2 “ANTIRRACISMOS” E “ANTIESCRAVISMOS”: SOBRE NUANCES SÍGNICAS E IDENTITÁRIAS
3 LEGISLAÇÃO ANTIESCRAVAGISTA: PARADOXOS IDENTITÁRIOS DISCURSIVO ARGUMENTATIVOS
3.2 SER ANTIESCRAVAGISTA E PROJETOS LEGISLATIVOS: TOPO
ARGUMENTATIVOS
Vistos em retrospecto, os antiescravagistas constituíam-se como um grupo cada vez mais denso na década final de 1800. Pode-se, no entanto, notar que a formulação e aprovação da Lei nº 2.040 de 28 de setembro de 1871 (a Lei do Ventre Livre) formam um impulso para a retomada dessa posição posteriormente. Essa foi uma conduta iniciada em anos anteriores que não só se manteve, como culminou no final deste século. No entanto, essa recoberta imagem do abolicionismo sob o signo da juventude, da vanguarda, do espírito cristão e do progresso, abrigava uma gradação identitária, formando um continuum antiescravagista81 cujas
81 Gradação essa que também é aplicada para o antirracismo neste trabalho, cf. Fig 2: Relação dos antirracismos
extremidades referendavam posturas mais para moderadas, à esquerda, e mais para radicais, à direita, conforme a admissão da abrangência manumitiva.
Arrisca-se a dizer que a razão para que nessa época já se apresentasse o comportamento de não se assumir escravagista de modo franco e público era o desejo de não associação do escravagismo com ideias não tão positivas como regresso e incivilidade, já iniciadas décadas antes, as quais deslocariam o indivíduo para o extremo antiescravagista. (MENDONÇA, 2008; BARBOSA [1884] 1945). Era um período em que se buscava alinhar-se com a resolução do “problema da extincção da escravatura no Brazil, visto o estado actual da opinião no mundo civilisado”. (TEEB, 1868, p.19) Porém, não raro, a identificação como antiescravagista não evitava o viés mais conservador motivado pela projeção das futuras relações interindividuais senhor-liberto, pendendo para a formação ideológica escravagista.
O gerenciamento da abolição pelo Estado confronta-se com a vertente mais conservadora antiescravagista. Mais comumente, declara-se que não haveria a generalização da volição escravagista, mas sim uma contrariedade instaurada pelos senhores que não legitimavam a atuação da instância governamental para as manumissões generalizadas. Inclusive há uma atribuição axiológica para os seguimentos que eram libertos com e sem a ação jurídica.
De acordo com a análise da historiadora Joseli Maria Nunes Mendonça (2008), haveria uma classe de “bons libertos” constituídos por aqueles cuja manumissão era providenciada pela iniciativa dos próprios senhores. Essa classe entrava em confronto com os “maus libertos”, manumitidos pela lei. (MENDONÇA, 2008, p. 252-256).
Os “bons libertos” representavam a libertação ideal para o senhorio, pois preservaria a sua autoridade, validando seus direitos no que respeita à sua propriedade, principalmente. Subjacente a isso, insuflaria a gratidão do manumitido, que se sentiria justamente recompensado pela “generosidade” de seu ex-senhor. Por outra ótica, haveria um ganho adicional sobre o grupo dos demais cativos: a disciplina dos que podem ser chamados de “manumitentes” ou de “promitentes manumitidos”. Ou seja, a pacificação daqueles que teriam um aquietamento pela expectativa de serem os próximos contemplados pela eventual disposição de seu senhor em libertá-los.
Opostos a esses “bons libertos” seriam os alforriados pelo Estado. Presumia-se que a intervenção pelo parlamento representaria uma perturbação das relações hierárquicas nas propriedades já que isso possibilitava que os senhores fossem vistos como inimigos: um grupo que até então possuía a prerrogativa do domínio sobre outro entendido como um direito de tempo e de abrangência indefinidos, agora tinha seu estatuto contestado.
Isso era entendido como “mau”, portanto, por um outro motivo. Trocava-se, com a possibilidade de liberdade pelo Governo, o retrato de pessoas cujo direito à propriedade era incontestável pela imagem negativa de um grupo que negava direitos a outrem, tanto que foi necessário o resgate pela iniciativa externa, da lei. Além disso, a interferência jurídica82 era vista como desnecessária e inoportuna, já que, em um prazo próximo – consoante a concepção de que haveria uma abolição em larga escala, seja pela morte de toda aquela geração cativa, seja pela soma crescente das iniciativas individuais em se alforriar –, a escravidão teria seu fim.
