Discurso subjacente
4.2 MOTO LEGISLATIVO ANTIRRACISTA: A DISSOCIAÇÃO ENTRE DEMOCRACIA E DISCRIMINAÇÃO
4.2.3 Lei 12.288/2010: o divergente Estatuto da Igualdade Racial
O senador Paulo Paim, ao submeter ao Senado, o PL nº 213 de 2003, que institui o Estatuto da Igualdade Racial, talvez não tivesse dimensão dos seus desdobramentos. Não obstante a relevância da matéria, esse projeto só foi finalmente aprovado dois anos após sua apresentação, em 2005, mais especificamente no dia 29 de setembro, quando foi submetido à não definitiva Comissão de Assuntos Sociais – CAS. Para a aprovação final, o projeto deveria passar pela CCJ. Tudo indicava a brevidade disso, já que, na CAS, o PL fora unanimemente bem recebido. Sobre o espírito daquele dia, o aparte de Rodolpho Tourinho (PFL/BA142) é elucidativo. Ele
compreende o lugar do estatuto como propiciatório da melhoria das condições de vida da população negra, inclusive a quilombola, percebendo-o como um instrumento de redução de desigualdades. Dada a relevância do projeto, ele prevê que uma iminente aprovação na CCJ:
Entendo que é uma longa luta que o Senador Paulo Paim trava, por muitos anos, tendo inclusive apresentado, quando Deputado, projeto semelhante na Câmara dos Deputados, cuja tramitação, até hoje, não se encerrou. Mas este 141 Saliente-se sua alteração pela Lei 11.645 de 10 de março de 2008, que inclui o estudo da História Afro-Brasileira
e Indígena.
142 Atualmente a legenda desse partido é a do Democratas (DEM), de conservadorismo liberal, de centro-direita.
do Senado terá sua tramitação concluída. Depois de passar por três Comissões, este importantíssimo projeto vai ainda à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, onde é terminativo. Nessa marcha, poderemos aprovar ainda neste mês, certamente, este projeto. Creio que o objetivo comum é aprová-lo antes de 20 de novembro, Dia de Zumbi, data muito importante para ser utilizada como marco dessa aprovação. (DSF nº157, 30/09/2005, p.33475).
As razões para essa convicção são esclarecidas ao longo de seu pronunciamento. O PL 213/2003 é valorizado pela promoção da amplitude de direitos: “à saúde, à educação, a cultura, esporte e lazer, os direitos à liberdade de consciência e de crença e ao livre exercício dos cultos religiosos”. Ele acrescenta que outras determinações como a demarcação de terras a quilombolas, medidas inclusivas ao mercado de trabalho e a formação de um fundo garantidor para a igualdade racial. Saliente-se sua observação acerca da natureza do antirracismo no Brasil, caracterizando-o como um racismo não assumido, velado inclusive pelo expediente legal, que proclama uma ilusória igualdade:
Sabemos todos que o Brasil está longe de ser um País em que todos são iguais, prova desse fato são as inúmeras pesquisas que mostram as desigualdades existentes entre negros e brancos com respeito ao analfabetismo, à repetência, à evasão escolar, às oportunidades de trabalho e aos salários.
Diferentemente de países em que a desigualdade entre negros e brancos foi claramente sancionada em lei, no Brasil a discriminação contra os negros instituiu-se de uma maneira que, veladamente, tem escapado ao mandamento formal de que todos são iguais perante a lei. (DSF nº157, 30/09/2005, p.33475, grifo nosso).
A referida fala do senador apresenta, como argumento da relevância do PL o fato de ele atuar contra as desigualdades sociais de base racial no Brasil. Ancorada seu comentário acerca disso em pesquisas que demonstram que a população negra é o alvo da defasagem salarial, da não inserção ou de ocupações menos privilegiadas no mercado de trabalho e da baixa escolaridade ou mesmo do analfabetismo. Tourinho reverbera as dissociações anteriormente abordadas “democracia/discriminação” e “antirracismo/racismo” no esquema seguinte:
Ilustração 9 – Esquema F. Dissociação nocional discriminação aparente/discriminação velada
Fonte: Machado (2019).
