritivo, classificatório e limita-se simplesmente a preparar a explicação exaustiva do fato linguístico como proveniente de um ato de criação individual, ou então a servir a finalidades práticas de aquisição de uma língua dada. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, [1929-30] 2009, p. 74).

Coadunando-se com isso, Michel Pêcheux ([1969] 1997b, p.62, grifos do autor), que incorporou as contribuições dos estudos linguísticos em sua teoria, também problematiza a ênfase saussureana do sistema, quando diz que:

[...] Ora, o deslocamento conceitual introduzido por Saussure consiste precisamente em quebrar essa homogeneidade cúmplice entre a prática e a teoria da línguagem: a partir do momento em que a língua deve ser pensada como um sistema, ela deixa de ser compreendida como tendo a função de expressar um sentido; ela torna-se um objeto do qual uma ciência pode descrever o funcionamento (retomando a metáfora do jogo de xadrez utilizada por Saussure [...] não se deve procurar o que cada parte significa, mas quais são as regras que tornam possível qualquer parte, quer se realize ou não). A conseqüência desse deslocamento é, como se sabe, a seguinte: o “texto”, de modo algum, pode ser o objeto pertinente para a ciência lingüística, pois ele não funciona, o que funciona é a língua, isto é, um conjunto de sistemas que autorizam combinações e substituições reguladas por elementos definidos, cujos mecanismos colocados em causa são de dimensão inferior ao texto: a língua, como objeto de ciência, se opõe à fala, resíduo não-científico da análise.

Bakhtin/Volochínov ([1929-30] 2009, p.117) continua delimitando sua abordagem do signo, confrontada agora com as escolhas analíticas de Saussure. Diferente do pensamento do genebrino, essa definição do signo não seria via forma acústica, significante, correspondente a um conceito. Ele considera “não o ato físico de materialização do som, mas a materialização da palavra como signo”. Desse modo, considera justamente a parole, a fala, elemento apartado por Saussure por ser heterogêneo e contingente como alvo de seus estudos:

Destaquemos esta tese fundamental de Saussure: a língua se opõe à fala como o social ao individual. A fala é, assim absolutamente individual. Nisto consiste, como veremos, o proton pseudos de Saussure e de toda tendência do objetivismo abstrato. O ato individual da fala-enunciação, rechaçado decisivamente para os confins da linguística, aí encontra, todavia, um lugar como fator indispensável. Esta última, de acordo com o espírito de toda a segunda orientação, opõe-se rigorosamente à língua como sistema sincrônico para Saussure. Na história da língua, a fala, com seu caráter individual e acidental, é soberana; razão pela qual é regida por leis completamente diferentes das que regem o sistema da língua. (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, ([1929] 2009, p.89, 90).

Em suma, Bakhtin /Volochínov ([1929-30] 2009, p.129) organiza seus estudos em torno da ideia de que “A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes.” O pensador russo se contrapõe principalmente à a-historicidade do signo em abordagens da língua enquanto sistema sincrônico, homogêneo e imutável. Ele parte da crítica de que o falante

receberia um sistema pré-definido, pronto, fechado em leis intralinguísticas convencional e arbitrariamente repassadas pela comunidade linguística, culminando com a observação seguinte:

Para esta segunda orientação do pensamento filosófico-linguístico, o fato mais significativo é o fosso que separa a história do sistema linguístico em questão da abordagem não histórica, sincrônica. A argumentação fundamental da segunda orientação faz deste fosso dialético um fosso intransponível. Entre a lógica que governa o sistema de formas linguísticas em um determinado momento da história e a lógica (ou antes, a ausência de lógica) da evolução histórica destas formas, nada pode haver em comum. São duas lógicas diferentes. Ou melhor, se nós reconhecemos uma como sendo lógica, então a outra deve ser definida como alógica, isto é, como negação pura e simples da lógica estabelecida.

Ele percebe o objetivismo abstrato com seu deslocamento do sujeito e sua concepção estática de língua como submetidos a uma lógica que não se aplicaria àquilo que não foi abarcado pela teoria: a língua dinâmica, subjetiva e concreta. Não é, no entanto, um ataque à visão de língua enquanto sistema objetivo e abstrato que ele empreende. Isso fica patente quando ele se refere a esses estudos como alógicos e não ilógicos.

Não se trata, portanto, da inexistência de um desenvolvimento de um raciocínio sobre língua, mas da negação desse percurso de pensamento em privilégio de outro. Nega-se então a lógica do objetivismo abstrato assentado, segundo Bakhtin/Volochínov ([1929-30] 2009, p.85), nas proposições de estabilidade e imutabilidade da língua, submetida a leis internas, desvinculada de seus sentidos. A fala deixa de ser encarada como anomalia, como uma deformação do sistema e passa a ser passível de análise. A partir disso, Bakhtin/Volochínov ([1929-30] 2009, p.129) segue propondo que a ordem metodológica para o estudo da língua deve ser a seguinte:

1) As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza.