A concepção de antiescravagismo alargado assumida mais fortemente em fins de 1880, prolonga a voz do deputado Raimundo José da Cunha Matos83, reportada por Rui Barbosa ([1884] 1945). O deputado investe no ano de 1827 contra a Lei de 7 de novembro 1831, a qual pretendia proibir o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, declarando-as sumariamente livres se encontradas nas situações previstas em seus artigos. Para tal parlamentar, esse acordo era, entre outras definições, “prematuro, extemporâneo, enormemente daninho ao comércio nacional” (BARBOSA, [1884] 1945, v.11, t.1, p.62). Mas ele, mesmo assim, desde então não se considerava escravista, “por modo nenhum”:
“Por modo nenhum”, dizia êle, “me proponho defender a justiça e a eterna conveniência do comércio de escravos para o Império do Brasil: eu não cairia no indesculpável absurdo de sustentar, no dia de hoje e no meio dos sábios de primeira ordem da nação brasileira, uma doutrina que repugna às luzes do século, e que se acha em contradição com os princípios de filantropia geralmente abraçados: o que me proponho é mostrar que ainda não chegou o momento de abandonarmos a importação dos escravos; pois que não obstante ser um mal, é um mal menor do que não os recebermos” (BARBOSA, [1884] 1945, v.11, t.1, p.62-3).
82Saliente-se que, para o período abordado, não se faz uma referência ao Judiciário como um poder específico, já
que então as decisões de cunho legal eram tomadas pelo Estado Imperial, mas a uma lei específica ou a um conjunto delas.
83 Nasceu em Algarve, na cidade de Faro em 02 de novembro de 1976. Seus pais eram Alexandre Manuel da Cunha
Mattos e Isabel Theodora Cecilia de Oliveira. Faleceu em 2 de março de 1839 no Rio de janeiro. Para mais informações, consultar o Diccionario Bibliographico Brazileiro de Augusto Victorino Alves Sacramento Blake (1883), vol. 7, p. 112.
O parlamentar revela a aderência a uma identidade antiescravagista, afins aos ideais de filantropia e humanismo então vigentes, “geralmente abraçados” em uma época já considerada progressista. Perelman e Olbrechts-Tyteca ([1958] 2005, p.96) embasam o acordo em tomadas de decisão pessoais que se ancoram em escolhas socialmente aceitas: “Quando um acordo é constatado, podemos presumir que é fundado sobre os lugares mais gerais aceitos pelos interlocutores”. Assim, Cunha Matos busca fundamentar sua argumentação em uma rede segura de valores ancorados pela chancela social.
Os topoi argumentativos ocupam-se justamente do arranjo desses valores gerais já que são os lugares-comuns, ou os topoi, como princípios argumentativos, como “ponto de partida das argumentações”, “primeiros acordos no campo do preferível, dos quais todos os outros poderiam ser deduzidos e que eles permitiriam, portanto, justificar”. (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, [1958] 2005, p. 95 e 105, grifo dos autores). Esses lugares “são premissas de ordem geral utilizadas para reforçar a adesão a certos valores” e hierarquias. (ABREU, 2009, p. 85). Quando se empregam os lugares argumentativos, pressupõe-se, portanto, que eles sejam comuns ao orador e ao auditório alvo, pelo menos, sendo um compartilhamento de ponto de vista esperado; postula-se uma generalidade já que eles podem ser aplicados a situações análogas e aplica-se a ideia de gradação porque há a movimentação axiológica em uma escala valorativa.
Portanto, a estratégia de Cunha Matos pode ser analisada como a recorrência a hierarquias de valores, que podem ser aplicados em larga escala, configurando-se em “um primeiro passo” para acessar a eficácia argumentativa. (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, [1958] 2005, p. 73) Tal organicidade argumentativa relaciona ainda classificações de argumentos que não são estáticas. De modo macro, os argumentos podem ser agrupados em lugares de quantidade e de qualidade. Relacionam-se ainda quatro subclassificações didáticas em lugares-comuns de ordem, de pessoa, de essência e do existente. Essas classificações são meramente didáticas, já que o falante pode, a depender das solicitações da situação de comunicação arranjar esses argumentos para melhor convencer e/ou persuadir o interlocutor.