Discriminação aparente _____________________________
Dissociação essa implícita, obtida no seio das noções trazidas pelo termo I “democracia” e valorizando o diálogo com o termo II “discriminação” cujos sentidos foram ampliados pelo modificador “veladamente”. (FIORIN, 2015). “Discriminação aparente/discriminação velada” constitui-se ainda como uma ressonância da dissociação nocional “discurso aparente/discurso subjacente”, já que concebe o real como uma distorção discursiva, cuja assunção de uma identidade democrática e antirracista convive e é confrontada pela admissão de uma realidade social discriminatória e racista. Por sua vez, essa realidade é ainda descrita opondo “segregação racial assumida/segregação racial “dissimulada”:
Ilustração 10 – Esquema G. Dissociação nocional segregação racial “assumida”/ segregação racial “dissimulada”
Fonte: Machado (2019).
Que atualiza os pares valorativos “aparente/velado” ou “real/subjacente” em que o foco discursivo-argumentativo está presente no termo II, cuja tese é defendida e os sentidos priorizados. Isso fica evidente neste excerto:
Essa forma não legalizada de discriminação possui, contudo, raízes profundas. Apesar de ser expressão da cultura dominante no País, a segregação racial dos negros é dissimulada e não assumida. Se não forem levadas em conta tais características, não se consegue entender a contradição de uma mesma pesquisa de opinião constatar que a maioria dos brasileiros acredita na existência de discriminação contra os negros e que a maioria igualmente declara não discriminá-los. (DSF nº157, 30/09/2005, p.33475).
Para o senador, esse projeto incidiria sobre a lacuna deixada pela Lei 3.353 de 13 de maio de 1888, a qual não havia especificado as relações étnico-raciais do pós-abolição:
O projeto de V. Exª, Senador Paulo Paim, contempla, de certa forma, a Lei Áurea, ao contribuir de forma notável para superar a discriminação racial que os negros brasileiros têm sofrido, motivo por que se impõe a sua aprovação. [...]
Não podemos aceitar aquilo que foi dito por alguém e que o Senador Paulo Paim citou na Bahia: “Os negros estão condenados no Brasil a um ciclo de reprodução da pobreza não por serem pobres, mas por serem negros”. Isso nós não podemos aceitar. (DSF nº157, 30/09/2005, p.33475).
Segregação racial “assumida” _____________________________
A importância da pauta do Estatuto da Igualdade Racial é também constatada ao se fazer uma remissão histórica. A recorrência a argumentos históricos, numéricos e por comparação com a realidade estadunidense é uma estratégia já utilizada por parlamentares de tempos idos como abordado no Capítulo 3 desta tese. Em 21 de novembro de 2011, um dia após o Dia Nacional da Consciência Negra, quem utiliza essa combinação de argumentos, desta vez para amparar seu ponto de vista acerca dos efeitos obtidos pelo Estatuto da Igualdade Racial, então em vigor há mais de um ano, é o senador Aníbal Diniz (PT/AC). Ele baliza sua argumentação acerca da realidade étnico-racial do Brasil de então:
Brasil é o maior País negro fora da África. São noventa milhões de afrodescendentes declarados vivendo em nosso território, enriquecendo nossa cultura, contribuindo com seu trabalho para o progresso e a grandeza do País. Vale a pena ressaltar dois aspectos muito importantes: mesmo que os negros sejam a maioria da população brasileira, a sua participação nas funções políticas do nosso País é muito restrita. Também nos nossos tribunais e nos nossos organismos de decisão mais importantes do Brasil, a participação dos negros ainda é muito restrita. Vale a pena ressaltar que, nos Estados Unidos, com a participação de apenas 18% da população negra, ocorre uma presença muito maior do negro nos espaços de decisão. Por isso, estamos a dever muito à população negra e afrodescendente aqui, no Brasil.
No entanto, a aprovação célere do PL 213/2003, infelizmente, não ocorreu. O próprio autor denuncia, na seção de 10 de outubro de 2007, a paralisação de seu projeto de lei já substituído pelo PL nº 6254/2005 da Câmara dos Deputados, o qual também estabelece critérios para o combate à discriminação racial de afro-brasileiros; alterando a Lei nº 6.015, de 1973. Como já havia feito em várias sessões desde 2005, o senador Paulo Paim fala sobre a estagnação da proposta do Estatuto, apelando pela celeridade do processo. Ele critica a inércia acerca da proposta, ao mesmo tempo que levanta a questão do desinteresse na matéria, como havia ocorrido na Lei 10.639/2003. Que fossem colocadas restrições ou contribuições, mas que houvesse movimentação e colocação em plenário:
Finalizo[...] fazendo um apelo para que a Câmara dos Deputados desengavete – está lá, cheio de teia de aranha já – o Estatuto da Igualdade Racial. Não indicaram nem o relator. Está lá há dois anos. Ora, se alguém discorda da redação, diga, altere, faça o bom debate e vote, contra ou a favor. O Senado aprovou o Estatuto votou por unanimidade. Mas não posso concordar com o fato de que há dois anos o Estatuto esteja na Câmara, guardadinho, sem que indiquem a Comissão Especial, o relator e a matéria não vá a debate e não votem contra nem a favor. (DSF nº 162, 11/10/2007, p.34779).