2) As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados, em ligação estreita com a interação de que constituem os elementos, isto é, as categorias de atos de fala na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal.

3) Exame das formas da língua na sua interpretação linguística habitual.

Então a análise das “formas e tipos da interação verbal”, da língua enquanto situações concretas de comunicação, deve ter precedência à análise “linguística habitual”. Vê-se, com isso, que Bakhtin não menospreza o trabalho dos estruturalistas, mas reverte a ordem metodológica incluindo os estudos dos signos submetidos a um contexto de realização social como

prioritários. Isso é coerente com a ideia de que “O estudo da enunciação como unidade real da comunicação discursiva permitirá compreender de modo mais correto também a natureza das unidades da língua (enquanto sistema) – as palavras e orações”. (BAKHTIN, [1951-53] 2010, p.269). Com isso, não limita sua análise a níveis da língua como fazem as abordagens que veem a língua enquanto sistema:

Quando se analisa uma oração isolada, destacada do contexto, os vestígios do direcionamento e da influência da resposta antecipável, as ressonâncias dialógicas sobre os enunciados antecedentes dos outros, os vestígios enfraquecidos da alternância dos sujeitos do discurso, que sulcaram, de dentro, o enunciado, perdem-se, obliteram-se, porque tudo isso é estranho à natureza da oração como unidade da língua. (BAKHTIN, [1951-53] 2010, p.306).

O autor, além disso, ao longo de sua escrita, ressalta que a abordagem em língua, nas áreas de gramática e estilística não devem ser excludentes – embora possam manter sua integridade metodológica – já que as unidades do sistema linguístico, quando postas em uso comunicativo, são realocadas como enunciados. Para ele, o enunciado adquire suas propriedades significativas e ideológicas quando relacionado à situação de comunicação concreta e a campos imateriais, cunhando assim o conceito de signo ideológico-interacional.

[...] os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. Nenhum fenômeno novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o sistema da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos.

[...] Pode-se dizer que a gramática e a estilística convergem e divergem em qualquer fenômeno concreto de linguagem: se o examinarmos apenas no sistema da língua, estamos diante de um fenômeno gramatical, mas se o examinarmos no conjunto de um enunciado individual ou do gênero discursivo, já se trata de fenômeno estilístico. Porque a própria escolha de uma determinada forma gramatical pelo falante é um ato estilístico. (BAKHTIN, [1951-53] 2010, p. 268 e 269).

O signo saussureano, tanto em sua dimensão individual, parole, quanto em sua dimensão social, a langue, também é questionado por Michel Pêcheux ([1969] 1997b). Pêcheux, para a construção de sua Análise Automática do Discurso, não considera a construção dos sentidos nem como algo que parte do centramento de um único indivíduo, nem como calcado em valores universalmente compartilhados. A crítica ao estruturalismo saussureano também incidia sobre “seu caráter anti-historicista, anti-idealista e anti-humanista” pois ele, ao enxergar somente a primazia intrassistêmica, observa o signo de modo desvinculado questões ideológicas, políticas

e históricas, desconsiderando, portanto, tudo o que permeia as relações sociais humanas. (ILLARI, 2004, p.83). Sobre isso, Pêcheux ([1969] 1997b, p.61, grifos do autor) contesta ainda o método de investigação semântica via análise de textos puramente, referindo-se a esse método como uma prática do passado, quando diz:

Até os recentes desenvolvimentos da ciência da linguística, cuja origem pode ser marcada com o Curso de Linguística Geral, estudar uma língua era, na maior parte das vezes, estudar textos, e colocar a seu respeito questões de natureza variada provenientes, a mesmo tempo, da prática escolar que ainda é chamada de compreensão de texto, e da atividade do gramático sob modalidades normativas ou descritivas; perguntávamos ao mesmo tempo: “De que fala este texto?”, “Quais são as ideias principais contidas neste texto?” e “Este texto está em conformidade com as normas da língua na qual ele se apresenta?”, ou então “Quais são as normas próprias a este texo?” [...] mais precisamente, as questões concernentes aos usos semânticos e sintáticos colocados em evidência pelo texto ajudavam a responder às questões que diziam respeito ao sentido do texto [...]

A partir disso, Pêcheux ([1969] 1997) propõe uma análise que nem se circunscreva às possibilidades intratextuais, por meio de uma análise intralinguística, nem se filie a uma busca das intenções do autor do texto, como indivíduo convertido em única e autêntica fonte de sentido. A análise pêcheutiana se volta para a investigação daquilo que é político, mediante a análise da instância ideológica, cujas marcas discursivas ficam presentes na língua.