De um modo sintético, pode-se dizer que os lugares comuns de ordem compreendem que uma coisa é melhor do que a outra pela relação de casualidade ou pela anterioridade, por exemplo. Acessar esse tipo de argumento requer a leitura de que a valorização de algo em determinada ordem, é a principal disposição axiológica de determinado auditório para determinada dinâmica
comunicativa. Os lugares de pessoa, por sua vez, podem ser os mais acessíveis. Eles têm sua origem e primam valores relacionados ao ser humano, recorrem à argumentação que prima pelas pessoas, pelo humanitarismo, pelo empenho, pelo mérito, pela dignidade e pela autonomia. Já os topoi de essência afirmam-se por valores tanto éticos e/ou estéticos. Quem a eles aderem, veem esses valores materializados por um padrão, uma essência, sendo legitimados por essa suposta aceitação da imanência de valor. E os lugares argumentativos do existente, por fim, valorizam o que existe, o real, o concreto, sobre o que não existe, o possível, o utópico.
A organização argumentativa desse parlamentar pautada nos valores “geralmente abraçados” é o que articula, em uma mesma postura antiescravagista declarada, a seleção de argumentos contrários à abolição abrangente, por um lado, e favoráveis ao escravagismo permanente, por outro. Declarar-se a favor do tráfico de pessoas para mantê-las em cativeiro e trabalho forçado, ainda que pontual, seria concordar com o prosseguimento do influxo de pessoas em cativeiro e do modo de produção escravocrata, já que tanto a extinção do tráfico quanto a libertação dos nascituros das escravas representariam, para a escravidão, o ponto final. (MENDONÇA, 2008). Consequentemente, a escolha dos topoi incorre em adesão ou não à argumentos apresentados. Os lugares argumentativos, se mal escolhidos, se vistos como tendenciosos, presunçosos ou até mesmo enganosos pelos auditores, ao invés de propor a ligação com os valores dispostos, resultam em dissociação. Por isso, para preservar sua defesa verbal do antiescravagismo, bem como a subjacente identidade antiescravagista, o orador deve atentar para a organização das preferências do auditório, alvo de sua argumentação:
O orador, utilizando as premissas que servirão de fundamento à sua construção, conta com a adesão de seus ouvintes às proposições iniciais, mas estes lha podem recusar, seja por não aderirem ao que o orador lhes apresenta como adquirido, seja por ficarem contrariados com o caráter tendencioso da apresentação delas. (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, [1958] 2005, p. 73).
Para quem adere a essa rede comum de valores, tanto elaborada durante a suposição dos anseios do auditório quanto reelaborada na dinâmica comunicativa, o antiescravagismo desse parlamentar e de seu grupo apoiador é verdade factual. Para outros, afins a outros arranjos de valores, o caráter antiescravagista de si e de seu texto pode ser considerado uma verdade presumida ou ainda uma manifestação de escravagismo:
Não seria possível, nem conforme ao nosso propósito dar ao fato uma definição que permita, em todos os tempos e em todos os lugares, classificar este ou aquele dado concreto como sendo um fato. Cumpre-nos, ao contrário, insistir que, na argumentação, a noção de “fato” é caracterizada unicamente pela idéia que se tem de certos gêneros de acordos a respeito de certos dados: os que se referem a uma realidade objetiva e designariam [...] “o que é comum a vários entes pensantes e poderia ser comum a todos”.
Só estamos em presença de um fato, do ponto de vista argumentativo, se podemos postular a seu respeito um acordo universal, não controverso. [...] (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, [1958]2005, p.75 e 76).
A organização e classificação de valores pró e contra que regem as discussões acerca das leis antiescravagistas também formam o espectro acerca do que seria a verdadeira ação ou identidade antiescravagista. Essa verdade é relacional, já que depende do reconhecimento, ao mesmo tempo compreendido como identificação e autenticação, por parte do auditório. Trabalha-se então menos com a categoria de verdade do que com a de “preferível, que conteria os valores, as hierarquias e os lugares do preferível”. Ou ainda pode-se trabalhar com a noção de uma verdade particular que é compreendida como universal. O modo como esses valores são acessados e agrupados matiza a autenticidade do que seria a abolição para determinados grupos a depender de uma postura antiescravagista mais radical, moderada ou conservadora.