Tal desinteresse e morosidade ressoou mesmo após a tardia aprovação no Estatuto da Igualdade Racial sob a forma da Lei 12.288 de 20 de julho de 2010143 (que, por sua vez, alterou a Lei 7.716 de 1889 que dispõe sobre preconceito e discriminação racial). A promulgação dessa lei trouxe consigo o descontentamento com sua redação final que não incluiu providências necessárias para a almejada equidade racial e social. Tanto que a senadora Serys Slhessarenko (PT/MT), relatora do Estatuto em sua fase de projeto, quando discursa sobre o Estatuto em 16 de junho de 2010, no dia de sua aprovação na CCJ, justifica os motivos pelos quais, o texto sancionado ainda seria insatisfatório:
Não é o Estatuto dos nossos sonhos. [...] Eu inclusive vou protocolar, daqui a pouco, dois destaques ao Estatuto. Um deles é com relação a ter sido retirada do Estatuto a lei de cotas nas universidades federais, de cotas para negros. E o outro é que foi vetada, foi retirada também do Estatuto não só a lei de cotas para negros nas universidades federais, como também a questão da saúde do negro, especialmente a das mulheres negras, porque os dados que nós temos são realmente assustadores. Seis vezes mais mulheres negras morrem no parto do que mulheres brancas. Esse dado é extremamente alarmante. Por quê? Porque as mulheres negras enfrentam problemas diferentes especialmente no parto, pois elas têm problema genético diferenciado das mulheres brancas. Um dos exemplos é a questão da pressão arterial. Há uma incidência de hipertensão entre as mulheres negras, bem como de anemia falciforme. As ações de saúde da mulher negra devem ser priorizadas para atendimento especializado, e é óbvio que precisamos de capacitação de agentes de saúde para atendê-las. Então, votei a favor, mas com essas duas ressalvas.
Ela submeteu seu voto com ressalvas já que o Estatuto foi aprovado sem cobrir a população negra em aspectos que lhe atingiam diretamente como a inclusão na área de educação e saúde públicas, com a questão das cotas para ingresso em universidades públicas e preparo dos estabelecimentos, bem como dos profissionais de saúde para tratar do atendimento à mulher e à população negra em geral144.
O que poderia representar, em uma primeira análise, que as forças motrizes para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial tenham sido motivadas por um ideário liberal de fundo centro- direitista ou esquerdista, pelo número de aparteantes e pela fonte efetiva da proposta estarem ligados a esses partidos, pode ganhar outros contornos.
143 Cf. texto na íntegra no Anexo M – Lei 12.288 de 20 de julho de 2010 (Estatuto da Igualdade Racial). 144 Somente no ano de 2017 pela Portaria 344 (MS) de inclusão do quesito cor no Sistema Único de Saúde – SUS.
Segundo Douglas Belchior145, em artigo publicado em 23 de junho de 2010146, esse foi o “Estatuto do DEM”, já que, embora não proveniente deste partido, contemplaria de modo informal e oculto um grande acordo que se alinharia às ideias dessa legenda e preservaria o
status quo:
O Estatuto da Igualdade Racial aprovado pelo Senado neste dia 16 de junho foi ainda mais fundo no poço da hipócrita democracia racial brasileira. Fruto de um acordo espúrio entre o senador Paulo Paim (PT), o senador Demóstenes Torres (DEM), relator do projeto e presidente da CCJ no Senado, e o Ministro da Seppir, Elói Ferreira (representante dos interesses do ex-titular da pasta Edson Santos), significou alta traição à luta do povo negro no Brasil.
O acordo que possibilitou a aprovação do Estatuto (e que será usado como bandeira no processo eleitoral tanto pelo PT quanto pelo DEM), simplesmente enterrou as reivindicações históricas do povo negro, uma vez que o texto aprovado excluiu as Cotas para negros nas universidades, nos partidos e nos serviços públicos; excluiu a garantia do direito a titulação das terras quilombolas; excluiu a defesa e o direito à liberdade de prática das religiões de matriz africanas e não fez referência à necessidade de atenção do Estado ao genocídio cometido pelas polícias que vitimam a juventude negra.
Pior ainda que a supressão destas demandas, o texto de Demóstenes do DEM – aceito por Paim e pela Seppir, negou-se a reconhecer os efeitos dos mais de 350 anos de escravidão e a existência de uma identidade negra no país!147
Desse modo, é apresentada uma outra versão da realidade em que o estatuto seria mais uma forma de contenção dos direitos sociais da população negra. Isso não é de surpreender, já que nos termos de Ana Maria Gonçalves: “Há racismo e luta anti-racismo na direita e na esquerda. Não é bandeira de ninguém, embora ainda sejam tão poucos os dispostos a carregá-la. [...] Não é bandeira de ninguém e é de todo mundo, e tenho esperança de que um dia seremos muitos a carregá-la.”. Nesse sentido, Belchior concebe esse Estatuto como uma amostra da “hipócrita democracia racial brasileira” que mobilizaria diferentes frentes partidárias.
145 Professor de história graduado pela PUC/SP, Douglas belchior é ativista político, atualmente é colunista da Carta Capital sobre os temas educação, diversidade e direitos humanos. Fundador e professor da Uneafro-Brasil (rede formativa de jovens e adultos em temas transversais como antirracismo e questões de gênero, bem como cursos para exames vestibulares e concursos públicos). Cf. mais informações em: <http://negrobelchior.cartacapital.com.br/sobredouglasbelchior/> e em: <http://uneafrobrasil.org/portfolio/conheca-nossa-historia/>.
146 Cf. em: < https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2010/06/ativista-critica-alteracoes-no-
estatuto-da-igualdade-racial>.
147 Disponível em:< https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2010/06/ativista-critica-alteracoes-
Quando antecede um elemento cuja função é designativa, “hipócrita”, transformando-o em um modificador de outro designativo, “democracia”, o ativista e historiador Belchior modifica a direção argumentativa, bifurcando os sentidos incompatíveis “verdade/falsidade”. A partir disso, forma-se o par dissociativo:
Ilustração 11 – Esquema H. Dissociação nocional democracia “verdadeira”/democracia “falsa”
Fonte: Machado (2019).
Cujos valores “verdade” e “falsidade”, aparecem entre aspas para demarcar a posição do locutor. Como acontece de modo amplo com outros valores, eles estão atrelados às condições de produção do discurso, principalmente ao lugar ocupado pelo enunciador, neste caso, demarcando a voz de um ativista, militante do movimento negro. O par dissociativo, nesse caso, volta-se para questionar tanto a própria natureza do Estatuto quanto os movimentos político- partidários que o construíram, posicionando-se contra o equívoco que a ideia de democracia unívoca, transparente e patente representa diante de uma ação que proclama a obtenção da “igualdade racial”.
O sentido de “falsidade” dirigido ao Estatuto já sancionado está mais no fato das discussões e promessas não cumpridas, para Belchior deliberadamente ocultadas no texto final. Para conferir força argumentativa, ele lista as exclusões efetuadas:
a) “excluiu as Cotas para negros nas universidades, nos partidos e nos serviços públicos”; b) “excluiu a garantia do direito a titulação das terras quilombolas”;
c) “excluiu a defesa e o direito à liberdade de prática das religiões de matriz africanas” e d) “[excluiu, por não fazer a] referência à necessidade de atenção do Estado ao genocídio
cometido pelas polícias que vitimam a juventude negra”.
Apoiando-se no reforço da repetição para salientar o alijamento da população negra. É utilizada uma figura argumentativa, um elemento tropológico com força argumentativa: a anáfora. A anáfora, do grego anaphorá – aná (repetição) + phora [do verbo phoréo] (“levar”, “transportar”) é uma figura de repetição de um elemento no início da frase com objetivo de realce. Não se procede, portanto, a uma mera repetição, mas a uma progressão de ideias que formam o fluxo
Democracia “verdadeira” _____________________________
interpretativo em uma escala de intensificação, cujo quadro interpretativo a ser formado vai das partes ao todo.
Com cada nível da lista, Negro Belchior, analisa, no sentido de dividir para facilitar o exame, os campos onde a discriminação ocorre: a) nos locais físicos ou sociais onde as exclusões se concretizam, b) no campo das garantias dos direitos de propriedade de terras c) no campo das garantias dos direitos individuais, e d) no campo da violência institucional contra o povo negro jovem. Essa fragmentação permite que se reorganizem os elementos simbólicos acerca do Estatuto da Igualdade Racial: construindo, por partes, uma totalidade nova, conforme visão do colunista e dos lugares sociais que ele atualiza. Ressalta-se, com isso, um ponto de vista acerca dos desenvolvimentos do Estatuto que se respaldam no topos argumentativo de pessoa, por revelar que os valores de base humanitária foram secundarizados pela lei.
O articulista refere o corte que senador Demóstenes Torres (então DEM/GO), no papel de relator da CCJ em 2010148, fez no texto legal, ao omitir as expressões “derivadas da escravidão” e “fortalecer a identidade negra” sob a justificativa de que o Estatuto assim ficaria livre do equívoco à menção do conceito de raça, ancorando-se somente na base científica. Com esse mesmo argumento, ele retirou a questão das cotas raciais do texto legal tanto para ingresso nas IES públicas, quanto no serviço público e no que respeita à representação negra e indígena nos partidos políticos. Do mesmo modo, excluiu do texto final a atenção às especificidades da saúde da população negra, julgando-as incondizentes.149
O relator da CCJ arremata seu ponto de vista dizendo que: “o que existe é uma identidade brasileira miscigenada na qual os valores nacionais são vivenciados por negros e brancos”, chamando a atenção para o presente, valorizando o futuro e retirando o passado de foco: “sem esquecer dos erros cometidos, olha para o futuro, vislumbrando horizontes melhores para todos”. Evoca, nesse momento, o lugar argumentativo do existente quando associa o aspecto concreto e factual ao tempo presente, à possibilidade de permanência futura disso, reprimindo o passado.
148 Conforme matéria do jornal Estado de São Paulo de 16 de junho de 2010, da jornalista Rosa Costa, intitulada Senado tenta aprovar hoje Estatuto da Igualdade Racial. Disponível em:< https://brasil.estadao.com.br/blogs/arquivo/wp-content/uploads/sites/75/2012/04/cotas16_06_10.jpg>. Acesso em:18 de jul. de 2018.
149 Conforme matéria do jornal Estado de São Paulo de 17 de junho de 2010, da jornalista Rosa Costa, intitulada Passa Estatuto da Igualdade Racial. Disponível em: <https://brasil.estadao.com.br/blogs/arquivo/wp- content/uploads/sites/75/2012/04/cotas_17_06_10.jpg>. Acesso em:18 de jul. de 2018.
Sendo assim, essa elipse intencionalmente deixada no texto legal, para Belchior, é representativa das omissões sociais que são recorrentes na história da atuação legislativa no Brasil, já que: “Mais uma vez, os senhores determinaram a regra, a lei e os limites da existência e da sobrevivência dos negros no Brasil.”. O poder decisório estando nas mãos de uma elite, de “senhores”, determinados pelo antecedente “os” que se opõe a uma classe de “servos” ou de “não senhores” a quem se verticalizam as deliberações:
O dia 16 de junho de 2010 entra para a história, cinco séculos após a chegada dos primeiros africanos escravizados nestas terras e 122 anos após o fim da escravidão. Encerra-se mais um triste capítulo da luta entre senhores brancos racistas versus escravizados negros e pobres. Desta vez, nas salas acarpetadas do Senado Federal, em Brasília.
Nos espaços privilegiados de tomada de decisão, “nas salas acarpetadas”, cujo luxo distingue os que nela são autorizados a estar, são atualizadas as lutas históricas, discursivas em um gesto de manutenção da centralização do poder de “senhores brancos racistas” sobre “escravizados negros e pobres”. O colunista resume o processo do Estatuto desde as primeiras provocações do movimento negro, pós CF/88, até sua promulgação em lei da seguinte forma: “[...]nesses difíceis anos de debate e enfrentamento aos que resistiam à sua aprovação, a proposta original sofreu muitas alterações que esvaziaram a possibilidade de eficácia e o sentido reparatório.”. Transformando-se em uma lei não coercitiva, já que não previa nem obrigava ações promotoras da paridade social efetiva.
Ali Kamel (2006, p. 97), coerente com a visão de um Brasil majoritariamente antirracista: a democracia racial como um ideal premente, no momento em que discute a implantação do Estatuto da Igualdade Racial, o coloca na relação de projetos de lei impróprios porque